Forças pró-Irã e iraquianas também entram na cidade de Sinjar

Com informações de Kurdistan24.net, Sputniknews.com, Pri.orgHurriyetDailyNews.com, Aina.orgAnfNews.com, Rudaw.net e The Guardian,

Após debandada do PUK e KDP da cidade de Kirkuk ontem, que resultou na captura da província por tropas iraquianas e pelas Hashd al-Shaabi (Forças de Mobilização Popular – FMP, um movimento armado alinhado com o Irã) e em uma crítica generalizada contra os partidos curdos do Iraque, hoje foi a vez da cidade de Sinjar.

Hashd al-Shaabi em operação para entrar em Sinjar

As FMP (Hashd al-Shaabi) e forças iraquianas estão numa ofensiva contra a cidade nessa manhã de 17 de outubro, e não enfrentaram resistência contundente por parte dos Peshmerga liderados pelo Partido Democrático do Curdistão – KDP, liderado por Massoud Barzani. Informações dão conta que guerrilhas HPG do PKK estão presentes na cidade para defendê-la, mas não se sabe se a resistência à tomada da cidade logrará sucesso. O que se tem como confirmado é que em grande parte da cidade e das cercanias da região há a presença de forças YBS e YJE, as respectivas unidades de proteção de Sinjar e de proteção feminina.

Dada essa segunda evacuação das forças Peshmerga em dois dias, as críticas aos maiores partidos curdos do Iraque se intensificaram na manhã de hoje.

Sinjar: história recente de heroísmo, mas também de traição

Habitada majoritariamente por yazidis, uma comunidade étnico-religiosa curda que pratica a religião iazidismo, a cidade foi assaltada em 2014 pelo ISIS, que promoveu um verdadeiro massacre contra o povo Yazidi. Milhares de pessoas foram torturadas, mortas, mulheres feitas de escravas sexuais e e locais religiosos foram destruídos pelos jihadistas.

Cidade de Sinjar: cidade é de maioria Yazidi

Essa captura foi um processo ainda mais delicado porque as forças Peshmerga que estavam instaladas na cidade se retiraram do local, deixando a população abandonada à sorte do Estado Islâmico, o que foi visto como um ato de traição por parte das forças de Barzani.

Já em agosto de 2014, guerrilhas do PKK e as forças YPG/YPJ, do PYD, capturaram o Monte Sinjar e conseguiram consolidar um corredor de fuga para a população local, dando início à recaptura da cidade por parte dos curdos e curdas.

Com essa operação bem-sucedida, foram criadas as Unidades de Resistência de Sinjar (Yekîneyên Berxwedana Şengalê; YBŞ) e as Unidades das Mulheres de Êzidxan (Yekinêyen Jinên Êzidxan ou YJÊ), essa última uma milícia militar feminina, que não só defenderam a cidade, como hoje estão nas operações curdas em Raqqa e Deir EzZor.

Após a recaptura, com forças Peshmergas já instaladas na cidade novamente, alguns conflitos entre elas e forças do PKK e PYD foram registrados.

Situação desfavorável para os EUA

Fato é que essa provável tomada também da cidade de Sinjar por parte de forças pró-Irã não é uma boa notícia para os EUA. Não só porque foram registradas fotos de soldados dessas forças e inclusive soldados iraquianos (aliados dos EUA) pisando em bandeiras estadunidenses, alemãs e curdas, mas porque isso enfraquece a influência estadunidense na região, ao passo em que fortalece a iraniana.

Embora Trump ainda tenha Barzani e Masum como aliados, e mesmo com sinalizações de que Barzani provavelmente não está disposto a conflitos mais duros com Bagdá, a crescente presença de Teerã no Iraque definitivamente não é boa coisa para os seus interesses. Soma-se a isso o fato de Teerã ter logrado êxito em suas intervenções na guerra da Síria, seja com bombardeios precisos a alvos estratégicos do ISIS, seja por meio de treinamento, suporte e orientação militar ao Hezbollah na defesa de Assad.

Em meio a esse conflito Iraque-Curdistão, Washington resume-se à função de um ente moderador, solicitando que ambos os lados “parem as provocações”.

Conflito de representatividade entre os maiores partidos curdos

Essas situações no Iraque expõe uma fissura política entre os maiores partidos curdos. Mesmo que rivais, PUK e KDP se assemelham por manterem posturas mais moderadas e alinhadas com outros países que via de regra implementam políticas anticurdas, como a Turquia e o Irã, além de não terem uma orientação declaradamente anticapitalista e revolucionária.

De outro lado, PKK e PYD, partidos orientados pela ideologia Confederalista Democrática de extrema-esquerda de Abdullah Ochalan, presentes sobretudo na Turquia e Síria, adotam um tom revolucionário e muito menos conciliatório com países e forças políticas antagônicas aos interesses curdos.

Idealizador do Confederalismo Democrático, Abdullah Ocalan é o líder do PKK e referência para o PYD
Massoud Barzani é o presidente do KDP e do Governdo do Curdistão Iraquiano (Reuters)

Como relatado nessa e na outra postagem aqui no El Coyote, críticas severas ao PUK e KDP dão o tom a um sem número de postagens no Twitter, algumas reivindicando, inclusive, que Barzani saia voluntariamente do cargo de presidente do GRC (Governo do Curdistão Iraquiano). Muitas dessas postagens também traçam um paralelo entre os partidos iraquianos e os turco e sírio, exaltando esses últimos como os únicos interessados, de fato, na questão curda e em uma revolução que traria liberdade e igualdade para toda a região.

O PYD, por meio das Forças Democráticas da Síria (SDF), frente ampla militar coordenada por seus exércitos YPG e YPJ, estão desde 2014 em guerra contra o ISIS, promovendo a revolução social confederalista democrática nos territórios libertados e a poucas horas de finalmente libertarem Raqqa das mãos dos jihadistas. Tais vitórias e atos heroicos dão sustentação para a defesa do partido em todo esse turbilhão político curdo no médio oriente.

Bandeira do YPG erguida no hospital de Raqqa penultimo abrigo do ISIS na cidade
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P.A Gatti

Interessado no Oriente Médio e na questão curda em especial, posto eventualmente no Coyote sobre esses e outros assuntos políticos.