O coronelismo por trás do ultraliberalismo

“Não sei se todos estão familiarizados com o conceito de “DEEP ESTATE”, mas, se trata da situação em que funcionários públicos e burocratas do governo altamente comprometidos ideologicamente com a esquerda, colocados em postos chaves de fiscalização, chefias de serviço, RH’s, e etc., decidem atuar em conjunto com determinada finalidade.

Pode ser desde uma “operação padrão” até a intensificação de determinada atividade, seguindo ou não as Leis e regulamentos da autarquia.

É exatamente isso que ocorre no país HOJE, de norte a sul, com a intensificação de uma suposta “fiscalização” do IBAMA, ANAC e Defesa Agropecuária.

“Fiscais”, ao arrepio da Lei e Regulamentos de Serviço, estão embargando lavouras, lacrando estabelecimentos, apreendendo aeronaves e literalmente ateando fogo em tratores, implementos, pontes e animais.

Tudo isso depois de abordagens violentíssimas, FORTEMENTE ARMADOS, em verdadeiro abuso de poder e autoridade, e em afronta a conduta esperada de agentes (SUPOSTAMENTE) da Lei.

Com essas “medidas excepcionais” (se inspiraram no STF?) esses “fiscais” já comprometeram mais de 50% da produção de arroz do RS, mais de 80% dos contratos de exportação de madeira de RO, uma parte imensurável da produção pecuária do PA, e tudo indica que a prática se espalhará pelo país nos próximos dias.

Justamente na fase de plantio da safra 2017/2018. Coincidência?

Nenhuma. Isso é ação dos infiltrados pelo maior grupo terrorista em atividade no Brasil: o PT – Partido dos Trabalhadores e seu Deep State.

Tudo com o único intuito de inviabilizar a atividade agropecuária  (a única atividade que ainda gera empregos, divisas e riqueza ao país), e assim, piorar os índices econômicos de 2018, o ano da eleição mais importante da história do Brasil.

O PT não medirá esforços para voltar ao poder.

Desses TERRORISTAS pode se esperar QUALQUER coisa: até mesmo mergulhar o país num período de escassez de ALIMENTOS!!!

Esses “agentes de Gramsci” serão capazes até de promover a FOME generalizada!!!

Ou o Presidente Temer enxerga isso HOJE e toma todas as medidas cabiveis AGORA contra esses INIMIGOS do povo brasileiro, ou será lembrado no futuro como o Luiz XV brasileiro.”

Esse texto tem sido compartilhado pelo WhatsApp nos últimos dias em resposta à operação Demeter, ação do Ibama em conjunto com a ANAC e a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul que acabou por apreender 16 toneladas de sementes de arroz que haviam sido pulverizadas com pesticidas ilegais, alguns, ao que tudo indica, contrabandeados do Uruguai e outros com suspeita de serem furtados, tendo o rótulo propositalmente raspado, impedindo a visualização do lote e da validade. Além disso, 5 aviões irregulares que eram utilizados na pulverização dos agrotóxicos foram apreendidos também.

A operação foi mais uma, dentre outras operações de fiscalização, que geram revolta nos arrozeiros, como bem demonstra esse vídeo, compartilhado pela página “Arrozeiros de Alegrete”, no qual o cidadão expressa que não admite a interferência do governo, através de fiscalização do Ibama e do Ministério do Trabalho, na sua propriedade herdada e afirma vontade de responder com violência, dizendo que “dá vontade de pegar esses cara e metê-le bala”.

Não bastando isso, programas de rádios locais dão voz a “técnicos” e comentaristas pró-arrozeiros, ampliando o discurso vazio e simplista que coloca de um lado o governo – apresentado como interventor, truculento e mal intencionado – e do outro, os arrozeiros – supostamente produtores esforçados, dedicados a pôr comida na mesa da população e violentados, impedidos de produzir. A mídia serve para isso, não é? Até certo ponto, na verdade, é compreensível que, indignados, os produtores que se sentem agredidos busquem expressar seu descontentamento. O que não parece ser saudável é que meios de comunicação passem a instigar contra os fiscais e propaguem inverdades como a de que os fiscais seriam “agentes formados em faculdades somente para atrapalhar a produção” ou então que são “comprometidos com ideologias de esquerda e que atuam sem concordância com a lei” entre outras coisas do tipo. Curiosamente, o início do texto supracitado é exatamente igual ao discurso de um comentarista de uma rádio de Uruguaiana.

Ora, o que se coloca por trás de tudo isso? Quer dizer então que os fiscais do Ibama são mais uma faceta da grande conspiração comuno-bolchevolulista bolivariana? Bastante improvável… Mas existe algo curioso aí, um discurso político, que por vezes toma forma de discurso econômico ou moral, e orienta toda uma linha argumentativa que coloca professores de sociologia e história como “doutrinadores ideológicos” nas escolas, artistas como fontes de “degeneração moral”, antropólogos como “terroristas” ou “anti-produtivistas” que atuam contra a agroindústria em prol dos indígenas, de ativistas LGBT como “ameaças” a princípios basilares da civilização e agora, não satisfeitos, os fiscais do Ibama como “agentes gramscinianos” que querem provocar a fome no país para que o PT volte ao poder! Parece até piada tamanha sandice, mas é assim que eles operam, espalhando boatos absurdos sem base alguma e que acabam convencendo alguns desavisados que assimilam essa narrativa e a tomam como verdade. E ai daquele que ouse questionar! Será logo acusado de ser mais um petista (desse jeito, como se ser filiado a um partido fosse, por si só, motivo de condenação) ou agente do comunismo internacional!

Esse tipo de desinformação, que opera tanto via mídias convencionais (como no caso dos comentários na rádio) como pelos aplicativos e redes sociais (como o texto supracitado), reproduz e reforça um discurso simplista que reduz a política a uma disputa dicotômica entre o bem e o mal, o mercado e o Estado, a liberdade da propriedade e a igualdade imposta pelo comunismo, e que toma tons neomacartistas, se transformando numa perseguição ideológica a tudo que tenha algo a ver com qualquer posicionamento progressista, ou seja, tudo que seja pró-minorias, que tenha alguma pauta ambiental, ecológica, distributivista, igualitarista, que questione, enfim, a acumulação indiscriminada ou o conservadorismo radical.

Grupo ateou fogo em prédios públicos (Foto: Raolin Magalhães/Rede Amazônica)

Não se propõe aqui comentar as falácias (que são várias) nos discursos, mas sim alertar para o que esse tipo de processo de desinformação conduz. Inculcar na população um medo, atribuindo a todos com quem não se concorda uma relação com terrorismo, um plano secreto de dominação mundial, uma conspiração ditatorial ou desejo destrutivo é um perigo para a já delicada e agonizante democracia brasileira. A mesma democracia que esse tipo de discurso diz, por vezes, defender. O episódio de Humaitá (AM) ocorrido na última sexta-feira (27/10) é um exemplo de aonde o ódio contra a fiscalização e a intervenção do governo pregado pelos agentes econômicos em associação com políticos locais e meios de comunicação pode chegar. Seguir o caminho proposto pelos defensores da liberdade indiscriminada de propriedade (mesmo que não tenha função social ou seja de origens ilegais), de expressão (mesmo quando se professam mentiras e calúnias), e de acumulação é condenar a sociedade à barbárie, não só a barbárie da desigualdade abissal, da dominação, da miséria, mas também da violência.

Sede do Ibama em Humaitá foi incendiada por grupo (Foto: Raolin Magalhães/Rede Amazônica)

Indago quem são, de fato, os terroristas nisso tudo: os donos de terra herdada (sabe-se lá como fora conquistada, dada a violência do nosso passado colonial), que enriquecem às custas do trabalho em condições precárias dos outros (segundo relato de fiscais, nas propriedades foram encontrados trabalhadores manchados com os pesticidas que trabalhavam sem EPI), que comercializam alimentos de qualidade duvidosa, contendo substâncias sobre as quais não se têm garantia alguma, e que, quando sentem seu poder, seu lucro e sua propriedade ameaçados, não se furtam de recorrer à violência, e seus defensores (seja na mídia ou na política em si); ou então os que buscam, de uma forma ou de outra, minimizar as assimetrias que resultam do nosso passado vergonhoso, ou ao menos de elucidar os processos que configuraram a nossa sociedade atual, construído na base de extermínio e exploração, aplicar a parca lei e avançar na conquista de direitos por vias democráticas? Quem realmente tem uma agenda secreta nessa história?

O que se esconde por trás de discursos bonitos sobre liberdade, progresso, riqueza e prosperidade é, em última análise, a continuidade dessa situação violenta e exploradora que perdura ainda em cantões do nosso extenso país, onde o pacto civilizatório se desenvolveu de modo enfraquecido e os poderes democráticos e republicanos são encarados com oposição de coronelismos nativos, onde barões, protegidos por jagunços armados, mandam e desmandam conforme seus caprichos. Onde herdeiros de riquezas construídas com exploração e escravidão insistem em permanecer em suas posições de dominação. Quando esses senhores falam palavras bonitas sobre liberdade, eles se referem à sua liberdade, não a de todos e todas, não a nossa. Liberdade de acumular recursos, de fazer o que bem entendem em nome de suas terras, de agir sobre o mundo com ganância de modo predatório, como se o mundo não fosse nada mais do que recursos a serem apropriados com fins de acumulação individual. Ao fim, perfumado por um discurso supostamente “libertário” e contemporâneo, que se afirma adaptado às novas dinâmicas econômicas, o que se vê é o mesmo de décadas atrás: os proprietários dos meios de produção defendendo suas posições, utilizando para isso de mentiras, calúnias e violência, e ainda corrompendo a mídia e as instituições. A isso chamam prosperidade! A sua prosperidade.

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Murilo Gelain

Cientista Social e mestrando em Antropologia Social pela UFRGS. Desenvolve pesquisas sobre consumo e juventude. Tem interesse em temas como economia, política e violência, além de cerveja, música e artes marciais.