Jovem e sem medo da pandemia de coronavirus? Bom pra você. Agora pare de matar pessoas.

Publicado originalmente na Newsweek

Eu sou médica em um grande hospital da Europa Ocidental. Ver os americanos (e ingleses) nesses dias ainda iniciais da pandemia de coronavirus é como ver um filme de terror conhecido, onde os protagonistas, mais uma vez, se dividem em duplas ou decidem dar uma volta num porão escuro. As versões da vida real desse comportamento são fingir que isso é só uma gripe; manter as escolas abertas; não desmarcar seus planos de viagem; e ir ao escritório todos os dias. Foi o que fizemos na Itália. Estávamos tão complacentes que mesmo quando as pessoas com os sintomas do coronavirus começaram a aparecer, resolvemos que cada uma era uma gripe forte. Mantivemos a economia andando, falando mal da China e insistimos que os turistas continuassem viajando. E a maioria de nós disse a si mesmo e aos outros? isso não é tão ruim. Somos jovens, somos saudáveis, mesmo que a gente pegue, vamos ficar bem.

Corta pra dois meses depois, e estamos nos afogando. Estatisticamente falando – julgando pela curva da China – ainda nem chegamos no pico, mas nossa taxa de mortalidade está acima de 6 por cento, o dobro da mundial.Sem mencionar as estatísticas, Aqui está como funciona na prática. A maior parte dos meus amigos de infância hoje é médico e trabalha no norte da Itália. Em Milão, Bergamo, Pádua, eles estão escolhendo entre entubar uma pessoa de 40 anos com dois filhos, uma de 40 saudável sem comorbidades e uma de 60 anos com pressão alta, porque não há leitos o suficiente. No corredor, enquanto isso, há mais 15 pessoas esperando que já mal respiram e precisam de oxigênio.O exército tenta levar alguns a outras regiões com helicópteros, mas não basta: o fluxo é grande demais, gente demais doente ao mesmo tempo. Estamos ainda aguardando o pico da epidemia na Europa: provavelmente no início de abril na Itália, meados na Alemanha e na Suíça, perto disso no Reino Unido e EUA, a infecção apenas começou.

Mas até passarmos o pico, a única solução são restrições sociais. E se o seu governo está hesitando, essas restrições dependem de você. Fique quieto. Não viaje. Cancele aquela reunião de família, a festa pela promoção e a grande noitada. Isso é um saco, mas estamos numa época difícil. Não corra riscos. Não vá a locais com mais de 20 pessoas na mesma sala. Não é seguro e não vale a pena.Mas porque a urgência, se a maior parte das pessoas sobrevive?A razão é simples: esse ponto de vista é falho. Pegar o vírus pode afetar a sua vida de muitas formas sem efetivamente te matar. “Somos todos jovens” – ok. “Mesmo se pegarmos o vírus, a gente vai sobreviver” – fantástico. E que tão precisar de quatro meses de fisioterapia antes de se sentir minimamente humano de novo. Ou ter cicatrizes nos pulmões e ter seu nível de atividade restrito pelo resto da vida. Sem mencionar a grande possibilidade de pegar outra infecção no hospital, enquanto está sendo tratado ou esperando para ser testado com um sistema imunológico distraído até pelo alarme falso de uma gripe comum. Nenhuma viagem por lazer ou negócios vale isso.

Bom, as chances são de que você vá pegar o coronavirus, e talvez nem apresente os sintomas. Ótimo. Bom pra você. Péssimo pra todo o resto do mundo, dos seus avós até o velhinho aleatório que entrou no metrô um ponto ou dois depois de você. Você tá bem, mal espirra ou tosse, mas tá andando e mata umas velhinhas sem mesmo saber. Isso é justo? Me diga.Meu ponto de vista pessoal e profissional: todos temos o dever de ficar em casa, exceto por razões muito especiais, sei lá, você trabalha com saúde e precisa ir, ou precisa salvar uma vida levando alguém pro hospital, ou sair pra comprar comida pra você sobreviver. Mas quando chegamos nesse estágio de uma pandemia, é realmente muito importante não espalhar o vírus. A única coisa que ajuda é restrição social. Idealmente, o governo deveria dar essa instrução e providenciar uma ajuda financeira – compensar donos de negócios, reduzir a carga de custos de vida de todo mundo o máximo possível e reduzir o incentivo de arriscar a sua vida ou as vidas de outros só para pagar as contas. Mas se o seu governo ou empresa está lento na providências, não seja essa pessoa. Seja responsável. Restrinja todos os movimentos não essenciais.Isso é introdução à epidemiologia na escola. Realmente é um porre. É uma medida extrema – mas ainda bem que não temos pandemias violentas assim todo ano.

Então senta a bunda. Fica quieto. Não viaje. Realmente não vale à pena.É dever cívico e moral de cada pessoa, em todo lugar, de fazer parte do esforço global para reduzir essa ameaça à humanidade. Adiar qualquer movimento ou viagem que não seja vital e essencial e espalhar a doença o mínimo possível. Se divirta em junho, julho e agosto quando isso – se tudo der certo – terá acabado. Fique seguro. Boa sorte.


A autora é uma médica em um grande hospital europeu. Pediu para permanecer anônima, pois não tem autorização para falar com a imprensa.

Tradução: Antonia de Thuin

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