O discurso de ódio ataca mais uma vez

Em solidariedade ao professor Carlos Zacarias, publicamos o relato do ataque sofrido por ele esta semana.

Por Carlos Zacarias*

Ontem eu fui insultado no Instagram num post que fiz mencionando a indicação que Marcia Tiburi fez do meu artigo publicado no Le Monde Diplomatique sobre a produtora de vídeos Brasil Paralelo (BP). O administrador de uma página chamada “Sociedade Aberta” veio à minha postagem, perguntou se eu tinha dinheiro para pagar o processo (suponho que estivesse se referindo à notificação extrajudicial que me foi enviada pela BP), concluindo que não, porque sou historiador e, como tal, sou um fracassado. A mesma pessoa ainda escreveu que não tinha o que esperar de alguém que compartilhava postagens da filósofa “do cu” e da “lógica do assalto”, referindo-se à Marcia Tiburi. Fui à tal página Sociedade Aberta, que se define como conservadora e “soldado da guerra cultural”, e vi que se tratava de uma espaço de disseminação de ódio, Fake News e outros absurdos. Bloqueei o perfil, não sem antes printar a agressão, que depois expus na minha página do Facebook dizendo da escória que subiu dos esgotos e que se escondem em perfis como aquele do Instagram. No mesmo instante apareceu um sujeito, que reivindicou a página Sociedade Aberta e passou a me insultar e ameaçar a mim e ao meu filho de 12 anos, algo que respondi antes de bloqueá-lo (ele também atacou Mayara Balestro e fez comentários desabonadores na entrevista que dei à Carlos Alberto Jr, do canal Roteirices e ainda criou outro perfil, voltando a atacar meus amigos em minha página do Facebook).

Meu filho é uma criança com deficiência intelectual severa. O agressor e dono da página Sociedade Aberta se referiu a ele como tendo “cara de idiota”. No privado do meu Instragram, o dono da página novamente me ameaçou com um processo judicial (porque eu o chamei de escória?!) e disse que eu devia ser revoltado porque tenho um filho com “cara de idiota”.

Os nazistas pretenderam extirpar da humanidade tudo que não lhes parecesse perfeito. As políticas eugenistas atingiram os judeus, mas também as pessoas com deficiência, inicialmente com a esterilização de mulheres que eram identificadas como potencialmente geradoras de crianças atípicas. A primeira lei nesse sentido foi de 4 de julho de 1933, a Lei para a Prevenção de Prole com Doença Hereditária. Outras leis e decretos sucederam, e não obstante fosse muito difícil exterminar todas as pessoas com deficiência, considerando-se que a Alemanha vivia um período de guerras que necessariamente precisa comportar pessoas amputadas e com outros problemas causados pela guerra, o ideal da perfeição foi sempre perseguido pelos nazistas em nome da eugenia, de modo que milhares de pessoas com deficiência foram mortas como parte da política eugenista dos nazistas.

Atacando a mim e ao meu filho, o agressor, que é tem um perfil típico do fascista empoderado pela vocalização de um discurso de ódio nas redes sociais, ataca qualquer princípio de humanidade que deve primar pelo respeito à diversidade e pela preservação da dignidade de todo o ser humano.

Na minha página do Facebook, recebi solidariedade, que mais uma vez me dá força e me oferece guarida, mas não me sinto pessoalmente vítima, e muito embora o agressor tenha se referido ao meu filho, o que pra mim é muito grave, seu ataque foi à toda pessoa humana. 

A pessoa que me agrediu (os prints estão na minha página do Facebook e seus comentários permanecem intactos) mereceria um processo, como muitos sugeriram. Mas não acho que vamos derrotar o ódio e o fascismo na justiça. Quando muito, o agressor alegaria que não sabia que meu filho era uma pessoa com deficiência e pediria desculpas por imposição de uma eventual decisão da justiça e talvez até pagasse umas cestas básicas para alguma instituição. Isso não seria suficiente, porque não quero suas desculpas. Permanecerei lutando contra aquilo que o agressor representa, que é justamente o que afundou o Brasil nesse fosso civilizatório. Em breve gente como o criador da página Sociedade Aberta vai voltar para o esgoto de onde saiu, porque o projeto que o promoveu será derrotado nas urnas e nas ruas. Então muitos dos que cometeram crimes vão responder pelos seus mal feitos. Isso será a melhor reparação que poderá existir para o meu filho e para todas as pessoas de algum modo atingidas pela agressão, bem como para todas as vítimas da opressão que todos os dias nos assola. É nisso que eu acredito e é pelo que luto.

*Carlos Zacarias é doutor em História e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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