O direito à cidade, o urbanismo e o anarquismo: uma abordagem teórica

Por Mario Rui Pinto, Originalmente publicado em Escuela Moderna

Tradução por Luís da Silva

A relação entre anarquismo e urbanismo é longa. Desde o início, os anarquistas buscam a ocupação geográfica do espaço, seja nas cidades ou no campo, como um importante passo em direção a uma sociedade melhor, uma sociedade anarquista. E o urbanismo assumiu um papel importante nesse processo. Juntamente com outras áreas de intervenção – como o sindicalismo, a situação das mulheres e a educação, por exemplo – os anarquistas sempre pensaram que lutar por um urbanismo anarquista era parte do caminho para a Anarquia. Colin Ward escreveu que “há de fato uma corrente de contribuições anarquistas para os pensamentos urbanos que se estende de Kropotkin a Murray Bookchin historicamente, e de John Turner aos ideólogos situacionistas internacionais”. De fato, quando lemos um dos livros mais famosos de Kropotkin – “Campos, Fábricas e Oficinas” – devemos concordar com
esta frase. No entanto, essa contribuição é anterior a Kropotkin e pode ser vista já nos socialistas utópicos como William Morris ou Charles Fourier. O conceito de Fourier das Falanstérios (Phalanstères), em que tudo foi programado para buscar a perfeição, talvez muito programado na minha opinião, tornou-se mais tarde uma fonte fundamental que inspirou muitos companheiros a criar comunidades e territórios livres, como Colônia Cecília no Brasil ou Aiglemont na França. Esse movimento se tornou tão importante que Malatesta, como você sabe, reagiu negativamente a isso argumentando com o isolamento dessas comunidades e camaradas.

Esta atração pelo urbanismo pelo anarquismo vem até o presente e dentro desta nova onda alguns nomes devem ser enfatizados: Colin Ward, Paul Goodman e o Street Farm Group. Colin Ward foi um importante defensor do movimento “faça você mesmo”, no qual a população e os arquitetos resolviam seus problemas sem a ajuda do Estado. Os livros de Paul Goodman “Crescendo Absurdo” (1960) e especialmente “Communitas” (1947) com certeza “adicionaram profundidade e rigor a uma crítica anarquista da cidade”, como escrito por Richard White em “Governance-from below: anarchism” and a “postneoliberal” urbanism”. Mais recentemente, nos anos 70, o Street Farm Group (3 arquitetos anarquistas chamados Graham Caine, Peter Crump e Bruce Haggart) publicou um jornal underground
chamado Street Farm. Eles praticam a chamada ação direta indo de universidade a universidade, cidade a cidade, mostrando suas obras e propostas que podem incluir casas já ecológicas. O legado de Goodman, Ward e do Street Farm Group mostra muito claramente que a ideia crítica de que os anarquistas são apenas negativos e destrutivos em sua abordagem é completamente errada. E mais do que nunca, quando as cidades se tornam o produto capitalista extremo e a ideia conceitual, uma arquitetura e um urbanismo anarquistas são necessários para contrabalançar isso e dar alternativas para aqueles que querem viver nas cidades. Nesta sociedade capitalista globalizada, a cidade em crescimento – o crescente movimento de urbanização – tornou-se o que o capitalismo quer mais. De fato, a enorme concentração humana moderna nas cidades é um resultado direto do sistema de produção capitalista. Concentrar pessoas – vistas como produtores e consumidores – recursos, tecnologia e até produções, dentro ou perto das cidades, é uma maneira de reduzir custos de produção e
logística (embora esse custo não seja tão relevante quanto há algumas décadas) e especialmente uma maneira de manipular e controlar mais facilmente milhões de pessoas. Eu sei que a revolução anarquista não será amanhã. No entanto, devemos pensar no futuro. Como podemos lidar com cidades com milhões de habitantes? Como os anarquistas podem garantir a gestão de cidades como São Paulo, onde muitos trabalhadores passam tantas horas vindo de casa para trabalhar que a opção deles é vir na segunda-feira e retornar apenas na sexta porque é impossível para eles – seja no tempo e no custo – ir todas as noites para dormir em casa? Como os anarquistas podem assegurar o tão famoso Direito
à Cidade e, ao mesmo tempo, lutar por cidades mais saudáveis e racionais? A resposta tradicional de que “cada comunidade lidará com o problema quando chegarmos lá” não é mais aceitável por pessoas “normais”. Os marxistas dão respostas; os neo-liberais dão respostas; então os anarquistas devem fazer o mesmo. Obviamente não somos vanguardas para definir o caminho, mas é hora de apresentar às pessoas propostas claras para o futuro

 

 

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