Mas e as ferrovias? O mito dos benefícios ingleses à Índia

Apologistas ao império gostam de falar que os ingleses trouxeram democracia, leis e trens para india. Não é ótimo oprimir, torturar e aprisionar pessoas por 200 anos, e então tomar crédito por benefícios que foram inteiramente acidentais?

Muitos apologistas modernos para com o colonialismo britânico na índia não contestam os fatos básicos de exploração imperial, rapacidade e saques, que são muito bem documentados para serem questionáveis. Ao invés disso, eles oferecem um contra argumento: É verdade que os britânicos pegaram o que puderam por 200 anos, mas eles também não deixaram para trás um grande número de benefícios? Em particular, unidade política e democracia, o estado de direito, ferrovias, educação inglesa, até mesmo o chá e o cricket?

Com certeza, os ingleses gostam de apontar para a própria idéia da “India” como uma entidade (hoje três, mas uma durante o Raj Britânico), ao invés de múltiplos principados e pequenos estados, é a incontestável contribuição do colonialismo britânico.

Infelizmente, para esse argumento, pela história do subcontinente, existiu uma impulsão para unidade. A idéia da índia é tão antiga como os Vedas, as escrituras hindus mais antigas, que descrevem “Bharatvarsha” como a terra entre os himalaias e os mares. Se essa geografia sagrada for tida como uma idéia essencialmente Hindu, Maulana Azad escreveu sobre como muçulmanos indianos, sejam Pathans do noroeste ou Tamils do sul, eram vistos pelos Àrabes como “Hindis”, vindo de um espaço civilizacional reconhecido. Numerosos líderes indianos tentaram unir o território, com os Mauryas(três séculos antes de cristo) e os Mughals chegando o mais perto ao conquistar 90% do subcontinente. Se os britânicos não tivessem completado o trabalho, existe pouca dúvida que algum líder indiano, emulando seus antepassados, o teria feito.

Longe de creditar a Grã-Bretanha pela unidade indiana e a contínua democracia parlamentarista, os fatos apontam claramente para políticas que a prejudicaram – o desmantelamento de instituições politicas existentes, o fomento de divisão comunal e sistemática discriminação política com uma visão de manter o domínio Britãnico.

Nos anos após 1757, os Britãnicos astutamente fomentaram rompimentos entre os príncipes indianos, e consolidaram seu domínio firmemente através de uma política de dividir e conquistar. Depois, em 1857, a visão de soldados Hindus e Muçulmanos rebelando-se juntos, dispostos a jurar aliança ao enfraquecido monarca Mughal, alarmou os Britânicos, que concluiram que jogar os dois grupos um contra o outro era a forma mais efetiva de assegurar a continuação incontestada do império. Tão cedo quanto 1859, o então governador Britânico de Bombay, Lord Elphinstone, aconselhou Londres que “Divide et impera era a antiga máxima romana, e deveria ser a nossa”.

Devido ao fato de que os Britânicos vinham de uma sociedade hierárquica com um sistema de classes intrincheirado, eles instintivamente procuraram um similar na India. O interesse de entender as diferenças étnicas, religiosas, sectárias e de casta entre os colonizados da Grã-Bretanha inevitavelmente se tornou um exercício em definir, dividir e perpetuar essas diferenças. Os administradores coloniais, então, regularmente escreviam relatórios e conduziram censos que classificavam Indianos em termos ainda mais desconcertantemente limitativos, baseados em sua língua, religição, secto, casta, sub-casta, etnia e cor da pele. Não só as idéias de comunidade foram reificadas, mas comunidades inteiras foram criadas por pessoas que não se pensavam conscientemente particularmente diferente de outros perto deles.

Conflitos em larga escala entre Hindus (definidos religiosamente), só começaram sob domínio colonial, muitos outros tipos de disputas sociais foram denominadas religiosas devido a suposição orientalista de que religião era a divisão fundamental na sociedade Indiana.

É questionável se uma identidate total Hindu ou Muçulmana existiram em qualquer sentido significativo na India antes do século 19. No entanto a criação e perpetuação do antagonismo Hindu-Muçulmano foi o maior sucesso da política imperial Britânica: O projeto de divide et impera chegaria ao seu acûmen no colapso da autoridade Britânica em 1947. A Partição (evento em que foram criados os estados Indianos e Paquistaneses, com grande mudança de pessoas de um território para outro) deixou para trás um milhão de mortos, 13 milhões sem casa, bilhões de rupees em propriedade destruidos, e as chamas do ódio comunal flamejando ardentemente pela terra destruída. Nenhum indício maior das falhas do mandato Britânico na India podem ser achados do que a maneira trágica do seu fim.

A Grâ-Bretanha tambem não trabalhou para promover instituições democráticas durante o mandato imperial, como gosta de fingir. Ao invés de criar auto-governo do nível da vila para cima, a Companhia das Índias Orientais destruiu o que existia. Os Britânicos eram responsáveis pelo governo, coleta de impostos, e administravam o que se passava por justiça. Os Indianos eram excluídos de todas essas funções. Quando a coroa eventualmente tomou conta do país, delegou pequenos pedaços de autoridade governamental, do topo, para líderes provinciais e conselhos “legislativos” centrais não eleitos cujos membros representavam uma pequena elite educada, não tinham acontabilidade as massas, não passavam legislação significante, exerciam nenhum poder real e se satisfaziam-se se fossem consultados pelo governo mesmo se não tivessem tomado nenhuma decisão.

Tão tarde como em 1920, sob as “reformas” Montagu-Chelmsford, representantes indianos nos conselhos – eleitos por um direito de voto tão restrito e seletivo que somente um em cada 250 indianos tinham o direito de votar – exerceriam controle sob temas que os ingleses não se importavam por, como educação e saúde, enquanto o poder real, incluindo taxação, lei e ordem e a autoridade de nulificar qualquer decisão dos legisladores indianos, estaria com o governador Britânico das províncias.

Democracia, em outras palavras, teve de ser retirada do controle dos ingleses pelos nacionalistas indianos. É bem impressionante oprimir, torturar, emprisionar, escravizar, deportar e proscrever pessoas por 200 anos e então tomar crédito pelo fato de que eles são democráticos ao fim disso.

Um corolário do argumento de que a Grã-Bretanha deu a india unidade política é que estabeleceu o estado de direito no país. Isso foi, de muitas formas, central para a autoconcepção do propósito imperialç Kipling, aquela voz flatulenta do imperialismo Victoriano, repetiria eloquentemente o nobre dever de trazer lei para aqueles que não o tinham. Mas a lei Britânica teve de ser imposta sob uma civilização mais velha e mais complexa com sua própria cultura legal, e os Britânicos utilizaram de coerção e crueldade para conseguir que sua vontade fosse imposta. E na era colonial, a lei não era exatamente imparcial.

Crimes cometidos por brancos contra Indianos atraiam punição mínima, um Inglês que matou a tiros seu servo indiano pegou seis meses de cadeia e uma multa modesta (100 rupees na época), enquanto um Indiano condenado de tentativa de estupro contra uma mulher Inglesa foi sentenciado a 20 anos de aprisionamento rigoroso. Nos dois séculos inteiros de domínio Britânico, somente três casos podem ser achados de Ingleses sendo executados por assassinarem Indianos, enquanto os assassinatos de milhares mais sob mãos Britãnicas não foram punidos.

A morte de um Indiano sob mãos Britânicas é sempre um acidente, e a de um Bretão por ações Indianas é sempre um crime capital. Quando um mestre Inglês chutou um servo Indiano no estômago – uma forma de conduta não incomum naqueles tempos – a morte resultante do indiano de um baço rompido seria culpada nele ter um baço inchado por causa de malária. Punch escreveu uma ode inteira a robusta bota Britânica como o instrumento favorito de manter os nativos em ordem.

Dissidência política foi legalmente reprimida através de vários atos, incluindo uma lei de secessão muito mais rigorosa de que sua equivalente Britânica. O código penal continha 49 artigos em crimes relacionados a dissidência contra o estado (e somente 11 em crimes envolvendo morte).

É claro que os Britânicos deram a India a linguagem Inglesa, os benefícios quais persistem até hoje. Ou eles deram? A língua inglesa não foi um presente deliberado para a India, mas de novo um instrumento do colonialismo, passado aos indianos somente para facilitar as tarefas dos Ingleses. Em seu notório Minute On Education, de 1835, Lord Macaulay articulou a clássica razão para ensinar inglês, mas só para uma pequena minoria de Indianos: “Devemos fazer nosso melhor para formar uma classe que pode servir de intérprete entre nós e os milhões quais nós governamos; uma classe de pessoas, Indianos em sangue em cor, mas Ingleses em gosto, opiniões, em morais e em intelecto”.

A língua foi ensinada para poucos para servir de intermediários entre os mandantes e os mandados. Os Ingleses não tinham interesse em educar as massas Indianas, nem estavam dispostos a pagar por tal gasto. Que os Indianos tomaram a língua Inglesa e a transformaram em um instrumento de liberação – utilizando-a para expressar sentimentos nacionalistas contra os Britânicos – foi crédito deles, não desígnio Britânico.

A construção das Ferrovias Indianas é sempre apontada por apologistas do império como uma das formas quais o colonialism Britânico beneficiou o subcontinente, ignorando o fato óbvio que muitos países também construiram as ferrovias sem ter que passar pelo problema e gasto de ser colonizado para o fazer. Mas os fatos são ainda mais escabrosos.

As ferrovias foram primeiramente pensadas pela Compania das Indias Orientais, como tudo nos cálculos daquela firma, para seu próprio benefício. O governador geral Lord Hardinge argumentou em 1843 que as ferrovias seriam beneficiais “para o comércio, governo e controle militar do país”. Na sua própria concepcção e construção, as Ferrovias Indianas foram um golpe colonial. Acionistas Britânicos ganharam uma quantidade absurda de dinheiro ao investir nas ferrovias, em que o governo garantia retornos o dobro das ações governamentais, pagos inteiramente de impostos Indianos, e não Britãnicos. Foi uma mamata para os Bretões, aos auspícios do contribuinte Indiano.

As ferrovias foram planejadas principalmente para transportar recursos extraidos – carvão, minério de ferro, algodão e mais – para portos para os Britânicos mandar para casa para utilizar em suas fábricas. O movimento de pessoas era incidental, exceto quando servia interesses coloniais; e os compartimentos de terceira classe, com seus bancos de madeira e total absência de amenidades, nos quais indianos eram transportados como gado, atraiam comentários horrificados mesmo naquela época.

E, é claro, o racismo imperava; apesar de que compartimentos exclusivos a brancos foram rapidamente removidos sob o argumento de viabilidade econômica, Indianos acharam o espaço economicamente em conta grossamente inadequado para seus números. (Um cartoon pós independência capturou a situação perfeitamente: mostrava um trem superlotado, com pessoas se equilibrando do lado de fora, sentadas nas janelas, agaixadas perigosamente no telhado, e se derramando de seus compartimentos de terceira classe, enquanto dois Bretões in sola topis se sentam num compartimento de primeira classe dizendo para eles mesmos, “Meu caro amigo, não tem ninguém nesse trem!”)

Os Indianos também não eram empregados nas ferrovias. A visão predominante é que as ferrovias deveriam ser maneijadas exclusivamente por Europeus para “proteger investimentos”. Isso era especialmente verdade com relação aos agulheiros, e todos os que operavam e reparavam trens a vapor, mas a política foi extendida para o nível tão absurdo que mesmo no começo do século 20 todos os empregados chave, de diretores do Conselho da Ferrovia para coletores de tíquetes, eram homens brancos, cujos salários e benefícios eram também pagos em níveis europeus, não indianos, e largamente se repatriavam para a Inglaterra.

Racismo combinava com interesses econômicos ingleses para sabotar eficiência. Os workshops da ferrovia em Jamalpur em Bengala e Ajmer na Rajputana foram estabelecidos em 1862 para manter os trens, mas seus mecânicos Indianos se tornaram tão adeptos que em 1878 eles começaram a planejar e construir suas próprias locomotivas. Seus sucessos progressivamente alarmaram os britânicos, já que as locomotivas Indianas eram tão boas quanto, e largamente mais baratas, que as feitas pelos Britãnicos. Em 1912, por consequência, os Britânicos passaram um ato de parlamento explicitamente tornando impossivel para os workshops indianos planejar e manufaturar locomotivas. Entre 1854 e 1947 a India importou perto de 14400 locomotivas da Inglaterra, 3000 do Canada, EUA e Alemanha, mas não fez nenhuma na India depois de 1912. Depois da independência, 35 anos depois, o conhecimento tecnico antigo estava tão completamente perdido para a India que as Ferrovias Indianas teve que humildemente pedir um favor para os Britânicos para guiarem-os em criar uma fábrica locomotiva na India de novo. Houve, no entento, um post script adequado a essa saga. A principal consultora de tecnologia para as ferrovias Britânicas, a Rendel de Londres, hoje conta extensivamente com expertise técnico indiano, provido a eles pela RItes, uma subsidiária das Ferrovias Indianas.

O processo de domínio colonial na India significou exploração econômica e ruína de milhões, a destruição de indústrias florescentes, a negação sistemática de oportunidades para competir, a eliminação de instituições indígenas de governança, a transformação de estilos de vida e padrões de vida que tinham florescido desde tempos imemoriais, e a obliteração das mais preciosas possessões dos colonizados, suas identidades e seu respeito próprio. Em 1600, quando a Companhia das Indias Orientais foi estabelecida, a Grâ Bretanha produzia somente 1.8% do PIB do mundo, enquanto a India gerava algo próximo de 23% (27% em 1700). Em 1940, depois de dois séculos do Raj, a Grâ Bretanha tinha 10% do pib do mundo, enquanto a India foi reduzida a um pobre “país de terceiro mundo”, destituida e com fome, um poster global de pobreza infantil e fome. Os Ingleses deixaram uma sociedade com 16% de alfabetismo, uma expectativa de vida de 27 anos, praticamente nenhuma indústria doméstica e 90% vivendo abaixo do que hoje chamaríamos de a linha da pobreza.

A India que os ingleses entraram era rica, prosperava e comercializava, era o porque a Compania das Indias Orientais estava interessada nela no primeiro lugar. Longe de ser atrazada e subdesenvolvida, a India pre-colonial exportava produtos manufaturados de qualidade muito queridos pela sociedade altamente modista inglesa. A elite inglesa vestia linho e seda Indianos, decorava suas casas com chintz indiano e tecidos decorativos, e cravava por temperos e ingredientes indianos. Nos séculos 17 e 18, vendedores ingleses tentavam passar tecidos mal-feitos ingleses por Indianos, para cobrar preços mais altos por eles.

A historia da India, em fases diferentes de sua história civilizacional de milhares de anos, está repleta de grandes instituições educacionais, cidades magnificentes a frente de quaisquer conurbações de seu tempo em qualquer lugar do mundo, invenções pioneiras, manufaturas e indústria de nível mundial, e prosperidade abundante – resumindo, todas as marcas da modernidade hoje -e não existe razão na terra para qual esse não poderia ser de novo o caso, se seus recursos não tivessem sido drenados pelos Britânicos.

Se houveram consequências positivas para indianos das instrituições que os ingleses estabeleceram e controlaram na India sob seus proprios interesses, elas nunca foram intencionadas a benefíciar os Indianos. Hoje Indianos não podem viver sem as ferrovias, as autoridades Indianas reverteram políticas Britânicas e elas são utilizadas primariamente para transportar pessoas, com transporte de carga pagando crescentes taxas para subsidiar os passageiros (prática oposta a dos Britânicos).

Isso é porque a amnesia histórica britânica sobre a rapacidade seu mandato na India é tão deplorável. Anos recentes viram o que o estudioso Paul Gilroy chamou de “Melancolia Poscolonial”, a saudade das glórias do Império, com uma pesquisa de 2014 do YouGov achando que 59% dos respondentes pensavam que o império britânico era algo a ter orgulho de, e somente 19% tinham vergonha de seus atos.

Isso não tem intenção de ter qualquer peso nas relações Indo-Britânicas. É, agora, entre duas nações soberanas e iguais, não entre um lorde imperial e seus súditos oprimidos, é mesmo que, a primeira ministra Theresa May recentemente visitou a India para procurar investimento em sua economia pós-brexit. Como eu frequentemente argumentei, você não precisa procurar vingança pela história, a história é sua própria vingança.

Leia mais no jornal the guardian.

Facebook Comments

Hugo Souza

Hugo Souza é estudante de Ciência da Computação e militante anarquista