MEC estuda adotar um “critério ideológico” eliminatório na concessão de bolsas de estudo, diz jornal.

Medida pode prejudicar estudantes e linhas de pesquisa não alinhadas ao governo.

Antes de mais nada, gostaria de salientar que estou ciente de que a nota publicada no jornal O Globo pode ser sim mais um caso em que o circulo próximo de Jair Bolsonaro  planta uma noticia na mídia, para que depois o próprio presidente desminta isso em seu Twitter. Isso descredibiliza o jornalista e o jornal em que foi publicada a informação, além de levar o público a pensar que a realidade só é a que aparece nos veículos oficiais. Entretanto, gostaria de destacar alguns fatos que nos levam a crer que a nota publicada por Ascanio Seleme no jornal “O Globo” é sim digna de atenção:

Nota publicada no jornal O Globo 06/01/2019

Antes do inicio do mandato de Jair Bolsonaro noticiou-se uma “briga” entre o, até então, futuro presidente e os deputados da bancada evangélica. O motivo desta “briga” seria uma suposta indicação de Mozart Machado, educador do Instituto Ayrton Senna, ao ministério da educação.  Na ocasião o Jornal Folha de São Paulo destacou uma fala do líder da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcanti (DEM), essa fala foi a seguinte: “Para nós, o novo governo pode errar em qualquer ministério, menos no da Educação, que é uma questão ideológica para nós”. 

Coloco essa “briga” entre aspas, pois acredito na versão que o instituto Ayrton Senna deu na ocasião, a de que Mozart Machado foi sequer cogitado para o ministério já que, embora seja alinhado a direita, o educador é contrário ao “Escola Sem Partido”.

Lembro que o famigerado projeto “Escola Sem Partido” (que, ao contrario do que se pensa, não está “morto”) não é apenas uma causa que Bolsonaro “abraçou para agradar os evangélicos”, mas uma pauta que nasceu politicamente dentro da família Bolsonaro.

No ano de 2014 (com a polarização política em seu auge) o então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PSC) ligou ao senhor Miguel Nagib (advogado e idealizador de um movimento, até então insignificante, chamado “movimento Escola Sem Partido”) pedindo para que ele  escrevesse um projeto de lei baseado nas idéias do ESP. Flávio é o primeiro parlamentar a apresentar uma PL (sigla para projeto de lei) desse tipo na cidade do Rio de Janeiro,  em 13 de maio de 2014.  Ou seja, o ESP não é uma bandeira evangélica, mas  propriamente Bolsonarista! Pode-se dizer que sem os Bolsonaros não existiria o “Escola Sem Partido”.

O presidente resolveu então colocar um discípulo de Olavo de Carvalho que é, ao mesmo tempo, também favorável ao “Escola Sem Partido”, Ricardo Velez Rodriguez.

Em seu primeiro dia como presidente, Jair Bolsonaro subiu ao parlatório em frente ao palácio do Planalto com um discurso de posse carregado de paranoia, declarando “guerra ao socialismo” e pedindo ajuda do público presente nessa “missão”.  Ao final de seu discurso, o presidente recém empossado chegou a soltar a seguinte frase de efeito: “Nossa bandeira só será vermelha se for preciso sangue para mantê-la verde e amarela”.  Ao contrário do que se pensa um discurso “anti-socialista” não é totalmente oposto a um discurso de união. Ora, nada une mais um grupo que um inimigo em comum e Bolsonaro neste discurso busca  ajuda contra um inimigo, o “socialismo”.

Em seu discurso de posse como ministro da educação, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez declarou que tomaria medidas de “combate ao marxismo cultural” no ensino básico e no ensino superior. A primeira destas medidas foi cercar-se de ex-alunos de Olavo de Carvalho, o que inclui o novo responsável pelo Enem, Murilo Rezende.

Onyx Lorenzoni (ministro da casa civil) realizou recentemente um pronunciamento falando em “despetização” (um tipo de amálgama se valendo da junção de “PT” e “detetização”, este segundo termo usado para se referir ao extermínio de insetos). Na mesma ocasião Onyx também  anunciou a demissão em massa de funcionários do governo, tendo como um dos critérios a ideologia desses funcionários (jornais chegaram a publicar que a base para decisão foi uma analise das redes sociais dessas pessoas. Isso teria se dado da seguinte maneira: quem publicou em perfil pessoal no Facebook, no Twitter ou no instagram as hashtags #ForaTemer ou #MarielleVive teria ficado desempregado. Essa informação não foi desmentida pelo governo).

Portanto essa notinha do jornal O Globo dentro da coluna do jornalista Ascanio Seleme,  falando de cortes em bolsas de estudo e decisões de concessões ou não de novas bolsas, com base no que chamam “critério ideológico”, não é apenas digna de credito como é previsível que se torne realidade dentro em breve (ainda que desmintam esta nota em si, ainda que seja inconstitucional, já que os “guardiões da justiça” pouco reagiram às barbaridades de Bolsoanro até o momento e demoraram a responder aos ataques contra os alunos das Universidades e o movimento estudantil, quando o TRE determinou que fossem arrancadas bandeiras antifascistas em campus por todo Brasil, em uma ação orquestrada nunca antes vista no país, o atraso virá) .

A “caça as bruxas ideológica” nas universidades ocorrerá de uma forma ou de outra, isso é factível! E anão atingirá apenas as pós-graduações, mas as universidades e a educação como um todo. Resta saber como.

Arte da Vitrine: fotografia/retrografia de Gabriela Zchrotke (UNB)

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