NADA DEU CERTO (entenda o motivo).

 

A festa temática “se nada der certo”, realizada por alunos da escola Fundação Evangélica de Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul, demonstrou de maneira crua e vergonhosa, o menosprezo que adolescentes oriundos das classes mais altas sentem por trabalhos como: balconista, empregada doméstica, motoboy, entre outras ocupações que, em regra, são preenchidas pelos menos favorecidos. Após ampla divulgação das fotos do evento (em que alunos se fantasiavam como trabalhadores) observou-se reações inflamadas nas redes sociais, frente ao que é, inquestionavelmente, uma falta de respeito com trabalhos dignos. Mas – passado o choque do primeiro instante – já é hora de refletirmos melhor e de entendermos como as coisas chegaram a este ponto. Afinal, este caso só expôs um elefante que já estava na sala. Será que devemos mesmo sentir ódio destes adolescentes?

Para início de conversa é importante que o leitor perceba que este sentimento de mal-estar não é apenas seu. É preciso estar ciente de que este é o mal-estar de toda uma civilização, que foi causado não após a última semana, mas após décadas e décadas de convivência em uma sociedade doente, a qual o tema de uma festinha, como a da escola em Novo Hamburgo, é apenas o sintoma mais visível. Portanto, é preciso deixar claro que estes adolescentes não são nosso principal inimigo. Não foram estes adolescentes que inventaram a ideia de que determinadas profissões significam o fracasso ou o ‘’não dar certo’’, o comportamento destes alunos é apenas a reprodução de um mundo dominado por uma ideologia, que classifica seus cidadãos de acordo com seu poder de consumo.

É bastante perturbador, mas não são apenas os estudantes de uma elite dominante os expostos a esta mensagem, mas todas as pessoas inseridas no ambiente contaminado pela ideologia dominante. Estamos cercados e somos constantemente assombrados pela ideia de que hierarquia é algo natural e de que a competição define as relações humanas. Portanto, habitamos um universo em que existem os que vencem e os que falham, os não dignos e os merecedores, ou seja, “os que deram certo” e “os que não deram certo”, em uma sociedade de mercado que, em tese, garantiria a todos exatamente aquilo que merecem. Esta ideologia onipresente é conhecida como neoliberal.

Embora hoje seus simpatizantes neguem isto até a morte, o termo neoliberal existe, e de acordo com este artigo do jornal inglês The Guardian, traduzido pela Voyager, tem certidão de nascimento e o nome de seus pais na carteira de identidade. Foi concebido em Paris, em 1938, em uma reunião, que tinha entre os participantes mais famosos, os economistas Ludwig von Mises e Friedrich Hayek da chamada “Escola  Austriaca’’. É bem verdade que o neoliberalismo (nome que se não te agrada pode ser trocado por “sociedade de consumo”) nasce como uma ideia reformista, como qualquer outra ideologia, sendo radicalmente contra qualquer tipo de intervenção do estado no mercado e nas liberdades individuais. Entretanto, de forma gradual, se converteu em um sistema que favorece o lado dos patrões em detrimento dos mais pobres, sendo essa “liberdade” algo um tanto relativo, dependendo de que lado você está da balança.  Hayek, por exemplo, defendia que governos deveriam regulamentar a concorrência para evitar monopólios, mas seu pensamento deu lugar a outro, de que o monopólio, na verdade, era um premio a eficiência e que qualquer regulamentação que evite o monopólio deveria ser evitada. Um dos divulgadores desta ideia foi o celebre economista Milton Friedman .

Como tudo que é interesse da classe dominante a ideia de que tudo na sociedade de mercado premia a eficiência e pune os ineficientes ganhou força de forma rápida e tomou corpo na defesa das privatizações e na concepção de que sindicatos deveriam ter menos influência em negociações com os que detém os meios de produção, dificultando assim coisas como o aumento de salários e a aquisição de direitos por parte dos trabalhadores, criando um sistema de  “ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, como já dizia o falecido Papa João Paulo II.

Este conceito corrosivo de que a divisão entre perdedores e vencedores é algo natural se encalacrou não apenas na economia, mas na cultura através dos meios de comunicação, sendo assim aceito até pelos próprios trabalhadores, desde o zelador que aceita, de cabeça baixa, usar um elevador de serviço até a empregada doméstica que é ‘’como se fosse da família’’, mas não pode sentar-se a mesa para almoçar com seus patrões ainda que more no serviço. Os patrões, por sua vez, internalizam que todo o dinheiro é fruto unicamente de seu merecimento, estabelecendo-se então uma estranha relação onde o trabalhador apenas lida com “o fato’’ de que é inferior. Este é o cerne da formação desta sociedade tóxica dividida entre “os que deram certo” e “os que não deram certo”, o leitor pode vê-la agindo não apenas na festa da escola de Novo Hamburgo, mas na defesa da chamada ‘’meritocracia”, no significativo aumento da venda de antidepressivos (de acordo com a IMS Health, em 2016 a venda de antidepressivos cresceu 18,2% no Brasil, totalizando um comércio que gerou R$ 3,4 bilhões), no monopólio da mídia, na publicidade e principalmente na desigualdade social.

“O homem é um ser de natureza social e tudo o que tem de humano nele é resultado da sua vida em sociedade, no seio da cultura criada pela humanidade”. (Alexei Leontiev)

Como qualquer um pode deduzir ao ler sobre neoliberalismo, um dos principais empecilhos a este sistema é simplesmente qualquer noção que o trabalhador possa ter de que esta ideologia existe e de que nossa sociedade tem funcionado, em grande parte, de acordo com os dogmas neoliberais; é vantajoso para esta ideologia de interesse da classe dominante operar de forma anônima e que as pessoas acreditem que a desigualdade existe porque “a mãe natureza quis assim”. Afinal de contas ninguém quer mudar o que é natural.  Mas o que ocorreu na escola em Novo Hamburgo, e ocorre todos os dias na mente de muitos dos nossos jovens, escancara o verdadeiro problema da educação em uma sociedade dividida em classes, e nos faz (ou, pelo menos, deveria fazer) refletir sobre o que é a instituição escola em nosso contexto. Podemos criticar este acontecimento isolado, espernear, fazer cara feia e bater o pé, mas é estranho que lidemos passivamente com o fato de que, diariamente, nossos jovens pensem exatamente isto, a cada comercial de cursinho pré-vestibular ou livro de auto-ajuda que fala em “chegar lá’’, em “vencer” e que insere na mente desses jovens que o fracasso é você não ser parte da elite de médicos, advogados e grandes executivos, estabelecendo também que quem não “vence” não se esforçou o bastante, ainda que os mais pobres não tenham as mesmas oportunidades e tenham que se esforçar 10 vezes mais.

 

 “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto de poder”. (Paulo Freire).

É preciso deixar claro que a instituição escola é uma construção histórica e que a escola de nosso tempo é fruto de nosso tempo. A educação, a principio, era constituída de conhecimentos que eram passados de pai para filho, e isto não era apenas com índios, mas com todos os seres humanos. Houve um tempo em que a educação era integral e de modo espontâneo, nada de escola. É nas civilizações antigas, da Mesopotamia e no vale do Nilo (depois na Grecia e em Roma) que surgem as primeiras escolas como locais de reunião, porém, nesses lugares, se aprendia como conteúdo apenas a divisão de trabalho existente na época, que era, em resumo, um sistema de castas. É somente na idade média que professores particulares começam a ser pagos para ensinar crianças, tendo início então a educação como privilégio, utilizada para a manutenção de uma classe dominante.

Observando a história da educação percebemos também a influência do contexto no formato e no conteúdo aplicado nas escolas. A escola pública que veio a se tornar próxima a que conhecemos hoje, é revindicada durante a revolução francesa no século XVIII, quando os franceses, sob liderança da burguesia, derrotam o regime absolutista. Entra então em cena uma escola de acordo com ideais iluministas, ou seja, uma “educação cívica e patriótica com caráter popular, elementar e primário”, entretanto, novamente, é preciso salientar que esta educação não atendia a todos os cidadãos e era diferente da educação oferecida aos trabalhadores, reservada aos “irmãos das escolas cristãs”. A escola novamente é afetada com a revolução industrial, que teve início em meados de de 1760, ainda no século XVIII. Nesta época que entram a atividade as primeiras fabricas e o proletário realiza seu trabalho sem ter noção de todo o  processo (como bem mostra o filme ‘’Tempos Modernos” de Charlie Chaplin), neste período é que nota-se a escola como ferramenta de auxilio nesta alienação do homem, sendo o professor um mero transmissor de conhecimentos acumulados pela humanidade, sendo o processo educativo adaptado ao processo de trabalho no modelo capitalista. É espantoso, mas a escola publica concebida neste formato mecanicista e como ideia é a que funciona até os dias atuais no Brasil e em muitas partes do mundo (daí vem os sinais, o recreio (a única hora de diversão), os uniformes, as mera transmissão de conteúdo com pouca aplicabilidade, entre outras coisas).

Informe publicitário, veiculado pela prefeitura do Rio de Janeiro (2014).

Curiosamente um obstáculo ao status quo pode ser justamente a escola! Tendo isto em vista organizações de cunho neoliberal (como o MBL) tem dado total apoio a movimentos como o “Escola Sem Partido”, que pregam abertamente a censura aos professores que falem a seus alunos o que é a ideologia dominante da qual tratamos no início deste texto. Miguel Nagib (criador do “escola sem partido”) nunca escondeu que, para ele, “professor não pode ter liberdade de expressão”. Não lhe parece estranho, caro leitor, que pessoas que se denominem “defensores da liberdade” não estejam de acordo com uma escola livre, universal, gratuita, com autonomia de professores e alunos e que, em contrapartida, defendam uma regulamentação do estado (por força de lei) sobre a liberdade de professores em sala de aula? Pois bem, temos aí mais uma tentativa de preservar pensamentos como os manifestados na Escola de Nova Hamburgo.

A escola não deve mais educar para um conceito ultrapassado de “vencer na vida” ou de “vencedores” e “perdedores” (sendo que, por vezes, o “vencedor” é o que explora a mão de obra do tido como “perdedor”).
É preciso fortalecer professores que não sejam meros reprodutores de uma ideologia dominante, mas criar uma nova escola que trabalhe para formar cidadãos globais, que entendam que a vida não é isso. Somos sujeitos desta história, todos parte de uma coisa só chamada humanidade, o mundo é a nossa casa, se reconhecer como parte da humanidade é também ter humanidade. O contrário disso (como vemos) cria pessoas inumanas e aptas a desumanizar e (do outro lado) outras dóceis, que acatam essa desumanização ou que baixam a cabeça para “os que deram certo”. Chega de escolas (particulares e publicas) que sejam frutos da sociedade, “a sociedade” deu errado e é preciso educar para modifica-la.

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