Nós amamos a pedofilia

Termos como cultura do estupro, gaslighting ou apropriação cultural há algum tempo já fazem parte do vocabulário 101 da militância com acesso à internet. Pela ausência de artigos nacionais sobre o assunto ou talvez pela hipocrisia de alguns militantes homens e de esquerda que só o duplipensar explica, é que um desses termos especificamente me chamou a atenção. Hoje vamos falar da cultura da pedofilia.

Perdão pelo clickbait, mas precisava chamar a atenção de vocês para essa questão.

Em setembro de 2015, um homem sob o pseudônimo de Todd Nickerson escreveu um artigo[1] para o salon.com com o título “Eu sou um pedófilo, mas não um monstro”. No texto, ele descreve a atração sexual que sente por crianças e sua suposta incapacidade de lutar contra isso. Nickerson pede que sejamos compreensivos com “non-offending pedophiles”, ou seja, que nós encaremos o tesão de pedófilos que nunca chegaram às vias de fato como uma orientação sexual, sem nenhum prejuízo. Até certo ponto e mesmo discordando do autor que trata esse “transtorno” como um impulso inato e intratável, concordo que pedófilos como ele que supostamente nunca abusaram de crianças mereçam algum nível de transigência. Afinal, o que seria feito de todos nós se fôssemos condenados apenas pelo que está dentro das nossas cabeças? O problemático nesse artigo não é o pedido de Todd Nickerson de que as pessoas não o tratem como o homo sacer do século XXI, nisso estamos mais ou menos de acordo. O problemático é o autor se identificando como um “pro-contacter” – um pedófilo que acredita que “sexo” entre adultos e crianças deveria ser legal e que essas relações não trazem nenhum estrago desde que sejam “consensuais”. Me pergunto qual é a definição de consentimento quando um menino de 10 anos “consente” em  ser molestado por um homem de 60. Até então, nem nos meus pesadelos mais tenebrosos eu imaginaria que o fim das leis de idade de consentimento fosse pauta em algum lugar do mundo. Decidi me aprofundar mais no assunto e para minha surpresa, descobri dezenas de organizações, juridicamente reconhecidas, que militam pelo direito de pessoas adultas molestarem crianças pequenas. A mais relevante delas é a NAMBLA[2]. Só a logo dessa associação já é suficiente para dar nojo se você pensa no que há por trás dessa fonte alegre e dessa gradiente de cores.

Mas por que eu estou citando essa publicação de dois anos atrás para falar de cultura da pedofilia?

Para além do link óbvio, eu acredito que esse texto traz informações importantes para que nós possamos entender a pintura inteira. A primeira delas é a evidenciação de um ativismo pedófilo que, além de organizações públicas e próprias, tem espaço na mídia mainstream (como é o caso do salon.com) para advogar abertamente pela sua causa. A segunda é a tentativa através do discurso, ainda que sob um pseudônimo, de transformar a pedofilia num “padrão sexual aceitável” desde que respeitadas as restrições da lei. Todd Nickerson pede “compreensão”. Ele e outros pedófilos são agora as grandes vítimas de um destino biológico insuportável.

Não, Todd, eu não acho que você seja um monstro. Monstros não existem e pedófilos como você, infelizmente, são muito reais. Não espere de mim compreensão. Aliás, eu acho que você e os seus fetiches já estouraram a cota de compreensão. Vocês tem mais compreensão do que, de fato, merecem e vou explicar o porquê.

A cultura da pedofilia

Vamos começar por um fato interessante: A vasta maioria dos pedófilos é homem[3]. E a maioria das crianças vitimizadas pela pedofilia, não por um acaso, é do sexo feminino[4]. Que tipo de doença é essa que escolhe a dedo fêmeas como alvo e os machos como perpetuadores da violência? O nome dessa doença é patriarcado. A pedofilia não acontece num vácuo, desligada de toda a hierarquia social que trata mulheres como meros receptáculos e é isso que significa cultura da pedofilia.
Explicado o conceito geral, vou trazer em pontos alguns exemplos da cultura da pedofilia se manifestando no nosso dia a dia:

• A adultização de meninas e infantilização de mulheres são dois lados de uma mesma moeda. Ícones sexy da cultura pop fantasiadas de criança em performances com conotação sexual óbvia e concursos de miss mirim que transformam bebês em pequenos adultos com dentaduras, perucas e lingeries são exemplos da cultura da pedofilia. O “belo” nessas representações está justamente na capacidade que o adulto/criança tem de performar a outra faixa etária.

Melanie Martinez vs. candidata do toddlers and tiaras

• Virgindade, uma pele sem rugas, corpos 100% depilados e vários outras marcas características da “juventude” são sinônimos de beleza para as mulheres. A indústria cosmética usa palavras como “anti-idade” e “anti-envelhecimento” para vender seus produtos e existem milhares de cremes noturnos, diurnos, para os olhos, contra marcas de expressão, que nos prometem uma “pele de bebê”. A pergunta sensata a se fazer é: Por que diabos uma mulher adulta quer ter uma pele de bebê? Por que é desejável que mulheres tenham características de crianças e que características de crianças (como uma vagina sem pelos) sejam sexualmente atraentes para os homens?

• A inexperiência e a inocência são consideradas qualidades em mulheres adultas. Na mídia, mulheres atraentes normalmente são retratadas como completas imbecis e estudos mostram que homens tem preferência por mulheres “intelectualmente inferiores”[5]

• Mulheres são estimuladas a manterem um nível quase andrógino de infantilização dos corpos. Distúrbios alimentares insuflados pelas empresas multi-bilionárias de produtos “fitness” e cirurgias plásticas que tem como objetivo diminuir os grandes lábios vaginais[6] ou “apertar” o canal dando a ilusão de “sempre virgem” vem aumentando exponencialmente. Do lado oposto, meninas são induzidas ao uso de saltos altos, maquiagem e sutiãs de bojo push-up para aumentar os seios.

• As categorias mais acessadas no PornHub[7] são as “Teen” e “Barely legal”. Mulheres em fantasias de colegial e pirulitos na boca, no maior estilo Lolita Haze (que tinha 12 anos no livro e que se transformou num ícone sexy da cultura pop), interpretam nos pornôs primeiras relações forçadas com padrastos, com professores mais velhos, como internas de orfanatos, enfim… todo tipo de estupro de menores que, é importante dizer, acontece na vida real com milhares de crianças, a indústria pornô reproduz em seus filmes e transforma em material masturbatório.

Fantasia de “Naughty school girl”

• Na cultura da pedofilia, nós temos termos específicos para tratar meninas jovens sexualmente atraentes: “ninfetas”[8],“novinhas”, e “chaves de cadeia”, o último em especial é tão comum que nos faz pensar se o único impedimento de homens adultos em se relacionar com crianças não seria apenas as leis de idade de consentimento.

• Milo Yiannopoulos é um jornalista e palestrante britânico que defende a “pederastia” – a relação sexual entre meninos adolescentes e adultos – como um recurso “formativo” para o caráter desses jovens[9]. Eu não estou falando de um qualquer: Milo Yiannopoulos é considerado o porta voz do movimento alt-right americano. Ele justifica a defesa dizendo que “se não fosse pelo padre Michael, eu não seria tão bom no oral hoje em dia”.

“Trump, por favor deporte pessoas gordas”

Posso passar a noite inteira mostrando em tópicos outros exemplos de como mantemos uma relação doentia entre sexo e símbolos da infância, mas acredito que só esses exemplos são suficientes para expressar o quão naturalizada é esse tipo de associação. Obviamente nem todos os homens que tem preferências sexuais por mulheres depiladas ou mães que inscrevem suas filhas em concursos de beleza são pedófilos na definição estrita da palavra. Mas é interessante perceber como um grande número de pessoas, sobretudo homens, como resultado de um condicionamento cultural profundo, acham sexualmente atraentes a extrema magreza, lábios interiores escondidos, himens intactos, corpos sem pelos, “pele de bebê”, inexperiência… coisas que naturalmente fazem parte do corpo e da mente infantil.

Muito mais compreensão do que merecem

Pedofilia não é tão ofensivo à moral social quanto o artigo de Todd Nickerson faz parecer. Eu cresci num corpo feminino e gostaria que fosse. Os desejos pedófilos são recebidos de braços abertos por essa supremacia masculina que não vê nada de errado em fetiches com mulheres chupando chupetas ou vestidas de colegial. Pedófilos estão mais protegidos da violência social do que nossas meninas estão da violência sexual dos pedófilos. Ser “compreensiva” com homens pedófilos, ainda que estes prometam nunca machucar uma criança, significar aceitar como normal que todos os homens, pedófilos ou não, continuem erotizando características infantis. Significa permitir, desde que nenhuma lei seja descumprida, que organizações pedófilas continuem falando publicamente pelo fim das leis de idade de consentimento, como se esse tipo de discurso por si só já não trouxesse prejuízos. Para Todd Nickerson e para todos os outros pedófilos na mesma situação, eu ofereço altas doses de convivência pacífica e o direito a um processo com todas as etapas previstas em lei e todas as garantias constitucionais, caso eles venham a abusar de uma criança algum dia. Infelizmente, “compreensão” eu não posso dar. “Compreender” está muito além da minha capacidade e do meu objetivo quando se trata deste assunto.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.