Mídia e a Infraestrutura de Movimentos Radicais

 

Por Des Freedman e publicado originalmente em Counterfire Media, em 17 de Setembro de 2018.

Traduzido por Matheus Saldanha.

Se a música é a trilha sonora de nossas vidas, podemos dizer que a mídia é a arquitetura dos movimentos políticos. Ela mantém suas estruturas, amplia nossas análises, inspira nossa base e nos conecta uns aos outros. Lenin, referindo-se à imprensa revolucionária russa, disse uma vez que ela:

pode ser comparada aos andaimes em torno de um prédio em construção, marcando seus contornos, facilitando as relações entre diferentes setores, ajudando-os a compartilhar o trabalho e medir os resultados globais do esforço organizado.

Todos os movimentos precisam de infraestrutura de comunicação para neutralizar inimigos, ganhar novos apoiadores e mobilizar os já existentes.

Toda grande campanha por transformações sociais teve sua própria infraestrutura midiática: os Cartistas tinham o Northern Star, as Sufragistas tinham seu próprio jornal autointitulado e os Bolcheviques tinham o Pravda; Gandhi fundou o Harijan para apoiar sua luta anticolonial enquanto oVanguardia defendia os Republicanos na Guerra Civil Espanhola e a FLN tinha o não-oficial Voice of Fighting Algeria durante a luta pela independência da França no anos 1950.

A esquerda hoje tem o Jacobin, Democracy Now!, Novara, The Morning Star, The Canary, Evolve Media e agora o Counterfire Media, sendo lançada como uma plataforma multimídia expandida após os primeiros oito anos de sucesso do site.

Nenhuma das alternativas acima são empresas comerciais, mas instrumentos com os quais ativistas se comunicam entre si, divulgam suas atividades e espalham sua visão.

Essas plataformas midiáticas têm sido, e podem estar organizando estruturas para movimentos de massas emergentes, projetadas não apenas para refutar as agências de notícias de seus oponentes, mas para fortalecer suas próprias campanhas e. ao fazê-lo, para alcançar novas audiências.

Em face das vozes desacreditadas damídia tradicional que estão intimamente ligadas ao poder da elite e mais interessadas em deslegitimar Jeremy Corbyn do que em ir atrás dos verdadeiros agentes do poder na Grã-Bretanha contemporânea, nós temos grandes oportunidades de ganhar novos públicos para nossa cobertura.

Podemos não ter acesso fácil a grandes redes de TV ou estar no topo das buscas do Google, mas mais e mais pessoas estão se voltando para as vozes de esquerda online para entender um mundo que deixou os nossos mais célebres comentaristas perplexos.

É claro que hashtags, vlogs e podcasts por si só não derrubam governos, vencem eleições ou transformam a sociedade, mas eles podem ajudar a solidificar e dar confiança a movimentos cuja capacidade de se beneficiar dos meios de comunicação tradicionais é limitada.

Então não vamos exagerar sobre o poder da mídia de determinar oportunidades políticas para a esquerda e não vamos fetichizar a lógica da mídia sobre sua contrapartida política. Afinal de contas, é menos a sofisticação de uma estratégia midiática ou o apelo de um movimento aos formadores de opinião do que a força das bases e a habilidade de galvanizar oposição de massas que melhor determina as perspectivas de mudanças significativas.

Mas isso não deve nos impedir de fornecer as histórias, análises e entrevistas que são o componente essencial na construção dos movimentos que desafiarão o racismo, a austeridade e a injustiça.

Mais ou menos 50 anos atrás, o teórico radical alemão Hans Magnus Enzensberger escreveu que:

Pela primeira vez na História, a mídia está possibilitando participação massiva em um processo produtivo social e socializado, cujos meios práticos estão nas mãos das próprias massas. Tal uso deles poderia trazer os meios de comunicação, que até agora não fazem por merecer o nome, para seu interior.

Enzensberger estava celebrando o potencial “libertador” de um meio de comunicação no qual “todo receptor é um transmissor em potencial”. Isso se aplica não apenas ao equipamento de comunicação, mas às pessoas também. Agora nós temos a oportunidade técnica e política de fazer isso realmente acontecer.

 

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