Islã Politico – Uma História Evolutiva

Por

Nadeem F. Paracha

O termo “Islã Politico” é uma confecção acadêmica. Ele funciona como um guarda chuva analítico sob o qual analistas políticos reúnem’ várias tendencias politicas que dizem usar as escrituras e tradições históricas muçulmanas para alcançar objetivos políticos modernos.

O termo provavelmente surgiu nos anos 1940 na Europa, para definir movimentos anticoloniais que se descreviam sob orientação islâmica. É uma construção do seculo XX e acredita-se que sua primeira expressão proeminente é a Irmandade Muçulmana do Egito, formada em 1927.

Embora como uma tendencia politica, o Islã Politico cobre uma ampla variedade de movimentos envolvendo seitas muçulmanas, sub-seitas, nacionalidades, retoricas e narrativas tanto de esquerda quanto de direita; são os pontos comuns nestes diversos movimentos que fazem analistas estudá-los como uma única entidade ideológica.

Há uma ala esquerda e uma ala direita no Islã Politico.

Até o fim dos anos 1960, movimentos associados com os aspectos mais à direita do Islã Politico eram em geral atividades intelectuais com influencia politica limitada.

Eram vistos com suspeita, até pelos movimentos e grupos que adotavam os aspectos principais do Islã Politico e os fundiam com várias ideologias de esquerda.

Assim, também é possível sugerir que durante a época da Guerra Fria (1949-90), a luta teológica e politica central na maioria dos países muçulmanos não era exatamente entre “islamistas” e secularistas, ou entre grupos político-religiosos e comunistas: o conflito principal era entre as expressões mais à direita do Islã Politico e suas versões mais à esquerda.

A ala direita produziu tendencias como o “fundamentalismo islâmico”, “islamismo” e “neo-fundamentalismo”, enquanto a esquerda apareceu com o “socialismo islâmico”, “socialismo Ba’ath” e o “nacionalismo árabe”/ “socialismo árabe”. Equilibrando-se no centro estava o Nacionalismo Muçulmano.

Durante a Guerra Fria, as expressões mais à direita do Islã Politico foram apoiadas pelos poderes ocidentais e pelas ricas monarquias petroleiras árabes, muito devido ao fato de que o campo mais à esquerda do Islã Politico ,em grande medida, se posicionou no que era chamado (durante a Guerra Fria) de “campo soviético”.

A direita era severamente reprimida pelos regimes muçulmanos que operavam pelo campo na margem esquerda do Islã Politico, mas também é verdade que a ala direita do Islã Politico em grande parte não conseguiu atrair qualquer apoio massivo significativo.

Nasser

Contudo, as coisa as esse respeito começaram a mudar a partir do inicio dos anos 1970. As expressões da direita no Islã Politico experimentaram um impulso, especialmente após a morte do popular líder egípcio e ‘socialista árabe’, Gamal Abdel Nasser em 1970.

Mais tarde, o financiamento da ‘Jihad’ anti soviética no Afeganistão pelos EUA, Arabia Saudita e Paquistão nos anos 1980, também se tornou um catalisador que desencadeou o deslocamento da influencia politica e social em vários países muçulmanos do Islã Politico mais à esquerda para suas expressões de direita.

A ‘jihad afegã’ também adicionou uma dimensão mais militante na direita do Islã Politico. Este atingiu seu pico no fim dos anos 1980 depois que o conflito afegão resultou em um impasse e as forças soviéticas tiveram que se retirar do Afeganistão.

No inicio dos anos 1990, encorajadas pelo seu sucesso no Afeganistão, as expressões militantes do Islã Politico de direita começaram a se retirar da órbita de seus antigos apoiadores (EUA, Arabia saudita, Paquistão) e tentaram disparar “revoluções islâmicas” em vários países muçulmanos.

Seus métodos de criar caos através de explosões (para desencadear uma rebelião) antagonizaram os regimes que anteriormente deram apoio, mas que agora se encontravam sob ataque.

As revoluções falharam em se materializar, mas as explosões continuaram. Frustrados, os militantes se encontraram a beira de tomar as ações niilistas que causaram as mortes de milhares de cidadãos e membros das forças de segurança em países como Paquistão, Indonésia, Argélia, Iêmen, Iraque, Nigéria, Somália, Síria e Líbano.

Enquanto isso, as expressões mais clássicas do Islã Politico de direita tentaram corrigir o dano infligido pelos seus primos mais extremistas se envolvendo no processo democrático em países como Paquistão, Egito, Tunísia, Indonésia, Sudão e Turquia.

Mas na maioria das ocasiões as expressões “moderadas” e democráticas do Islã Politico se provaram mais bem sucedidas no campo social, porém não tiveram a perspicácia necessária para conceber politicas econômicas coerentes ou agir decisivamente contra seus irmãos mais violentos.

Assim, poderíamos nos perguntar, o Islã Politico, que surgiu nos anos 1930-40 e que teve seu pico nos anos 1980, é um fenômeno em refluxo?

A resposta pode ser encontrada nas trajetórias históricas de a alguns resultados mais proeminentes do Islã Politico.

O PRIMEIRO TRIANGULO

As manifestações mais antigas do Islã Politico são os assim chamados Fundamentalismo Islâmico, Pan-islamismo e Nacionalismo Muçulmano.

“Fundamentalismo islâmico” é um termo vago. É largamente associado com várias tendencias radicais e militantes encontradas no mundo muçulmano, os críticos dessa definição afirmam que isso apenas significa a adoção dos fundamentos ritualísticos do Islã.

Assim, embora normalmente atribuído às crenças dos movimentos extremistas da atualidade, Fundamentalismo Islâmico é basicamente uma crença firme nas reflexões teológicas dos juristas islâmicos clássicos e nas tradições.

As “raízes politicas” dessa tendencia, entretanto, jazem no seculo XII, quando após trezentos anos de debate aberto no mundo islâmico entre tradicionalistas e racionalistas (Mutazilitas), pensadores muçulmanos influentes como o Imã Ghazali insistiram que uma síntese perfeita (entre os dois) havia sido alcançada e que a filosofia social e espiritual do Islã tinha alcançado a plenitude.

O Fundamentalismo Islâmico está enraizado no triunfo intelectual dos tradicionalistas no seculo XII.

Os “fundamentalistas” surgiram, geralmente, na forma de estudiosos (ulemás) e clérigos(maulvis e Imãs) que trabalharam como conselheiros dos reis muçulmanos, ou em mesquitas e madraças.

A verdade é que, durante a desintegração dos impérios muçulmanos a partir do seculo XIX, os vários movimentos islâmicos reformistas que emergiram em reação ao colapso criticaram a performance dos fundamentalistas islâmicos, culpando-os por ficarem próximos demais a “reis decadentes” cuja “negligencia ao Islã” fez o poder politico muçulmano ruir.

Esse movimento estava mais interessado em corrigir “aberrações culturais e sociais” em uma sociedade muçulmana, e para isso usou a mesquita e o evangelismo.

Mas o Fundamentalismo Islâmico continua preso a uma compreensão da fé e dos textos desenvolvida por antigos estudiosos e juristas islâmicos seculos atrás.

Apesar de barulhento em suas exigências retóricas para a imposição de “leis islâmicas” (sharia), tem pouca ou nenhuma agenda politica. E nunca teve.

Continua largamente associado a ulemás apolíticos e conservadores, clérigos e evangelistas islâmicos – ainda que às vezes estes indivíduos tenham sido acusados de sancionar ação militante para “reforçar os fundamentos do Islã” em uma sociedade.

O Nacionalismo Muçulmano talvez tenha sido a maior manifestação moderna (junto com o Pan-islamismo) do Islã Politico. Ambos emergiram no seculo XIX como criticas ao fundamentalismo islâmico tradicional, o qual acusavam de ser apolítico, congelado no tempo e antiprogressista.

Ambos eram produtos reativos da ascensão do colonialismo europeu. O Pan-islamismo via os muçulmanos pelo mundo como uma única entidade (ummah) que deveria ser unificada em um único “Estado Islâmico” (um califado global).

Os pensadores do Pan-Islamismo como Jalahudin Afghani(1839-1897) foram talvez os primeiros a mencionar a criação de uma “Estado Islâmico” (embora universal). Era um conceito selecionado da ideia ocidental de Estado e adornado com a teoria de que os arranjos governamentais em Meca durante os século VII durante a ascensão e triunfo do Islã eram ‘estados islâmicos” orgânicos.

Apesar de o Pan-Islamismo tenha evitado e abominado a ideia do nacionalismo definido por fronteiras politicas, ele ainda conseguiu inspirar o Nacionalismo Muçulmano.

O Nacionalismo Muçulmano emergiu na Índia logo após o completo colapso do Império Mogol e da vitoria dos colonialistas britânicos no motim de 1857 (que foi desencadeado por divisões de insubordinados muçulmanos e hindus e pelos remanescentes do Império Mogol).

O Pan-Islamismo era, na realidade, critico ao Nacionalismo Muçulmano que estava sendo moldado por homens como Sir Syed Ahmed Khan e Sued Ameer Ali. Afghani, por exemplo, acusou os nacionalistas muçulmanos (na Índia) de tentarem definir os muçulmanos da Índia como um grupo definido por sua localização geográfica (e dessa forma pelas suas limitações)

Mas assim como o Pan-islamismo adotou as ideias ocidentais de Estado, o Nacionalismo Muçulmano adotou outra ideia europeia, a de nacionalismo, definindo os muçulmanos da Índia como uma nação separada de pessoas que eram diferentes dos hindus em sua maioria.

O Pan-islamismo e o Nacionalismo Muçulmano estiveram igualmente interessados em difundir modelos modernos (europeus) de educação entre muçulmanos, e em defender uma compreensão mais ‘racional’ das escrituras do Islã. Naquele contexto, as duas ideias eram progressistas.

Mas o Nacionalismo Muçulmano permaneceu, em grande parte, um fenômeno urbano e reformista associado à burguesia muçulmana da Índia. Foi elaborado e reforçado pelo trabalho acadêmico do filoso e poeta Muhammad Iqbal por volta dos anos 1930, e se tornou viga central da Liga Muçulmana de toda Índia

O Nacionalismo Muçulmano tornou-se assim o principal ator do movimento que criou o Paquistão (em 1947), porque defendeu a formação de um país separado para a “nação muçulmana” da Índia.

O novo país deveria ser baseado nas vigas centrais do Nacionalismo Muçulmano como, por exemplo, modificando os muçulmanos do sul da Ásia para que se tornassem uma nação construtiva e distinta, manifestando as aspirações politicas, militares , culturais e cientificas modernas ao associá-las aos impérios muçulmanos de outrora.

Nos anos 1930 e 1940, o Nacionalismo Muçulmano voltou a ser atacado, desta vez pelas expressões mais conservadoras do Pan-islamismo.

De fato, seriam essas expressões que evoluiriam pra se tornar o chamado Islamismo. Os primeiros arquitetos do Pan-Islamismo, com o prolifico estudioso islâmico Abul Ala Maududi, acusaram o Nacionalismo Muçulmano de ser uma “ideia ocidental” e também “secular” na sua orientação politica.

Ele também atacou (o Nacionalismo Muçulmano) por compartimentalizar os muçulmanos da Índia em uma entidade sul-asiática artificial, negando a universalidade do Islã.

No entanto, o processo de um compromisso entre o Nacionalismo Muçulmano e as “ideias univerais” do Islamismo começou quase imediatamente após a criação do Paquistão.

Por volta do meio dos anos 1970, a disposição do Nacionalismo Muçulmano tinha começado a mudar do centro em direção à direita. E na década de 1980, havia incorporado, em grande parte, as várias noções do Islamismo, transformando a ideia do Paquistão de ser um Estado Nacionalista em um Estado que se esforça para se tornar “o epicentro da Ummah”.

UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA

Como expressão, a palavra “Islamismo’’ apareceu primeiro no inicio dos anos 1970 (na França) apesar de já ter sido usado(ainda que raramente) pelos escritores europeus no seculo XIX.

No contexto politico moderno, o Islamismo veio para explicar uma série de movimentos islâmicos (pós-século XIX) que defendiam o Islã não apenas como uma religião de costumes e rituais, mas também como uma ideologia política distinta.

As raízes do Islamismo podem ser encontradas nos movimentos reformistas que surgiram no sul da Ásia e na Arábia no seculo XIX.

Incensados pelo desmoronamento gradual dos Impérios Mogol e Otomano, sugiram uma serie de movimentos reformistas , defendendo o retorno do “Verdadeiro Islã”, que se dizia isento de inovação e corrupção.

Alguns desses movimentos enfatizavam a aplicação da razão à religião, mas muitos deles também adicionaram a importância da “jihad” não apenas contra o colonialismo ocidental mas também contra o clero muçulmano tradicional, especialmente contra tendencias sufi, que os reformistas acreditavam ser “uma inovação negativa” e um anátema ao “Islã primordial”.

Mas depois do colapso do Império Otomano (1922), um grande numero de regimes muçulmanos (especialmente no Irã, Afeganistão e Turquia) adotaram vigorosamente os modelos econômicos, sociais e políticos ocidentais modernos, como o liberalismo e o nacionalismo (sem democracia).

Ibn Saud e Franklin Roosevelt

Contudo, não no que hoje é a Arábia Saudita.

Um dos primeiros grandes experimentos do Islamismo que realmente decolou ocorreu quando (no inicio do seculo XX) a família Al Saud conquistou uma vasta extensão de terreno com o apoio tácito dos britânicos (que tentavam minar o domínio otomano na região).

O chefe da familia Saud, Ibn Saud, era um seguidor fervoroso de Abd Al-wahhab – um reformista islâmico puritano do sec XVII. A família Saud logo decretou o primeiro “Estado Islâmico” do mundo, mas sob o controle da monarquia.

A adesão da família Saud à linha mais puritana da fé e da imposição de leis (retirada das ideias do jurista islâmico literalista do século VIII, Ibn Hanbal, e do teólogo islâmico do seculo XIV, Ibn Taymmiya), funcionou bem com o povo daquela região mas os laços crescentes com os britânicos e suas tendencias monárquicas fez muitos deles ficarem desconfortáveis. Era uma monarquia puritana.

Por outro lado, como os nacionalistas muçulmanos dominaram os movimentos de libertação anticolonial do seculo XX no sul da Ásia e no Oriente Médio, pensadores mais antigos do Islamismo desprezaram-nos e rotularam esses movimentos de “anti-islâmicos”.

Por exemplo, Maududi expandiu o conceito corânico de Tauheed (unicidade de Deus) sugerindo que também significava a unicidade (politica) da Ummah muçulmana que só poderia ser atingida por meio da “islamização da sociedade” e através de alcançar o poder do Estado para finalmente formular um “Estado Islâmico”.

Qutb, por outro lado, deu a entender que as sociedades muçulmanas do seculo XX estavam em um estado de Jahiliyya – um termo usado pelos estudiosos clássicos muçulmanos para definir a ignorância do povo da Arábia antes da chegada do Islã no seculo VII.

Qutb sugeriu que uma jihad nos países muçulmanos se fazia necessária para tomar o poder estatal e livrar os muçulmanos das “forças modernas da Jahilliya” (que para ele eram secularismo, marxismo, nacionalismo e “materialismo ocidental”).

É, entretanto, irônico que o Islamismo (durante a Guerra Fria) tenha sido largamente apoiado e financiado pelo Ocidente e pelas potencias petroleiras árabes para sustentar oposição contra regimes que estavam no “campo soviético” ou que eram vistos como prejudiciais aos interesses econômicos e geopolíticos ocidentais.

A exceção a essa regra foi o Islamismo associado aos xiitas no Irã. Embora a principal base para a revolução de 1979 no Irã tenha sido feita por pessoas de esquerda e constitucionalistas, as forças iranianas do Islamismo conduziram a revolução para se tornar islâmica. O Irã também continua a ser o único governo nitidamente promulgado islâmico -ainda que tenha sofrido de dificuldades econômicas, politicas e sociais permanentes.

O arranjo entre o Islamismo e seus apoiadores ocidentais e sauditas atingiu seu ápice nos anos 1980 curante a “jihad antissoviética” no Afeganistão.

Com a queda da União Soviética, e o fim do patrocínio e financiamento que os órgãos principais do Islamismo recebiam (do Ocidente), os movimentos ligados ao Islamismo começaram a se enfraquecer e se fragmentar. Consequentemente, o primo menos inclinado à intelectualidade(e mais brutal) do Islamismo, o Neo-fundamentalismo, logo começou a tomar sua agenda e seu espaço politico.

Forças ligadas ao Islamismo tentaram se recuperar após a Guerra Fria por meio do processo democrático, mas foram (no fim das contas) acusadas de serem defensores de Neo-fundamentalistas

violentos e de serem indiferentes quanto a “islamizar” a sociedade.

Onde quer que tenham conseguido chegar ao poder (por meio das eleições), eles tem se esforçado para dar inicio a reformas politicas e econômicas eficazes, principalmente devido ao fato de que eles acabam criando polarização e caos administrativo tentando direcionar soluções para assuntos não religiosos com certas alternativas e manobras mal disfarçadas de tom religioso.

A DESCIDA À LOUCURA

O Neo-fundamentalismo no Islã Politico é uma tendencia que mira politizar e radicalizar os aspectos sociais e culturais do Fundamentalismo Islâmico.

O termo foi popularizado pelo autor francês Oliver Roy, que sugeriu que o Neo-fundamentalismo surgiu durante a emergência do Talibã em 1996 (no Afeganistão e no Paquistão), e começou a ocupar o vácuo criado pelo enfraquecimento pós Guerra Fria do Islamismo.

Como o Fundamentalismo tradicional, o Neo-fundamentalismo também sustenta que não há lugar para razão no ato de compreender os textos religiosos que são (necessariamente) de compreensão literal.

Osama Bin Laden

Entretanto, diferente do Fundamentalismo Islâmico, o Neo-fundamentalismo busca impor leis, moral e piedade pela força e por meio de luta armada (e pela criação de um “Emirado Islâmico”). Além do Talibã, Roy também descreve organizações como a Al Qaeda e vários grupos militantes e sectarios modernos que emergiram na sua forma neo-fundamentalista (incluindo o recente surgimento do Estado Islâmico(ISIS)).

Enquanto os fundamentalistas islâmicos usavam táticas de evangelização concentradas para supostamente “limpar as sociedades muçulmanas das praticas não-islâmicas”, os neo-fundamentalistas usam coerção.

O Neo-fundamentalismo estreitou ainda mais sua visão de mundo para se tornar a tendencia claramente caótica que na ultima década exibiu demonstrações extremas de xenofobia religiosa e sectária, além da violência. Também é desprovido da rica tradição intelectual associada ao Islamismo, estabelecendo-se para a literatura polemica radical que defende a ação violenta e uma visão de mundo extremamente estreita e polêmica.

Alguns observadores definiram o Neo-fundamentalismo como um sintoma caótico e desesperado antecipando o colapso final e violento do Islã Politico.

Se for este o caso, não se sabe ao certo o que irá substitui-lo(nos países muçulmanos). E o que aconteceu com as tendencias de esquerda do Islã Politico? Elas ainda são relevantes?

O FLANCO ESQUERDO

Uma das tendencias mais fortes entre as tendencias de esquerda do Islã Politico era apelidada de Socialismo Islâmico. Esse termo foi usado pela primeira vez pelos pela comunidade muçulmana socialista em Kazan (Rússia) pouco antes da Revolução Comunista de 1917. Firmemente anticlerical, a comunidade apoiou as forças comunistas mas manteve sua identidade muçulmana.

O termo então se tornou popular entre parte dos nacionalistas muçulmanos de esquerda e de toda a liga muçulmana indiana.

O Socialismo Islâmico – uma ideologia que tentou equiparar os conceitos corânicos de igualdade e caridade com a economia socialista moderna e (consequentemente) engatilhar um renascimento cultural, intelectual e politico no mundo muçulmano- foi adotado como ‘Socialismo Árabe’ e Socialismo Ba’ath no Iraque, na Síria e no Egito; onde os lideres nacionalistas muçulmanos fundiram as noções islâmicas de igualdade e justiça com o Socialismo e o Nacionalismo Árabe.

Embora conhecido pelo seu uso da simbologia islâmica, o Socialismo Islâmico era anticlerical, socialmente liberal e ,principalmente, simpatizante das potencias comunistas – União Soviética e China.

Ele se tornou, eventualmente, a esquerda do Islã Politico. O popular líder egípcio, Gamal Abdel Nasser, se tornou o principal defensor e praticante; enquanto na Síria e no Iraque o conceito se tornou conhecido como ‘Socialismo Ba’ath’ (ba’ath em árabe significa renascimento).

Depois dos sucessos políticos do Socialismo Árabe e do Socialismo Ba’ath (nos anos 1950 e 1960), a ideia do Socialismo Islâmico também ganhou circulação no Paquistão, na Indonésia, no Sudão, na Somália, no Iêmen e na Líbia. A frente de libertação nacional que levou a Argélia à independência da França (1962) se descreveu como uma seguidora do Socialismo Islâmico, assim como o populista Partido do Povo do Paquistão.

A Líbia também começou a se definir como um Estado Socialista Islâmico depois que Muammar Kaddafi derrubou a monarquia líbia em um golpe em 1969. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat também se descrevia como sendo socialista islâmica e durante o mesmo período (fim dos anos 1960/inicio dos anos 1970) socialistas islâmicos também chegaram ao poder no Paquistão, Sudão e Somália.

Yitzhak Rabin, Bill Clinton e Yasser Arafat durante os Acordos de Paz de Oslo

No Irã, organizações militantes anti-xá que fundiram o simbolismo islâmico com ideias marxistas/socialistas também surgiram. Elas tomaram um papel ativo na Revolução Iraniana de 1979, mas foram banidas ou eliminadas pelo novo regime islâmico.

Socialistas islâmicos forma veementemente atacados e criticados pelas monarquias conservadoras muçulmanas, assim como pelas forças associadas com o Islamismo.

Eles acusavam o Socialismo Islâmico de ser um plano construído por “poderes ateus (União Soviética e China) e (de acordo com Maududi) seriam o “cavalo de troia usado pelas forças e ideias anti-islã para entrar nas sociedades e na politica islâmicas”.

O carisma ligado ao Socialismo Islâmico começou a murchar depois da morte de Nasser em 1970 quando a maioria dos países muçulmanos começou a se aproximar das conservadoras monarquias petroleiras árabes.

A crise internacional do de petróleo de 1973-74 viu as politicas econômicas dos regimes que professavam o Socialismo Islâmico sob grande pressão, virando desilusão entre as massas que começaram ser arrastadas em direção dos defensores do Islamismo.

A última grande expressão do Socialismo Islâmico foi a ‘Revolução Saur”(apoiada pelos soviéticos) no Afeganistão em 1978, liderada pelo Partido Democrático do Povo.

Por volta do fim dos anos 1970 o Socialismo Islâmico quase desapareceu, embora hoje em dia alguns partidos de direita dos países muçulmanos (ironicamente) tenham começado a adotar antigos slogans islâmicos socialistas, apesar de a maioria de seus antecessores conservadores terem se oposto ao Socialismo durante a Guerra Fria.

A extinção do Socialismo Islâmico( e de suas manifestações) finalmente criou o espaço que as expressões de extrema-direita do Islã Politico precisavam para se tornar a força dominante no mundo muçulmano. Mas esse aumento (especialmente depois da Guerra Fria) também foi paralelo com a evolução do chamado Islã Liberal.

O ULTIMO BASTIÃO

Ainda que muitos muçulmanos liberais considerem os racionalistas dos seculos VIII e IX (mu’tazilitas) como a primeira expressão filosófica do Islã Liberal, no contexto politico, o Islã Liberal também é uma criação do seculo XIX e inicio do seculo XX (apesar do fato de que há uma certa precisão histórica na alegação de que os principais impérios muçulmanos de outrora já eram amplamente pluralistas e não-teocráticos).

De novo, no contexto politico, o Islã Liberal pode encontrar suas raízes em alguns movimentos reformistas do seculo XIX e na forma que países como Irã, Afeganistão e Turquia adotaram a economia e os modelos sociais ocidentais no inicio do seculo XX.

O surgimento dos movimentos nacionalistas no mundo muçulmano também deu impeto ao pensamento ligado ao Islã Liberal, assim como a proeminência de ideologias efusivas como o Socialismo Islâmico.

O Islã Liberal tem sido uma força flexível. Setores tanto nos segmentos anti-ocidente como pró-ocidente no mundo islâmico professam-no, com o fator anticlerical como elo comum entre os dois.

Muitos partidos políticos democráticos à esquerda e à direita e também alguns regimes autoritários no mundo muçulmano podem ser definidos como portadores de visões liberais sobre o papel político do Islã.

Estes partidos tem grandes suspeitas quanto ao clero e repulsa pelas ambições politicas do Islamismo e do Neo-fundamentalismo.

A candidata Democrata Hillary Clinton com o Rei Saudita Salman bin Abdulaziz Al Saud

Eles encorajam a ijtihad em questões como a compreensão do Alcorão e da Sharia, e enfatizam que o Islã é melhor servido por meio de instituições religiosas em vez de através do Estado e do governo. Também acreditam que a fé é um assunto estritamente privado que não deve ser manchado pela amoralidade da politica.

Também é feita uma enfase no multiculturalismo, no nacionalismo e no pluralismo democrático, embora, como mencionado acima, alguns órgão liberais muçulmanos também tenham sido autoritários.

Da maioria, hoje, dos principais partidos políticos no mundo muçulmano pode se dizer que tem seguido vários graus do Islã Liberal. Nem todos são seculares no sentido ocidental da palavra, mas são flexíveis em suas perspectivas para assuntos como a Sharia e outros conceitos e praticas considerados “não-islamicos” por seus oponentes mais conservadores.

Referencias:

Oliver Roy, The failure of Political Islam (Harvard University Press, 1998) p.2
Muhammad Ayoob, The Many Faces of Political Islam (University of Michigan, 2007)
Roger Hardy, The Muslim Revolt, (Harsh Publishers 1999) p.18
Ziauddin Sardar, Islam, Post-Modernism & Other Futures (Pluto Press 2001) p.100
Martin Kramer, Fundamentalists or Islamists? (Middle East Qutarly, 2003) pp.65-70
Abdullah Saeed, Freedom of Religion & Islam (Ashgate Publishing, 2004) p.90
James Toth, Syed Qutb (Oxford University Press, 2013) p.324
Nadeem F. Paracha, Islamic Socialism: A history from left to right (DAWN.COM, February 21, 2013)

link do texto Original: https://www.dawn.com/news/1139847

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....