Não dá para entender o ISIS se você não entender a historia do Wahhabismo na Árabia Saudita

Por Alistair Crooke, originalmente publicado no  Huffington Post

 

A chegada dramática do DAESH (ISIS) ao teatro de guerra do Iraque chocou muitos no ocidente. Ficaram perplexos -e horrorizados- pela sua violência e pelo seu magnetismo na juventude sunita. Mas, mais que isso, eles acharam a ambivalência da Arábia Saudita diante dessa manifestação preocupante e inexplicável, perguntando: “os sauditas mão entendem que o ISIS também é uma ameaça para eles?”

Parece – mesmo agora – que a elite governante da Arábia Saudita está dividida. Alguns aplaudem o ISIS por estar lutando contra o “fogo” xiita iraniano com “fogo” sunita. Que um novo estado sunita está se formando no próprio coração do que eles consideram um patrimônio histórico sunita; e acabam atraídos pela rígida ideologia salafista do DAESH.

Outros sauditas são mais temerosos, e lembram a história da revolta com Abd-al Aziz pelo Ikhwan wahhabita que quase implodiu o wahhabismo e a família Saud no fim dos anos 1920.

Muitos sauditas estão profundamente perturbados pelas doutrinas radicais do DAESH (ISIS) – e começam a questionar alguns aspectos da direção e do discurso da Arábia Saudita.

 

A Dualidade Saudita.

A discórdia interna na Arábia Saudita e as tensões sobre o ISIS só podem ser compreendidas entendendo a dualidade inerente (e persistente) que está no centro da composição doutrinal do reino e em suas origens históricas.

Uma das vertentes dominantes da identidade saudita pertence diretamente à Muhammad ibn’Adb al-Wahhab (fundador do wahahbismo) e ao uso que Ibn Saud fez de seu puritanismo radical e exclusivista (este ultimo não era mais que um líder menor – entre vários – das tribos beduínas em seus constantes ataques e disputas nos desertos áridos e desesperadamente pobres do Nejd).

A segunda vertente dessa dualidade embaraçosa tem relação com a mudança posterior ao rei Abdal Aziz em direção à condição de Estado na década de 1920: sua supressão da violência do Ilkhwani (para conseguir status diplomático de Estado-Nação junto a Grã-Bretanha e aos Estados Unidos); sua institucionalização do impulso original wahhabita – e a oportuna captura do crescente despejo de petrodólares a partir dos anos 1970, com o fim de canalizar a corrente volátil do ilkhwan para fora de casa – difundindo uma revolução cultural, em vez de uma revolução violenta em todo mundo muçulmano.

Mas essa “revolução cultural” não era um reformismo dócil. Foi uma revolução baseada no ódio jacobino de Abd al-Wahhab pela putrescência e desvio que ele percebeu em si – daí o seu apelo a purgar todas as heresias e idolatrias do Islã.

Impostores Muçulmanos

O escritor e jornalista americano Steven Coll escreveu sobre como este discípulo austero e inquisitorial do estudioso do século XIV Ibn Taymiyyah , Abd al-Wahhab, que desprezava a “ nobreza otomana e egípcia decorosa, artística, fumante de tabaco, estupefata de haxixe, tocadora de tambores que viaja pela Arábia para orar em Meca”.

Na visão de Abd al-Wahhab estes não eram muçulmanos; eram impostores disfarçados de muçulmanos. Nem entre os beduínos locais ele encontrou uma postura melhor. Eles irritaram Abd al-Wahhab por honrar santos, por erigir lápides e por sua “superstição” (por exemplo, reverenciando túmulos ou lugares considerados particularmente imbuídos do divino).

A todo esse comportamento, Abd al-Wahhab denunciava como bida – proibido por Deus.

Assim como Taymiyyah antes dele, Abd al-Wahhab acreditava que o periodo que o profeta Muhhamad permaneceu em Medina era a sociedade muçulmana ideal (o “melhor dos tempos”) a que todos os muçulmanos deveriam aspirar (essencialmente salafismo é isso).

Taymiyyah declarou guerra ao xiismo , sufismo e filosofia grega. Também falou contra a visita ao tumulo do profeta e contra a celebração do seu aniversário, declarando que esse comportamento apenas imitava o culto cristão a Jesus como Deus (isto é, idolatria). Abd al-Wahhab assimilou esse ensinamento anterior, afirmando que “qualquer duvida ou hesitação” por parte de um fiel em relação a essa interpretação particular do Islã deve “privar um homem da isenção dada contra ataques a sua propriedade e sua vida”.

Um dos principios centrais da doutrina de Abd al-Wahhab viria a ser a ideia de takfir. Sob a doutrina takfiri , Abd al-Wahhab e seus seguidores podriam considerar companheiros muçulmanos como infieis se esses se envolvessem em atividades que pudessem ser prejudicas a soberania da autoridade absoluta (isto é, o Rei). Abd al-Wahhab denunciou todos os muçulmanos que reverenciavam os mortos, santos ou anjos. Ele defendeu que tais sentimentos prejudicavam a total submissão que é devida a Deus. O Islã Wahhabita proibe, assim, qualquer oração a santos e entes queridos, peregrinações a tumbas e mesquitas especiais, festivais religiosos em honra a santos, a reverencia ao aniversário do Profeta Muhhamad , e até mesmo o uso de lapides ao enterrar os mortos.

Abd al-Wahhab exigiu a conformidade- uma conformidade que deveria ser demonstrada de forma fisica e tangível. Ele argumentou que todos os muçulmanos deviem jurar fidelidade a um único lider muçulmano (um califa , se houvesse um ). Aqueles que se discordam desse ponto de vista deve ser mortos, suas esposas e filhas violentadas e seus bens confiscados, ele escreveu. A lista de apostatas que mereciam a morte incluia xiitas, sufis e outras denominaçẽs muçulmanas, a quem Abd al-Wahhab não considerava , de forma alguma, muçulmanos.

Aqui não há nada que separe o whhabismo do ISIS. Apartir da institucionalização posterior da doutrina de Muhhamad ibn’abd al-Wahhab de “um governante, uma autoridade, uma mesquita”, esses três pilares foram tomados respectivamente para se referir ao Rei Saudita, a autoridade absoluta do Wahhabismo oficial e seu controle “da palavra”( a mesquita ).

Essa é a ruptura – a negação do ISIS destes 3 pilares em qualmente reside toda a autoridade sunita – faz do ISIS, que em todos os aspectos esta em conformidade com o Wahhabismo, uma profunda ameaça para a Arabia Saudita.

Um breve histórico (1741-1818)

A defesa a Abd al-Wahhab dessas visões ultra radicais levou inevitávelmente a sua expulsão de sua própria cidade – e em 1741, após algumas andanças, encontrou refugio sob a proteção de Ibn Saud e sua tribo. O que Ibn Saud percebia nos ensinamentos inovadores de Abd al-Wahhab era a forma de derrubar a tradição e as convenções árabes. Era um caminho para conquistar o pder.

O clã de Ibn saud, aproveitando a doutrina de Abd al-Wahhab, agora poderia fazer o que sempre fazia, que era invadir as aldeias vizinhas e roubar suas posses. Só que agora eles estavam fazendo isso fora do ambito da tradição árabe, sob a bandeira da Jihad. Ibn saud e Abd al-Wahhab também reintroduziram a ideia de martírio em nome da jihad, ao concender àqueles martirizados a entrada imediata no paraiso.

No inicio, eles conquistaram alguma comunidades locais e impuseram seu dominio sobre elas.(os habitantes conquistados receberam uma escolha bem limitada: conversão ao wahhabismo ou morte). Em 1790 a Aliança controlou a maior parte da Peninsula Arábica e repetidamente invadiu Medina, Siria e Iraque.

Sua estratégia – como a do ISIS hoje – era trazer os povos conquistados para a submissão. Eles tinham como objetivo incutir medo. Em 1801, os Aliados atacaram a cidade santa de Karbala, no Iraque. Eles massacraram milhares de xiitas, incluindo mulheres e crianças. Muitos santuários xiitas foram destruidos, incluindo o santuário do Iman Hussein, o neto assassinado do Profeta Muhammad.

Um oficial britanico, o tenente Francis Warden, observando a situação na época, escreveu: “eles saquearam tudo (em Karbala) e saquearam o tumulo de Hussein… matando no decorrer do dia, com circunstancias de crueldade peculiar, mais de cinco mil habitantes…”.

Osman Ibn Bishr Najdi, historiador do primeiro estado saudita, escreveu que Ibn Saud cometeu um massacre em Karbala em 1801. Ele orgulhosamente documentou aquele massacre dizendo: “tomamos Karbala , abatemos e tomamos seu povo (como escravos), então louvamos a Deus, senhor dos mundos, e não pedimos perdão por isso e dissemos ‘aos incredulos: o mesmo tratamento’.”

Em 1803, Abd-al Aziz entrou na cidade Santa de Meca, que se rendeu sob o impacto do terror e do panico (o mesmo destino estaria reservado a Medina ). Os seguidores de Abd al-Wahhab demoliram monumentos históricos e todos os tumulos e santuários em seu meio. No final, eles haviam destruido séculos de arquitetura islamica perto da Grande Mesquita.

Mas em novembro de 1803, um assassino xiita matou o rei Abd-al Aziz (se vingando do massacre em Karbala). Seu filho, Saud bin Abd al Aziz, sucedeu-lhe e continuou a conquista da arábia, os governantes otomanos , no entanto não podiam mais simplesmente sentar e assistir seu imperio sendo devorado pedaço a pedaço. Em 1812, o exército otomano, composto por egipcios, expulsou a aliança de medina, jeddah e meca. Em 1814, Saud Abd al Aziz morreu de febre. Seu infeliz filho Abdullan Bin Saud, porém, foi levado para Istambul, onde foi brutalmente executado (um visitante a Istambul relatou tê-lo visto sendo humilhado pelas ruas de Istambul por três dias, e depois enforcado e decapitado, sua cabeça cortada foi disparada de um canhão e seu coração foi cortado e empalado junto a seu corpo).

Em 1815 , as forças Wahhabistas foram esmagadas pelos egipcios (agindo em nome dos otomanos) em uma batalha decisiva. Em 1818 os otomanos capturaram e destruiram a capital wahhabita de Dariyah. O primeiro estado saudita não exisitia mais.

Os poucos wahhabitas remanescentes se retiraram para o deserto para se reagrupar, e la permaneceram, adormecidos pelo resto do seculo XIX.

A história se repete com o ISIS

Não é tão dficil de entender como a fundação do Estado Islamico pelo ISIS no Iraque contemporaneo ressoa entre aqueles que se lembram dessa história. Na verdade, o ethos do Wahhabismo do século XVIII não murchou em nejd, e voltou a surgir quando o Império Otomano desmoronou no caos da Primeira Guerra Mundial.

Os Al Saud – nesse renascimento do seculo XX- foram liderados pelo laconico e politicamente astuto Abd-al Aziz, que, ao unir as tribos beduínas, lançou o “ikhwan” saudita no espirito de Abd al-Wahhab e Ibn saud dos combates proselitistas anteriores.

O Ikhwan foi uma reencarnação do movimento de vanguarda precoce, feroz e semi-independente dos “moralistas” armados wahhabitas comprometidos que quase conseguiram se apoderar da árabia no inicio do seculo XIX. Da mesma forma que antes, o Ikhwan conseguiu recapturar Meca, Medina e Jeddah entre 1914 e 1926. Abd-al Aziz, no entanto, começou a sentir seus interesses mais gerais ameaçados pelo “jacobinismo” revolucinario demonstrado pelo Ikhwan. O Ikhwan se revoltou – levando a uma guerra civil que durou até a decada de 1930, quando o rei os derrotou: fuzilou todos eles.

Para este rei (Abd-al Aziz), a verdade simples das decadas anteriores estava se deteriorando. O petróleo havia sido descoberto na peninsula. A Grã-Bretanha e a America estavam cortejando Abd-al Aziz, mas ainda estavam inclinadas a apoiar o Sharif Hussein como único governante legitimo da arábia. Os sauditas precisavam desenvolver uma postura diplomatica mais sofisticada.

Assim o Wahhabimo mudou vigorosamente de um movimento de jihad revolucionária e purificação teológica takfiri, para um movimento de da’wa conservador social, politico e religioso para justificar as instituições que defendem a lealdade à família real saudita e ao poder absoluto do rei.

A riqueza do petroleo espalha o wahhabismo

Com o advento da bonança do petroleo- como escreve o estudioso francês, Giles Kepel, os objetivos sauditas eram “expandir e difundir o wahhabismo para tdo o mundo muçulmano para ‘wahhabizar’ o islamismo” reduzindo assim “a multidão de vozes dentro da religião” a “um credo unico”– um movimento que transcendesse as divisões nacionais. Bilhões de dólares foram – e continuam a ser – investidos nessa manifestação de soft power.

Foi essa mistura inebriante da projeção de bilhões de dolares em soft power – e da disposição dos sauditas em controlar o islã sunita, tanto para promver os interesses dos Estados unidos como simultaneamente incorporar o whhabismo educacional, social e cultural em todas terras do islã – que criou a dependencia da politica ocidental em relação à Arabia Saudita, uma dependencia que persiste desde o encontro de Abd-al Aziz com Roosevelt em um navio de guerra dos EUA (no retorno do presidente da conferencia de Yalta) até hoje.

Os ocidentais olharam para o reino e seu olhar foi tomado pela riqueza; pela aparente modernização; pela auto-professada liderança do mundo islamico. Eles escolheram presumir que o reino estava se curvando aos imperativos da vida moderna – e que o controle do islã sunita iria dobrar o reino , também, para a vida moderna.

Mas a abordagem do Ikhwan saudita ao islã não morreu na década de 1930. Recuou, mas manteve seu dominio sobre partes do sistema – daí a dualidade que observamos na atitude saudita em relação ao ISIS, hoje.

Por um lado, o ISIS é profundamente wahhabita. Por outro lado, é ultra radical de uma maneira diferente. Poderia ser visto essencialmente como um movimento de correção dentro do wahhabismo contemporaneo.

O ISIS é um movimento “pós-Medina”. Ele considera as ações dos dois primeiros califas, e do próprio profeta muhhamad, como uma fonte de imitação e nega vigorosamente a reinvidicação dos sauditas da autoridade para governar.

Quandoa monarquia saudita floresce na era do petroleo como uma instituição cada vez mais inflada, o apelo da mensagem do ikhwan ganhou terreno (apesar da campanha de modernização do rei faisal). O “método ikhwan” desfrutou – e ainda desfruta – do apoio de muitos homens e mulheres e sheikhs proeminentes. De certa maneira, Osama Bin Laden foi precisamente o representante tardio de uma aflorada tardia desse metodo ikhwan.

Hoje, o enfraquecimento da legitimidade do rei pelo ISIS não é vista como problematica, mas sim como um retorno às verdadeiras origens do projeto Saudi-wahhab.

Com o controle colaborativo da região pelos sauditas associados ao Ocidente na busca de muitos projetos influenciados pela politica ocidental (neutralização do socialismo, do ba’athismo, do nasserismo, da influencia soviética e iraniana), os politicos ocidentais destacaram sua percepção seletiva da Arabia Saudita (riqueza, modernização e influencia) mas optaram por ignorar o impulso wahhabita.

No fim das contas, os movimentos islamicos mais radicais foram percebidos pelos serviços ocidentais de inteligencia como mais eficazes na derrubada da URSS no Afeganistão – e no combate aos lideres e estados fora da area de influencia no Oriente médio.

Por que então nos supreendemos que do mandato saudita-ocidental do principe Bandar para gerir a insurgencia siria contra o presidente Assad tenha surgido um movimento de vanguarda neo-ikhwan violento e medonho: o ISIS? E por que deveriamos nos surpreender – sabendo um pouco sobre o wahhabismo – que os insurgentes “moderados” da siria se tornariam mais raros que um mitico unicornio? Por que deveriamos ter acreditado que um wahhabismo radical criaria grupos moderados? Ou por que poderiamos acreditar que uma doutrina de “um lider, uma autoridade, uma mesquita: submeter-se a ela, ou ser assassinado” poderia levar à moderação ou tolerancia?

Ou talvez nós nunca tenhamos acreditado.

 

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....