O infortúnio do black bloc: violência, performance e organização

Introdução

Nos últimos anos, desde a massificação dos atos de rua surgidos nas chamadas “jornadas de junho”, observa-se, na maioria dos atos convocados pela esquerda, a presença de grupos de indivíduos mascarados. Ora vistos como “vândalos infiltrados” pela mídia hegemônica, ora como necessária expressão de algo, os black bloc sempre causaram polêmica. Os primeiros textos surgiram com as primeiras vidraças quebradas, e a discussão está colocada desde então. Não se pretende, evidentemente, esgotar aqui esse debate, mas sim pensar em alguns pontos construtivos para o avanço, não só da compreensão do fenômeno da violência, mas também sobre a sua utilização pelos que objetivam a superação do capitalismo e que sabem que isso não se dará pacificamente.

Dito isso, é necessário começar do início. Para tal, faço uso de alguns relatos provenientes de observação próprias enquanto participante de atos. Durante as primeiras manifestações com presença de adeptos da tática black bloc em minha cidade eu estava presente. Não simplesmente como participante da manifestação, eu estava presente como um dos integrantes da comissão de segurança do ato. Tínhamos como tarefa zelar pelo sucesso na realização do ato e a segurança dos seus participantes. Acompanhávamos a marcha pela frente, pelos lados e por trás; observávamos o acompanhamento da polícia, a disposição das faixas, bandeiras, dos manifestantes, dos jornalistas, etc. Enfim, cuidávamos para que o ato se realizasse de acordo com o que havia sido discutido e decidido em assembleia.

Num determinado momento, quando a marcha parou na frente de um prédio de uma grande empresa midiática local, alguns participantes tomaram à frente. De rostos cobertos e visivelmente excitados, logo começaram a atirar pedras nas vidraças do prédio e a gritar com raiva algumas palavras de ordem. Enquanto a maior parte dos que integravam a marcha ficou distante, parada no meio da rua, caminhei até a frente e fiquei em linha reta em direção aos mascarados, havendo entre nós alguns fotógrafos que nos acompanhavam desde o início da marcha. Um dos mascarados, com um objeto na mão (um guarda-chuva, eu acho), correu em direção à vidraça. Ergueu o objeto e fez menção em acertar o vidro, e, no momento em que sua “arma” se aproximou do vidro, fez uma pequena pausa, que durou uma fração de segundo, antes de bater de fato contra o vidro – e que não sofreu quase nenhum dano. Essa foi a primeira vez que percebi do que realmente se tratava aquilo tudo. Aquele indivíduo não queria quebrar a janela, ele queria sair nas fotos quebrando a janela. Pouco importava se as janelas haviam sido quebradas, mas o que importava era que ele estivesse no jornal no outro dia.

Depois de ter presenciado diversos atos com participação de adeptos dessa tática, ficou evidente o que eu vi aquele dia: a violência dos black bloc é muito mais performática do que qualquer realmente violenta. Ou melhor, a sua violência é muito mais performática do que de fato revolucionária. Isso me fez pensar que talvez a própria concepção de “revolução” que guie as ações desses sujeitos seja algo mais próximo de um evento performático do que uma alteração brusca e profunda nos diferentes campos da vida social.

 

Somos todos inimigos do Estado

É necessário, antes de tudo, entender minimamente do que se trata esse fenômeno. Vamos explicar o que está colocado por trás do black bloc e de seus adeptos resumidamente. Sem intenção de “desvendar” segredos ou procurar a fundo os significados escondidos por uma organização secreta ou algo assim. Vamos procurar entender por quê algumas pessoas escondem seus rostos para participar de manifestações públicas através de ações violentas.

Cobrir o rosto, escondendo sua identidade é assumir uma outra persona, uma persona subversiva e agressiva, um integrante de um violento grupo revolucionário. Com a identidade escondida, as roupas pretas diluem as individualidades estabelecendo um outro registro. Um registro coletivizado: um grupo, uma multidão, uma massa, ou qualquer forma semelhante. Dentre elas, no nosso caso, um “bloco”.

Essa entidade é mais ou menos homogênea (evidente, não é totalmente homogênea, mas é mais homogênea do que a nossa sociedade costuma ser), onde todos são parte de uma coisa só, com um objetivo e um inimigo em comum. A multidão engole o indivíduo. Esse fenômeno foi tratado com dedicação por Le Bon (1895) e Freud (2013), entre outros. Não vou retomar seus debates, deixemos isso para os mais apropriados da psicologia. O que interessa nessas obras é como se descreve o pertencimento à multidão, que chamarei aqui de sentimento de unidade coletiva; a dinâmica da adesão ao grupo e seus reflexos.

O sentimento de unidade coletiva, criado pelo abandono da individualidade e adesão ao ente coletivo, não é uma relação de direção única e nem é simples. Essa relação tem, assim como toda relação humana, uma dinâmica baseada na reciprocidade. Não basta simplesmente querer abandonar a sua individualidade para se tornar parte dessa entidade. A entidade faz cobranças, ela estabelece critérios para seu ingresso. Ela testa o indivíduo antes de reconhecê-lo como parte de si. O senso de grupo traz consigo um sentido de desafio, de teste. Tornar-se parte de uma ação black bloc, por exemplo, é uma tarefa que envolve mais do que a mera vontade do indivíduo, ele deve alinhar sua ação ao que o grupo espera dele, não basta somente cobrir o rosto e se vestir de preto. Ele tem uma função a cumprir.

Essa função a ser cumprida é subversiva em essência. Subversiva porque o contexto onde esse fato todo se dá é um contexto de conflito. Os black blocs se formam nas ruas, em manifestações públicas com pautas políticas. Ou seja, é um contexto onde as desigualdades e as igualdades são colocadas em destaque. É quando se estabelece visivelmente as disposições de cada um nas estruturas da vida social – quando sabemos quem somos nós e quem são eles – através do espaço ocupado fisicamente em um período de tempo. É uma maneira dual de conceber o mundo, e nós, enquanto sujeitos políticos atuantes nesse processo, endossamos isso. Nós somos os insatisfeitos, os que lutam, os que anseiam mudanças. Nós nos opomos a eles, os acomodados, os satisfeitos e seus protetores, os que querem que as coisas se mantenham tal como estão. Nós apenas somos nós em uma luta – la capucha nos iguala em la lucha – como dizem os zapatistas. Concebemos as coisas assim, numa oposição dual classista.

O ato de cobrir o rosto cobra de quem o faz. Cobra uma atuação, um posicionamento, uma performance, que, por sua vez, é pautada na violência e balizada na oposição de classes durante uma disputa pela visão legítima de mundo. Cobrir o rosto é sinônimo de aderir ao pacto classista, de anunciar seu desgosto publicamente, de gritar a insatisfação. É aderir à luta de classes e estar disposto a lutar nela ao lado dos oprimidos e inconformados. No fim das contas, cobrir o rosto convoca o arremesso da pedra porque diz “eu estou desse lado, e estou furioso”. É necessário agir como um black bloc, além de parecer como um black bloc, para de fato ser reconhecido como tal.

Além disso, é notório que depois do trabalho de divulgação que a mídia fez, o rosto coberto – seja por uma camiseta, uma bandana, uma balaclava ou o que for – carrega um significado de subversão muito mais forte. Se prestarmos atenção nos filmes de Hollywood, vamos nos lembrar dos bandidos dos bang-bang que assaltavam aos bancos com o rosto coberto por bandanas maneiras. Se pensarmos na música, punks e gangsta rappers usam a bandana como acessório estético, assim como bikers e hard-rockers. São todos sujeitos de alguma forma marginalizados, por mais que não sejam revolucionários (no sentido político clássico) necessariamente. Ainda na música, temos a canção de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria” que fala sobre um sujeito “sem lenço, sem documento”. Ora, trata-se de uma canção da época da ditadura, fala sobre um indivíduo que não aderiu ao regime e nem tentou combatê-lo (hoje chamaríamos de “isentão”), ou seja, o lenço mencionado na música era símbolo de rebeldia, subversão, oposição ao regime ditatorial porque era usado para esconder o rosto evitando ser reconhecido pelas autoridades. Cobrir o rosto era se declarar antissistema. Enfim, na cultura ocidental contemporânea, esconder o rosto (ou portar algo para fazê-lo, como pendurar uma bandana na calça ou amarrá-la no pescoço pode buscar o mesmo efeito) é, em alguma medida, uma ofensa à sociedade. É um anúncio de que se é uma ameaça em potencial: seja um assaltante, um membro de gangue ou um sujeito descontente com o contexto político e disposto a combatê-lo.

Como repetiam incessantemente os jornais, “quem esconde o rosto é porque quer fazer algo de errado”. E foi justamente com esse tipo de frase que, aquilo que dava anonimato ao black bloc, ou seja, tinha uma função prática definida, teve esse significado endossado. Cobrir o rosto virou sinônimo de subversão, de rebeldia, de insubmissão. Se tornou declaração de aversão à sociedade, uma estética violenta, agressiva, ameaçadora.

O black bloc atrai, sem dúvida alguma. Fato que se comprova ao observar que o número de adeptos cresceu. Grande parte do seu atrativo é justamente a imagem revoltosa e violenta que atrai sujeitos previamente em contato com outras formas de violência, principalmente violências invisíveis, naturalizadas no cotidiano e socialmente estruturadas. Sujeitos que vivem essas violências. Violências que não são vistas como violências, mas são sentidas como tal. Que se acumulam, causam desconforto, angústias, traumas, até mesmo doenças, mas que uma hora ou outra explodem, se tornando revolta. Uma revolta legítima porque expressa, através de sua própria linguagem, a denúncia de uma condição prévia e também porque é efeito desta condição, assim como diz Žižek (2014). E a ideia da multidão destrutiva, tal como uma manada de búfalos, é altamente sedutora para sujeitos assim, com esse acúmulo de mágoas fruto de violências cotidianas e estruturais, mas que individualmente são incapazes de dar destino a elas. Quando se juntam, e sua individualidade acaba, a inibição da multidão e do anonimato, somada à uma causa idealista mais ou menos clara, que parece legitimar e convidar à manifestação revoltosa, e aí está dada a ação. A explosão violenta da acumulação de mágoas não-canalizadas.

É sabido também que nem só de jovens angustiados revoltados com as suas condições são compostos os blocos. Há militantes esclarecidos, com um histórico de dedicação; assim como há infiltrados realmente, sejam policiais à paisana (os famosos P2) com o intuito de provocar um tumulto para iniciar a repressão ou investigar a organização das ações, ou sujeitos com interesses diferentes, que veem na ebulição do caos uma possibilidade de adquirir alguns bens que desejam e que não conseguem devido as condições materiais.

 

Romantismo, a doença infantil do anarquismo

É necessário, porém, irmos além. Precisamos, enquanto militantes e revolucionários, debater as ações perpetradas pelos adeptos das táticas black bloc dentro do contexto político atual[1].

Achar que 20 ou 30 adolescentes de rosto tapado, armados com pedaços de pau, pedras e estilingues vão conseguir neutralizar a tropa de choque, que compartilhando no Facebook vídeos de manifestações na França, o arquivo digital do livro do Marighella ou imagens ensinando a se fazer coquetel molotov e máscaras de gás com garrafas PET, vão contribuir para alguma coisa, por si só, é inocência ou imaturidade. Isso aqui não é Europa onde a polícia evita conflito com civis, isso aqui é terceiro mundo, isso é Brasil. Temos nada mais do que a polícia que mais mata no mundo[2], que volta e meia aparece envolvida em chacinas, em tráfico de armas e de drogas, em milícias e grupos de extermínio, que prende arbitrariamente indivíduos por portarem Pinho Sol. Enfim, temos aqui, como diz De Menos Crime, a polícia que “na rua faz o seu próprio sistema” e, que depois tudo isso, olha para a câmera com deboche e diz que fez “Porque quis”.

Sem dúvidas a tática black bloc teve grande importância nos levantes que se deram na Europa e depois na América do Norte nas últimas décadas, mas o que se vê no Brasil é uma tática descolada de qualquer estratégia ou programa consistente, sem base e sem vínculos orgânicos, seja com movimentos sociais, com organizações políticas ou com um ideal definido. O black bloc aqui se apresenta como uma mistura de diferentes concepções anarquistas, principalmente espontaneísmo e insurrecionalismo, mas também autonomista (somados a outros fatores de outras ordens, como a típica urgência da rebeldia juvenil e o desejo por ser parte de algo). Uma tática que não demonstra eficácia contra a nossa polícia no sentido material e objetivo do confronto, isto é, na atuação “militar”. Que carece de estratégias de mobilização, de táticas de ataque e defesa, de definição de objetivos e de organização de suas forças na hora das manifestações. Só é eficaz para a promoção de um sentimento de contribuição individual dos seus membros para com um nublado ideal, que, depois de realizarem suas “ações diretas” se sentem uma espécie de vanguarda revolucionária nos confrontos, sem saber exatamente por que estão em confronto. É eficaz também em chamar atenção da mídia também, isso é óbvio. Mas, salvando-se raras exceções, essa atenção é acompanhada de condenação, não só porque são guiadas pela mídia, mas porque grande parte dos cidadãos não querem ver tudo destruído e pegando fogo e querem só voltar para casa sossegado, e para isso precisam da cidade funcionando, com ônibus circulando e trânsito fluindo, o que não ocorre quando as manifestações descambam em violência – e convenhamos, já mal funcionam em situação “normal”.

Não devemos condenar os adeptos dessa tática, nem cabe ao texto isso, mas colocamos o questionamento aqui. Essa tática, da forma como vem sendo executada, é mesmo o caminho mais inteligente de se conquistar qualquer objetivo dentro do contexto atual? Se o objetivo dos black blocs é atuar como autodefesa das manifestações, deveriam estar aliados aos interesses das organizações políticas que convocam e organizam as manifestações, submetendo-se a suas decisões e subordinando a sua ação à ideologia. Mas não é isso que tem ocorrido. Ataques dispersos, desorganizados e descontrolados a símbolos do que entendem ser a fonte de todo o mal, são comuns, bem como conflitos entre os próprios manifestantes, normalmente estabelecido enquanto os adeptos da tática black bloc versus os não-adeptos (que refletem, em última instância, o debate sobre a legitimidade do uso de violência ou a hora de usá-la).

O que os adeptos do black bloc têm feito é disputar as diretrizes e a concepção de como as manifestações devem se dar, acreditando que os atos de violência contra prédios icônicos despertarão uma catarse revolucionária nos “alienados” e apáticos cidadãos que não cobriram ainda seus rostos e tomaram as ruas ao seu lado. Esta concepção que coloca a ação “militar” antes da ação política é a base do anarquismo insurrecionalista tanto quanto do foquismo.

São realmente extasiantes as imagens das massas de black blocs fazendo a polícia recuar em outros lugares do globo, principalmente na Europa (e é curioso como os fatores como a organização e mobilização dessa massa são ignorados por aqui, que só imitam a estética performática e a violência em si), mas é necessário descolonizar nossos protestos, adequando-nos à nossa realidade.

É inquestionável a importância histórica que processos revolucionários tiveram em toda história da humanidade, e é evidente que foram utilizadas de violência nesses processos, mas não estamos vivendo a Revolução Francesa, nem a Revolução Russa ou qualquer coisa parecida. O que vivemos não é uma situação revolucionária, e mesmo se fosse, não seria nos mesmos moldes que esses exemplos citados. Revolução é guerra, como dizia Bakunin, “é um batismo de sangue”; é um evento em que pessoas matam e morrem, são sequestradas, torturadas, mutiladas, estupradas, espancadas, etc. Leis são suspensas, não havendo direitos para proteger ninguém de abusos e atrocidades cometidas no momento[3]. As disputas de interesses tomam proporções de conflitos abertos e diretos. É uma declaração de guerra a todo status quo, e, enquanto guerra, vence quem tiver condições de neutralizar o inimigo antes e impor suas ideias. Violência revolucionária não é algum tipo de brincadeira para ser publicada no Facebook junto com publicações sobre animes ou séries da Netflix. Existem vidas em jogo. Convocar, mesmo que indiretamente, por esse tipo de ação, dentro do atual contexto, é irresponsável, e pode até mesmo ser enquadrado na lei antiterrorista (Talvez devêssemos agradecer aos “companheiros” petistas aqui) se assim as autoridades o quiserem.

Sem cair no mérito da discussão acerca da legitimidade do uso de violência, porque isso resultaria numa discussão longa, é necessário antes questionar se se está de fato preparado para isso tudo que foi dito acima. Há de fato condições de uma revolução social eclodir no Brasil e vencer? De onde virão as armas? Ou pretendem fazer uma revolução com jovens mascarados atirando pedras? Onde serão treinados os soldados? Com que recursos? Com que legitimidade? Quem vai apoiar? A população quer isso? Quais os objetivos? Qual o programa? Que estratégia será utilizada?

Ao longo da história, as evoluções na conquista de direitos, assim como as revoluções, só ocorreram porque os limites legais das instituições oficiais não limitaram o campo de atuação daqueles que lutam por mudanças mais profundas. E, mesmo acreditando na autodefesa, parece que da forma como o uso da violência vem se configurando nas manifestações, se apresenta, no mínimo, como insuficiente. Quer dizer, o black bloc teve um papel desde 2013, e continua a ter até o momento. Ele trouxe o debate sobre as violências à tona: a violência estrutural e a violência revolucionária. Mas, com relação ao segundo ponto, é necessário avançarmos. É aí que reside a insuficiência, na dispersão das ações e na parca capacidade de operação. É nesses momentos que alguns camaradas nos dizem, “Mas então, se isso é realmente um problema, onde estavam os companheiros mais antigos, mais experientes? Aqueles que poderiam apontar um caminho para os jovens recém-chegados e cheios de potência?”. É verdade. Por mais que, de um lado seja compreensível que os adeptos do black bloc sejam intransigentes e indispostos a debater com organizações (até mesmo as anarquistas e revolucionárias), devemos sim buscar o diálogo, dividir nossas experiências, demonstrar erros históricos e buscar convergir no que for possível. Devemos ser fraternos com aqueles que chegam e que integram nossas fileiras. Não devemos ser como alguns companheiros de outras ideologias, que, condenando a ação dos adeptos do black bloc, os denunciaram à polícia ou covardemente os atacaram em grupo. Dado o atual contexto, é necessário que nós, do lado esquerdo do espectro político, busquemos acima de tudo a convergência e a tolerância entre nós. Tratemos disso então.

A lição do Copei: violência e organização

Nos idos anos de 1960 e 1970, os companheiros da FAU enfrentaram a ditadura e viram o desmantelamento de organizações de esquerda que, iludidos com a vitória da Revolução Cubana, haviam adotado o foquismo como método de guerrilha urbana.

Segundo os companheiros da FAU, estes movimentos tombaram nas mãos da ditadura por conta de sua linha de atuação revolucionária. Se definirmos resumidamente o foquismo seria, segundo o documento da FAU, datado de 1972 “El Copey”, uma estratégia revolucionária que entende que a luta armada deve seguir alguns pontos: 1. A luta armada deve ser travada o quanto antes; 2. Inicia-se pela luta armada que depois toma tons políticos; 3. É concebida em forma de guerrilha rural; 4. Seu princípio central é a dialética ascendente ação-repressão, isto é, toda ação de guerrilha gera uma ação de repressão, que por sua vez faz necessária uma ação mais forte, e que gera uma repressão mais forte, e assim por diante.

Para a FAU, os foquistas não obtiveram êxito em suas empreitadas (exceto pelo caso da Revolução Cubana) por conta de não apresentar uma solução plausível para a ação militar, ou seja, pelo fato de a guerrilha urbana de caráter socialista não ser devidamente poderosa a ponto de suprimir a força militar inimiga – o Estado burguês, com suas polícias e forças armadas –; por faltar-lhe uma ação de massas, por não ter um trabalho desenvolvido junto à população; e, por último, por não haver uma direção política clara da linha militar.

Opondo-se à concepção foquista da luta armada revolucionária, os companheiros da FAU criaram sua própria estratégia paramilitar, onde buscaram atuar de forma coerente com sua organização política, seu trabalho de massas e seus princípios ideológicos. É a partir desse trabalho, e dessa concepção de luta, que pretendo esboçar em linhas gerais uma análise crítica à forma como a pretensa “violência revolucionária” tem sido utilizada (ou verbalizada). A minha análise se centrará em relatos próprios, de momentos observados em manifestações de massas que contavam com presença de adeptos da tática black bloc.

 

Relato 1

Há alguns meses atrás, os servidores estaduais paralisaram suas atividades quando o governo do estado anunciava que encaminhara uma série de medidas de austeridade que, na prática, acabariam por extinguir órgãos estatais e apontava para privatização de empresas públicas. Isso causou a mobilização dos servidores, que não apenas paralisaram, mas foram pressionar a votação na Assembleia Legislativa. O clima conturbado de diversas categorias de servidores possibilitou, por exemplo, a contraditória situação em que policiais civis na manifestação entrassem em confronto com policiais militares do Batalhão de Choque que atuavam na contenção.

Enquanto isso, os estudantes universitários, que ocupavam diversas unidades da universidade federal, convocaram uma marcha contrária à PEC 241/55, que congelaria o investimento em áreas sociais, corrigindo os valores anualmente a partir do PIB anterior.

Havendo mobilização de diversos segmentos da sociedade da mesma cidade, nada mais natural do que a unificação das manifestações. Porém, considerando que durante o dia já haviam sido registrados conflitos entre os soldados do Choque com os servidores estaduais, a PM decidiu impedir que os estudantes se somassem aos servidores. Foi numa rua que dava acesso à praça onde estavam os servidores que tivemos o primeiro confronto. Policiais posicionados no fim da rua começaram a lançar bombas de efeito moral em nossa direção, o que fez com que uma parte dos manifestantes recuasse. Como haviam muitos manifestantes, os que estavam atrás, sem saber o que acontecia na frente, continuava avançando; enquanto os que estavam atrás, voltavam, pressionando os que estavam no meio. Por alguns momentos, o pavor tomou conta. Até que os dirigentes da manifestação tentaram acalmar os manifestantes, pedindo que permanecessem onde estavam, sem empurrar ou recuar. A Polícia, porém, estava disposta a não nos deixar avançar. E iniciou aí o lançamento de bombas de gás, impedindo assim que os manifestantes permanecessem onde estavam. Sofrendo os efeitos do gás lacrimogêneo, voltaram para a avenida de onde haviam vindo. Nesse momento, abriu-se um campo onde a resposta dos adeptos do black bloc veio com força. Haviam muitos indivíduos portando escudos de tapume, e logo trataram de montar uma linha de defesa, unindo lado a lado seus escudos. Atrás dos escudos, alguns outros indivíduos atuavam como artilharia, atacando à distância com bodoques.

Esta situação não perdurou por muito tempo. A PM, fazendo uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo, conseguiu fazer com que os manifestantes recuassem em totalidade para o local de onde haviam vindo. E foi então na avenida que a destruição mais ou menos generalizada começou. Uma loja de roupas na esquina foi atacada com um coquetel molotov. Mais adiante, os manifestantes depredaram alguns bancos, sendo um deles um banco público, além de terem atacado também a empresa pública de eletricidade. Considero importante mencionar que, ao atacar esses bancos e essa empresa pública, por pouco alguns manifestantes não foram atingidos pelas pedras ou pelos estilhaços de vidro. Os mascarados, que estavam distantes de seus alvos, atiraram pedras sem se preocupar ou sem perceber que entre eles e os vidros haviam pessoas que marchavam com eles. A marcha prosseguiu até seu destino final, um grande largo, onde havia sido combinada a dispersão. Pelo caminho até o largo, contêineres de lixo foram arrastados para o meio da rua, provocando comentários negativos de alguns moradores, que logo tiveram respostas mais ríspidas numa discussão verbal. Em uma rua que antecedia o largo, um contêiner foi virado e arrastado por manifestantes mascarados. Dessa vez, porém, em um bar à frente, haviam alguns trabalhadores da coleta seletiva, que ao verem a cena logo protestaram. Depois de certa discussão com os trabalhadores, os manifestantes mesmos resolveram colocar o contêiner no lugar, sendo aplaudidos. Chegando no seu destino final, depois de a grande maioria dos manifestantes irem embora, alguns outros, dispostos a continuar na rua custe o que custar, permaneceram entrando em confronto com a Polícia novamente, incendiando lixo e quebrando vidraças de bancos.

 

Relato 2

Numa outra manifestação, essa já nesse ano de 2017, com outra pauta, presenciei novamente ações criticáveis por parte de manifestantes mascarados. Em um ato onde haviam pouco mais de duzentas pessoas, em sua maioria estudantes jovens, com nenhuma ou pouca experiência em manifestações públicas, alguns mascarados se somaram. Antes da metade do trajeto planejado, bancos pelo caminho foram atacados. A Polícia acompanhava de longe, presenciando os atos sem intervir. Chegando próximo à Prefeitura, onde a marcha seria interrompida para alguns gritos, os adeptos do black bloc atacaram um restaurante. O clima de unidade foi se perdendo, pois enquanto alguns queriam radicalizar a partir da violência, atacando bancos e lojas, outros queriam simplesmente marcar presença, num clima de festa.

Chegando na Prefeitura, era visível que a unidade já nem existia. Uma parte dos manifestantes se posicionou à frente do edifício, enquanto outra parte se manteve separada, com gritos diferentes, cantando e tocando seus instrumentos para si. Durante o período em que a manifestação ficou parada à frente da Prefeitura, todos os efetivos possíveis da PM se posicionaram de modo a nos cercar.

Após feito o protesto em frente à Prefeitura, a marcha seguiu por uma rua onde haviam uma lanchonete de uma grande cadeia multinacional e um banco privado. A lanchonete foi obviamente atacada, teve suas janelas golpeadas com martelos. Com esse ataque, os policiais no entorno começaram a se mobilizar, aproximando-se dos manifestantes. Logo mais adiante, próximos ao banco, alguns camaradas de rostos cobertos não se importaram em dar as costas aos policiais da Choque e a uma distância de cinco ou seis metros, começaram a atacar o banco.

No momento em que o banco foi atacado, dois manifestantes, também de rostos cobertos, e munidos de escudos e alguns equipamentos de primeiros socorros se posicionaram entre os policiais – que avançavam em direção aos que atacavam o banco – e a coluna de manifestantes que seguia a marcha, tentando barrar o avanço dos policiais e garantir que assim os manifestantes pudessem passar. Foi durante o ataque ao banco que a repressão teve início. Os policiais que estavam posicionados atrás da marcha começaram a atirar bombas de gás lacrimogêneo, e, como a marcha seguia por um cruzamento de ruas, uma parte seguiu em frente, e outra parte dobrou em uma das ruas laterais, dividindo novamente, dessa vez por definitivo. E encerrando a manifestação, pois a partir desse momento, tudo o que foi feito foi tentar se encontrar com os seus camaradas, saber se estava tudo bem, e se poderiam voltar para casa seguros.

 

Românticos com o coração, realistas com o cérebro

Vamos recapitular os pontos cruciais das atuações de manifestantes adeptos do black bloc nos dois relatos narrados: no primeiro relato, manifestantes responderam à repressão opondo pedras e paus às bombas de gás e balas de borrachas da PM; após perceberem que não seriam capazes de abrir caminho para que a marcha seguisse por onde havia sido previsto, recuaram, e então destruíram, pelo menos, uma loja que não tinha relação nenhuma com as pautas em jogo, e nem se tratava de uma grande multinacional símbolo de opressão, um banco público e uma empresa estadual. Importante destacar que a empresa estatal atacada era uma das que viriam a sofrer com o pacote de medidas em votação, e cujos seus funcionários estavam paralisados, com quem a manifestação pretendia se somar. Além do mais, os ataques efetuados por muito pouco não atingiram outros manifestantes. Isso deve ser sublinhado: a ação violenta quase fez vítimas de fogo amigo.

No segundo caso, manifestantes adeptos do black bloc novamente atacaram um estabelecimento sem relação direta com a pauta, além de terem tentado, sem sucesso, levar o ato à uma radicalização, sem se preocupar se os manifestantes que compunham a marcha estavam preparados ou dispostos a isso. Os companheiros adeptos do black bloc, porém, se dividiram entre alguns que atacavam e outros que defendiam. Inclusive, por parte dos que defendiam, observou-se um preparo anterior, visto que portavam kits de primeiros socorros e garrafões com água para neutralizar as bombas de gás. É necessário apontar que estes companheiros que se encarregaram de defender o ato foram impecáveis em sua atuação até onde observei. Se colocaram à disposição dos demais manifestantes a todo momento, não apenas fazendo frente com a PM, mas também auxiliando os companheiros feridos. Os demais, contudo, se demonstraram inconsequentes ao virarem as costas para os agentes da repressão a uma distância tão curta, onde a única coisa que impediu que fossem atacados foi a coluna de manifestantes que seguia em marcha e os seus companheiros com escudos.

Nos dois casos mencionados, assim como em outros vários episódios pelo país todo, o que se vê é que uma parte das ações desses sujeitos acaba se manifestando como inconsequente e irresponsável, buscando a todo custo criar um clima de conflito, de ânimos exaltados, de destruição e quebra da ordem.

Não devemos, em hipótese alguma, tentar impedir, condenar ou sabotar as ações violentas perpetradas pelos adeptos do black bloc, entendendo que elas são reflexo legítimo de uma condição anterior ao ato em si, que é a vida dos explorados e oprimidos dentro do capitalismo. Porém, como mencionado já, é necessário se ter em mente de que a tática do black bloc, enquanto uso da violência pretensamente revolucionária, não tem tanta eficácia quanto se imagina. Torna-se necessário refletirmos, enquanto anarquistas, sobre essas ações. Nesse sentido, poderíamos fazer uso das críticas dos companheiros da FAU ao foquismo e aplica-las ao black bloc, considerando que ambas partem de um mesmo princípio?

A ideia de que a ação violenta tem como reflexo um despertar da consciência política é o princípio motriz tanto do foquismo quanto do insurrecionalismo, chamado de “propaganda pelo fato”. Assim, em ambos os casos, a ideia é que a violência tenha como reflexo a política, e não o contrário. Esta tese foi muito difundida não só em discursos políticos, mas também na forma como processos revolucionários são retratados dentro da indústria cultural hollywoodiana. Ora, não é à toa que os revolucionários são sempre retratados como idealistas e românticos, quase como religiosos dogmáticos submissos à uma verdade ideológica, ou então como sujeitos transtornados, traumatizados, excluídos do convívio social e incapazes de levar uma vida “normal”, e que por isso desejam destruir tudo. As revoluções são retratadas assim nas produções cinematográficas, distorcendo o processo real, com o intuito de assimilar as antíteses do capitalismo transformando-as em inofensivas distrações. Os processos revolucionários eficazes não se dão a partir de insurreições mais ou menos espontâneas de uma minoria segregada, não são obra de uma meia dúzia de “corajosos” insubmissos, eles são protagonizados por massas insatisfeitas e minimamente organizadas. E essa insatisfação das massas não é produto natural da sua condição (ao menos não enquanto tivermos dispositivos ideológicos, materiais e até medicamentais que amenizem os impactos das contradições do capitalismo na vida dos indivíduos) e muito menos ainda fruto de uma epifania ao presenciar uma ação violenta. Ninguém (ou quase ninguém) assiste à uma vidraça de um banco internacional sendo estilhaçada e a partir disso toma consciência de que os juros pagos por ele para aquele banco são abusivos e auxiliam na concentração de renda, além de levar parte das divisas para o exterior e diminuir seu poder de compra, ao abocanhar parte considerável de sua renda. Só se chega a essas conclusões a partir de formação política e ideológica. Essa visão romantizada da violência é uma concepção muito equivocada sobre a violência e o funcionamento de uma revolução social. Para além de simplesmente ineficaz, pode vir a se tornar, na verdade, em uma ação contrarrevolucionária.

O foquismo, assim como o insurrecionalismo, subestima pontos cruciais dentro de um processo revolucionário violento: a atuação junto às massas e a direção de todo o processo por um partido revolucionário. E o black bloc, enquanto herdeiro do insurrecionalismo, traz essas características. Quando, por exemplo, os adeptos do black bloc se auto-proclamam a “Tropa de Choque dos manifestantes”, como muito se repete, sem necessariamente combinar sua atuação junto ao movimento ou organização que convocou a manifestação, essa é uma atitude vanguardista que se dá de fora para dentro.

Os sujeitos que desejam realmente se colocar à serviço da segurança das manifestações de massas, que vêm ocorrendo nos últimos anos, devem ter claro o fato de que, para isso ser realmente eficaz, eles devem estar subordinados às decisões da organização que convocou o ato. O aparato “violento” da manifestação deve, acima de tudo, ser parte da manifestação, não algo alheio, segregado. Para isso ocorrer, eles devem participar de sua organização, fazer propostas e ouvir, chegar a acordos, combinações. Decidir e conjunto participando de suas instâncias organicamente.

Se puder ser resumida a lição que os companheiros da FAU tiraram a respeito da tentativa de se “importar” métodos de luta violenta, é a de que essas referências devem sempre serem adaptadas, e que isso é um trabalho sério, afinal de contas, vidas humanas estão em jogo. Sua proposta de atuação, construída a partir do contexto em que viviam, consistia numa fórmula que colocava as ações violentas subordinadas à direção de um partido revolucionário, e em harmonia com as massas, auxiliando em suas lutas conforme suas necessidades. Não tentando puxar ações violentas, radicalizando suas manifestações, como fazem os insurrecionalistas.

Devemos organizar a rebeldia de forma que ela seja realmente útil e construtiva, e não apenas dispersivas ações violentas performáticas que em pouco ou nada colaboram para o avanço das lutas sociais em andamento. A violência revolucionária deve ser pragmática, responsável e consequente, e estar em concordância com os princípios ideológicos e os fins políticos, seja à nível de ações armadas revolucionárias e socialistas, seja à nível de autodefesa de manifestações de massas.

 

Referências bibliográficas

FAU. “El Copey. Uma posição libertária nas lutas revolucionárias dos anos 60/70 da América Latina”. 2009

FREUD, S. “Psicologia das massas e análise do eu”. 2013

LE BON, G. “Psicologia das Multidões”. 1895

ŽIŽEK, S. “Violência”. 2014

[1] As linhas que seguem podem soar mais ríspidas, pois foram escritas logo após participação em manifestações com presença de black blocs. Optei por mantê-las como anotadas no rascunho justamente por guardarem essas sensações cruas.

[2] Segundo Anistia Internacional. Disponível em: <https://www.amnesty.org/en/latest/news/2015/09/amnesty-international-releases-new-guide-to-curb-excessive-use-of-force-by-police/>.

[3] Aliás, é bom lembrar que no Brasil, para uma parcela considerável da população, nem mesmo em períodos de “paz” isso existe. Ou melhor, que, para alguns, a vida em “paz” é de fato uma guerra, sem direitos e com violência. Já dizia o Facção Central, isso aqui é uma guerra.

Inclusive, gosto de lembrar de um caso que li no Facebook, publicado por um companheiro do Rio de Janeiro, onde conta que, chegando na comunidade em que mora, fora parado em uma blitz pela PM. Os policiais revistaram seu carro e encontraram panfletos da campanha pela liberdade a Rafael Braga. Batendo os olhos nos panfletos, os PM começaram a questionar sobre seu envolvimento com política até que perguntaram se ele “era black bloc”. O companheiro respondeu algo como, que, sendo negro e pobre, a maior desobediência que ele poderia fazer era chegar vivo em casa. Isto traz à tona um outro questionamento sobre o uso da tática black bloc. Se por um lado, sujeitos acostumados a sentirem-se violentados pela sociedade, se atraem pela tática por sua potencialidade catártica, também, por outro lado, estes mesmos indivíduos, familiarizados com a violência, buscam evita-la. Principalmente quando envolve conflito direto com a Polícia, afinal, sabem que, se forem detidos, sofrerão mais do que os que não são negros ou pobres.

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Murilo Gelain

Cientista Social e mestrando em Antropologia Social pela UFRGS. Desenvolve pesquisas sobre consumo e juventude. Tem interesse em temas como economia, política e violência, além de cerveja, música e artes marciais.