Jogo dos Tronos Brasileiro

O jogo político no Brasil segue instável e indeterminado. É bem difícil afirmar como 2019 irá começar. As análises deterministas, especialmente de viés econômico, dizem cheias de certeza o desenrolar das disputas em andamento.

Eu, por outro lado, busco fugir disso. Não temos como olhar uma bola de cristal e saber com exatidão o que vai ocorrer. Tudo que podemos fazer é analisar probabilidades e os movimentos dos jogadores em campo. É isso que vou fazer com o que observei até aqui.

A GUERRA DOS TUCANOS

O PSDB foi reticente em aderir ao Impeachment. Ao contrários dos que afirmam que o golpe foi preparado por eles desde o começo, os indícios não indicam isso.

José Serra, sim, foi um apoiador do impedimento. Ele é próximo de Michel Temer e concluiu que, ao ajudar o ex-vice a assumir o poder, seria indicado como ministro, como de fato ocorreu. Uma vez ministro, poderia construir sua imagem para 2018.

Aécio Neves viu de outra forma. Sabendo que se ocorresse uma nova eleição em 2015 ele ainda teria uma certa popularidade, apostou no pedido de cassação da chapa Dilma/Temer junto ao TSE.

Por fim, Geraldo Alckmin, mais cauteloso, preferia deixar Dilma no poder. Sendo Governador de SP, aproveitaria o desgaste do PT com a crise para se construir como alternativa.

A intervenção de FHC em favor de Serra fez com que Aécio e Alckmin aderissem ao Impeachment, fechando consenso no partido ao final de 2015. As delações contra o político mineiro começaram a minar sua popularidade, tirando-o da disputa e deixando a vaga de candidato a presidente entre dois paulistas.

Em 2016, o candidato de Serra e FHC, Matarazzo, é derrotado e a vitória do pupilo de Alckmin, João Dória, muda o equilíbrio de força.

Geraldo Alckmin não é um candidato de centro. Ele é de centro-direita, um equivalente brasileiro a Theresa May, do Reino Unido, ou Angela Merkel, da Alemanha. E então o favorito da grande mídia.

Então duas novas guerras começam no ninho tucano. João Dória, apoiado pelo MBL, decide trair seu padrinho e sair candidato. Simultaneamente, Tasso Jereissati decide com apoio da juventude tucana promover uma renovação no partido e enfrentar a velha guarda.

Para o MBL, se tratava de assumir o controle do PSDB e transformá-lo em uma versão tupiniquim do Partido Republicano norte-americano, conservador nos costumes e liberal na economia. Portanto, precisavam enfraquecer nomes como FHC, mais próximo dos valores dos Democratas norte-americanos.

Para Jereissati, o PSDB podia se renovar como uma alternativa liberal “de centro”, como foi o Macron na França, mas para isso deveriam expurgar os setores mais fisiológicos e carreiristas, como Aécio. Para essa empreitada buscou apoio entre os “cabeças pretas”, a ala jovem do partido.

Com dificuldade, Geraldo Alckmin freou a traição de Dória, enfraquecendo o golpe do MBL, e pacificou a disputa entre Jereissati e Aécio. Ao fim, se proclamou como candidato por direito do PSDB. Esperava, então, montar uma frente ampla de centro-direita para enfrentar as eleições em 2018, mas apenas teve até o momento o apoio de PPS e PTB.

Enquanto os tucanos guerreavam, Bolsonaro roubava sua base eleitoral. E Alckmin ainda não sabe o que fazer para virar o jogo.

Em um clima altamente polarizado entre esquerda e direita, o PSDB está perdido. Seu discurso moralista anticorrupção caiu por terra, seu programa econômico não tem apelo popular e seus eleitores anti-esquerda migraram para a extrema direita. Se Geraldo Alckmin quiser vestir a faixa presidencial em 2018, vai precisar de alianças.

Um dos primeiros problemas que precisará resolver é o ex-tucano Álvaro Dias, do PODEMOS, que rouba seu eleitor no Sul do país.

 

LIBERAL POR CONVICÇÃO, CONSERVADOR POR MARKETING

Quando o Movimento Brasil Livre (MBL) ganhou forças em 2015, sua posição era estritamente liberal. Seu programa radical, inspirado no Partido Libertário dos EUA, era ignorado diante de seu discurso anti-PT.

Ao fim da polarização de 2014, a classe média indignada foi facilmente mobilizada pela campanha do trio MBL, Vem Pra Rua (VPR) e Revoltados Online. Essa pressão logo influenciou a centro-direita a ir atrás de sua base eleitoral, aumentando a instabilidade e convencendo a Burguesia a desembarcar do Governo Dilma.

Sim, eu não acho que o Impeachment foi tramado pela CIA ou mesmo pelo alto escalão do PSDB. Nem mesmo pela Globo.

Foi algo que começou com a classe média, que forçou os partidos de direita a aderirem e por fim, para encerrar a instabilidade politico-economica, convenceu a mídia e o empresariado.

Uma vez que o PT foi derrubado, o MBL começou a perder apoio. Seu programa ultraliberal não era atraente, e Bolsonaro começava a despontar como candidato. Em um movimento ousado, passaram a se passar por conservadores.

Adotando um discurso pró-polícia, pró-religião e denunciando falsas conspirações comunistas, o MBL retornou para a batalha disputando o eleitorado conservador que migrava para Bolsonaro. As guerras contra museus foram apenas algumas de suas jogadas de marketing.

No fundo, Kim Kataguiri e os demais apenas utilizam de um falso conservadorismo para conseguir apoio à sua real agenda: privatizações em massa.

Mas precisavam de um candidato próprio a presidente. Decidiram, começo de 2017, emplacar o recém eleito prefeito João Dória, como parte de um plano de dominar o PSDB. Mas o contra ataque de Alckmin impediu seus planos, forçando-os a procurar outra opção. Recentemente, fecharam aliança com o dono da Riachuelo, Flávio Rocha, que sairá pelo PRB, partido da Igreja Universal.

Flávio Rocha tem grandes chances de ir a um segundo turno. Seu discurso conservador contra os espantalhos da “ideologia de gênero” e “marxismo cultural” permite que roube votos de Bolsonaro. Também conta com a máquina eleitoral de Edir Macedo, incluindo a Record. Também é mais capaz de ter a simpatia do Capital Financeiro e de atrair apoio da centro-direita. Sua desvantagem é que precisa quebrar a lealdade da legião bolsonarista, que é difícil.

A postura agressiva do MBL contra a própria centro-direita, no entanto, gerou retaliação. Nesse Março de 2018, a Grande Mídia – base de sustentação tucana – partiu para o ataque. O Globo e Revista Veja trouxeram à tona informações da máquina de Fake News do MBL, buscando pressionar o Facebook a tirá-los de jogada. Estes, em contrapartida, apontaram denúncias contra o Alckmin.

A disputa entre PSDB e PRB pelo voto de direita ainda pode dar o que falar.

O MUSSOLINI BRASILEIRO

Jair Bolsonaro ficou conhecido nacionalmente depois que o CQC, programa da Band, decidiu usar suas posições para ridicularizar e gerar audiência, em 2011. Apesar disso, seu crescimento era pequeno até 2014.

A polarização eleitoral entre Dilma e Aécio foi a primeira desde que o povo brasileiro começou a utilizar o Facebook. Ao contrário do Orkut, onde você só via sobre política se buscasse isso em grupos específicos, o Facebook permitia que víssemos as postagens de nossos amigos, incluindo compartilhamentos.

Rapidamente, setores da classe média que sempre foram conservadores e anti-esquerda tiveram a chance de conhecer as posições de Bolsonaro. O assunto do Impeachment que agitou o Brasil em 2015 e 2016 também favoreceu o ex-militar a ganhar fama.

Em 2017. Jair Bolsonaro se tornou o favorito da direita brasileira.

No entanto, seu passado nacionalista gerou desconfianças no mercado financeiro. Ele então precisou começar a se reformular, tentando soar mais moderado politicamente e até pró-mercado economicamente. Convidar Paulo Guedes, economista do Instituto Millenium, para ser seu Ministro da Fazenda foi nesse sentido.

Hoje Bolsonaro tem amplo apoio entre as polícias e as forças armadas, e também entre o agronegócio. Ainda precisa vencer as desconfianças dos empresários e banqueiros, que ainda preferem o PSDB, bem como aglomerar o voto religioso conservador. Já possui apoio de dois pastores da Assembleia de Deus, Silas Malafaia e Marco Feliciano.

Após tentar sair candidato pelo PSC e pelo Patriota, hoje está filiado pelo PSL, e negocia a coligação com o PR. Se conseguir o apoio do partido de Valdemar Costa Neto, a quarta maior bancada do Congresso, ganha estrutura partidária para a campanha.

A Grande Mídia, entretanto, já iniciou o bombardeio. Folha, Estadão, Veja e O Globo lançam constantemente matérias visando derrubá-lo. Na televisão, a Rede Globo boicota sistematicamente seu nome, agindo como se ele não existisse.

Isso fez com que Bolsonaro subisse o tom contra a Mídia, acusando-a de comunista.

Certamente Bolsonaro é um dos principais candidatos ao segundo turno, e lidera as pesquisas sem o Lula.

O CENTRÃO DE DIREITA

A pluralidade de candidatos provavelmente fez com que diversos partidos que sempre foram base de apoio tentem a sorte para a presidência.

Um dos movimentos havia sido dado pelo PPS, que queria lançar Luciano Huck. Com um discurso liberal progressista e sendo popular, Huck agradaria todas as classes e seria um candidato do Stablishment neoliberal para derrotar a extrema direita e as opções da esquerda.

No entanto, a Grande Mídia viu em sua candidatura uma ameaça à Alckmin, e o pressionou a desistir. O PPS, então, declarou apoio ao PSDB.

O PSB, histórico aliado de Alckmin em SP, tinha tudo para ir com os tucanos. Mas a decisão de Dória de sair a Governador forçou o PSDB a abandonar a aliança estadual com Márcio França, vice de Alckmin e que também será candidato. Por um momento o PSB flertou com Ciro Gomes, o que seria um incremento a este. Porém a recente filiação de Joaquim Barbosa aponta para candidatura própria ou coligação com a REDE, de Marina Silva.

Se Joaquim Barbosa sair candidato, pode conseguir votos na esquerda e na direita, enfraquecer Bolsonaro e criar um governo de pacificação nacional. Mas pode também cair fácil, pois seria alvo da máquina de Fake News da extrema direita, bem como de críticas do PT.

Marina Silva tenta se estabelecer como uma alternativa de centro, acima da polarização. Teria grandes chances se lançasse um programa social-liberal, isto é, progressista nos costumes e liberal na economia, mas pouco provável que arrisque isso. Marina e Barbosa são nomes poderosos, sozinhos ou coligados. Juntos, são grandes candidatos ao segundo turno.

O mesmo não pode ser dito de Rodrigo Maia, Michel Temer e Henrique Meirelles, que ensaiam candidaturas.

Temer provavelmente utilizou a intervenção militar no RJ para jogar para o eleitor de direita, mas não teve sucesso. Recentemente, seu partido MDB sinalizou que caso não decole, podem lançar Meirelles a candidato. Ambas as opções não tem chance, e não sabemos se acreditam que há ou se apenas querem construir força para negociar apoios. O MDB também negocia com o PRB. Sozinho o MDB não é nada, mas quem ele apoiar ganha uma ajuda de peso.

Rodrigo Maia se lançou candidato pelo DEM, e tem apoio do PP. Ambos os partidos são herdeiros do ARENA. Também não sabemos se há um plano real para sair candidato, ou faz parte de alguma negociata de alianças. Suspeitas indicam que, se a disputa é para valer, Maia pode estar planejando derrubar Temer para conseguir o controle da máquina governamental a seu favor. Algumas alas do DEM, lideradas por Onyx Lorenzoni, querem que o partido apoie Bolsonaro, mas é pouco provável.

Uma pequena possibilidade, mas real, é que PSDB e PMDB, com apoio de outros partidos, possam fazer alguma manobra que impeça candidatos opositores de serem eleitos. Um exemplo seria aprovar o parlamentarismo, esvaziando os poderes presidenciais. Um jogada do Stablishment que geraria muita revolta na esquerda e na direita.

O CENTRO DA ESQUERDA

Muito improvável que Lula saia candidato, e por isso o PT já pensa em outro nome, que pode ser Fernando Haddad. Estrategicamente, seria um bom movimento emplacar o vice de Ciro Gomes, mas tudo indica que não farão. Apesar do candidato do PT ter forças, pode ser que não vá ao segundo turno, assim como o PSDB. Ambos os partidos correm o risco de ficarem de fora.

O PDT com Ciro vem forte. Se conseguisse o apoio do PSB ou do PT, teria grandes possibilidades de ir para o segundo turno, mas tudo indica que não terá. No entanto, vem se tornando o favorito da centro-esquerda, o que pode garanti-lo na disputa.

Manuela D’Avila, do PCdoB, não deve esperar vencer. É pouco provável que mantenha sua candidatura e divida ainda mais o voto de esquerda. A grande probabilidade é que apoie o nome do PT ou Ciro Gomes. Se sair sozinha, não terá muitos votos.

De qualquer forma, há grandes indícios que a direita não aceite qualquer vitória desses candidatos. Com exceção talvez de Ciro Gomes, muito provavelmente qualquer um desses candidatos seria alvo de um golpe, parlamentar ou militar.

A ESQUERDA

Guilherme Boulos vem se popularizando entre setores de esquerda desde 2013 e 2014, quando o MTST começou a ganhar holofotes.

Sua indicação pelo Psol não foi fácil. Visto como um petista no partido, encontrou oposição de setores trotskistas como MES, Esquerda Marxista e CST. Em contrapartida, foi prontamente apoio pela US, pelo MAIS e pela Insurgência. Com o apoio do PCB, Boulos possui um potencial pequeno, mas existente, de crescimento.

Com o impedimento de Lula, é possível que setores da esquerda lulista, como CUT e MST, ao invés de apoiarem o novo candidato petista, migrem para o coordenador do MTST. Ao adotar a estratégia de polarizar com Bolsonaro, Boulos também pode ganhar votos da classe média progressista que vem aderindo ao feminismo e pautas dos movimentos negro e LGBT.

Aliás, o crescimento dessa classe média progressista vem em contrapartida e reação ao Bolsonarismo, ambos como produtos da polarização eleitoral e fruto do Facebook, como já dito.

Se Boulos atingir aproximadamente uns 5%, pode gerar um voto útil dos eleitores da centro-esquerda para ele, levando-o até a 10%. Isso pode ser o suficiente para leva-lo a um segundo turno num cenário de pulverização dos votos. Ainda que o mais provável seja que não consiga e apoie outro candidato em eventual segundo turno.

ELITE POLITICA X ELITE TECNICO JURIDICA X ELITE MILITAR

Em paralelo a corrida eleitoral, a elite tecnico jurídica que move a Lava Jato segue em sua cruzada para “purificar a política”. Ao longo dos últimos anos, isso opôs Polícia Federal, Judiciário e Ministério Público às lideranças político partidárias investigadas.

Mais de uma vez, o Congresso Nacional arriscou a limitar os poderes dos outros poderes, o que gerou respostas perigosas.

Alguns setores da esquerda apostam na tese de que a Lava Jato esteja orientada por interesses imperialistas. Não diria que não é possível, porque é. Mas até o momento não há indícios fortes de tal afirmação.

As investigações e os holofotes midiáticos vem desmoralizando a classe política, o que dificulta a aprovação de reformas neoliberais, como a da Previdência. A Globo tentou uma manobra, em conjunto com a PF e outros setores, para derrubar Michel Temer, pois provavelmente vê sua imagem como prejudicial ao Capital. O Estadão, em contrapartida, se posicionou contra e defendeu o presidente.

As disputas entre os diversos segmentos do Estado resultou até mesmo em movimentações preocupantes das Forças Armadas. O então General da ativa, Mourão, chegou a insinuar que haveria um golpe militar caso a situação não se estabilize.

A Burguesia, nacional e estrangeira, não sabe o que fazer. Eles estão fechados quanto a necessidade de reformas neoliberais, mas não sobre como sair do atual impasse.

Uma intervenção militar traria estabilidade ou acirramento de conflitos? Jair Bolsonaro poderia ser eleito e governar, e mais, se tornar ditador? A centro-direita consegue se viabilizar? Ciro ou Marina poderiam ajudar o Capital, ou são empecilhos?

Nada está definido. Nem para a esquerda, nem para a direita, nem para o centro, nem para as classes sociais. O Brasil hoje está como a série Game of Thrones, onde a qualquer momento podemos ter uma reviravolta que altere todas as peças do tabuleiro.

Ninguém sabe o que pode acontecer, e essa é a única cert

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