Nossos pesadelos serão verdade. O passado já começou.

No dia 28 de Agosto de 2018, o então candidato a presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, concedeu uma entrevista ao Jornal Nacional. A entrevista ficou marcada (entre outras coisas) pela exibição de um livro chamado “Aparelho Sexual e CIA“, tal livro seria uma cartilha, parte de um “Kit Gay” que seria distribuído para crianças de 6 anos nas escolas públicas. O objetivo disso? Transformar essas crianças em homossexuais para assim minar a família tradicional e instaurar o bolivarismo no Brasil, coisa que o então deputado constatou em um evento chamado “9• seminário LGBT infantil”, o que o teria deixado horrorizado a ponto de falar coisas como “preferia um filho morto em um acidente de carro do que um filho gay” .

O preconceito de Bolsonaro é real, mas acontece que não existe nenhum “Kit Gay”. O que existiu um dia foi a ideia de um programa chamado “escola sem homofobia” (uma apostila de orientação aos professores sobre como trabalhar o assunto homofobia em sala de aula, com alunos em idade ginasial – a partir de 11 ou 12 anos e não 6, como afirmado pelo candidato na ocasião). Programa que foi vetado pela então presidente Dilma Rousseff após pressão da bancada evangélica. Entretanto, o livro “Aparelho Sexual e CIA”  nunca fez parte de nenhum programa de governo, muito menos foi produzido pelo MEC para ser distribuído em escolas, como, aliás, já foi negado pela própria editora .

Bolsonaro sabe que o tal livro não faz parte de nenhum “Kit Gay para crianças de seis anos”, sabe também que não existiu nenhum evento chamado “9• seminário LGBT infantil”… O negócio é que, para eleger um cara desse, o eleitor precisa acreditar que o ambiente está MUITO mais caótico do que, de fato, está. Para isso crise econômica e corrupção generalizada não bastam, é preciso que o país tenha se tornado completamente degenerado do ponto de vista moral.

Então, se não existe esse ambiente caótico, cria-se esse ambiente através da palavra, elege-se um inimigo responsável e apresenta-se o único preocupado em resolver o problema, um homem “livre de viés ideológico” (ele próprio, Jair Messias Bolsonaro).

Por exemplo:


Ninguém vai se preocupar se 28 exemplares de um livro suíço foram comprados pelo Ministério da Cultura para bibliotecas públicas (por mais que este livro fale de sexo e seja politicamente incorreto). Afinal, em uma biblioteca publica tem todo tipo de livro!
Essa é a verdade.

Mas todos iriam pensar que chegamos ao fundo do poço e ao auge da degeneração moral se alguém nos conta que o mesmo livro é uma cartilha do Ministério da Educação criada com o objetivo de ser distribuída massivamente nas escolas publicas e que faz parte de um “Kit Gay”, que visa tornar crianças de 6 anos homossexuais, sexualmente ativas.
Isso é mentira.

Ninguém liga (exceto os realmente homofobicos) se descontrução da heteronormatividade significa aprender a respeitar a orientação sexual do outro, ou seja, não tratar quem não é heterossexual como um doente.
Essa é a verdade.

Mas todos iriam ficar, no mínimo, em choque se o mesmo termo significasse a destruição da heterossexualidade.

Isso é mentira.

Percebem? Bolsonaro só é possível em um desses mundos.

Jair Bolsonaro só existe em um mundo de mentira, em um Brasil imaginário. Um mundo de medo e paranóia e ele fará de tudo para manter esse “mundo” em pé, mesmo agora como presidente. Sinais disso já se faziam presentes tanto em seu primeiro discurso em uma live de facebook após as eleições, em que seguiu insistindo na falácia de “combater o comunismo”, quanto em uma de suas primeiras entrevistas como presidente eleito no Jornal Nacional, em que novamente insistiu na farsa do “Kit Gay”.  Em breve, se nada for feito, as vitimas dessas mentiras não devem ser apenas os petistas e haverá uma perseguição de inimigos inventados, simplesmente para que Bolsonaro aumente o próprio poder.

Não me surpreenderia se Bolsonaro, para passar a mensagem de que não tem aspirações autoritárias, buscasse acalmar a população com um pronunciamento público, afirmando que não fará “nada fora da lei”. O que talvez muita gente não perceba é que não é preciso estar fora da lei para ser autoritário, basta mudar leis existentes, destruir outras e criar novas leis.

Devo lembrar-lhe que, um dia, o apartheid esteve dentro da lei, que a escravidão esteve dentro da lei e que o AI-5 foi a própria lei. Com ideias como “Excludente de ilicitude” para agentes do estado e uma centena de articulações para forçar “escolas sem partido” pelo Brasil, assim como uma série de conflitos entre os poderes, a história está fadada a repetir-se.

 

No dia 24 de Setembro de 2019, pela primeira vez, um discurso de Jair Messias Bolsonaro abriu a Assembleia Geral da ONU. Apesar do presidente já ter rompido com todos os limites da racionalidade não apenas durante seu passado, como em várias de suas falas recentes, havia uma expectativa por parte do público, de que essa fala na ONU fosse em um tom, pelo menos, mais amigável, tanto por este ser um discurso escrito e discutido previamente por assessores, quanto por partir de um texto concebido num contexto em que o Brasil, em tese, se preocuparia em limpar sua imagem perante o mundo. Mas não foi isso o que aconteceu, o presidente se mostrou ao mundo como já conhecíamos desde os tempos de CQC.

De acordo com matéria vinculada na revista ÉPOCA, o discurso que Jair Bolsonaro fez na abertura da Assembleia Geral da ONU foi escrito pelo ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, pelo ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, pelo filho Eduardo Bolsonaro, e por Filipe G. Martins, assessor internacional de Bolsonaro. Com exceção de Heleno, todos Olavistas.

Na ONU vimos novamente um Bolsonaro fanático, paranóico e conspirador, falando para sua base de extrema direita, ignorando a realidade e tentando expandir o “Brasil imaginário”, que fez com que seu governo fosse possível, para além das fronteiras nacionais.

Em sua fala, entre outros absurdos (como uma referência a própria “ideologia de gênero”), Bolsonaro afirmou ter salvado um Brasil que estava, segundo ele, “à beira do socialismo”, insinuou que o programa “Mais Médicos” seria uma maneira de inserir espiões e instaurar o comunismo no Brasil, e disse (pasmem) que a Amazônia “está praticamente intocada”. Bolsonaro tratou com certa normalidade as assustadoras queimadas na Amazônia, culpando não apenas o fogo criminosamente ateado por capangas de fazendeiros, mas também o que chamou de “queimadas espontâneas, e algumas criminosas, feitas pelos próprios índios e população local”, como se não bastasse, tratou de pintar a liderança indígena Cacique Raoni como um inimigo, lendo, em seguida, uma carta que teria sido escrita por um grupo de “agricultores indígenas”.

É importante também destacar que esse discurso foi assistido pelos olhos plácidos de Ysani Kalapalo (que a partir de hoje será conhecida mundialmente como “a Índia do Bolsonaro”) por, vergonhosamente, servir de objeto de cena para um discurso que colocou parte das queimadas na Amazônia na própria população indígena.

No ano passado a principal associação representativa dos índios do Parque do Xingu, em Mato Grosso, a ATIX (Associação Terra Indígena Xingu) afirmou em nota que Ysani não representa os indios do Xingu, na nota, a ATIX ainda disse que Bolsonaro é “anti-humano”. De acordo com o jornal O Globo ontem (23) Caciques de 14 povos indígenas do território do Xingu, em Mato Grosso protestaram contra o convite feito por Jair Bolsonaro para que a indígena integre a comitiva do presidente na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Quanto a vexatória parte do discurso do presidente colocando, lado a lado, tribos indígenas, que já usaram e que usam do fogo para abrir caminhos na mata ou para o plantio e as gigantescas queimadas criminosas realizadas por grandes proprietários de terra e pessoas ligadas ao agronegócio que, em questão de semanas, liquidam com florestas inteiras para fazer pasto (culpando ambos, em pés de igualdade, pela destruição no meio ambiente) não parece algo tirado do nada, um discurso similar sobre a cultura e a história indígena, em especial, com relação a mata Atlântica, pode ser visto em um episódio do programa “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” do canal a cabo History Channel, feito com base no livro homônimo de Leandro Narloch e apresentado pelo Youtuber Felipe Castanhari.

Essa e outras falácias de Narloch são desmentidas neste otimo texto publicado no site “Combate racismo ambiental”.

É evidente – como veremos agora ser repetido incansavelmente pela grande mídia, que tentará fazer malabarismo para passar um clima de “normalidade”- que Bolsonaro fala para seu público interno, ou seja, para seu eleitorado. Mas nem tudo se resume ao pleito eleitoral de 2022. A verdade é que “o buraco é muito mais embaixo” e que os veículos de mídia não estarão cumprindo devidamente seu papel até tratar o atual governante do Brasil como parte de uma extrema direita, que adota táticas e discursos genuinamente fascistas.

Quando se fala de política palavras se transformam em ações, que tem efeitos visíveis na vida real. É preciso alertar para como a paranóia e como justificativa para políticas de governo calcadas nessas paranóias é perigosa. Esse não é apenas um discurso que remonta os tempos da guera fria, esse tipo de discurso conspiratorio levou ao antissemitismo nazista, a queima de livros em Viena, criou conflitos para justificar posições de liderança fez jorrar muito sangue inocente no decorrer da história. É o mesmo discurso que diz que “policial tem carta branca para matar” que gera o genocídio dos pretos e dos pobres. É o medo em cima das minorias que justifica a morte dessas minorias, é negar a fumaça preta no céu que faz com que o fogo continue consumindo as florestas. Mas, claro, a reação ao Bolsonarismo deve vir não apenas dos jornalistas, mas da população em geral (pode demorar, mas essa reação um dia virá).

As palavras de Bolsonaro podem assustar o mundo, causar uma “saia justa” na ONU, gerar o repúdio de Angela Merkel ou até mesmo elogios, como um “Bom Garoto” de gente como Donald Trump (seguidos da ordem para pegar uma bola de borracha, talvez). Mas, no fim das contas, só quem poderá quebrar os muros que cercam a “Bozolandia” somos nós, o povo que vive aqui.

Não devemos esperar nada partindo de fora. Organize-se, proteste, antes que coloquem o último tijolo nesse muro e seja muito (MUITO) mais difícil escapar.

Facebook Comments