O Caso de Amor entre a Direita Cristã e Feministas Anti-Trans

Texto original por Cole Parke

 

Interseccionalidade é a conexão de diferentes sistemas de poder e opressão (por exemplo, racismo, sexismo, heterossexismo, classismo, etc.), que pode ocorrer em diferentes níveis – individual, interpessoal, familiar, comunitário e institucional.

Desde que a professora americana Kimberlé Crenshaw introduziu o termo em 1989, a “interseccionalidade” tornou-se a palavra de ordem favorita do ativismo do século XXI. Quase 30 anos depois, porém, os promotores da justiça social ainda estão lutando para alcançá-la; enquanto isso, a Direita está mais do que feliz em explorar as nossas aspirações ainda não plenamente realizadas, aproveitando os conflitos internos e as rupturas para avançar em uma agenda que causa profundos danos a todos nós.

Neste momento político atual de maior ataque transfóbico, quando os conselhos escolares e as assembléias legislativas de todo o país estão discutindo se às pessoas transexuais deveriam ou não ser permitidas o acesso a instalações públicas, um ponto polêmico é a afirmação da Direita de que o barulho em torno do uso do banheiro não é uma campanha transfóbica, mas sim uma campanha pro-mulher. Como argumenta Joseph Backholm, diretor-executivo do Instituto de Política Familiar do Estado de Washington, o “fenômeno transgênero” não é apenas um ataque à privacidade das mulheres, mas uma “guerra contra a feminilidade”. E sob o disfarce do feminismo, eles estão prontos para ir para a batalha, e seu grito de guerra patriarcal é “Proteja nossas meninas!”

Embora exista uma forte e crescente presença de mentalidade e ativismo transfeministas, a Direita está promovendo de forma seletiva e favorecendo academicamente um grupo intelectual marginal e altamente controverso rotulado coletivamente de “feminismo radical trans-excludente” (em inglês, TERFs), um termo cunhado em 2008 por mulheres cis, que procuravam nomear essa vertente perigosa no movimento feminista, e afirmando-se como aliadas das pessoas trans*, distinguem-se de suas homólogas transfóbicas.

Embora a maioria rotulada como TERFs rejeite a rotulação (bem como o termo cisgênero) e considere-a ofensiva, abraçam abertamente sua noção transfóbica de que as mulheres trans* “não são realmente mulheres” – que a feminilidade real é exclusivamente determinada pelo nível biológico. Esses argumentos (elementos-chave do chamado “essencialismo de gênero”) favorecem e alimentam o fogo da transfobia de direita. As TERFs também sustentam que os homens trans* são simplesmente mulheres que são “traidoras”, mas tal como a Direita, a maior parte do seu veneno é poupado para as mulheres trans*.

Livro transfóbico de Raymond

 

A atual onda de ataques transfóbicos surgida em legislaturas e comissões escolares em todo o país veio como um choque para muitos ativistas LGBT. Ainda sob a alegria da vitória do casamento igualitário no ano passado, muitos não conseguiram perceber que a estratégia de avanço progressivo das organizações de direitos gays tradicionais era inerentemente equivocada. O fato de que 2015 também foi o ano em que mais mulheres trans* foram mortas por atos de violência extrema nos EUA do que qualquer ano anterior torna isso dolorosamente evidente.

Em resposta à leis como a HB 2 da Carolina do Norte (descrita por Sarah Preston, diretora executiva em exercício da União Americana pelas Liberdades Civis da Carolina do Norte, como “a lei anti-LGBT mais radical do país”), ativistas rapidamente se mobilizaram contra alguns dos mais óbvios inimigos – pessoas como o governador Pat McCrory e outros líderes republicanos responsáveis ​​por impor rapidamente a lei através da legislatura do estado. Outros tentaram expor as forças por trás, apontando o papel de organizações nacionais de direita como a Aliança de Defesa da Liberdade, uma rede maciça e profunda de advogados conservadores que passou as últimas duas décadas manipulando e redefinindo a noção de liberdade religiosa para avançar sua agenda cristã de direita.

Conforme observado acima, no entanto, as forças em jogo nessa ofensiva transfóbica atual não são exclusivamente de direita. A mentalidade TERF estabeleceu uma base cultural e intelectual sobre a qual a Direita poderia construir um argumento que atraísse tanto os conservadores quanto certos setores da esquerda.

Em junho de 2015, o Conselho de Pesquisa Familiar (CPF), com sede em Washington, DC, elaborou um plano de cinco pontos para “responder ao movimento transgênero”. O documento do grupo de direita teve co-autoria de Peter Sprigg, da CPF, e Dale O’Leary, um escritor católico de Avon Park, Flórida. Sprigg argumentou que pessoas trans sofrem de “delírios” e ele é um defensor da chamada “terapia reparadora”. O’Leary retrata pessoas transgênero como “mentirosas” e sugere que os “liberacionistas sexuais” estão “manipulando as crianças” para expô-las a “molestadores e exibicionistas disfarçados de educadores sexuais”.

Ignorando as posições de afirmação da Associação Médica Americana, da Associação Psicológica Americana e da Sociedade Americana de Psiquiatria, as duas ressucitaram teorias pseudocientíficas obscuras e ultrapassadas na tentativa de patologizar pessoas transgênero (justificando assim sua perseguição) e, em seguida, estabelecendo uma estratégia para avançar a política pública transfóbica. Especificamente, CPF argumenta contra o fornecimento à pessoas trans de cuidados de saúde de gênero, procedimentos de readequação de gênero que salvam vidas, reconhecimento legal, proteção contra discriminação e o direito de servir no exército.

Mas Sprigg e O’Leary não chegaram à sua estratégia transfóbica sozinhos. Entre as várias fontes nas quais eles se inspiraram para fazer seu argumento contra o “transsexualismo“, estava Janice Raymond, uma estudiosa lésbica e infame ativista anti-trans.

A jornalista Tina Vasquez documenta que em 1980,

     Raymond escreveu um relatório para a administração de Reagan chamado “Tecnologia nos aspectos sociais e éticos da cirurgia Transsexual”, que informou a posição federal oficial no cuidado médico para pessoas trans*. A conclusão do documento é: “A eliminação do transexualismo não é alcançada idealmente por uma legislação que proíba o tratamento e a cirurgia transexuais, mas sim por uma legislação que o limita e por outra legislação que diminua o apoio dado aos estereótipos sexuais”.

 

Outro exemplo de ativistas de direita argumentando com base nas teorias das TERFs é o Dr. Paul McHugh, professor de psiquiatria na Universidade de Johns Hopkins. Como membro do Colégio Americano de Pediatras, um grupo separatista de direita que se separou da Academia Americana de Pediatria em 2002, McHugh foi co-autor de um novo posicionamento em março passado, que alega que respeitar as identidades das crianças transgêneras pode causar danos e é semelhante ao “abuso infantil”.

Entre as fontes primárias de McHugh? Sheila Jeffreys, outra estudiosa lésbica e ativista transfóbica que, como Janice Raymond, é considerada uma TERF pela militância trans*. Jeffreys recentemente aposentada após 24 anos de ensino na Universidade de Melbourne, continua a ser altamente influente. Ela se refere à cirurgia de afirmação de gênero (também conhecida como cirurgia de readequação de gênero) como uma forma de mutilação e descreve a “prática do transgênero” como prejudicial e uma “violação dos direitos humanos”.

Enquanto a Direita ergue cerco a alguns dos membros mais vulneráveis ​​da comunidade LGBTQ (tornados especialmente vulneráveis ​​por negligência e exclusão histórica e contínua pelo movimento homossexual e lésbico), são as TERFs que podem realmente ser culpadas de estruturar sua argumentação, jogando gasolina nas chamas desse perigoso frenesi transfóbico.

Facebook Comments