Neymar, Qatar e PSG. A contratação mais cara da história tem pouco a ver com futebol

Fim da novela, Neymar enfim resolve todas as pendências e diz sim a proposta do emergente PSG, comandado pelo Estado do Qatar através do Fundo de Investimentos do Emirado do Qatar desde 2011. A estrela brasileira larga um dos melhores clubes e elencos do mundo através da quitação da multa rescisória “impagável” de 820 milhões de reais. Tal valor da multa era considerada impagável devido o “fair play” financeiro imposto pela UEFA que impede clubes gastarem mais do que arrecadam. Porém nesse jogo não existe nada de justo. A contratação mais cara da história do futebol tem quase nada a ver com o esporte mais popular do planeta. A aquisição do jogador pelo príncipe catariano é um misto de posição no mercado internacional, relações externas, propaganda e geopolítica. Mas com bola rolando no gramado é segundo plano na melhor das hipóteses.

O Qatar é um país de ascensão econômica meteórica através das suas reservas de gás e petróleo, alcançando a segunda posição na renda per capita entre todos os países do planeta. Ao contrário de muitos outros Estados que dependem do petróleo, o Qatar diversificou seus negócios em setores estratégicos como no ramo imobiliário, comunicação, transporte, tecnologia e ganhou papel importante na geopolítica do Oriente Médio, devido também por aderir ao multilateralismo. Para se ter uma ideia o Qatar ao mesmo tempo que permite uma base americana em seu território e ter uma relação comercial ativa com a Arábia Saudita, possui também relações diplomáticas com o Irã e abriga movimentos como Hizbollah, a Irmandade Muçulmana e o Taleban. Tal estratégia de agradar a todos não funciona quando uma das partes são os Estados Unidos que já acusa o Qatar de financiar o terrorismo e esta por trás do recente embargos que Arábia Saudita e outros cinco países árabes realizaram contra o Qatar.

O país será a sede da Copa do mundo de 2022, numa sequência após Brasil (em 2014 ) e Rússia (que irá sediar em 2018), ambos do BRICS ao qual EUA sempre enxergou como uma ameaça. A Copa do Mundo tira dinheiro e direitos do povo para a FIFA e grandes empresários lucrarem, mas é inegável que se bem organizada é uma propaganda fantástica para o país sede e ponto importante de ampliar negócios futuros. Isso fez os EUA mexer seus pauzinhos e protagonizar as investigações dos dirigentes corruptos da FIFA e já questionar a Copa no Qatar. Aqui entramos numa polêmica área de discussão entre o imperialismo americano e governos autoritários que enfrentam politicamente e economicamente esse imperialismo. Alguns irão apoiar esses governos autoritários como parte da estratégia para vencer o imperialismo, outros irão criticar os governos autoritários sem fazer o mínimo recorte necessário da questão imperialista. Também terão pessoas que ao criticar um não quer dizer que apoiam o outro. Adianto que faço parte da terceira opção, mas é inegável que refazer o comando da FIFA não foi um gesto benevolente dos EUA contra a corrupção e a favor do futebol, teve interesses. Tal visibilidade do Qatar devido sua ascensão e consequentemente como futura sede da Copa do Mundo também demonstrou seus lados negativos, como trabalho escravo para realizar a Copa.

No meio desse turbilhão o príncipe xeque Hamad bin Khalifa al-Thani no poder do país desde 1995 utiliza o futebol como uma das estratégias para seguir adiante nos seus objetivos. A contratação do Neymar demonstra poder, audácia e imposição no mercado, claro sinal que o país não vai recuar. O brasileiro será o garoto propagando do Governo e da Copa do Mundo. O PSG ter uma saúde financeira, se estruturar, ser vencedor, agradar a torcida parisiense, tudo isso fica secundário. Lógico que se acontecer tudo isso, melhor pro Qatar, mas o que vimos é um novo patamar na apropriação do futebol, seja pelo capital, Estado e/ou capital de Estado. Um clube de futebol jamais conseguiria contratar Neymar, mas 820 milhões de reais para um dos países mais ricos do mundo para reverter essa situação citada é cosquinha. É disso que se trata a crítica ao Futebol Moderno, é o dinheiro mudar a essência do futebol e consequentemente as arquibancadas, aliás passou da hora de mudarmos esse termo para Futebol de Negócios, pois Moderno deixa uma ambiguidade e margem para estúpidos dizerem que sentem saudades de discurso de ódio e zagueiros caneludos que só sabiam bater.

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