Hitler em Brasília: Os evangélicos norte-americanos e a teoria política nazista por trás daquele que aguarda para ser o próximo presidente do Brasil

 

Misture uma geopolítica fascista, o ódio de Pat Robertson aos LGBT, o nacionalismo de Bannon e os seguidores de Putin e você obtém Jair Bolsonaro, saudosista da ditadura militar apoiada pelos EUA que torturou e matou milhares de pessoas de esquerda – e ele está prestes a tomar o poder

 

Alexander Reid Ross 

 

Somos a maioria. Somos o Brasil de verdade. Juntos, construiremos uma nova nação. Estes criminosos vermelhos [de esquerda] serão banidos de nossa pátria. Ou eles saem do país, ou vão para a cadeia. Será uma limpeza como nunca antes vista na história do Brasil. Jair Bolsonaro, 21 de outubro de 2018

Inacreditável: um candidato à presidência pede que as pessoas se conformem com o que ele pensa ou paguem o preço: prisão ou exílio. Isso lembra outros tempos. Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 23 de outubro de 2018

 

Quando acabou, em 1985, a ditadura militar brasileira era o último resquício de uma ideologia política cheia de influências fascistas, que anteriormente havia tido um grande momento. O recente sucesso do candidato de extrema-direita no Brasil, Jair Bolsonaro, favorito para a vitória no segundo turno em 28 de outubro, indica que o maior país da América do Sul está prestes a entrar no retrocesso global, retornando àquelas  décadas terríveis.

É também sinal do retorno de uma compreensão repressora e nacionalista do estado, e suas políticas externas, que alcançou máxima adesão na Alemanha nazista antes da guerra, espalhou-se para os Estados Unidos, e foi sucessivamente promovida por administrações do governo americano como necessidade estratégica na América do Sul.

Bolsonaro inicialmente ganhou notoriedade como firme defensor do legado da ditadura militar brasileira, que chegou ao poder após o golpe de 1964, ele inclui sua plataforma anti-LGBT, racista e misógina como parte do seu desprezo geral pela democracia. Ele chegou a defender a esterilização dos pobres para acabar com o “caos”.

 

Menos de 15 anos após o fim da ditadura apoiada pelos EUA, que torturou e matou milhares de apoiadores da esquerda, o então deputado declarou em entrevista pública que, se um dia fosse eleito presidente, “iniciaria o golpe” logo no primeiro dia do seu mandato.

 

Em 2015, Bolsonaro atraiu mais polêmica após posar para uma foto com um simpatizante do nazismo, vestido de Hitler que havia sido convidado por seu filho, Carlos, para falar numa sessão na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Quando seu outro filho, Eduardo, publicou no Twitter uma foto sua posando ao lado do  onipresente Steve Bannon em agosto, ele declarou que ambos compartilhavam a mesma “visão de mundo”, e as pessoas começaram a se perguntar sobre até que ponto os ressurgimentos da extrema-direita internacional estariam interligados.

 

O filho de Bolsonaro descreveu Bannon como “apoiador entusiasmado da campanha de seu pai, e estaremos certamente em contato para unir forças, especialmente contra o marxismo cultural”. Estranhamente, e de maneira fraca, seu pai viria a negar a ligação de Bannon com a campanha.

 

Mas, sua oposição implacável contra a esquerda não é o único combustível crítico de sua visão de mundo. Há outra vertente essencial, da qual Bannon é um dos principais articuladores, que é o papel da geopolítica e seu uso em movimentos de extrema-direita no decorrer do século 20.

Embora a maioria das pessoas não questione sobre o termo “geopolítica”, talvez poucas ideias tenham maior valor explicativo, ou impacto histórico, no clima político da região. Para entender a fundo como as guerras culturais se dão no Brasil de hoje, talvez seja importante ter uma perspectiva do que é a geopolítica em si.

O termo “geopolítica” foi criado pelo geógrafo sueco Rudolf Kjellén em 1899. A intenção era refletir o entendimento de geografia política desenvolvida por seu colega alemão, Friedrich Ratzel, que aderia ao nacionalismo conservador de sua época. Veterano da guerra franco-prussiana, Ratzel entendia o estado como um coletivo orgânico de cultura nacional e civilização, que se espalhava naturalmente — como um império e como expressão de uma grandeza interna — em territórios maiores, geralmente nas regiões fronteiriças e para além delas.

 

 

Esta ideia dos “Grosßraum” (espaços maiores) influenciou Karl Haushofer, que era filho de um amigo. Ele entrou para o exército e foi alocado para um cargo de observação no Japão. Após ter lutado durante a primeira guerra mundial, Haushofer passou a se identificar com a direita populista, orientou o nazista Rudolf Hess e foi tutor de Hess e do próprio Adolf Hitler, falando sobre geopolítica durante a época em que estavam presos em Landsberg, após a tentativa frustrada de golpe de 1923, a Beerhall Putsch.

 

Haushofer apresentou os livros de Ratzel para Hitler, e à geopolítica de modo geral, o que veio a influenciar o desejo dos nazistas pela conquista do “Lebensraum” (“Espaço vital”) ao leste. Além disso, ajudou a criar o pacto dos nazistas com o Japão, e o Acordo de Munique, que facilitou a expansão alemã na região dos sudetas. Ele adorou quando os nazistas descartaram o acordo de não beligerância com a Rússia, produzindo o espaço eurasiano que ele acreditava que poderia derrotar a hegemonia da América do Norte.

 

Inebriado pelo seu próprio sucesso, Haushofer assinava como “inventor da ‘Lebensraum'”, apontando Hitler e Hess como herdeiros de Valhalla, e conclamando o reassentamento dos alemães do Báltico. No entanto, seus planos caíram por terra quando Hitler invadiu a União Soviética. Ao final da guerra, com a ruína do seu legado, Haushofer cometeu suicídio com sua esposa.

Chamada de pseudociência por geógrafos de renome acadêmico como Richard Hartshorne e Isaiah Bowman, a geopolítica foi deixada de lado após o fim da guerra, mas não morreu completamente.

Enquanto criminosos de guerra nazistas escapavam e encontravam abrigo no Brasil, Bolívia e na Argentina, as instituições militares sul americanas abertamente acatavam as ideias de Ratzel e Haushofer, a baseavam nelas suas políticas mais opressoras.

Golbery de Couto e Silva, o estrategista por detrás do golpe militar de 1964 no Brasil, delineou as ideias aplicadas através de sua temida Doutrina de Segurança Nacional em seu livro de 1966, intitulado “Geopolítica do Brasil”. Nesta época, Augusto Pinochet era professor de geopolítica na Academia de Guerra Chilena, e estudou atentamente o texto de Golbery, aplicando seus ensinamentos em seu governo, após o golpe chileno de 1973 no Chile, também apoiado pelos Estados Unidos.

A geopolítica ganhou algum ímpeto nos Estados Unidos na década de 60, através das estratégias da guerra fria de Saul Cohen, mas foi Henry Kissinger quem trouxe o termo de volta à moda, com sua obra de 1979, “The White House Years“.

Portanto, não é de se surpreender que as mesmas pessoas do departamento de estado americano que foram entusiastas ferrenhas das ditaduras na América Latina, como parte de uma estratégia aplicada por todo o continente com o objetivo de aplacar levantes e movimentos de direita conhecida como Operação Condor, ajudariam a trazer de volta a geopolítica.

 

No ano seguinte, o maior acadêmico estadunidense sobre políticas latino americanas, Lewis Tambs, ajudou a redigir o documento de Santa Fé, uma estratégia dos anos 80 destinada à administração de Reagan, que explicitamente defendia posições geopolíticas.

A “guerra contra as drogas” e o envolvimento em guerras civis sanguinárias — na Guatemala, El Salvador e Nicarágua — seriam consequências disso, com o apoio total de evangélicos como Pat Robertson, cujo Centro Americano pela Lei e Justiça ajudou a espalhar a palavra da extrema-direita no Brasil, após o fim da ditadura.

Mais tarde, Tambs seria autor do prefácio de um dos textos de Haushofer traduzido para o inglês, uma edição de 1939 de um livro sobre a região do Pacífico Asiático, que exaltava o partido nazista.

 

Logo em seguida, o Instituto Internacional de Geopolítica seria aberto na França, publicando um jornal em inglês que tinha o apoio de nomes como Zbigniew Brzezinski, William F. Buckley Jr e Samuel Huntington. A geopolítica estava de volta, e embora seus defensores convergissem em debates entre “realistas” e “idealistas”, em meio ao crescimento do movimento neoconservador, a defesa do pensamento geopolítico proporcionou um ânimo valioso para a reabilitação das forças mais radicais de Haushofer e Ratzel.

O retorno da geopolítica, nas décadas de 80 e 90, acompanhado da dissolução da União Soviética, tornou-se parte da narrativa triunfante da supremacia norte-americana, mas seus defensores raramente examinavam suas raízes fincadas no conservadorismo radical.

 

Embora a geopolítica renascente tivesse espaço para a geoestratégia e entendimentos mais liberais de relações internacionais, aqueles que a proclamavam em sua forma original vinham, em grande parte, da chamada Nouvelle Droite — uma rede de ideólogos de extrema-direita comprometidos em reproduzir condições que permitissem o ressurgimento do fascismo na Europa.

Foi nestes círculos que o fascista russo Alexander Dugin aprendeu sobre geopolítica, quando residia na Europa ocidental, injetando seus preceitos fundamentais no ambiente político caótico da Rússia, através do seu texto “Fundamentos da geopolítica”, de 1997. Nesta obra estranha, que contém mitos ocultistas sobre uma raça superior ariana, Dugin concluiu que a geopolítica apontava para seu estilo próprio de fascismo.

 

Contentes em ignorar sua essência fascista, muitos espalharam a ideologia de Dugin, com o auxílio de diversas conexões, desde o pessoal do exército russo, até o “oligarca ortodoxo” Konstantin Malofeev, um dos maiores apoiadores da rede cristã internacional de extrema-direita chamada de Congresso Mundial das Famílias.

 

E, embora o famoso discurso de Steve Bannon, de 2014, para fanáticos de extrema-direita, durante um evento do Congresso Mundial de Famílias no Vaticano, não mencionasse Dugin pelo nome, ele expôs sua visão de mundo fascista – uma fixação em geopolítica que Bannon estudou de forma “intensiva.” No ano passado, uma revista apoiada pelo Vaticano profeticamente acusava Bannon de “geopolítica apocalíptica.”

No Brasil, Bolsonaro — que é católico, mas frequenta a Igreja Batista — fez um esforço populista entre diversas denominações, e recebe amplo apoio do movimento evangélico brasileiro, que é urbano e cresce a cada dia, incluindo reforços associados ao Congresso Mundial das Famílias.

 

Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão pela Assembleia de Deus, que tem injetado dinheiro em políticas de extrema-direita, tanto no Brasil como no resto do mundo. As Assembleias de Deus são grandes impulsionadoras do movimento evangélico dos Estados Unidos, incluindo algumas das parcerias mais importantes do Congresso Mundial das Famílias.

A Assembleia de Deus, apoiador evangélico mais rico de Bolsonaro, — o que inclui seu chefe e pastor pentecostal televisivo Silas Malafaia, estabeleceu uma parceria com os aliados do Congresso Mundial das Famílias, o Centro pela Lei e Justiça financiado por Pat Robertson e sua filial brasileira, que juntos promovem um movimento transnacional contra direitos LGBT.

 

Ao ajustar a política de extrema-direita tradicional às características da classe média brasileira, Bolsonaro tornou-se lutador das guerras culturais mundiais, buscando implementar uma lógica patriarcal que ganhou o apoio de publicações conservadoras americanas como Wall Street Journal (“Brazilian Swamp Drainer“), em um país que, ironicamente, pelos últimos 15 anos, ajudou a levantar um amplo movimento esquerdista, com laços fortes com a Rússia.

A candidatura de Bolsonaro, e provável ascensão à presidência, é um sinal de uma união geopolítica crescente de forças de extrema-direita, formando o “backlash” contra o liberalismo e a esquerda, além da reabilitação e glamorização do poder militar e do autoritarismo. Isso é um sintoma de uma crise maior da democracia, que produz — e é produto de — uma transformação sistêmica das relações internacionais.

 

Alexander Reid Ross é professor de Geografia na Universidade do Estado de Portland. Ele é autor do livro Against the Fascist Creep (AK Press, 2017). Twitter: @areidross

 

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....