O Bem Viver como alternativa ao capitalismo

Originalmente publicado aqui.
Tradução por Rodrigo Santana Cardoso
Revisão: Giulia Lyra


Entrevista de L. Concheiro com Alberto Acosta (Equador). O bem viver se apresenta como uma alternativa radical ao capitalismo: propõe uma nova relação entre os homens e, fundamentalmente, dos homens com a natureza. Apresentamos aqui uma entrevista com um dos principais teóricos e impulsionadores do tema: Alberto Acosta, ex-ministro de Energia e Minas do Equador, e presidente de sua Assembleia Constituinte.

O que é o “bem viver” ou, para dizer em kichwa, o “sumak kawsay”?

O sumak kawsay, o bem viver, é uma visão do mundo que emerge com força dos povos do sul, os mesmos que foram marginalizados na História. O bem viver não implica numa proposta acadêmico-política, mas na possibilidade de aprender realidades, experiências, práticas e valores presentes em muitas partes nesse momento em meio à civilização capitalista.

Esse bem viver, para tentar uma primeira definição, propõe a busca da vida em harmonia do ser humano consigo mesmo, com seus congêneres e com a natureza, entendendo que todos somos natureza e que somos interdependentes uns com os outros, que existimos a partir do outro. Buscar essas harmonias não implica em desconhecer os conflitos sociais, as diferenças sociais e econômicas, nem tão pouco negar que estamos em uma ordem, o capitalismo, que é antes de tudo predador.  Justamente, o sumak kawsay seria um caminho para sair desse sistema.

Em que se diferencia o bem viver de outros questionamentos às ideias do desenvolvimento e progresso? Por que é uma alternativa radical distinta das demais?  

As crises provocadas pelo capitalismo desenfreado – sempre selvagem – ocasionam maiores níveis de desequilíbrio social e cultural e conduzem, simultaneamente, a uma maior destruição da natureza. Esta interminável tendência amplifica cada vez mais a exclusão, o autoritarismo e a intolerância, além das desigualdades tão próprias do sistema capitalista.


Assim os limites da natureza, cada vez mais ultrapassados pela expansão das atividades típicas da modernidade – essas, exacerbadas pelas demandas da acumulação de capital – são cada vez mais evidentes. Ao mesmo tempo, a desigualdade – inerente ao capitalismo, sendo assim a civilização da desigualdadeencontra múltiplas e crescentes rupturas, que provocam complexos e dolorosos processos, como a imparável migração dos países do sul ao Estados Unidos e à União Europeia; e agora, incluso, o caminho contrário dos habitantes de países em crises, como é o caso da Espanha, por exemplo.

Isso demonstra claramente que o crescimento da economia não tem como consequência a felicidade, nem sequer nos países considerados desenvolvidos. E mais: esse crescimento se dá, no final, quase sempre aumentando as desigualdades nas sociedades: a riqueza de uns poucos se sustenta, com frequência, na exploração de uma maioria e da natureza, ou simplesmente na especulação.

Com esse horizonte, é preciso iniciar uma discussão reconhecendo que o sistema capitalista vive de sufocar a vida e o mundo da vida, quer dizer, o trabalho e a natureza. Este é o cerne da questão. Não podemos seguir pela via do progresso tradicional, entendido como um processo de acumulação permanente de bens materiais, ter em vista os limites biofísicos da natureza e a  imparável e crescente desigualdade social.

Por isso dizemos que o bem viver é algo diferente ao desenvolvimento. Não é uma alternativa de desenvolvimento: é uma alternativa ao desenvolvimento. Não se trata de aplicar um conjunto de políticas, instrumentos e indicadores para sair do “subdesenvolvimento” e chegar naquela desejada condição de “desenvolvimento”. Uma tarefa muito inútil. Quantos países alcançaram o desenvolvimento? Muito poucos, assumindo que o objetivo a ser buscado era o desenvolvimento.

Os caminhos para o desenvolvimento não foram o maior problema. A dificuldade foi na própria concepção de  desenvolvimento. E mais: o mundo vive um mal desenvolvimento generalizado, incluindo os países considerados como industrializados, ou seja, os países cujo estilo de vida deveria servir como farol referencial para os países atrasados. Isso não é tudo: O funcionamento do sistema mundial é um mau desenvolvimento.

Em suma, é urgente dissolver o tradicional conceito de progresso em sua deriva produtivista e do desenvolvimento em sua direção única, sobretudo em sua visão mecanicista de crescimento econômico, assim como em seus múltiplos sinônimos. Porém não só se trata de dissolver; se requer uma visão diferente, muito mais rica em conteúdo e em dificuldades.

O que coloca o bem viver no lugar da noção de desenvolvimento? Que visão de tempo estabelece frente à visão linear e progressiva da modernidade?

É importante entender que sob alguns saberes indígenas, não há ideia análoga à do desenvolvimento, o que leva à rejeição desse conceito em muitos casos. Não existe a concepção de um processo linear da vida onde estabelece um estado anterior e posterior, ou seja, de subdesenvolvimento e desenvolvimento; dicotomia pela qual pessoas ou países devem transitar para a obtenção do bem-estar, como no mundo ocidental. Nem há conceitos de riqueza e pobreza determinados pela acumulação ou falta de bens materiais.

O bem viver deve ser assumido como uma categoria em permanente construção e reprodução. Com um abordagem holística, é preciso compreender a diversidade de elementos que estão condicionadas as ações humanas que propiciam o bem viver, como são o conhecimento, os códigos de conduta ética e espiritual em relação com o entorno, os valores humanos e a visão do futuro, entre outros. O bem viver, em definitivo, constitui uma categoria central da filosofia de vida das sociedades indígenas.

Dessa perspectiva, o desenvolvimento convencional é visto como uma imposição cultural herdeira do saber ocidental, portanto colonial. A resistência à colonialidade implica num distanciamento do desenvolvimentismo. A tarefa portanto é decolonizadora, e ademais deve ser depatriarcal. Nesse processo se necessita, em primeiro lugar, uma decolonização intelectual para pouco a pouco decolonizar a economia, a política e a sociedade.

O bem viver, definitivamente, busca uma cosmovisão diferente da ocidental, pois surge de raízes comunitárias não-capitalistas. Rompe por igual com as lógicas antropocêntricas do capitalismo, enquanto civilização dominante, e com os diversos socialismos reais existentes até agora, que deverão repensar desde as posturas sócio-biocêntricas e que não se atualizaram simplesmente mudando de nomes. Não nos esqueçamos que socialistas e capitalistas de todo tipo se enfrentaram e ainda se enfrentam no quadrilátero do desenvolvimento e do progresso.  

Que tipo de sociedade pretende construir o bem viver?

O bem viver propõe, e aqui repito o dito acima, sociedades baseadas em uma vida harmônica do ser humano consigo, com seus congêneres e com a natureza, porque todos somos natureza e só existimos a partir do outro.

Ao contrário do mundo do consumismo e da competição extrema, o que se pretende é construir uma sociedade em que o individual e o coletivo coexistem em complementaridade entre si e em harmonia com a natureza, e em que a racionalidade econômica se reconcilie com a ética e o bem comum. A economia tem que reencontrar-se com a natureza, para mantê-la e não destruí-la; em suma, para retornar a seu valor de uso e não ao valor de troca.

O objetivo não é ter sempre cada vez mais bens materiais, sendo isso insustentável a longo prazo em um mundo com limites biofísicos que já estão sendo ameaçados. Como dizem os andinos: rico não é aquele que tem muitas coisas materiais, mas que tem menos necessidades. Isso caminha, certamente, a uma redistribuição dessas coisas acumuladas em poucas mãos. Essa aceitação não significa negar os valiosos avanços tecnológicos da humanidade.

O bem viver implica uma mudança civilizacional. A idéia do iluminismo, que se espalhou com grande força por vários séculos, é questionada, onde acreditava-se que o ser humano é obrigado a dominar e controlar a natureza.

Um dos princípios básicos do bem viver é a abordagem de um novo relacionamento entre o homem e a natureza. Como é esse relacionamento? Quais subjetividades emanam disso?

Ao contraponto à lógica antropocêntrica dominante é necessária uma abordagem sócio-biocêntrica que nos leve a avançar na compreensão da natureza como sujeito de direitos. Ao longo da história do Direito, cada ampliação dos direitos foi anteriormente impensável. A emancipação dos escravos, ou até mesmo a extensão dos direitos a afro-americanos, às mulheres e às crianças foram rechaçadas por serem consideradas ideias absurdas. Foi necessário reconhecer o direito de ter direitos, e isso sempre foi alcançado com uma intensa luta política para mudar as leis que negavam esses direitos.

A libertação da natureza dessa condição de sujeito sem direitos, ou de simples objeto de propriedade, exigiu e exige um esforço político para que se reconheça como sujeito de direitos. Esse aspecto é fundamental se aceitamos que todos os seres vivos terem o mesmo valor ontológico, o que não quer dizer que todos sejam idênticos.

O assunto não é fácil. Não será fácil perceber na realidade os direitos da natureza; esses direitos significam empenhar-se politicamente para uma mudança de objeto a sujeito, como parte de um processo de ampliação de direitos dos sujeitos da lei. O central dos direitos da natureza é resgatar o direito à existência dos próprios seres humanos. Este é um ponto central dos direitos da natureza.

Então, não é necessariamente uma nova economia, como mencionado acima, mas é necessário outro modo de fazer política. Para começar, é essencial desenvolver o conceito de cidadania em si. Os direitos da natureza precisam, e ao mesmo tempo originam, outro tipo de definição de cidadania, que é construída no social, mas também no ambiental: a meta-cidadania-ecológica. Esses tipos de cidadania são plurais, pois dependem de histórias e ambientes; eles adotam critérios de justiça ecológica que ultrapassam a visão tradicional de justiça.

Então, além da cidadania ecológica e da cidadania individual, de caráter liberal, é necessário recuperar e fortalecer a cidadania coletiva, que surge dos direitos coletivos dos povos e nacionalidades. Cidadanias são tudo o que deve ser nutrido pela comunidade, onde os indivíduos encontram o sentido de sua existência. E são essas cidadanias – individuais e coletivas – que, como previsto na Constituição equatoriana, devem defender e cristalizar os direitos da natureza.

Nas novas constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009) se formalizaram algumas das ideias do Bem Viver. Por que eleger um caminho constitucional? Que elementos foram incorporados?

Cada um desses processos tem a sua explicação própria. O processo constituinte equatoriano – fiel às demandas acumuladas pela sociedade equatoriana, oriundo das expectativas criadas e responsável pelos problemas que foram experienciados e que haviam se acumulado durante séculos – foi projetado como meio, e incluso como um fim, para gerar mudanças estruturais. Assim, o conteúdo constitucional aflora múltiplas propostas para impulsionar transformações a fundo, construídas ao longo de muitas décadas de resistências e de lutas sociais e que articularam diversas agendas, dos trabalhadores, dos indígenas, dos campesinos, da população urbana, dos estudantes, dos ecologistas, das mulheres, dos mais velhos, dos jovens e outros tantos setores progressistas. Justamente nessas lutas de resistência e de propostas, quando se enfrentava o neoliberalismo, que se foram construindo alternativas de desenvolvimento e incluindo alternativas à ele, como o é o bem viver.

Um fato a ser lembrado: o Equador registrou vinte constituições desde 1830. Isso quer dizer instabilidade institucional, assim como a lógica política desse processo constituinte em um país que se encontra constantemente em ebulição por conta dos inúmeros problemas acumulados durante centenas de anos até então, e que se pretende resolver através da participação democrática.

Poderia o bem viver se tornar uma alternativa global ou funciona exclusivamente em países com raízes indígenas?

Com sua postulação de harmonia com a natureza, de reciprocidade, de racionalidade, de complementaridade e de solidariedade entre indivíduos e comunidades, com sua oposição ao conceito de acumulação perpétua, com seu regresso aos valores de uso, o bem viver, enquanto proposta sem preconceitos e em construção, abre a porta para formular visões alternativas de vida.

O bem viver, sem esquecer e menos ainda manipular suas origens ancestrais, pode servir como plataforma para discutir, concordar e aplicar respostas aos efeitos devastadores das mudanças climáticas globais e à crescente marginalização e violência social no mundo. Pode até contribuir para propor uma mudança de paradigma em meio à crise que atinge os países outrora centrais. Nesse sentido, a construção de um bem viver, como parte de processos profundamente democráticos, pode ser útil para encontrar respostas globais para os desafios que a humanidade tem que enfrentar.

Essa proposta de bem viver, desde que seja ativamente assumida pela sociedade, pode ser projetada fortemente nos debates que ocorrem no mundo e pode até ser um gatilho para enfrentar, propositadamente, a crescente alienação de uma grande maioria dos habitantes do mundo. Em outras palavras, a discussão sobre o bem viver não deve se limitar à realidade andina e amazônica. Embora admitamos que é extremamente difícil assumir o desafio de construir uma boa vida em comunidades imersas no turbilhão do capitalismo, estamos convencidos de que há muitas opções para começar a construir essa utopia em outros lugares do planeta, inclusive em países industrializados.

O bem viver, que emerge das visões utópicas, baseia-se na realidade do sistema capitalista ainda existente e na necessidade imperativa de promover no mundo a vida harmoniosa entre os seres humanos e entre estes e a natureza; uma vida que coloca no centro a auto-suficiência e o autogerenciamento dos seres humanos que vivem em comunidade. O esforço deve centrar-se nas substâncias (Ana Esther Ceceña) e não nas formas (instituições ou regulamentos). Ou seja, em suma, um grande desafio para a humanidade.

O bem viver andino-amazônico questiona o conceito eurocêntrico de bem estar e, enquanto proposta de luta, confronta a colonialidade do poder. Sem minimizar essa contribuição indígena, devemos aceitar que as visões andinas e amazônicas não são as únicas fontes de inspiração para impulsionar o bem viver. Mesmo de diferentes lugares  do mundo, e até mesmo em círculos da cultura ocidental, têm se levantado – desde tempos atrás – muitas vozes que poderiam estar de alguma forma sintonizadas com essa visão indígena.

Além dessas visões de Abya-Yala, há muitos outros pensamentos filosóficos relacionados de alguma forma à busca do bem viver, visões filosóficas inclusivas com a natureza e as comunidades humanas em diferentes partes do planeta. Sumak kawsay ou boa vida, como cultura de vida ou vida em plenitude, com diferentes nomes e variedades, tem sido conhecido e praticado em diferentes períodos nas diferentes regiões da Mãe Terra; Ubuntu na África ou Svadeshi, Swaraj e Apargrama na Índia. Além das críticas que podem ser feitas às origens da filosofia ocidental, pode-se até resgatar elementos da “boa vida” de Aristóteles. Além disso, de diferentes ângulos, não apenas desses espaços, as respostas aparecem para as demandas não satisfeitas pelas visões tradicionais da modernidade.


O bem viver, então, não é uma originalidade, nem uma novidade dos processos políticos iniciados no século XXI nos países andinos. O bem viver forma parte de uma larga busca por alternativas de uma vida forjada no calor das lutas da humanidade pela emancipação e da vida.

Dessa perspectiva, o conceito de bem viver não só tem uma carga histórica no mundo indígena; podendo sustentar também em outros princípios filosóficos: ecológicos, feministas, cooperativistas, marxistas, humanistas…

Finalmente, você acredita ser possível aproveitar os avanços tecnológicos da humanidade junto com os conhecimentos próprios de culturas ancestrais?

O grande desafio desse momento é como aproveitar todos os conhecimentos disponíveis. Não podemos negar os avanços da ciência, especialmente a quântica e a relativista. Como poucas vezes na história da humanidade, a informação e os avanços tecnológicos  atingiram níveis inimagináveis em poucas décadas. É preciso ter capacidade de saber decidir qual informação é relevante. O atual bombardeio midiático não é necessariamente positivo. A supersaturação de determinada informação, controlada e mediada por determinados grupos e interesses de poder transnacionais ou nacionais, inutiliza muitas dessas informações. A informação relativamente excessiva esconde, consciente ou inconscientemente, aquelas informações que realmente contribuiriam para a libertação do ser humano.

O mundo assemelha-se cada vez mais com uma tecnocracia medieval.  Reduzidos grupos humanos concentram a riqueza e os avanços tecnológicos, mantendo crescentes exclusões sociais, em meio à tensões políticas e sociais, assim como provocando a deterioração ecológica. Devemos sempre ter em mente que a tecnologia em si não resolve nada: não vivemos um problema tecnológico, mas um de tipo político estrutural.

Então, sem negar os rápidos avanços tecnológicos alcançados nas últimas décadas e que continuarão a nos surpreender a cada dia, devemos ter em mente que nem toda a humanidade tem acesso ao mundo da informação, por exemplo. Ainda a metade ou mais dos habitantes do planeta, no início do novo milênio, não teve contato com um telefone, muito menos com a internet.

Esta constatação, sem minimizar o papel das tecnologias de ponta e sua massiva difusão, nos remete ao valor que têm o papel e o lápis como ferramentas de libertação. Isso, adicionalmente, nos diz que muitos desafios futuros seguem sendo os mesmos de antes e que a possibilidade de uma Idade Média de alta  tecnologia porém extremamente excludente é uma ameaça em vias de construção ou já em processo de construção… Cabe aqui recordar da construção de muros materiais e imateriais em torno das grandes nações industrializadas: os Estados Unidos e a Europa, internacionalmente; bem como em torno dos bairros dos grupos mais abastados da população, a nível local. Todavia existem povos conscientes e pessoas críticas, há de se confiar em um futuro humano de convivência harmônica com a natureza e que permita uma vida digna para todos os habitantes do planeta.

Uma coisa importante é lutar pelos espaços locais, e ajudar esses grupos que há muito tempo lidam com uma forma diferente de se relacionar com o seu entorno, para que possamos ser cada vez mais fortes. Porém ao mesmo tempo é preciso construir respostas globais; por exemplo, para desarmar as instituições e as práticas que estimulam a especulação financeira. Devemos impedir que a humanidade entre em um pesadelo tecnológico totalitário. Para conseguir isso, precisamos de outros níveis de organização plural das sociedades globais, de onde as soluções globais podem ser levantadas com maior clareza e profundidade. E neste campo, o bem viver é também uma proposta para toda a humanidade.


Entrevista de L. Concheiro com Alberto Acosta (Equador). O bem viver se apresenta como uma alternativa radical ao capitalismo: propõe uma nova relação entre os homens e, fundamentalmente, dos homens com a natureza. Apresentamos aqui uma entrevista com um dos principais teóricos e impulsionadores do tema: Alberto Acosta, ex-ministro de Energia e Minas do Equador, e presidente de sua Assembleia Constituinte.

O que é o “bem viver” ou, para dizer em kichwa, o “sumak kawsay”?

O sumak kawsay, o bem viver, é uma visão do mundo que emerge com força dos povos do sul, os mesmos que foram marginalizados na História. O bem viver não implica numa proposta acadêmico-política, mas na possibilidade de aprender realidades, experiências, práticas e valores presentes em muitas partes nesse momento em meio à civilização capitalista.

Esse bem viver, para tentar uma primeira definição, propõe a busca da vida em harmonia do ser humano consigo mesmo, com seus congêneres e com a natureza, entendendo que todos somos natureza e que somos interdependentes uns com os outros, que existimos a partir do outro. Buscar essas harmonias não implica em desconhecer os conflitos sociais, as diferenças sociais e econômicas, nem tão pouco negar que estamos em uma ordem, o capitalismo, que é antes de tudo predador.  Justamente, o sumak kawsay seria um caminho para sair desse sistema.

Em que se diferencia o bem viver de outros questionamentos às ideias do desenvolvimento e progresso? Por que é uma alternativa radical distinta das demais?  

As crises provocadas pelo capitalismo desenfreado – sempre selvagem – ocasionam maiores níveis de desequilíbrio social e cultural e conduzem, simultaneamente, a uma maior destruição da natureza. Esta interminável tendência amplifica cada vez mais a exclusão, o autoritarismo e a intolerância, além das desigualdades tão próprias do sistema capitalista.

Assim os limites da natureza, cada vez mais ultrapassados pela expansão das atividades típicas da modernidade – essas, exacerbadas pelas demandas da acumulação de capital – são cada vez mais evidentes. Ao mesmo tempo, a desigualdade – inerente ao capitalismo, sendo assim a civilização da desigualdadeencontra múltiplas e crescentes rupturas, que provocam complexos e dolorosos processos, como a imparável migração dos países do sul ao Estados Unidos e à União Europeia; e agora, incluso, o caminho contrário dos habitantes de países em crises, como é o caso da Espanha, por exemplo.

Isso demonstra claramente que o crescimento da economia não tem como consequência a felicidade, nem sequer nos países considerados desenvolvidos. E mais: esse crescimento se dá, no final, quase sempre aumentando as desigualdades nas sociedades: a riqueza de uns poucos se sustenta, com frequência, na exploração de uma maioria e da natureza, ou simplesmente na especulação.
Com esse horizonte, é preciso iniciar uma discussão reconhecendo que o sistema capitalista vive de sufocar a vida e o mundo da vida, quer dizer, o trabalho e a natureza. Este é o cerne da questão. Não podemos seguir pela via do progresso tradicional, entendido como um processo de acumulação permanente de bens materiais, ter em vista os limites biofísicos da natureza e a  imparável e crescente desigualdade social.
Por isso dizemos que o bem viver é algo diferente ao desenvolvimento. Não é uma alternativa de desenvolvimento: é uma alternativa ao desenvolvimento. Não se trata de aplicar um conjunto de políticas, instrumentos e indicadores para sair do “subdesenvolvimento” e chegar naquela desejada condição de “desenvolvimento”. Uma tarefa muito inútil. Quantos países alcançaram o desenvolvimento? Muito poucos, assumindo que o objetivo a ser buscado era o desenvolvimento.
Os caminhos para o desenvolvimento não foram o maior problema. A dificuldade foi na própria concepção de  desenvolvimento. E mais: o mundo vive um mal desenvolvimento generalizado, incluindo os países considerados como industrializados, ou seja, os países cujo estilo de vida deveria servir como farol referencial para os países atrasados. Isso não é tudo: O funcionamento do sistema mundial é um mau desenvolvimento.
Em suma, é urgente dissolver o tradicional conceito de progresso em sua deriva produtivista e do desenvolvimento em sua direção única, sobretudo em sua visão mecanicista de crescimento econômico, assim como em seus múltiplos sinônimos. Porém não só se trata de dissolver; se requer uma visão diferente, muito mais rica em conteúdo e em dificuldades.
O que coloca o bem viver no lugar da noção de desenvolvimento? Que visão de tempo estabelece frente à visão linear e progressiva da modernidade?
É importante entender que sob alguns saberes indígenas, não há ideia análoga à do desenvolvimento, o que leva à rejeição desse conceito em muitos casos. Não existe a concepção de um processo linear da vida onde estabelece um estado anterior e posterior, ou seja, de subdesenvolvimento e desenvolvimento; dicotomia pela qual pessoas ou países devem transitar para a obtenção do bem-estar, como no mundo ocidental. Nem há conceitos de riqueza e pobreza determinados pela acumulação ou falta de bens materiais.

O bem viver deve ser assumido como uma categoria em permanente construção e reprodução. Com um abordagem holística, é preciso compreender a diversidade de elementos que estão condicionadas as ações humanas que propiciam o bem viver, como são o conhecimento, os códigos de conduta ética e espiritual em relação com o entorno, os valores humanos e a visão do futuro, entre outros. O bem viver, em definitivo, constitui uma categoria central da filosofia de vida das sociedades indígenas.

Dessa perspectiva, o desenvolvimento convencional é visto como uma imposição cultural herdeira do saber ocidental, portanto colonial. A resistência à colonialidade implica num distanciamento do desenvolvimentismo. A tarefa portanto é decolonizadora, e ademais deve ser depatriarcal. Nesse processo se necessita, em primeiro lugar, uma decolonização intelectual para pouco a pouco decolonizar a economia, a política e a sociedade.


O bem viver, definitivamente, busca uma cosmovisão diferente da ocidental, pois surge de raízes comunitárias não-capitalistas. Rompe por igual com as lógicas antropocêntricas do capitalismo, enquanto civilização dominante, e com os diversos socialismos reais existentes até agora, que deverão repensar desde as posturas sócio-biocêntricas e que não se atualizaram simplesmente mudando de nomes. Não nos esqueçamos que socialistas e capitalistas de todo tipo se enfrentaram e ainda se enfrentam no quadrilátero do desenvolvimento e do progresso.  
Que tipo de sociedade pretende construir o bem viver?
O bem viver propõe, e aqui repito o dito acima, sociedades baseadas em uma vida harmônica do ser humano consigo, com seus congêneres e com a natureza, porque todos somos natureza e só existimos a partir do outro.


Ao contrário do mundo do consumismo e da competição extrema, o que se pretende é construir uma sociedade em que o individual e o coletivo coexistem em complementaridade entre si e em harmonia com a natureza, e em que a racionalidade econômica se reconcilie com a ética e o bem comum. A economia tem que reencontrar-se com a natureza, para mantê-la e não destruí-la; em suma, para retornar a seu valor de uso e não ao valor de troca.

O objetivo não é ter sempre cada vez mais bens materiais, sendo isso insustentável a longo prazo em um mundo com limites biofísicos que já estão sendo ameaçados. Como dizem os andinos: rico não é aquele que tem muitas coisas materiais, mas que tem menos necessidades. Isso caminha, certamente, a uma redistribuição dessas coisas acumuladas em poucas mãos. Essa aceitação não significa negar os valiosos avanços tecnológicos da humanidade.
O bem viver implica uma mudança civilizacional. A idéia do iluminismo, que se espalhou com grande força por vários séculos, é questionada, onde acreditava-se que o ser humano é obrigado a dominar e controlar a natureza.
Um dos princípios básicos do bem viver é a abordagem de um novo relacionamento entre o homem e a natureza. Como é esse relacionamento? Quais subjetividades emanam disso?
Ao contraponto à lógica antropocêntrica dominante é necessária uma abordagem sócio-biocêntrica que nos leve a avançar na compreensão da natureza como sujeito de direitos. Ao longo da história do Direito, cada ampliação dos direitos foi anteriormente impensável. A emancipação dos escravos, ou até mesmo a extensão dos direitos a afro-americanos, às mulheres e às crianças foram rechaçadas por serem consideradas ideias absurdas. Foi necessário reconhecer o direito de ter direitos, e isso sempre foi alcançado com uma intensa luta política para mudar as leis que negavam esses direitos.
A libertação da natureza dessa condição de sujeito sem direitos, ou de simples objeto de propriedade, exigiu e exige um esforço político para que se reconheça como sujeito de direitos. Esse aspecto é fundamental se aceitamos que todos os seres vivos terem o mesmo valor ontológico, o que não quer dizer que todos sejam idênticos.
O assunto não é fácil. Não será fácil perceber na realidade os direitos da natureza; esses direitos significam empenhar-se politicamente para uma mudança de objeto a sujeito, como parte de um processo de ampliação de direitos dos sujeitos da lei. O central dos direitos da natureza é resgatar o direito à existência dos próprios seres humanos. Este é um ponto central dos direitos da natureza.
Então, não é necessariamente uma nova economia, como mencionado acima, mas é necessário outro modo de fazer política. Para começar, é essencial desenvolver o conceito de cidadania em si. Os direitos da natureza precisam, e ao mesmo tempo originam, outro tipo de definição de cidadania, que é construída no social, mas também no ambiental: a meta-cidadania-ecológica. Esses tipos de cidadania são plurais, pois dependem de histórias e ambientes; eles adotam critérios de justiça ecológica que ultrapassam a visão tradicional de justiça.
Então, além da cidadania ecológica e da cidadania individual, de caráter liberal, é necessário recuperar e fortalecer a cidadania coletiva, que surge dos direitos coletivos dos povos e nacionalidades. Cidadanias são tudo o que deve ser nutrido pela comunidade, onde os indivíduos encontram o sentido de sua existência. E são essas cidadanias – individuais e coletivas – que, como previsto na Constituição equatoriana, devem defender e cristalizar os direitos da natureza.
Nas novas constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009) se formalizaram algumas das ideias do Bem Viver. Por que eleger um caminho constitucional? Que elementos foram incorporados?

Cada um desses processos tem a sua explicação própria. O processo constituinte equatoriano – fiel às demandas acumuladas pela sociedade equatoriana, oriundo das expectativas criadas e responsável pelos problemas que foram experienciados e que haviam se acumulado durante séculos – foi projetado como meio, e incluso como um fim, para gerar mudanças estruturais. Assim, o conteúdo constitucional aflora múltiplas propostas para impulsionar transformações a fundo, construídas ao longo de muitas décadas de resistências e de lutas sociais e que articularam diversas agendas, dos trabalhadores, dos indígenas, dos campesinos, da população urbana, dos estudantes, dos ecologistas, das mulheres, dos mais velhos, dos jovens e outros tantos setores progressistas. Justamente nessas lutas de resistência e de propostas, quando se enfrentava o neoliberalismo, que se foram construindo alternativas de desenvolvimento e incluindo alternativas à ele, como o é o bem viver.
Um fato a ser lembrado: o Equador registrou vinte constituições desde 1830. Isso quer dizer instabilidade institucional, assim como a lógica política desse processo constituinte em um país que se encontra constantemente em ebulição por conta dos inúmeros problemas acumulados durante centenas de anos até então, e que se pretende resolver através da participação democrática.
 
Poderia o bem viver se tornar uma alternativa global ou funciona exclusivamente em países com raízes indígenas?
Com sua postulação de harmonia com a natureza, de reciprocidade, de racionalidade, de complementaridade e de solidariedade entre indivíduos e comunidades, com sua oposição ao conceito de acumulação perpétua, com seu regresso aos valores de uso, o bem viver, enquanto proposta sem preconceitos e em construção, abre a porta para formular visões alternativas de vida.
O bem viver, sem esquecer e menos ainda manipular suas origens ancestrais, pode servir como plataforma para discutir, concordar e aplicar respostas aos efeitos devastadores das mudanças climáticas globais e à crescente marginalização e violência social no mundo. Pode até contribuir para propor uma mudança de paradigma em meio à crise que atinge os países outrora centrais. Nesse sentido, a construção de um bem viver, como parte de processos profundamente democráticos, pode ser útil para encontrar respostas globais para os desafios que a humanidade tem que enfrentar.
Essa proposta de bem viver, desde que seja ativamente assumida pela sociedade, pode ser projetada fortemente nos debates que ocorrem no mundo e pode até ser um gatilho para enfrentar, propositadamente, a crescente alienação de uma grande maioria dos habitantes do mundo. Em outras palavras, a discussão sobre o bem viver não deve se limitar à realidade andina e amazônica. Embora admitamos que é extremamente difícil assumir o desafio de construir uma boa vida em comunidades imersas no turbilhão do capitalismo, estamos convencidos de que há muitas opções para começar a construir essa utopia em outros lugares do planeta, inclusive em países industrializados.
O bem viver, que emerge das visões utópicas, baseia-se na realidade do sistema capitalista ainda existente e na necessidade imperativa de promover no mundo a vida harmoniosa entre os seres humanos e entre estes e a natureza; uma vida que coloca no centro a auto-suficiência e o autogerenciamento dos seres humanos que vivem em comunidade. O esforço deve centrar-se nas substâncias (Ana Esther Ceceña) e não nas formas (instituições ou regulamentos). Ou seja, em suma, um grande desafio para a humanidade.
 
O bem viver andino-amazônico questiona o conceito eurocêntrico de bem estar e, enquanto proposta de luta, confronta a colonialidade do poder. Sem minimizar essa contribuição indígena, devemos aceitar que as visões andinas e amazônicas não são as únicas fontes de inspiração para impulsionar o bem viver. Mesmo de diferentes lugares  do mundo, e até mesmo em círculos da cultura ocidental, têm se levantado – desde tempos atrás – muitas vozes que poderiam estar de alguma forma sintonizadas com essa visão indígena.
Além dessas visões de Abya-Yala, há muitos outros pensamentos filosóficos relacionados de alguma forma à busca do bem viver, visões filosóficas inclusivas com a natureza e as comunidades humanas em diferentes partes do planeta. Sumak kawsay ou boa vida, como cultura de vida ou vida em plenitude, com diferentes nomes e variedades, tem sido conhecido e praticado em diferentes períodos nas diferentes regiões da Mãe Terra; Ubuntu na África ou Svadeshi, Swaraj e Apargrama na Índia. Além das críticas que podem ser feitas às origens da filosofia ocidental, pode-se até resgatar elementos da “boa vida” de Aristóteles. Além disso, de diferentes ângulos, não apenas desses espaços, as respostas aparecem para as demandas não satisfeitas pelas visões tradicionais da modernidade.

O bem viver, então, não é uma originalidade, nem uma novidade dos processos políticos iniciados no século XXI nos países andinos. O bem viver forma parte de uma larga busca por alternativas de uma vida forjada no calor das lutas da humanidade pela emancipação e da vida.
Dessa perspectiva, o conceito de bem viver não só tem uma carga histórica no mundo indígena; podendo sustentar também em outros princípios filosóficos: ecológicos, feministas, cooperativistas, marxistas, humanistas…
Finalmente, você acredita ser possível aproveitar os avanços tecnológicos da humanidade junto com os conhecimentos próprios de culturas ancestrais?
O grande desafio desse momento é como aproveitar todos os conhecimentos disponíveis. Não podemos negar os avanços da ciência, especialmente a quântica e a relativista. Como poucas vezes na história da humanidade, a informação e os avanços tecnológicos  atingiram níveis inimagináveis em poucas décadas. É preciso ter capacidade de saber decidir qual informação é relevante. O atual bombardeio midiático não é necessariamente positivo. A supersaturação de determinada informação, controlada e mediada por determinados grupos e interesses de poder transnacionais ou nacionais, inutiliza muitas dessas informações. A informação relativamente excessiva esconde, consciente ou inconscientemente, aquelas informações que realmente contribuiriam para a libertação do ser humano.
O mundo assemelha-se cada vez mais com uma tecnocracia medieval.  Reduzidos grupos humanos concentram a riqueza e os avanços tecnológicos, mantendo crescentes exclusões sociais, em meio à tensões políticas e sociais, assim como provocando a deterioração ecológica. Devemos sempre ter em mente que a tecnologia em si não resolve nada: não vivemos um problema tecnológico, mas um de tipo político estrutural.
Então, sem negar os rápidos avanços tecnológicos alcançados nas últimas décadas e que continuarão a nos surpreender a cada dia, devemos ter em mente que nem toda a humanidade tem acesso ao mundo da informação, por exemplo. Ainda a metade ou mais dos habitantes do planeta, no início do novo milênio, não teve contato com um telefone, muito menos com a internet.
 
Esta constatação, sem minimizar o papel das tecnologias de ponta e sua massiva difusão, nos remete ao valor que têm o papel e o lápis como ferramentas de libertação. Isso, adicionalmente, nos diz que muitos desafios futuros seguem sendo os mesmos de antes e que a possibilidade de uma Idade Média de alta  tecnologia porém extremamente excludente é uma ameaça em vias de construção ou já em processo de construção… Cabe aqui recordar da construção de muros materiais e imateriais em torno das grandes nações industrializadas: os Estados Unidos e a Europa, internacionalmente; bem como em torno dos bairros dos grupos mais abastados da população, a nível local. Todavia existem povos conscientes e pessoas críticas, há de se confiar em um futuro humano de convivência harmônica com a natureza e que permita uma vida digna para todos os habitantes do planeta.
Uma coisa importante é lutar pelos espaços locais, e ajudar esses grupos que há muito tempo lidam com uma forma diferente de se relacionar com o seu entorno, para que possamos ser cada vez mais fortes. Porém ao mesmo tempo é preciso construir respostas globais; por exemplo, para desarmar as instituições e as práticas que estimulam a especulação financeira. Devemos impedir que a humanidade entre em um pesadelo tecnológico totalitário. Para conseguir isso, precisamos de outros níveis de organização plural das sociedades globais, de onde as soluções globais podem ser levantadas com maior clareza e profundidade. E neste campo, o bem viver é também uma proposta para toda a humanidade.








O que é o “bem viver” ou, para dizer em kichwa, o “sumak kawsay”?

O sumak kawsay, o bem viver, é uma visão do mundo que emerge com força dos povos do sul, os mesmos que foram marginalizados na História. O bem viver não implica numa proposta acadêmico-política, mas na possibilidade de aprender realidades, experiências, práticas e valores presentes em muitas partes nesse momento em meio à civilização capitalista.

Esse bem viver, para tentar uma primeira definição, propõe a busca da vida em harmonia do ser humano consigo mesmo, com seus congêneres e com a natureza, entendendo que todos somos natureza e que somos interdependentes uns com os outros, que existimos a partir do outro. Buscar essas harmonias não implica em desconhecer os conflitos sociais, as diferenças sociais e econômicas, nem tão pouco negar que estamos em uma ordem, o capitalismo, que é antes de tudo predador.  Justamente, o sumak kawsay seria um caminho para sair desse sistema.

Em que se diferencia o bem viver de outros questionamentos às ideias do desenvolvimento e progresso? Por que é uma alternativa radical distinta das demais?  

As crises provocadas pelo capitalismo desenfreado – sempre selvagem – ocasionam maiores níveis de desequilíbrio social e cultural e conduzem, simultaneamente, a uma maior destruição da natureza. Esta interminável tendência amplifica cada vez mais a exclusão, o autoritarismo e a intolerância, além das desigualdades tão próprias do sistema capitalista.

Assim os limites da natureza, cada vez mais ultrapassados pela expansão das atividades típicas da modernidade – essas, exacerbadas pelas demandas da acumulação de capital – são cada vez mais evidentes. Ao mesmo tempo, a desigualdade – inerente ao capitalismo, sendo assim a civilização da desigualdadeencontra múltiplas e crescentes rupturas, que provocam complexos e dolorosos processos, como a imparável migração dos países do sul ao Estados Unidos e à União Europeia; e agora, incluso, o caminho contrário dos habitantes de países em crises, como é o caso da Espanha, por exemplo.

Isso demonstra claramente que o crescimento da economia não tem como consequência a felicidade, nem sequer nos países considerados desenvolvidos. E mais: esse crescimento se dá, no final, quase sempre aumentando as desigualdades nas sociedades: a riqueza de uns poucos se sustenta, com frequência, na exploração de uma maioria e da natureza, ou simplesmente na especulação.

Com esse horizonte, é preciso iniciar uma discussão reconhecendo que o sistema capitalista vive de sufocar a vida e o mundo da vida, quer dizer, o trabalho e a natureza. Este é o cerne da questão. Não podemos seguir pela via do progresso tradicional, entendido como um processo de acumulação permanente de bens materiais, ter em vista os limites biofísicos da natureza e a  imparável e crescente desigualdade social.

Por isso dizemos que o bem viver é algo diferente ao desenvolvimento. Não é uma alternativa de desenvolvimento: é uma alternativa ao desenvolvimento. Não se trata de aplicar um conjunto de políticas, instrumentos e indicadores para sair do “subdesenvolvimento” e chegar naquela desejada condição de “desenvolvimento”. Uma tarefa muito inútil. Quantos países alcançaram o desenvolvimento? Muito poucos, assumindo que o objetivo a ser buscado era o desenvolvimento.

Os caminhos para o desenvolvimento não foram o maior problema. A dificuldade foi na própria concepção de desenvolvimento. E mais: o mundo vive um “mal” desenvolvimento generalizado, incluindo os países considerados como industrializados, ou seja, os países cujo estilo de vida deveria servir como farol referencial para os países atrasados. Isso não é tudo: O funcionamento do sistema mundial é um mal desenvolvimento.

Em suma, é urgente dissolver o tradicional conceito de progresso em sua deriva produtivista e do desenvolvimento em sua direção única, sobretudo em sua visão mecanicista de crescimento econômico, assim como em seus múltiplos sinônimos. Porém não só se trata de dissolver; se requer uma visão diferente, muito mais rica em conteúdo e em dificuldades.

O que coloca o bem viver no lugar da noção de desenvolvimento? Que visão de tempo estabelece frente à visão linear e progressiva da modernidade?

É importante entender que sob alguns saberes indígenas, não há ideia análoga à do desenvolvimento, o que leva à rejeição desse conceito em muitos casos. Não existe a concepção de um processo linear da vida onde estabelece um estado anterior e posterior, ou seja, de subdesenvolvimento e desenvolvimento; dicotomia pela qual pessoas ou países devem transitar para a obtenção do bem-estar, como no mundo ocidental. Nem há conceitos de riqueza e pobreza determinados pela acumulação ou falta de bens materiais.

O bem viver deve ser assumido como uma categoria em permanente construção e reprodução. Com um abordagem holística, é preciso compreender a diversidade de elementos que estão condicionadas as ações humanas que propiciam o bem viver, como são o conhecimento, os códigos de conduta ética e espiritual em relação com o entorno, os valores humanos e a visão do futuro, entre outros. O bem viver, em definitivo, constitui uma categoria central da filosofia de vida das sociedades indígenas.

Dessa perspectiva, o desenvolvimento convencional é visto como uma imposição cultural herdeira do saber ocidental, portanto colonial. A resistência à colonialidade implica num distanciamento do desenvolvimentismo. A tarefa portanto é descolonizadora, e ademais deve ser despatriarcal. Nesse processo se necessita, em primeiro lugar, uma descolonização intelectual para pouco a pouco descolonizar a economia, a política e a sociedade.

O bem viver, definitivamente, busca uma cosmovisão diferente da ocidental, pois surge de raízes comunitárias não-capitalistas. Rompe por igual com as lógicas antropocêntricas do capitalismo, enquanto civilização dominante, e com os diversos socialismos reais existentes até agora, que deverão repensar desde as posturas sócio-biocêntricas e que não se atualizaram simplesmente mudando de nomes. Não nos esqueçamos que socialistas e capitalistas de todo tipo se enfrentaram e ainda se enfrentam no quadrilátero do desenvolvimento e do progresso.  

Que tipo de sociedade pretende construir o bem viver?

O bem viver propõe, e aqui repito o dito acima, sociedades baseadas em uma vida harmônica do ser humano consigo, com seus congêneres e com a natureza, porque todos somos natureza e só existimos a partir do outro.

Ao contrário do mundo do consumismo e da competição extrema, o que se pretende é construir uma sociedade em que o individual e o coletivo coexistem em complementaridade entre si e em harmonia com a natureza, e em que a racionalidade econômica se reconcilie com a ética e o bem comum. A economia tem que reencontrar-se com a natureza, para mantê-la e não destruí-la; em suma, para retornar a seu valor de uso e não ao valor de troca.

O objetivo não é ter sempre cada vez mais bens materiais, sendo isso insustentável a longo prazo em um mundo com limites biofísicos que já estão sendo ameaçados. Como dizem os andinos: rico não é aquele que tem muitas coisas materiais, mas que tem menos necessidades. Isso caminha, certamente, a uma redistribuição dessas coisas acumuladas em poucas mãos. Essa aceitação não significa negar os valiosos avanços tecnológicos da humanidade.

O bem viver implica uma mudança civilizacional. A idéia do iluminismo, que se espalhou com grande força por vários séculos, é questionada, onde acreditava-se que o ser humano é obrigado a dominar e controlar a natureza.

Um dos princípios básicos do bem viver é a abordagem de um novo relacionamento entre o homem e a natureza. Como é esse relacionamento? Quais subjetividades emanam disso?

Ao contraponto à lógica antropocêntrica dominante é necessária uma abordagem sócio-biocêntrica que nos leve a avançar na compreensão da natureza como sujeito de direitos. Ao longo da história do Direito, cada ampliação dos direitos foi anteriormente impensável. A emancipação dos escravos, ou até mesmo a extensão dos direitos a afro-americanos, às mulheres e às crianças foram rechaçadas por serem consideradas ideias absurdas. Foi necessário reconhecer o direito de ter direitos, e isso sempre foi alcançado com uma intensa luta política para mudar as leis que negavam esses direitos.

A libertação da natureza dessa condição de sujeito sem direitos, ou de simples objeto de propriedade, exigiu e exige um esforço político para que se reconheça como sujeito de direitos. Esse aspecto é fundamental se aceitamos que todos os seres vivos terem o mesmo valor ontológico, o que não quer dizer que todos sejam idênticos.

O assunto não é fácil. Não será fácil perceber na realidade os direitos da natureza; esses direitos significam empenhar-se politicamente para uma mudança de objeto a sujeito, como parte de um processo de ampliação de direitos dos sujeitos da lei. O central dos direitos da natureza é resgatar o direito à existência dos próprios seres humanos. Este é um ponto central dos direitos da natureza.

Então, não é necessariamente uma nova economia, como mencionado acima, mas é necessário outro modo de fazer política. Para começar, é essencial desenvolver o conceito de cidadania em si. Os direitos da natureza precisam, e ao mesmo tempo originam, outro tipo de definição de cidadania, que é construída no social, mas também no ambiental: a meta-cidadania-ecológica. Esses tipos de cidadania são plurais, pois dependem de histórias e ambientes; eles adotam critérios de justiça ecológica que ultrapassam a visão tradicional de justiça.

Então, além da cidadania ecológica e da cidadania individual, de caráter liberal, é necessário recuperar e fortalecer a cidadania coletiva, que surge dos direitos coletivos dos povos e nacionalidades. Cidadanias são tudo o que deve ser nutrido pela comunidade, onde os indivíduos encontram o sentido de sua existência. E são essas cidadanias – individuais e coletivas – que, como previsto na Constituição equatoriana, devem defender e cristalizar os direitos da natureza.

Nas novas constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009) se formalizaram algumas das ideias do Bem Viver. Por que eleger um caminho constitucional? Que elementos foram incorporados?

Cada um desses processos tem a sua explicação própria. O processo constituinte equatoriano – fiel às demandas acumuladas pela sociedade equatoriana, oriundo das expectativas criadas e responsável pelos problemas que foram experienciados e que haviam se acumulado durante séculos – foi projetado como meio, e incluso como um fim, para gerar mudanças estruturais. Assim, o conteúdo constitucional aflora múltiplas propostas para impulsionar transformações a fundo, construídas ao longo de muitas décadas de resistências e de lutas sociais e que articularam diversas agendas, dos trabalhadores, dos indígenas, dos campesinos, da população urbana, dos estudantes, dos ecologistas, das mulheres, dos mais velhos, dos jovens e outros tantos setores progressistas. Justamente nessas lutas de resistência e de propostas, quando se enfrentava o neoliberalismo, que se foram construindo alternativas de desenvolvimento e incluindo alternativas à ele, como o é o bem viver.

Um fato a ser lembrado: o Equador registrou vinte constituições desde 1830. Isso quer dizer instabilidade institucional, assim como a lógica política desse processo constituinte em um país que se encontra constantemente em ebulição por conta dos inúmeros problemas acumulados durante centenas de anos até então, e que se pretende resolver através da participação democrática.

Poderia o bem viver se tornar uma alternativa global ou funciona exclusivamente em países com raízes indígenas?

Com sua postulação de harmonia com a natureza, de reciprocidade, de racionalidade, de complementaridade e de solidariedade entre indivíduos e comunidades, com sua oposição ao conceito de acumulação perpétua, com seu regresso aos valores de uso, o bem viver, enquanto proposta sem preconceitos e em construção, abre a porta para formular visões alternativas de vida.

O bem viver, sem esquecer e menos ainda manipular suas origens ancestrais, pode servir como plataforma para discutir, concordar e aplicar respostas aos efeitos devastadores das mudanças climáticas globais e à crescente marginalização e violência social no mundo. Pode até contribuir para propor uma mudança de paradigma em meio à crise que atinge os países outrora centrais. Nesse sentido, a construção de um bem viver, como parte de processos profundamente democráticos, pode ser útil para encontrar respostas globais para os desafios que a humanidade tem que enfrentar.

Essa proposta de bem viver, desde que seja ativamente assumida pela sociedade, pode ser projetada fortemente nos debates que ocorrem no mundo e pode até ser um gatilho para enfrentar, propositadamente, a crescente alienação de uma grande maioria dos habitantes do mundo. Em outras palavras, a discussão sobre o bem viver não deve se limitar à realidade andina e amazônica. Embora admitamos que é extremamente difícil assumir o desafio de construir uma boa vida em comunidades imersas no turbilhão do capitalismo, estamos convencidos de que há muitas opções para começar a construir essa utopia em outros lugares do planeta, inclusive em países industrializados.

O bem viver, que emerge das visões utópicas, baseia-se na realidade do sistema capitalista ainda existente e na necessidade imperativa de promover no mundo a vida harmoniosa entre os seres humanos e entre estes e a natureza; uma vida que coloca no centro a auto-suficiência e o autogerenciamento dos seres humanos que vivem em comunidade. O esforço deve centrar-se nas substâncias (Ana Esther Ceceña) e não nas formas (instituições ou regulamentos). Ou seja, em suma, um grande desafio para a humanidade.

O bem viver andino-amazônico questiona o conceito eurocêntrico de bem estar e, enquanto proposta de luta, confronta a colonialidade do poder. Sem minimizar essa contribuição indígena, devemos aceitar que as visões andinas e amazônicas não são as únicas fontes de inspiração para impulsionar o bem viver. Mesmo de diferentes lugares  do mundo, e até mesmo em círculos da cultura ocidental, têm se levantado – desde tempos atrás – muitas vozes que poderiam estar de alguma forma sintonizadas com essa visão indígena.

Além dessas visões de Abya-Yala, há muitos outros pensamentos filosóficos relacionados de alguma forma à busca do bem viver, visões filosóficas inclusivas com a natureza e as comunidades humanas em diferentes partes do planeta. Sumak kawsay ou boa vida, como cultura de vida ou vida em plenitude, com diferentes nomes e variedades, tem sido conhecido e praticado em diferentes períodos nas diferentes regiões da Mãe Terra; Ubuntu na África ou Svadeshi, Swaraj e Apargrama na Índia. Além das críticas que podem ser feitas às origens da filosofia ocidental, pode-se até resgatar elementos da “boa vida” de Aristóteles. Além disso, de diferentes ângulos, não apenas desses espaços, as respostas aparecem para as demandas não satisfeitas pelas visões tradicionais da modernidade.


O bem viver, então, não é uma originalidade, nem uma novidade dos processos políticos iniciados no século XXI nos países andinos. O bem viver forma parte de uma larga busca por alternativas de uma vida forjada no calor das lutas da humanidade pela emancipação e da vida.

Dessa perspectiva, o conceito de bem viver não só tem uma carga histórica no mundo indígena; podendo sustentar também em outros princípios filosóficos: ecológicos, feministas, cooperativistas, marxistas, humanistas…

Finalmente, você acredita ser possível aproveitar os avanços tecnológicos da humanidade junto com os conhecimentos próprios de culturas ancestrais?

O grande desafio desse momento é como aproveitar todos os conhecimentos disponíveis. Não podemos negar os avanços da ciência, especialmente a quântica e a relativista. Como poucas vezes na história da humanidade, a informação e os avanços tecnológicos  atingiram níveis inimagináveis em poucas décadas. É preciso ter capacidade de saber decidir qual informação é relevante. O atual bombardeio midiático não é necessariamente positivo. A supersaturação de determinada informação, controlada e mediada por determinados grupos e interesses de poder transnacionais ou nacionais, inutiliza muitas dessas informações. A informação relativamente excessiva esconde, consciente ou inconscientemente, aquelas informações que realmente contribuiriam para a libertação do ser humano.

O mundo assemelha-se cada vez mais com uma tecnocracia medieval.  Reduzidos grupos humanos concentram a riqueza e os avanços tecnológicos, mantendo crescentes exclusões sociais, em meio à tensões políticas e sociais, assim como provocando a deterioração ecológica. Devemos sempre ter em mente que a tecnologia em si não resolve nada: não vivemos um problema tecnológico, mas um de tipo político estrutural.

Então, sem negar os rápidos avanços tecnológicos alcançados nas últimas décadas e que continuarão a nos surpreender a cada dia, devemos ter em mente que nem toda a humanidade tem acesso ao mundo da informação, por exemplo. Ainda a metade ou mais dos habitantes do planeta, no início do novo milênio, não teve contato com um telefone, muito menos com a internet.

Esta constatação, sem minimizar o papel das tecnologias de ponta e sua massiva difusão, nos remete ao valor que têm o papel e o lápis como ferramentas de libertação. Isso, adicionalmente, nos diz que muitos desafios futuros seguem sendo os mesmos de antes e que a possibilidade de uma Idade Média de alta  tecnologia porém extremamente excludente é uma ameaça em vias de construção ou já em processo de construção… Cabe aqui recordar da construção de muros materiais e imateriais em torno das grandes nações industrializadas: os Estados Unidos e a Europa, internacionalmente; bem como em torno dos bairros dos grupos mais abastados da população, a nível local. Todavia existem povos conscientes e pessoas críticas, há de se confiar em um futuro humano de convivência harmônica com a natureza e que permita uma vida digna para todos os habitantes do planeta.

Uma coisa importante é lutar pelos espaços locais, e ajudar esses grupos que há muito tempo lidam com uma forma diferente de se relacionar com o seu entorno, para que possamos ser cada vez mais fortes. Porém ao mesmo tempo é preciso construir respostas globais; por exemplo, para desarmar as instituições e as práticas que estimulam a especulação financeira. Devemos impedir que a humanidade entre em um pesadelo tecnológico totalitário. Para conseguir isso, precisamos de outros níveis de organização plural das sociedades globais, de onde as soluções globais podem ser levantadas com maior clareza e profundidade. E neste campo, o bem viver é também uma proposta para toda a humanidade.


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Rodrigo Santana Cardoso

Estudante de Ciências Biológicas. Anarquista-Especifista, buscando entender as problemáticas socioambientais e sua superação pelo socialismo libertário.