Luta de classes e libertação animal: apontamentos para uma conexão entre veganismo, poder popular e materialismo histórico – Ana Mota & Kauan Willian

“Na Comuna de Paris, em 1871, Louise Michel encontrou tempo entre a troca de tiros com policiais e a segurança das barricadas para salvar um gato indefeso, argumentando em suas memórias que “tudo se encaixa perfeitamente, do pássaro que teve sua ninhada destruída ao humano que teve sua moradia destruída pela guerra”. Na prisão, em 1917, Rosa Luxemburgo expressou sua empatia por um búfalo que ela viu ser maltratado de sua cela: “O sofrimento de um amado irmão não poderia me atingir mais do que isso… Pobre animal, eu sou tão impotente quanto você. Eu estou com você em minha dor, minha fraqueza e minha ânsia (BESTAS DE CARGA. p.78, 2015).”

“[O Veganismo é] uma filosofia e modo de vida que procura excluir – na medida do possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade com animais como alimento, vestuário ou qualquer outro objetivo; e, por extensão, promove o desenvolvimento e uso de alternativas isentas de animais para o benefício de animais, seres humanos e meio ambiente. Em termos alimentares, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais. (VeganSociety, 1988).”

“Veganos puros” e “revolucionários antiveganos” numa armadilha

É muito comum em grupos veganos a falácia que o veganismo nasceu como um movimento “puro” (como se alguma coisa pudesse sê-lo) “nem de direita e nem de esquerda”. Citando a vegan society como inventora e parando em 1944, quando o nome “vegan” foi inventado, essa análise aborda o veganismo como não tivesse uma tradição e influências anteriores e muito menos um desenvolvimento e disputa posterior – uma visão, portanto, que não entende de transformações de movimentos sociais numa média e longa duração, além de desconhecer debates sociológicos e políticos sobre movimentos sociais e seus aspectos inseridos na sociedade, mesmo inconscientes.

Mas o que é mais espantoso para nós, inseridos em movimentos políticos progressistas, é o argumento na esquerda de que o debate de libertação animal deve ser marginal e posterior a uma luta econômica e revolução estrutural, após a tomada dos meios de produção. E não estamos falando de marxistas economicistas – os chamados marxistas vulgares pela New Left – mas de grupos que já consideram pautas antes consideradas liberais como a LGBTQ+, feminista, ecológica e outras dentro de uma análise materialista, invocando e afirmando, inclusive, que esses horizontes não são novos e sempre estiveram no horizonte da esquerda revolucionária e materialista.

Sem querer, esses dois grupos invocam e consideram as mesmas práticas veganas, um estilo de vida, assim como divulgação de conscientização, que invoca a mudança idealista por suas práticas de boicote, achando que algum sistema – no caso o capitalismo – irá se modificar e acabar o sofrimento animal com mudanças individuais no consumo. Os dois grupos caem na mesma armadilha, consideram a narrativa de um veganismo de origem européia, de fato liberal, majoritariamente branco e de possuidores – já que esses têm poder de compra para boicotar algo. Assim, tanto os “revolucionários antiveganos” não conseguem alastrar sua ideologia para o fim dos horrores produzidos pela indústria da carne, nem os “veganos puros” conseguem ampliar o veganismo para os mais pobres, e derrubar a cultura especista.

Mostraremos aqui que não é necessário “abrir” um outro movimento vegano nem “uma nova esquerda” para solidificar os debates de libertação animal dentro da construção do poder popular e no materialismo histórico que tanto veganos e a esquerda podem se beneficiar. Nesse viés existe uma ampla tradição de libertação animal, tanto materialista quanto libertária, que pode ser instrumentalizada e sublinhada que merece atenção para seguirmos com um veganismo popular, revolucionário e, de fato, transformador.

Libertação Animal no socialismo e entre os explorados  

Ao contrário da narrativa oficial vegana, a libertação animal foi muito discutida e proposta por feministas, desde sua primeira onda com as sufragistas na Inglaterra. A sufragista e depois socialista francesa Charlotte Despard, nascida em 1844, já defendia o vegetarianismo como parte de seu pacifismo diante de guerras nacionais e imperialismo, conectando a dominação animal com a humana. Ou seja, o vegetarianismo não era apenas um tipo de alimentação e estilo de vida, mas já fazia parte de uma discussão de análise de mudança estrutural, mesmo que não sistematizada. Pelo o que tudo indica, a mesma não tinha hábitos de usar nada animal – mesmo antes do termo vegano. O que fez, para autora Carol Adams, ser o feminismo a linha de frente do vegetarianismo e do veganismo, já que em sua análise, e que essa tradição já apontava, a cultura patriarcal foi construída em relação com o ato de consumir animais diariamente, como também mostram como nos escritos de Françoise d’Eaubonne, Vandana Shiva, Susan Mann e outras (ADAMS, 2012).

Charlotte Despard (15 de junho de 1844 – 10 de novembro de 1939) foi uma sufragista anglo-irlandesa, socialista, pacifista, ativista do Sinn Féin e romancista

 Um autor importante que alocou a discussão animal, dessa vez com mais força no movimento operário, foi o francês Éliseé Reclus, ainda no fim do século XIX. Um dos construtores do socialismo libertário e depois do anarquismo na Primeira Internacional dos Trabalhadores, Reclus estendia seu internacionalismo aos animais não humanos, já que influenciado por textos contemporâneos como de Darwin, sabia que todos os animais eram sencientes e alguns tinham intima relação com a linha evolutiva dos humanos. Nesse sentido, mostrava a relação do avanço do capitalismo com a coisificação de animais e a degradação do meio ambiente, ressaltando a importância de resgatar e manter tradições mais próximas com animais e outros seres vivos como as que tinha visitado na América do Sul como geógrafo citando “a indígena do Brasil [que] se cerca voluntariamente de toda uma multidão de animais, e em sua cabana e na clareira circundante há antas, veados, gambás” (RECLUS, 2010, p.1-2). Reclus também mostrava que as guerras nacionais, que boa parte dos socialistas se opunham, tinham relação com a dominação de animais, já que “não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conexão com o massacre de gado e os banquetes para carnívoros. A dieta corresponde bem aos modos dos indivíduos. Sangue chama sangue (RECLUS, 2010, p.8).” Desde aí, anarquistas como a francesa Louise Michel, e os brasileiros Maria Lacerda de Moura e José Oiticica se declararam vegetarianos, deixando um rastro no anarquismo para essa discussão posteriormente, como no movimento punk e de libertários do Animal Liberation Front que alavancariam um veganismo radical e de ação direta após a década de 1970.

Na re-organização de esquerda, após a queda do Muro de Berlim, anarquistas e socialistas discutiram a questão da libertação animal, muito também pela influência da confecção do ecossocialismo – embora nem todo ecossocialismo fosse vegano – e da tradição marxista que considerava a natureza parte fundamental da luta de classes. “A visão de natureza que se desenvolveu sob o regime da propriedade privada e do dinheiro”, escreveu Marx em 1843 em A Questão Judaica, “é de verdadeiro desprezo pela degradação prática da natureza…” (MARX, 1843, p.23), numa análise acertada do que estava acontecendo e do que iria vir. Fato que faz com que marxistas importantes como Angela Davis considerem o veganismo parte da relação de dominação do capital que transforma todos os seres e objetos em mercadoria ou em trabalho, sendo os animais os dois (PortalVeganismo, 2014). Para o autor anônimo do manifesto vegano socialista, “Bestas de Carga” é apontado ainda que:

“Em termos marxistas, a produção de carne representa a destruição do valor de uso para aumentar o valor de troca. Alimentos que poderiam ser usados para alimentar as pessoas são, ao em vez disso, administrados aos animais a fim de aumentar o lucro. […] Dez hectares de terra alimentam 61 pessoas em uma dieta de soja, 24 de trigo, 10, de milho, mas apenas 2 de carne em gado. O gado, portanto, é utilizado pelo capitalismo como uma forma de capital fixo, consumindo trabalho vivo e morto a fim de gerar um produto (carne) contendo o aumento do valor excedente” (Bestas de Carga, 2015 p.60).

O autor lembra que o verdadeiro comunismo não espera revoluções, mas a constrói já que ele deve se apresentar como um “movimento que tentar abolir as condições de vida determinadas pelas relações de salário e trabalho e este movimento irá aboli-las com uma revolução” (Bestas de Carga, 2015 p.60). Ou seja, da mesma maneira que um comunista deve lutar diariamente contra o machismo e alocá-lo na luta de classes, mesmo sabendo que sua derrubada virá depois da revolução, o mesmo com a questão animal – se é certa a análise que essa última também é fruto das relações de classe.

 Atualmente a Revolução Curda em Rojava, embora esteja sofrendo duros ataques também considera, além do feminismo, o antiespecismo e a ecologia. Uma de suas militantes aponta que:

“é interessante notar nas estatísticas que a Guerra Civil Síria matou muito mais animais não-humanos do que animais humanos. Se não é possível comparar a importância de vidas diferentes, e mais ainda quando elas são de espécies diferentes, o que podemos dizer é que a guerra que é travada contra curdos, árabes, assírios, yezidis, armênios e turkmens da região, também é praticada contra cabras, ovelhas, vacas, galinhas e cães do mesmo território, bem como as plantas, com mercenários turcos ou liderados por jihadistas ateando fogo nos campos de trigo e nas oliveiras de Rojava. O que está sendo atacado é todo o ecossistema (El Coyote, 2019).”

Um outro veganismo ou uma outra estratégia vegana?

Até aqui podemos perceber que não é necessário “abrir” um novo veganismo ou criar nomes para “veganismos” como o pós-estruturalismo faz com os movimentos ditos identitários. Assim como só existe um feminismo real, que luta contra o capitalismo, o patriarcado, incluí todas as mulheres e vê nas relações sociais de produção o modo de findar as desigualdades de gênero, só pode existir um veganismo – o de boicote. Nesse sentido, disputar o nome vegano é importante, já que ele se criou com influências que ultrapassavam um movimento de consumo em si. O veganismo abolicionista, embora majoritariamente branco e europeu e muitas vezes não revolucionário, se reduzindo ao boicote ou à ação direta, também apresentou bons conceito como o especismo – “o preconceito ou a atitude tendenciosa de alguém a favor dos interesses de membros da própria espécie , contra as de outras” (SINGER, 2010, p.11) – fazendo uma bom tensionamento com um veganismo falso que se diz estratégico ou de “bem-estarismo animal” que está atrelado a apropriação de grandes indústrias ao movimento de libertação animal – tendência que pode ser bem trabalhada.

“Libertação Animal” de Peter Singer (1975), embora com uma visão, na época reducionista, contém um ótimo conceito – o especismo.

Não precisamos romper com essa tradição e nem com o termo veganismo – já que ele pode ser esvaziado, deixando só essa discussão para membros já atuantes e conscientes da esquerda, que são poucos. Ou seja, podemos atrelar o veganismo de boicote, o verdadeiro – conhecido como abolicionista – impulsionando-o com a construção do poder popular, ou seja, de órgãos que dêem o poder de decisão social e política nas mãos dos mais desfavorecidos em movimentos sociais e políticos que constroem e lutam por terras, moradias, salários e soberania alimentar, através de hortas comunitárias, da desconstrução da alienação da alimentação que trabalhadores e mais pobres estão expostos. Apoiar movimentos que se relacionem com a exploração animal, com a realidade das pessoas e outras explorações como de gênero, raça e principalmente de classe – para que esta, na tomada de seu poder popular, coloque em voga uma sociedade antiespecista em todos os níveis, assim como construindo um novo mundo melhor para animais humanos, não humanos e demais espécies do planeta.

Referências bibliográficas

ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre carnivorismo e a dominância masculina. Tradução de Cristina Cupertino. São Paulo: Alaúde, 2012.

Bestas de Carga: panfleto vegano-socialista. São Paulo: Colunas Tortas, 2015.

“Definition os Veganismo”. TheVeganSociety, 1988. Disponível em: https://www.vegansociety.com/go-vegan/definition-veganism. Acesso em 15 de dezembro de 2019.

“Ecologia em tempos de Guerra.” ElCoyote.org, 2019. Disponível em: http://elcoyote.org/ecologia-em-tempos-de guerra/?fbclid=IwAR0yp7ZClRrXx1kIceUlVahlu72XvfCHYnxOnq1KAEkbdN6F6uypVZbHu0E. Acesso em 13 de dezembro de 2019.

MARX, Karl. A Questão Judaica. São Paulo: Moraes, 2018.

RECLUS, Éliseé. A Anarquia e os animais. São Paulo-Piracicaba: Ateneu Diego Giménez, 2010.

SINGER, Peter. Libertação Animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos animais. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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Kauan Willian

Doutorando em História Social (USP). Historiador da classe trabalhadora e professor da rede municipal de São Paulo, militante sindicalista e ativista antiespecista.