O duginismo, a Nova Resistência e a sinofobia.

O futuro pertence à raça branca, nada temam. Ele pertence ao anglo-teutônico, o homem que veio do norte da Europa, de onde você, a quem os Estados Unidos pertencem, veio – o lar dos alemães. [O futuro] não pertence aos amarelos ou aos negros ou aos de cor oliva.

Imperador  Guilherme II, ao comentar o fim da primeira Guerra Sino-Japonesa (1894—1895)

1. As cabeças da Hidra pensam ordenamente?

O duginismo e  elementos de suas redes de influência como a Nova Resistência pretendem se infiltrar na esquerda brasileira e mundial, e, como já vimos, usam, sobretudo, uma tática que instrumentaliza o seu pretenso anti-imperialismo como um cavalo de tróia. A tática funciona da seguinte forma: o uso da retórica “anti-imperialista” busca fornecer alguma credibilidade às pessoas vinculadas às redes duginistas, que se apresentam então como mais um membro do bloco de resistência. A partir daí, passam a vincular o seu discurso de rejeição à ampliação de direitos à população LGBT, de puritanismo proibicionista quanto às drogas ou a qualquer tipo de imigração às suas posições anti-imperialistas, demonstrando as existentes instrumentalizações do imperialismo e do capital quanto a essas questões – sem apontar, porém, para a possibilidade de uma convergência entre ampliação de direitos e superação do capital ou, reversamente, à convergência entre setores capitalistas e do imperialismo e conservadorismo social. Todavia, esse pretenso anti-imperialismo duginista é sincero?

  Como se sabe, o principal adversário geopolítico dos Estados Unidos é a China. Desse modo, o estímulo à sinofobia tem sido um dos principais traços da política externa americana nos últimos anos, em especial com a ascensão de Donald Trump em 2017, o qual que contou com o apoio de redes ligadas ao duginismo por todo o mundo, esgrimindo o famigerado argumento de que ele seria um “mal menor” por pretender praticar uma política isolacionista. No que tange ao enfrentamento com a China, porém, é inegável que a eleição de Trump representou um recrudescimento no enfrentamento com a potência asiática – algo coerente já com seu discurso de campanha, que anunciava a guerra econômica contra ela.

   Seria mero acaso que as redes duginistas se embrenharam em uma campanha presidencial com tintas sinofóbicas, um imponderável na sua atuação contra “a unipolaridade” (vai ver que “imperialismo” é uma palavra muito forte no léxico pós-moderno empregado pelo duginismo)? Ou seria a sinofobia algo sistemático nos pluriversos de pensamento caótico e irracional que nutrem o duginismo? Vamos investigar – parafraseando aqui o supremacista Varg Vikernes, uma figura que muitos duginistas admiram, tendo um famoso adepto brasileiro da Quarta Teoria Política chegado a atuar no conflito ucraniano em um batalhão nomeado em homenagem a Vikernes –  a “Team Vikernes”.

2. Fundamentos da Sinofobia.

   Alexander Dugin há alguns meses esteve em conferência na China. Lá, o russo promoveu uma interpretação de que a China e a Rússia estavam envolvidas em um esforço comum de superação da hegemonia global ocidental em um sentido descolonizador – sem citar, é claro, o papel do marxismo nesse esforço de superação, mas sugerindo que a atuação que a China jogaria nesse esforço de descolonização se deveria justamente ao fato de que ela rejeita noções modernas (e marxistas) como a linearidade do fluxo histórico em favor de noções pré-modernas como a presença de uma visão de tempo circular [1]. Para os que gostam de Boaventura de Sousa Santos, a fala de Dugin talvez soe bem – para os que nutrem mais admiração por Mao Tsé-Tung e pelo velho Marx, é óbvio que isso fede a pós-modernismo a serviço de irracionalismos ao estilo de Julius Evola e René Guénon (autores admirados tanto por Olavo de Carvalho quanto por Dugin).

    A opinião de Dugin sobre a China não foi sempre tão positiva, porém. Em “Fundamentos da Geopolítica”, obra sua de 1997, Dugin defende já um foco propagandístico para as suas redes contra os Estados Unidos – algo que permanece até hoje. Todavia, nessa obra o russo também afirma, com todas as letras, que a China “[…]precisa, no maior grau possível, ser desmantelada”. Parece que os interesses imperialistas em Hong Kong concordam com Dugin nesse ponto. Como principal rival imediata da Rússia,  nesse livro Dugin defende que a China deveria perder a influência sobre regiões como a Mongólia, o Tibet, o Xinjiang e a Manchuria, preferencialmente através da anexação dessas áreas pela Rússia.

    Uma opinião isolada, alguns tentariam argumentar. Um texto antigo, de um passado já distante – tão distante quanto o texto “Fascismo: vermelho e sem fronteiras”, também de Alexander Dugin, em que o mesmo defende que a Rússia deve adotar o fascismo como ideologia política.

    Será assim de fato? O site Katehon, que faz parte das redes duginistas, publicou um artigo há algum tempo atrás que poderia facilmente ser encontrado em qualquer publicação straussiana e neoconservadora dos EUA. Com o título de “A China marcha em direção à guerra: quem será a primeira vítima?” [2], o artigo do ano passado descontextualiza a atuação chinesa nas suas imediações geográficas do aumento da pressão por parte de Donald Trump junto à potência asiática. Com a China sendo chamada de “vizinho perigoso”, o artigo enumera o que seriam movimentações belicistas chinesas e aponta possíveis alvos da “agressão chinesa” – entre eles, o Estado indiano, atualmente sob a liderança de Modi, um inimigo declarado do marxismo e apoiador de milícias responsáveis por violência étnica, religiosa e política voltado contra os naxalitas. Segundo Katehon, “o exército chinês está se preparando para a guerra […] rompendo o delicado equilíbrio que se desenvolveu no mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial”, sem qualquer menção à atuação do imperialismo do Norte na região…

3. Murros em sabres chineses (e peixeiras brasileiras).

    O pensamento eivado de sinofobia repercutido pelas  redes duginistas não se detêm nos casos citados. Um caso de relevo é o pensamento de Kai Murros, difundido em redes duginistas. Murros é finlandês e estudou ao longo de sua formação política a formação do Exército Popular Chinês e transitou do maoísmo a uma espécie de nacionalismo étnico branco.

    Em seu texto “Os desafios futuros da Europa” [3], Murros aborda o problema que a China representa ao futuro da “raça branca” e da “Europa”. Para ele, a China foi usada como peça de propaganda sobre o fim da dominação ocidental sobre o mundo, tendo sido instrumentalizada pelas elites globalistas para impor sua vontade sobre o resto do mundo em uma cruzada de aniquilação dos Estados-Nação e de sistemas de bem estar social. Ela também foi usada para desmobilizar a população branca, caricaturizada como “gorda, lerda inepta e preguiçosa” diante  do trabalhador chinês. O Partido Comunista Chinês seria apenas uma dinastia moderna iniciada por Mao Tsé-Tung, para ele – repetindo velhos mantras anticomunistas aqui.

    Para Murros, a supremacia chinesa não representaria contudo uma ameaça à Europa, já que sua produtividade seria apenas o fruto da transferência de indústrias européias e estadunidenses à China. O sucesso chinês é, ao fim e ao cabo, um mero “tigre de papel”, um fruto da ganância de elites transnacionais, e não teria relação alguma com a Revolução Chinesa. O principal perigo oriundo da potência asiática residiria no seu crescimento populacional – o qual deve ser combatido, Murros afirma claramente, entre outras medidas barrando as imigrações populacionais para a Europa. É preciso lembrar que o tema das imigrações chinesas toca em um assunto sensível ao supremacismo étnico russo, sempre amedrontado com os fluxos populacionais chineses à Sibéria, não sendo fruto do acaso o fato de que Murros já foi convidado a palestrar em círculos da política russa. Mas, o autor finlandês sublinha, “no fim, nem o Leste nem o Sul irão prevalecer sobre nós [europeus] – não importa quão rápido eles procriem”. Atenção ao termo zoomorfizador: procriem. Chineses aqui são os animalescos líderes de hordas terceiro-mundistas a invadir o mundo europeu e poluí-lo com sua “procriação”. De fato, ele chega a chamar com todas as letras as populações do Terceiro Mundo como os chineses de “populações de roedores”. Ou, em outros termos: sinofobia é mato.

    Nós, brasileiros, não temos dúvidas que pertencemos ao Sul procriador que Murros teme, detesta e que submeter ao que ele chama de “vontade européia”. Assim como os chineses, somos os “roedores” – as velhas toupeiras que o velho Marx dizia que preparavam, mais dia, menos dia, a volta do cipó de aroeira, o acerto de contas. Mas será que todos os brasileiros, mesmo aqueles ligados à Nova Resistência, têm consciência disso?

    Murros tem tido seu pensamento divulgado pelas redes duginistas presentes no Brasil [4]. Em texto lançado em maio desse ano no site duginista “Open Revolt” [5], mantido pelo líder e fundador da Nova Resistência James Porrazzo, lemos a seguinte frase sobre um fragmento de Murros que trata da “superpopulação mundial” (e vimos qual tipo de superpopulação realmente preocupa o finlandês): “[…] muitas das visões dele [de Kai Murros] estão extremamente alinhadas com as visões da Nova Resistência e do “Open Revolt”. Quaisquer diferenças são bem menores quando comparadas com a meta compartilhada e mais importante de defender e liberar a Europa e a diáspora européia do globalismo, do capitalismo internacional e seus cães de ataque. Pretendemos promover mais do seu trabalho no futuro próximo”.

    A Nova Resistência pretende promover o pensamento de um autor que deseja conter a “procriação” do Leste e do Sul geopolítico, tida como uma ameaça à “Europa” e à  “diáspora européia”. Nós, brasileiros que não nos envergonhamos de dizer que nosso Norte é o Sul, que temos orgulho em ter milhares de Bacurais prontos a desenvolver seus potenciais políticos, culturais, econômicos e, por que não?, demográficos (chora Murros), dispensamos tecer qualquer comentário quanto a esse fato.

4. Epílogo: a litania das meias-verdades.

   Como tantos que combateram o fascismo sabem, o problema de lidar com ele é que o fascista evidentemente diz meias-verdades, ou não teria adesão alguma. É verdade que a Quarta Teoria Política se declara contrária a qualquer tipo de atitude discriminatória. Mas se declarar algo basta para ser algo? Como Marx nos ensina, qualquer vendedor sabe que existe uma diferença entre aquilo que se alegar ser e aquilo que se é.

    Uma resposta que imaginamos possível ao nosso artigo é uma nova litania reafirmando que a Quarta Teoria Política e a Nova Resistência  rejeitam qualquer tipo de racismo e supremacismo étnico, se posicionando contra o mundo unipolar e blá blá blá, sendo assim inconcebível associar as redes duginistas a qualquer tipo de sinofobia ou pensamento supremacista.

    Recentemente, uma crise dentro da Nova Resistência veio à tona. Quanto às alegações que prevemos que surgirão rejeitando qualquer visão supremacista por parte dessa degeneração teórica e política, recomendamos a leitura das postagens de Facebook envolvendo a acima referida ruptura interna dentro do grupo duguinista. Os prints seguem abaixo; a referência para a postagem original se encontra em [6].

Retiramos algumas das imagens já que, apesar de se pretender uma organização revolucionária, os membros da Nova Resistência não se furtam a ajoelhar diante do Estado burguês para obter dinheiro através de processos. Seja como for, o leitor curioso pode conferir a íntegra da discussão na referência, que não fica alterada em praticamente nada.

    Como se pode ver, questões envolvendo racismo já causaram problemas internos a essa organização duguinista. E, evidentemente, alguns de seus membros gostariam que esses problemas ficassem “no privado” – o que desejam esconder? Ao que parece, até ligações com a organização estadunidense Frente Americana parecem ter existido – uma organização da qual o líder e fundador da Nova Resistência ainda nos Estados Unidos já foi acusado de ter feito parte. Pelo contexto, não fica claro se um membro da Nova Resistência chama a Frente Americana de organização neonazista –  como diz o ditado, “eles que são brancos, eles que se entendam”…

    Nesse rodamoinho caótico, podemos concluir que a sinofobia é só mais um exemplo dessa degeneração irracionalista. Só cabe uma atitude diante dessa Hidra fascista: combate sem meias palavras.

[1] https://www.geopolitica.ru/en/article/sco-summit-chinese-dragon-and-russian-bear-multipolarity-forces

[2] https://katehon.com/article/china-warpath-who-will-be-first-victim

[3] O texto se encontra disponível no seguinte fórum supremacista branco: http://www.thephora.net/forum/showthread.php?t=26424. Ele também foi divulgado no fórum supremacista Stormfront (https://www.stormfront.org/forum/t932287/), mas encontra-se agora indisponível. O site Stormfront voltará a aparecer no artigo, relacionado às redes duginistas

[4] Exemplo disso são os textos presentes no Blog Legio Victrix, mantido pelo líder da Nova Resistência no Brasil: https://legio-victrix.blogspot.com/2011/04/o-que-e-liberalismo.html; https://legio-victrix.blogspot.com/2011/04/kai-murros-um-finlandes-radical.html.

[5]  https://openrevolt.info/2019/05/11/kai-murros-on-overpopulation/
[6] https://www.facebook.com/photo.php?fbid=198582821133815&set=a.144425296549568&type=3&permPage=1

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