O erro crasso de usar a ultra-direita como cálculo eleitoral — Resposta ao “segundo turno ideal” de Breno Altman

Hoje faz exatamente um ano que a campanha do primeiro turno de 2018 se aproximava do fim e Breno Altman escreveu a pérola abaixo. Deu muito ruim. Esse texto é uma resposta a esse erro crasso.

“Você sempre acaba se parecendo com seus inimigos.” — Jorge Luis Borges em ‘O livro de Areia’.

As disciplinas de filosofia e psicologia têm identificado formas de argumentação que são erradas, mas que possuem uma aparência válida: são as falácias, linhas de raciocínio que levam a conclusões equivocadas ou, no mínimo, não necessariamente certas. Uma das mais usuais é a falácia do espantalho. Ocorre quando uma pessoa pega um argumento do seu oponente em uma discussão e o manipula para que ele pareça menos crível. Uma pessoa argumenta “A”, outra o interrompe e critica uma versão deturpada de “A”, incorreta, porém parecida: o espantalho. Essa equiparação forçada dá a impressão de que a “A” foi refutado. A intenção é não ter que enfrentar as posições originais da outra pessoa.

Uso da falácia do espantalho pela direita política — Uma parcela específica da esquerda é caricaturada de forma conveniente e seus métodos deslocados de contexto para desconstruir argumentos ambientalistas.

Uso da falácia do espantalho pela direita política — Uma parcela específica da esquerda é caricaturada de forma conveniente e seus métodos deslocados de contexto para desconstruir argumentos ambientalistas.

Por meio da falácia do espantalho, os argumentos do outro são substituídos pelo absurdo e o abjeto. É uma das formas de manipulação intencional mais utilizadas na blindagem defensiva de sistemas políticos e econômicos, ideologias religiosas e sociais, e é ubiquamente encontrada em debates públicos, na mídia, redes sociais e em comunicados oficiais. Praticada por uma instituição coletiva como uma empresa, partido, grupo midiático, igreja ou governo, essa forma manipulativa de ação política instrumentaliza, junto com outras falácias, o que Aristóteles definia como demagogia, a arte ou poder de conduzir o povo, que ele entendia como uma corrupção do ideal da democracia [1].

“Projeção” explicada por Homer Simpson

Em um caso particular bastante comum, a deturpação falaciosa de ideias e da expressão de um indivíduo pode ser feita atribuindo pensamentos e emoções expiadas da própria pessoa que responde. Nesse caso, o espantalho a ser refutado é um aspecto sombrio do próprio sujeito que se encontra em estado de defesa frente a um questionamento. A Psicologia classifica esse mecanismo de defesa como “projeção”: sentimentos ameaçadores, inaceitáveis ou indesejados, de determinada pessoa são reprimidos e, então, projetados externamente[2]. A projeção pode ser feita em algo, alguém ou grupo social, caso esse último em que deixamos o domínio da psicologia individual e entramos no campo social.

Um dos exemplos mais antigos dessas projeções generalizadas e materializadas talvez esteja no bode expiatório do antigo testamento: uma vítima animal, na qual eram imputados os erros e dificuldades de toda uma comunidade ou nação, era oferecida em sacrifício aos deuses: “Assim fará expiação pelo santuário por causa das imundícias dos filhos de Israel e das suas transgressões, e de todos os seus pecados” — (Levítico 16:16). A reafirmação de fé tribal se fazia através da refutação ritualística de espantalhos em uma projeção simbólica. Até hoje usamos a expressão “bode expiatório” para nos referir a alguém declarado culpado por razões irracionais.

Em estágios mais deteriorados de demagogia política, a projeção objetificada ou individualizada já não é mais suficiente para manter unido um grupo em crise. O papel de espantalho a ser refutado ou de bode a ser expiado recai sobre o inimigo imaginário: uma parcela indesejada da sociedade. Um exemplo antigo desse processo de condução popular se encontra também na Bíblia: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? (…) Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.” — (Romanos 8:31–33). A existência do inimigo gera certo alívio, mesmo que irracional, pois a culpa (e a desculpa) é da vilania, da imperfeição, da maldade externa, nunca das nossas contradições.

Percebe-se aí uma intenção extrema de criar uma dicotomia, um maniqueísmo do tipobem versus mal, para que a manutenção de algum resquício do disfarce racional fique ainda possível e a ideologia permaneça aceitável pela maioria. Aqui, vale deixar a explicação a um especialista nessa demagogia: “Quando as massas vacilantes se veem em uma batalha contra muitos inimigos, a objetividade instantaneamente se desperta e surge o questionamento de como pode todos os outros estarem realmente errados e apenas seu próprio povo ou seu próprio movimento estar certo.”, diz Adolph Hitler em ‘Minha Luta’[3]. Em outro trecho mais famoso, ele ilustra essa técnica de colocar na mesma pilha uma pluralidade de adversários variados:

Em geral, a arte da liderança, exibida por todos os grandes líderes populares em todos os tempos é principalmente não dispersar a atenção de um povo, mas sempre consolidá-la em um único adversário. Quanto mais uniforme for o direcionamento da vontade de um povo, maior será a atração magnética do movimento e mais poderoso será o impacto de seus ataques. Faz parte da genialidade de um grande líder fazer com que até oponentes díspares pareçam pertencer a apenas uma categoria, porque o reconhecimento de vários inimigos pela natureza fraca e insegura de muitos de seus seguidores levarão muito facilmente ao início da dúvida sobre a própria causa.”[3]

Exemplos históricos desse processo não faltam. Casos clássicos e bem documentados foram a caça às “bruxas” durante a Inquisição e as perseguição aos ciganos em várias partes do mundo. Quase sempre estão entre alvos as minorias étnicas ou imigrantes. O mais famoso exemplo, trágico, vem sob a responsabilidade do próprio Hitler durante o período nazista que culminou com o extermínio em campos de concentração de cerca de seis milhões de pessoas, judeus em maioria, mas também ajuntados a eles em uma mesma pilha de inimigos, ciganos, comunistas e homossexuais. Processo esse inserido em uma tentativa de justificar não só seu regime e sua ideologia supremacista, mas manter todo um esforço bélico.

Construção simultânea de um inimigo externo e de identidade patriótica

Lembrando a famosa citação de Clausewitz[4], estrategista militar, de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”, posso arriscar que os momentos de extrema crise política que antecedem uma guerra inevitável e até desejada coincidem com a priorização de inimigos imaginários e a urgência de materializá-los em um inimigo bastante real, não mais interno, mas externo, projetando para além das fronteiras nacionais as nossas falhas e contradições sociais de forma análoga à projeção psíquica individual. São as guerras santas, as cruzadas cristãs medievais, a Jihad islâmica, a guerra contra o “eixo do mal” de George Bush. Quanto mais demoníaco for o inimigo estrangeiro mais eficiente será a manutenção do esforço de guerra.

Aqui vale lembrar Umberto Eco quando comentou em tom de piada em ‘Construindo o inimigo e outros escritos’[5], sobre os problemas da Itália: “convenci-me de que uma das desgraças do nosso país, nos últimos sessenta anos, foi precisamente não ter tido verdadeiros inimigos. (…) Veja o que aconteceu aos Estados Unidos quando desapareceu o Império do Mal e o grande inimigo soviético se dissolveu. Arriscavam o ruir da sua identidade, até que Bin Laden, grato pelos benefícios recebidos quando era ajudado contra a União Soviética, estendeu aos Estados Unidos a sua mão misericordiosa e forneceu a Bush a oportunidade de criar novos inimigos, reforçando o sentimento de identidade nacional, e o seu poder”.

Umberto Eco continua: “Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em ralação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.” Reforça-se aqui que a necessidade não de um inimigo comum, mas de uma estratégia política-bélica que selecione e construa o pior adversário em potencial. A estratégia pode ser definida como a invenção do pior inimigo, seguida do seu fortalecimento, de modo a tornar a sua ideologia como uma saída razoável contraposta a um espantalho abjeto. A palavra “espantalho” é usada no sentido já aqui definido. Uma estratégia tão antiga quanto a Ilíada grega.

O exemplo ilustrativo mais recente de uso militar da tática é na guerra da Síria, que, ainda em progresso, parece já revertida em favor dos governistas. Como Eco sugeriu, somos cientes das relações dos EUA com milícias árabes sunitas desde o uso dos talibãs contra os russos. O governo Assad, que enfrentava oposição armada desde a primavera árabe, reprimiu seletivamente a oposição mais moderada e entregou espaços políticos e geográficos ao Estado Islâmico, o pior inimigo possível, de modo a se reposicionar no centro: “Os conselhos populares formados pelos insurgentes em diversas cidades sírias foram desmantelados e a oposição foi ficando cada vez mais restrita a milícias islâmicas das mais diversas filiações.” descrito por Bruno Huberman.

A esperteza de Assad consistiu em se apropriar da mesma jogada de potências ocidentais, como os EUA, Inglaterra e França. Alimentou o maior vilão na história para justificar a sua política. Assim, Assad “combinou com os russos” como Garrincha brincou com o técnico Feola na copa de 1958. Assad entregou a Putin e ao Irã o papel oficial de combate ao terrorismo de forma análoga ao que os EUA já vinham justificando suas intervenções, mas de uma forma que validasse, dessa vez, o seu governo. Em um de palco onde os lados optaram desde o início pela pior encenação, o custo já é de cerca de 500 mil mortos, 5 milhões de refugiados e toda uma perda de infraestrutura nacional.

Como os processos por trás dessas técnicas são irracionais, eles se justificam em um contexto de identificação chauvinista entre líderes e seus seguidores. Russos e norte-americanos aprovam, em sua maioria, as ofensivas militares contra Talibã, Al Qaeda e Estado Islâmico e suas respectivas classes dominantes entendem a criação e destruição desses inimigos artificiais não só como acerto, mas se gabam de suas jogadas geniais de “xadrez geopolítico”. Entretanto, justo pela irracionalidade ali embutida, nem sempre tudo sai como o esperado. Invertendo o sentido original da frase de Clausewitz, (não vejo restrição à via de mão dupla), a política é também a guerra por outros meios. Segue aqui um exemplo de onde o pior inimigo acabou vencendo:

No começo das primárias republicanas para a campanha presidencial de 2016, o partido Democrata, principalmente a ala da pré-candidata Hillary Clinton, deliberadamente escolheu “elevar” os piores republicanos ao posto de “leader of the pack”, líder do rebanho, em tradução minha. Essa estratégia nomeada de “pied piper”, em referência ao conto folclórico do Flautista de Hamelin, foi vazada pelo Wikileaks, e mostra que a finalidade era: “tornar quem quer que fosse o candidato republicano intragável para a maioria do eleitorado”. O documento nomeia especificamente, como um doscandidatos “pied piper”, Donald Trump.O resto da história já é bem conhecido. Deu ruim.

Já no Brasil, em 2014, a tática teve o objetivo esperado. O PT, já com algum desgaste, tomou um susto ao ver que sua candidata à reeleição, Dilma Rousseff, perderia um segundo turno contra Marina Silva, que estava à frente de Aécio Neves. Na ocasião, a campanha de Dilma, através do marqueteiro João Santana, concentrou ataques em Marina e elevou o pior candidato, Aécio, ao segundo turno, que cumpriu o objetivo de perder, em seguida, para Dilma. Na campanha de 2018, Fernando Haddad tentou se reconciliar com Marina atribuindo a culpa ao marqueteiro, já em desgraça, João Santana: “Isso foi um erro. Eu liguei para o João Santana porque havia o rumor de que isso seria efeito. Ele respondeu que não ( seria feito ). E fez”.

O custo da manobra foi alto. Ao ser alimentado como “pior inimigo”, Aécio agora era líder da oposição, e tinha, inclusive, bem mais capital político para articular com interessados no legislativo um impedimento para que Dilma não concluísse o mandato. Coisa que dificilmente Marina teria feito, a não ser na cabeça de quem já se acostumou a “colocar os adversários na mesma pilha”. Com a destituição da presidenta, e a principal figura do partido e presidenciável declarado, Lula, preso e inelegível supostamente por corrupção, o inimigo a ser alimentado em um eventual confronto com um candidato petista em 2018 precisava ser bem pior que Aécio, alguém que reunisse defeitos e vícios de um inimigo ideal.

Cartoon do Vini satirizando o cálculo eleitoral com espantalhos

O nome já havia sido antecipado por Mino Carta em fevereiro de 2017: “Lula é inevitável, vence os adversários mais cotados como Bolsonaro, fruto do discurso do ódio”. Lula incentivou, em novembro, disse que Bolsonaro “não é extrema-direita e tem direito de se candidatar”. Já em campanha, em julho de 2018, Gleisi Hoffmann foi taxativa: “Bolsonaro é um problema do PSDB, não nosso”, o mesmo dito por José Dirceu em setembro: “O problema do Bolsonaro é do PSDB e do DEM.” A campanha petista poupava Bolsonaro e atacava adversários mais moderados, Marina, Alckmin e o ex-aliado, Ciro Gomes, que enfrentando petismo e anti-petismo, não passou do terceiro lugar.

Ciro, irritado com as querelas entre PT e PDT, comuns desde os tempos de Brizola, se referiu ao pleito como “convite à valsa na beira do abismo”. Provavelmente ele usou o termo “abismo” no sentido comum, antecipando uma provável derrota do petismo frente um espantalho anti-petista mais forte. O uso da palavra, porém, me lembra de uma das passagens mais famosa de “Além do Bem e do Mal” [6] onde Nietzsche alerta que: “Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro. Quando se olha muito em um abismo, o abismo também olha para ti.” de provável inspiração bíblica no Salmo 42:7 que diz que “Um abismo chama outro abismo ao som de tuas quedas”.

Em 23 de setembro, às vésperas do 2º turno, na expectativa da 5ª vitória consecutiva no pleito executivo, coube a um abismado articulista petista, Breno Altman, o “sincericídio”, a celebração pública de que Bolsonaro era usado com sucesso como cálculo eleitoral: “O pais caminha para o segundo turno ideal. Haddad e Bolsonaro é a segunda volta dos sonhos para contrapor sem máscaras a civilização e a barbárie. Não se trata apenas ou principalmente de cálculo eleitoral, embora também o seja, por ser cientificamente mais fácil a vitória da esquerda se enfrentar a ultra-direita. (…) Será imensamente positivo para o povo brasileiro enfrentar esse expoente neofascista na rodada final.” Deu muito ruim.

Noam Chomsky em ‘The Common Good’[7] já disse que: “A maneira inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro de opiniões aceitáveis, mas permitir um debate muito animado dentro desse espectro — até incentivar as visões mais críticas e dissidentes. Isso dá às pessoas a sensação de que há livre pensamento em andamento, enquanto o tempo todo, os pressupostos do sistema estão sendo reforçados pelos limites impostos ao alcance do debate.” Esses limites impostos pelo sistema político atual, a democracia representativa, são conhecidos por outros autores como a “Janela do discurso”, ou “Janela de Overton”, com o nome de quem popularizou o termo.

A janela, da forma como é mostrada na figura ilustrativa, indica duas características definidoras do atual sistema político, que eu chamaria de democracia representativa liberal: 1- A janela é estreita: a distância entre a esquerda e a direita oficiais é muito menor do que o vale entre esquerda e direita possíveis. Processos históricos que definiram os polos, como a “luta de classes”, conceito de Marx, ficam restringidos a uma pseudo-polarização parlamentar. 2 — A janela é móvel, o que significa que ela se adapta à evolução da opinião pública, decorrente de processos como protestos de massa, comoção coletiva, eventos históricos, ação da mídia ou de instituições de inteligência sobre assuntos de política social, os chamados “Think Tanks”.

A ponte que construo entre os conceitos abordados até agora, é que a técnica (cálculo eleitoral segundo a esquerda oficial), de usar espantalhos para evitar críticas, esconder contradições e reposicionar o centro equivale, em efeito, ao de um Think Tank cujo objetivo é mover a opinião pública para a direita. O uso do inimigo ideal só teria sentido em um contexto de mudança radical, onde é prevista sua aniquilação. Na democracia, burguesa assim dizendo, os polos do discurso políticos imitam os polos de um ímã, que não podem ser isolados. O uso de espantalhos como Trump e Bolsonaro para ganhar os votos no “menos pior” movimenta a janela de discurso à extrema-direita e naturaliza suas opiniões, abrindo caminho para uma futura vitória deles.

Nesse momento, o leitor pode se perguntar “o que fazer, então?”. Umberto Eco pondera: “Parece que não se pode passar sem o inimigo. A figura do inimigo não pode ser abolida dos processos civilizacionais. A necessidade é congênita mesmo do homem brando e amigo da paz. Simplesmente, nestes casos, a imagem do inimigo é transferida de um objeto humano para uma força natural ou social, que de algum modo nos ameaça, e que tem de ser vencida, seja ela a exploração capitalista, a poluição ambiental, a fome do Terceiro Mundo. Mas, mesmo que estes sejam casos “virtuosos”, como nos recorda Brecht, também o ódio à injustiça desfigura o rosto”. Eco se refere ao poema “Aos Que Virão Depois de Nós” [8], do comunistíssimo Bertolt Brecht:

“Vocês, que vão emergir das ondas / em que nós perecemos, pensem, / quando falarem das nossas fraquezas, / nos tempos sombrios / de que vocês tiveram a sorte de escapar. / Nós existíamos através da luta de classes, / mudando mais seguidamente de países que de / sapatos, desesperados / quando só havia injustiça e não havia revolta. / Nós sabemos: / o ódio contra a baixeza / também endurece os rostos! / A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca! / Infelizmente, nós, / que queríamos preparar o caminho para a/ amizade, / não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. / Mas vocês, quando chegar o tempo / em que o homem seja amigo do homem, / pensem em nós / com um pouco de compreensão.”

Umberto Eco sugere que:“a instância ética se sobrepõe, não quando se finge que não existem inimigos, mas quando procuramos compreendê-los, colocar-nos no seu lugar. (…) Mas sejamos realistas. Estas formas de compreensão do inimigo são próprias dos poetas, dos santos ou dos traidores. As nossas pulsões mais profundas são bem de outra ordem.” A utopia, segundo Eco, de transferir a imagem do inimigo de um ser humano para uma força social foi abordada, em uma perspectiva marxista, por Nildo Viana, em “A invenção do inimigo imaginário” [9]: “A concepção marxista não cria inimigos imaginários e sim aponta o inimigo real, a classe dominante (…), e vê na transformação social a solução para este problema”.

Nildo resume: “o objetivo da revolução proletária não é destruir pessoas e sim mudar as instituições, as relações sociais”. Ele explica que o ódio ao inimigo é derivado de uma idiossincrasia e não da teoria marxista e cita Rosa Luxemburgo [10]: “A revolução proletária não precisa do terror para realizar seus fins, ela odeia e abomina o assassinato. Ela não precisa desses meios de luta porque não combate indivíduos, mas instituições, porque não entra na arena cheia de ilusões ingênuas que, perdidas, levariam a uma vingança sangrenta” e Jean-Paul Sartre [11]: “Aos olhos do marxista, a luta de classes não constitui de modo algum o combate entre o bem e o mal: trata-se de um conflito de interesses entre grupos humanos.”.

É interessante que todas essas frases são ditas por homens e mulheres que foram adeptos e advogaram uma ruptura radical (revolução), conscientes de que haveria vítimas: “revoluções sangrentas frequentemente necessárias, graças à estupidez humana, e, no entanto, jamais deixam de ser um erro monstruoso e um grande desastre, não só para suas vítimas como para a virtude das causas que se propõem defender”, como diria Bakunin. Nenhum deles, no entanto, colocaria a criação de um inimigo como cálculo necessário ou suficiente para uma mudança social. Nem aqueles que topam “quebrar uns ovos para fazer uma omelete”, como diz o dito popular, recomendam a estratégia.

No caso onde a atuação da esquerda se restringe aos limites do republicanismo, na melhor hipótese, reformista, a criação e exposição de espantalhos é recurso demagógico mais deletério ainda. Nas situações de “democracia em vertigem”, onde a perspectiva de ruptura à esquerda chega a ser reprimida pelos partidos da ordem, incluindo os de esquerda oficial como “perigosa anti-política em coro com os golpistas” e as rupturas são mais prováveis pela direita, o uso de espantalhos se torna um vício permanente e irresponsável que acaba empurrando a janela do discurso à extrema-direita, cedendo palco e naturalizando vozes perigosas quando combinada à irracionalidade, imediatismo e inseguranças humanas.

Retórica política permanente fazendo uso de espantalhos mesmo após a derrota para Bolsonaro.

Breno Altman conclui seu texto assim: “Sua [de Bolsonaro] derrota frente ao candidato do Lula, será a que mais abre caminho para a reconstrução democrática da nação”. Nada mais falacioso, pois no caso de vitória, ou seja, na volta de uma tolerância democrática, espantalhos continuam sendo recursos retóricos usados não para serem vencidos, mas para continuar assombrando e expiando quaisquer erros ou políticas impopulares de um eventual governo Haddad. Espantalhos são matéria prima de figuras como João Santana e Breno Altman. A favor desse último, cabe pensá-lo com um pouco de compreensão como sugere Brecht. A cólera contra a injustiça fez sua voz ficar rouca.

Na ausência de um processo revolucionário, o uso de espantalhos cava sua própria cova, pois mostra-se enviesado na vitória e fatal na derrota. É essencial construir movimentos sociais cuja atuação fuja de maniqueísmos e personalismos no andar de cima, mas que empurre a base, a janela de discurso, ou seja, a opinião pública, de volta ao campo popular, de forma que, independente das siglas majoritárias nas disputas palacianas, as decisões tomadas por elas reflitam ideais de igualdade e solidariedade construídos na base da sociedade civil. Quando se cria consenso popular sobre uma pauta ou causa, o governo, até por demagogia, vai se submeter. Construir mais os movimentos e menos os candidatos. Até porque o congresso que criou o SUS tinha 16 petistas, o que entregou o pré-sal tinha uns 70.

Referências Bibliográficas:
1. ARISTÓTELES. Política. Tradução do grego, introdução e notas do Prof. Mário da Gama Kury. 3 ed. Universidade de Brasília.
2. WADE, Tavris “Psychology”. 2014. 6th Ed. Prentice Hall
3. HITLER, Adolph Minha Luta 1925
4. CLAUSEWITZ, Carl von. 1832. Da Guerra.
5; ECO, Umberto. 2011. Construindo o inimigo e outros escritos. Tradugéo Jorge Vaz de Carvalho. 1ª Ed. Lisboa
6. NIETZSCHE, Friedrich. 1886. Além do Bem e do Mal.
7. CHOMSKY, Noam. 1998. The Common Good.
8. BRECHT, Bertolt. Aos Que Virão Depois de Nós.
9. VIANA, Nildo. A Invenção do Inimigo Imaginário. Antítese, Goiânia/CEPEC, v. 4, p. 95–111, 2007.
10. LUXEMBURGO, Rosa. O Que Quer a Liga Spartacus? In: LUXEMBURGO, Rosa. A Revolução Russa. Petrópolis, Vozes, 1991.
11. SARTRE, Jean-Paul. Reflexões sobre o Racismo. São Paulo, Difel, 1960.

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Mauro Cardoso

Médico Epidemiologista e Estatístico, atua na área de saúde pública estudando os cavaleiros do apocalipse: a peste, a fome e a guerra.