O fascismo ocultista de Dugin e o sequestro do anti-imperialismo da Esquerda e do anti-salafismo muçulmano.

por Wahid Azal, Publicado originalmente em Counterpunch

Em seu artigo publicado no zine CounterPunch em Setembro de 2015, “Um Novo Capítulo na Internacional Fascista”, Alexander Reid Ross nos deu uma luz sobre o pé em que anda a Internacional Fascista em tempos recentes, sublinhando o papel do fascista russo e teórico da Quarta Teoria Alexander Dugin e suas redes nela. O que não recebe ampla atenção, todavia, sobre o estado atual das atividades dessas redes duginistas, especialmente nas redes sociais, é seus esforços de recrutamento ativo tanto entre a esquerda quanto entre grupos dispersos de muçulmanos xiitas e sunitas anti-salafistas, particularmente entre apoiadores do Eixo de Resistência. Essa sucessão de esforços parece ser muito mais uma tentativa de tornar a situação mais confusa, empreendida por certos agentes decisórios por trás das cenas que poderiam fraturar (ou neutralizar) uma frente unida contra o Império a partir da mobilização de base e eventualmente redirecioná-la para fins mais sinistros, do que efetivamente uma aliança legítima. Nesse artigo, iremos abordar a faceta pouco debatida desses desenvolvimentos (trata-se de um guia informando sobre o subtexto da palavra de ordem ideológica duginista “para além da esquerda e da direita” e sua tentativa de agradar todo mundo); e, nesse mesmo rumo, trataremos da apropriação duginista de uma estrutura ocultista primordialmente ocidental (em especial da visão de mundo da mágika do Kaos) e sua transformação pelos duginistas em uma estratégia para ação política a serviço da Internacional Fascista.

Para onde leva o Tradicionalismo de Dugin?

Muitas discussões sobre Alexander Dugin já publicadas sublinharam suas vastas e quase sempre contraditórias influências, assim como seu passado e trajetória ideológica. Por exemplo, o “Tradicionalismo” ou “Neotradicionalismo” de Dugin – isso é, sua adesão às idéias do sufi francês e convertido ao Islã René Guénon (morto em 1951) e o italiano Julius Evola (morto em 1974) – foi detalhada por Mark Sedgwick e outros (ver, por exemplo, o livro dele de 2004, “Against the Modern World”, capítulo 12). Todavia, ao menos nos anos mais recentes, o Tradicionalismo de Dugin tem sido exagerado, tendo em mente seu heideggerianismo fanático (quase messiânico) – especialmente quando o comparamos com as visões de desprezo, e mesmo de aberta hostilidade, que muitos da escola tradicionalista nutriam quanto a Martin Heidegger. Isso parece o ter colocado fora da proverbial aquarela do Neotradicionalismo. Comentários feitos em um dos primeiros capítulos de seu livro de 2014, “Martin Heidegger: The Philosophy of Another Beginning’ “, página 18, onde Heidegger é elevado por Dugin ao status de uma figura escatológica de um novo clímax ao lado do profeta do Islam apenas reforça as visões negativas tradicionalmente quanto ao “anti-tradicionalismo” de Dugin normalmente expressas por neotradicionalistas contemporâneos.

Assim, o pretenso Tradicionalismo perenialista de Dugin, que serviu por um bom tempo como seu cartão de visitas biográfico, não é mais um traço confiável para descrevê-lo de forma acrítica e sem questionamentos. Se Dugin algum dia foi um neotradicionalista, não o é mais em qualquer sentido significante, o que faz o uso e apropriação feita das idéias de Dugin por nacionalistas brancos dos Estados Unidos, como Matthew Heimbach, ainda mais sem qualquer validade. Portanto, continuar a discutir as idéias e posições de Dugin sob a luz do Tradicionalismo evoliano e guenoniano pode ser de fato algo só confunde porque em tempos recentes ele se movimentou na direção oposta, rumo ao que alguns neotradicionalistas provavelmente caracterizariam como “correntes contra-iniciáticas” e como “Contra-Tradição”.

A Mágicka do Kaos como a verdadeira visão de mundo duginista

A idéias misantrópicas do ocultista britânico e satanista Aleister Crowley (morto em 1947), por outro lado, estruturam a visão de mundo duginista e sua práxis contemporânea. De fato, é dentro da visão de mundo da mágicka de Kaos (ou magia do Caos) que a compreensão de muitos dos paradoxos e aparentes contradições da visão de mundo duginista devem ser buscados – e em especial da palavra de ordem da Quarta Teoria, “para além da esquerda e da direita” -, já que esse é (de forma explicitamente articulada ou não) o verdadeiro locus animador da práxis da extrema-direita duginista, a começar pela escolha de sua simbologia, isso é, a bandeira eurasiana de oito pontas (ou flechas) amarelas ou brancas estruturadas em um padrão de irradiação, com um fundo preto de fundo. Esse símbolo é referido dentro da Magia do Caos como a “roda do Caos”, “o símbolo do Caos”, “os braços do Caos”, “as flechas do Caos”, “a estrela do Caos”, “a Cruz do Caos”, “a Caosfera” ou “o símbolo do oito”. A visão de mundo da Magia do Caos é um fruto da filosofia thelêmica de Crowley, devemos lembrar. Uma espécie da reminiscência da Sociedade Thule e da apropriação da suástica por Hitler a partir dos escritos dos escritos da fundadora da Sociedade Teosófica Helena Blavatsky (morta em 1891), Dugin pegou seu desenho das popularizações feitas por magos do Caos ocidentais durante os anos 1970 e 1980 os quais se apropriaram dele por sua vez através do trabalho do escritor britânico de ficção científica e fantasia Michael Moorcock.

Devemos ressaltar aqui que tanto o número oito quanto a cor preta possuem papel de destaque em toda a simbologia neonazista e de extrema-direita, para não mencionar que a própria “roda do Caos” guarda semelhanças chamativas com o conhecido símbolo da “roda de sol negro” usada pela SS e muitos neonazistas contemporâneos (assim como o símbolo antigo dos velhos falangistas espanhóis). Em sua própria defesa, Dugin provavelmente alegaria que o número oito possui importantes correspondências dentro do esoterismo cristão assim como se refere a Cristo. Todavia, sua óbvia (ou, antes, dúbia) escolha da “roda do Caos” tende a refutar essa afirmação. Além disso, como um auto-proclamado nacionalista russo, não fica exatamente claro porque Alexander Dugin escolheu seu principal símbolo de fontes localizadas dentro da tradição do ocultismo britânico ao invés daquelas presentes na sua Rússia nativa, ou, ainda, dentro da Cristandade Ortodoxa Oriental a que ele afirma aderir. Esse ponto sozinho, acreditamos, apenas reforça as alegações que dizem respeito ao anti-tradicionalismo de Dugin, ao mesmo tempo que o situa em universo totalmente diferente daquele que ele pretende ser um porta-voz.

Seja como for, tal comportamento por si só seria bem consistente com o ditame básico da Magia do Caos que afirma a maleabilidade de todas as crenças e a utilidade delas como ferramentas nas mãos do Mago do Caos. Aqui é a “Vontade de Poder” nietzscheana em si mesma que vira a motivação primordial do mago negro, convertido agora em ativista político. A partir disso, a próxima fórmula significativa da Magia do Caos é a da contínua mudança de paradigmas ou a constante mudança arbitrária de crenças, onde a sustentação de posições contraditórias simultaneamente se torna um veículo para a auto-realização e a compreensão da coincidência dos opostos que subjaz a todos os fenômenos, coincidentia oppositorum. Como prática espiritual existem numerosas correlações e comparações que podem ser feitas com essa idéia específica entre muitas tradições ao redor do globo (isso é, o Taoísmo, o sufismo, o Tantrismo, o hermetismo, etc), e em si própria ela é algo neutro. O caso é que com Dugin e seus acólitos a questão não está ligada especificamente a qualquer prática espiritual e na sua realização por si, mas antes se trata puramente de uma prática política e de vontade de poder em sua forma mais bruta. Em outras palavras, para Dugin o laboratório alquímico e sua ars operativa reside não em si próprio, mas antes no mundo maior e no teatro da política onde o mago negro atua para “imanentizar o eschaton” [1]  e onde esse “eschaton” representa a inversão de todos os valores.

A Pedra Filosofal de Dugin é portanto o poder sobre o mundo como um fim em si mesmo, e não poder sobre si próprio. Isso, somado com outros traços de seu pensamento, é o que informa a palavra de ordem “além da esquerda e da direita” repetida como um mantra pelos duginistas. É também o que faz do duginismo algo particularmente perigoso como uma ideologia e como um movimento. Em outras palavras, nessa visão de mundo onde a Magicka do Kaos atua como um motor primordial ideológico, princípios ocultistas são postos a serviço de um programa político fundamentalmente fascista. Alguns também chamariam isso de uma forma de Satanismo e mais uma manifestação da própria modernidade e do “Ocidente materialista” que Alexander Dugin pretende combater. É possível dizer que o Nacional Socialismo hitlerista tentou basicamente a mesma coisa, a despeito de tudo que Dugin faz para se distanciar e criticar desse movimento – também animado, tal como foi, por preocupações e motivações ideológicas subjacentes quase idênticas.

Tendo isso em vista, René Guénon costumava dizer que Blavatsky e sua Sociedade Teosófica existente durante o século XIX e início do XX essencialmente atuavam como um cavalo de Tróia colonialista apoiado pelos serviços secretos britânicos de modo a infiltrar e dispersar as culturas religiosas tradicionais dos vários subcontinentes em que se fazia presente (ver o seu livro, “Teosofia: a História de uma pseudo-religião”). Quando olhamos para as redes de Dugin no Irã, Líbano, Síria e em vários pontos do mundo islâmico, para não mencionar a Europa Oriental, não podemos descartar totalmente a possibilidade que padrões e induções similares estejam motivando e subjacentes à agenda de recrutamento dos duginistas onde o próprio Dugin pode ser visto como uma nova Blavatsky com suas redes como sucessores da Sociedade Teosófica – o cavalo de tróia do Império Britânico. Certamente, sua tentativa de estilhaçar o já fraturado espectro de esquerda/direita na Europa para recrutar mais gente para a extrema-direita parece apelar a isso diretamente dado que a sua retórica abertamente racista e reacionária quanto à crise imigratória/dos refugiados, tendo tudo em vista, tende a colocar um problema às alianças que eles fizeram dentro do mundo islâmico entre iranianos, iraquianos, libaneses, sírios e outros setores do eixo de resistência.

Rússia, a crise dos refugiados na Europa e a geopolítica duginista de extrema-direita em ação.

Agora, o papel instrumental da OTAN no colapso do Estado líbio em 2011; a Guerra na Síria que agora chega ao seu quinto ano; o Estado islâmico; Ucrânia e, acima de tudo, a crise de refugiados na Europa parece ter fornecido aos duginistas uma rara oportunidade para explorar rachas antigos e novos entre interssecções tanto da esquerda anti-guerra quanto entre ativistas da própria comunidade muçulmana para recrutar a partir desses grupos. Isso se evidencia especialmente nos recentes pontos adotados por um grande número de comentaristas de esquerda que costumam ser progressistas que aparecem regularmente no Russia Today e em outros pontos da mídia alternativa onde sua posição consistente antiguerra quanto à Síria em específico e ao imperialismo ocidental em geral tem cedido espaço para uma mistura de narrativas reacionárias sobre a crise européia de refugiados. Resumindo, temos uma situação em que certos progressistas (e mesmo muçulmanos) adotaram a retórica supremacista branca contemporânea sobre uma guerra de culturas de caráter fascista (e de seus contumazes amigos de viagem) que flagela os imigrantes do Oriente Médio e Norte da África e outros buscadores de asilo na Europa, em que a histeria direitista sobre o que se percebe ser uma ameaça à “cultura européia” e “seu modo de vida” é repetida acriticamente, de vários modos, como se fossem papagaios.

Se alguns culpam o Estado russo diretamente por tais desenvolvimentos recentes, o ponto de vista do presente autor é de que tal desenvolvimento de eventos ultimamente beneficia as agendas do próprio Império ao invés da Rússia, de modo tal que esses duginistas podem estar de fato servindo de cães de guarda para iniciativas para iniciativas políticas de longo termo anglo-americanas e atlantistas ao invés daquelas específicas da Rússia. Seja como for, rumores surgem por todo o lado de que o Estado russo foi um doador generoso (e mesmo chegou a financiar abertamente por alguns períodos) grupos fascistas e de extrema-direita como o Jobbik na Hungria e o Aurora Dourada na Grécia. Desde 2014 na Alemanha, por exemplo, o AfD  (Alternative für Deutschland), o NPD (Nationaldemokratische Partei Deutschlands) e o PEGIDA teriam recebido substancial apoio financeiro moscovita como uma forma de desestabilizar Merkel e o centro alemão, personagens centrais nas sanções impostas à Rússia após a anexação da Criméia em Março de 2014. Alegações similares surgem quanto ao Front National de Le Pen na França. Certamente muito do jingoísmo anti-imigração e anti-refugiados publicado regularmente nas páginas do Russia Today em face dessas situações tende a apoiar tais alegações.

Todavia, mesmo com isso, não é claro exatamente como tais políticas beneficiariam estrategicamente a Rússia de Putin no longo termo, já que essas mesmas forças que a Rússia ostensivamente apoia hoje poderiam facilmente ser dirigidas no futuro pelo seu rival geopolítico anglo-americano e usados contra a própria Rússia, como o caso da Ucrânia demonstra de forma cabal. Certamente pode se argumentar que a Rússia e os atlantistas Anglo-americanos estão usandos “proxies”  concorrentes de extrema-direita uns contra os outros tendo em vista seus próprios interesses na Europa como uma forma de guerra assimétrica, tendo a Alemanha como um de seus campos de batalha chave e a questão da crise de refugiados como eixo nervoso. Mas isso tenderia a indicar algum racha na Internacional Fascista e também explicar uma das razões para os agressivos esforços de recrutamente presentemente feitos pelos duginistas (especialmente entre muçulmanos e esquerdistas desencantados e sem lar) nas mídias sociais e outros lugares. Apesar disso, na Grécia, por exemplo, não foi com o Aurora Dourada mas com o Syriza que Dugin investiu pessoalmente mais energia, e o papel do Syriza desde 2015 em acentuar a fratura interna dentro da esquerda européia foi inegavalmente central…

Muito mais poderia ser dito, mas qualquer que seja a retórica jogada por duginistas entre comunidades ativistas para atraí-las, em seus próprios méritos o duginismo não é nem autenticamente anti-imperialista nem possui genuinamente quaisquer valores de esquerda. Nem, aliás, se trata de um movimento Tradicionalista. Na verdade, em todas as suas faces o duginismo representa uma forma bem maquiada de separatismo branco fascista, o que significa dizer que é mais uma transmutação ideológica do supremacismo branco euroamericano que se organizou em um movimento. A própria definição enviesada de Dugin do que é a Eurásia, na qual a Eurásia meramente representa a faixa de terra horizontal entre Vladivostok e Lisboa (e na qual se exclui categoricamente todo o Sudoeste e Sudeste Asiático), reforça esse fato. Assim, os perigos sedutores representados pelo duginismo e suas redes a qualquer frente unida contra o Império entre a esquerda anti-imperialista e os muçulmanos anti-salafistas não pode ser subestimado.

[1] Nota da tradução: “Imanentizar o eschanton” se trata de expressão popularizada pelo autor Eric Voegelin, difundido no Brasil através de Olavo de Carvalho e da editora “É Realizações”. Voegelin utiliza a expressão pejorativamente para se referir aos esforços realizados por movimentos político de trazer a História a um Fim, isso é, de realizar o momento escatológico no mundo, na esfera imanente, visto por ele como um esforço tipicamente gnóstico – apesar de autores como Russel Nieli apontarem a proximidade teórica entre Eric Voegelin e autores gnósticos e perenialistas como Frithjof Schuon, o qual foi mestre espiritual de Olavo de Carvalh

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