O Macarthismo: histeria anticomunista nos Estados Unidos

 

 

Por John Simkin, Originalmente publicado em Spartacus Educational

 

O Comitê de Atividades Anti-americanas(HUAC) foi estabelecido originalmente em 1937 sob a presidência de Martin Dies. o principal objetivo da HUAC era a investigação de atividades antiamericanas e subversivas. Logo após  sua indicação Dies recebeu um telegrama da Ku Klux Klan:” todo americano de verdade, e isso inclui todos os Klansmen, estão com você e seu comitê no esforço de devolver esse país aos americanos honestos, amantes da liberdade , tementes a Deus a quem ele pertence.”

 

Originalmente a HUAC investigava tanto grupos de Esquerda quanto de Direita. Alguns pediram para que os líderes da Ku Klux Klan  fossem interrogados pela HUAC. entretanto, Martin Dies era apoiador  da Klan e fez discursos em várias de suas reuniões. Outros membros da HUAC como John Rankin e John S. Wood  também eram simpatizantes da Klan. Wood defendeu a Klan argumentando que :” as ameaças e intimidações da Klan são um antigo costume americano, como a produção ilegal de whisky”

 

Por fim, Ernest Adamson, presidente Executivo da HUAC, anunciou que : “ o comitê decidiu que  não há dados suficientes  em que basear  uma investigação.” John Rankin adicionou:” no fim de tudo, a KKK é uma velha instituição americana” em vez disso, a HUAC se concentrou em investigar a possibilidade do Partido Comunista Americano ter se infiltrado no Federal Writers Project e em outros projetos do New Deal.

 

Franklin D. Roosevelt e a  HUAC

 

Martin Dies logo foi atacado por aqueles que viam a HUAC como um método para bloquear as políticas progressistas defendidas por Franklin D. Roosevelt. Isso se refletiu nos comentários feitos por Vito Marcantonio.”ela se tornou o modo mais conveniente de se enrolar na bandeira americana para cobrir algumas manchas feias na toga legislativa. vocês podem votar contra os desempregados,  contra os trabalhadores da WPA, vocês podem castrar  a Declaração De Direitos da Constituição dos Estados Unidos; vocês podem tentar destruir a Lei Nacional de  Relações Trabalhistas , a Magna Carta do trabalhador americano; vocês podem votar contra o fazendeiro; e vocês podem fazer tudo isso com uma grande garantia de impunidade, porque depois que vocês fizerem, não terão que explicar seu voto.”

 

O  Alien Registration Act   foi aprovado no Congresso em 29 de junho de 1940, e tornou ilegal que qualquer um nos estados Unidos defendesse,incentivasse, ou ensinasse sobre a necessidade de derrubar o governo. A lei também exigiu que estrangeiros residentes nos estados   com mais de  14 anos de idade enviassem uma declaração compreensível sobre seu estado pessoal e ocupacional e um registro de suas crenças políticas.. Em 4 meses um total de 4741971 estrangeiros foram registrados.

 

O principal objetivo do  Alien Registration Act era enfraquecer o Partido comunista americano e outros grupos políticos de Esquerda nos Estados unidos. Foi decidido que a House of Un-American Activities Committee (HUAC) que tinha sido  criada no congresso por Martin Dies em 1938 para investigar pessoas suspeitas de comportamento anti patriótico era o melhor veículo para descobrir pessoas que estivessem tentando derrubar o governo.

 

A indústria cinematográfica em Hollywood

 

Em 1947 a House of Un-American Activities Committee (HUAC) presidida por J.Parnell Thomas começou  uma investigação na  indústria cinematográfica em Hollywood. A HUAC interrogou 41 pessoas  que trabalhavam em Hollywood. Essas pessoas compareceram voluntariamente e se tornaram conhecidas como “testemunhas amigáveis”. Durante seus interrogatórios eles denunciaram dezenove pessoas que acusaram de terem visões de esquerda.

 

Entre os denunciados, Bertold Brecht, dramaturgo que apresentou  provas e  se foi para a Alemanha Oriental. Dez outros: Herbert Biberman,Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson  e Alvah Bessie se recusaram a responder  quaisquer perguntas.

 

Conhecidos como “Os Dez de Hollywood” eles argumentaram que a primeira emenda da constituição dos Estados Unidos lhes dava esse direito. A  House of Un-American Activities Committee  e as cortes durante os recursos discordaram e todos eles foram considerados culpados por desacato ao congresso e cada um for sentenciado entre seis e vinte meses de prisão.

 

Larry Parks  foi o único ator entre as dezenove pessoas originalmente denunciadas. Ele também  era a única pessoa na lista que o frequentador comum de cinema devia conhecer. Parks concordou em dar provas para a HUAC e admitiu que  havia aderido ao Partido comunista em 1941 mas saiu quatro anos depois. Quando perguntado pelo nome de outros membros, Parks respondeu: “eu preferia, se vocês me permitirem, não mencionar o nome de outras pessoas.. Não me ofereçam   a escolha  entre desacatar esse comitê e ir para a cadeia ou me forçar a chafurdar na lama de me tornar um informante.”

 

A House of Un-American Activities Committee insistiu que Parks respondesse todas as perguntas feitas. A HUAC teve sessões fechadas e dois dias depois vazou para os Jornais que parks entregou os nomes.Leo Townsend, Isobel Lennart, Roy Huggins, Richard Collins, Lee J. Cobb, Budd Schulberg e Elia Kazan, com medo de irem para a prisão, também demonstraram a intenção de entregar as pessoas que foram membros de grupos de esquerda.

 

Red Channels  e a Lista Negra

 

Em junho de 1950, três ex-agentes do FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram Red Channels um panfleto listando o nome de 151 escritores, diretores e atores que eles diziam que haviam sido membros de organizações subversivas antes da Segunda guerra mundial mas que ainda não haviam sido listadas ainda. Os nomes foram compilados de arquivos do FBI e de uma análise detalhada do Daily Worker, jornal publicado pelo Partido Comunista Americano.

 

Uma cópia gratuita de Red Channels foi enviada para os possíveis empregadores de pessoas na indústria do entretenimento . Todas as pessoas listadas no panfleto foram proscritas até comparecerem à House of Un-American Activities Committee  e convencerem seus membros de que haviam renunciado completamente ao seu passado radical.

 

Edward Dmytryk, um dos “dez de Hollywood” originais, teve problemas financeiros como resultado de seu divórcio.  Confrontado com a necessidade de vender seu avião e encorajado por sua nova esposa, Dmytryk decidiu tentar remover seu nome da lista negra. Em 25 de abril de 1951, Dmytryk compareceu perante a House of Un-American Activities Committee de novo. Dessa vez ele respondeu todas as perguntas  incluindo os nomes de 26 ex-membros de grupos de esquerda.

 

Dmytryk também revelou que pessoas como John Howard Lawson, Adrian Scott e Albert Maltz tinham feito pressão para  ter certeza que seus filmes expressavam a visão do Partido Comunista. Isso foi particularmente danoso para os dez de Hollywood originais que  na época estavam envolvidos em processos contra seus  ex-empregadores.

 

Se as pessoas se recusassem a denunciar quando convocadas à HUAC elas eram  colocadas na lista negra que era entregue aos estúdios de Hollywood. Mais de 320 pessoas foram colocadas nessa lista que impediu que trabalhassem na indústria de entretenimento. Ela incluía Larry Adler, Stella Adler, Leonard Bernstein, Marc Blitzstein, Joseph Bromberg, Charlie Chaplin, Aaron Copland, Hanns Eisler, Carl Foreman, John Garfield, Howard Da Silva, Dashiell Hammett, E. Y. Harburg, Lillian Hellman, Burl Ives, Arthur Miller, Dorothy Parker, Philip Loeb, Joseph Losey, Anne Revere, Pete Seeger, Gale Sondergaard, Louis Untermeyer, Josh White, Clifford Odets, Michael Wilson, Paul Jarrico, Jeff Corey, John Randolph, Canada Lee, Orson Welles, Paul Green, Sidney Kingsley, Paul Robeson, Richard Wright e Abraham Polonsky.

 

O Alien Registration Act foi usado contra o Partido Comunista Americano. Os líderes do partido foram presos e em Outubro de 1949 e depois de um julgamento de nove meses, onze membros foram condenados por violar essa lei. Nos dois anos seguintes outros 46 membros foram presos e acusados de defender a derrubada do governo. Outros casos de alta espionagem na época envolveram Alger Hiss, Julius e Ethel Rosenberg, e ajudaram a criar um medo profundo de que uma conspiração comunista estivesse acontecendo nos Estados Unidos.

Joseph McCarthy

 

Em 9 de fevereiro de 1950, joseph McCarthy, senador por Wisconsin, fez um discurso dizendo ter uma lista de 205 pessoas no Departamento de Estado que eram membros conhecidos do Partido comunista americano(mais tarde ele reduziu esse número para 57). A lista dos nomes não era um segredo e , de fato, havia sido publicada pelo secretário de estado em 1946. Essas pessoas foram identificadas durante uma triagem preliminar de 3000 funcionários federais. Alguns haviam sido comunistas mas outros foram fascistas, alcoólatras ou divergentes sexuais. Se avaliados, os próprios problemas de McCarthy com a bebida e suas preferências sexuais teriam resultado na sua entrada na lista.

 

McCarthy também começou a receber informações de seu amigo, J. Edgar Hoover, chefe do FBI. William Sullivan, um dos agentes de Hoover, mais tarde admitiu:”fomos nós que tornamos as audiências de McCarthy possíveis. Nós alimentamos McCarthy com todo material que estávamos usando.”

 

Com a guerra indo mal na Coreia e com os avanços na Europa Oriental e na China, o público americano estava genuinamente assustado com a possibilidade de subversão interna.McCarthy foi nomeado presidente do comitê governamental de operações do senado, e isso lhe deu a oportunidade de investigar a chance de subversão comunista.

 

Nos dois anos seguintes o comitê de McCarthy investigou vários departamentos do governo e interrogou um grande número de pessoas sobre seu passado político. Alguns perderam seus empregos depois que admitiram que eram membros do Partido Comunista.McCarthy deixou bem claro para  as testemunhas que a única forma de mostrar que eles abandonaram as visões de esquerda era denunciar os outros membros do partido.

 

Essa caça Às bruxas e a histeria anticomunista ficou conhecida como Macarthismo. Alguns artistas e intelectuais de esquerda estavam pouco dispostos a viver nesse tipo de sociedade e pessoas como Joseph Losey, Richard Wright, Ollie Harrington, James Baldwin, Herbert Biberman, Lester Cole e Chester Himes foram viver na Europa.

 

No início, Joseph McCarthy mirou principalmente em democratas associados às políticas do  New Deal nos anos 1930. Harry S. Truman e os membros da administração dos democratas como George Marshall e Dean Acheson foram acusados de serem moles com o comunismo.Truman foi retratado como perigosamente liberal e a campanha de McCarthy ajudou o candidato republicano , Dwight  Eisenhower, a vencer a eleição presidencial em 1952.

 

Depois do que aconteceu aos oponentes nas eleições de 1950, a maioria dos políticos ficaram relutantes em criticá-lo no senado. Como o Boston Post apontou: “atacá-lo nesse estado é considerado como um certo método de cometer suicídio.” uma exceção notável foi William Benton, proprietário da Enciclopédia Britannica, e senador por Connecticut. McCarthy e seus apoiadores imediatamente começaram a difamar Benton, alegaram que quando era Secretário de Estado ele protegeu comunistas conhecidos e que ele foi responsável pela compra e exposição de “obras de arte obscenas”.Benton , que também foi acusado de ser desleal por Joseph McCarthy por ter boa parte do produto de sua companhia impresso na Inglaterra, foi derrotado nas eleições de 1952.

 

O Macartismo

 

Em 1952 McCarthy nomeou Roy Cohn como chefe de conselho no comitê de operações de governo do senado. Cohn foi indicado por J. Edgar Hoover, que ficou impressionado com seu envolvimento no processo de Julius Rosenberg e Ethel Rosenberg. Logo depois que Cohn foi nomeado, ele recrutou seu melhor amigo, David Schine, para se tornar seu assessor chefe.

 

O próximo alvo de Mccarthy foi o que ele considerava ser os livros antiamericanos em bibliotecas. Seus pesquisadores examinaram no programa de bibliotecas no estrangeiro e descobriram 30000 livros de “comunistas, pró-comunistas, ex-comunistas e anti anticomunistas.” depois da publicação dessa lista, esses livros foram retirados  das prateleiras das  bibliotecas.

 

Por algum tempo oponentes de  Joseph McCarthy estava acumulando evidências relativas a suas atividades homossexuais. Vários membros de sua equipe, incluindo Roy Cohn e David Schine, foram suspeitos de ter um relacionamento sexual. Ainda  que famoso entre os jornalistas, o primeiro artigo sobre isso não apareceu até que Hank Greenspun publicasse um artigo no Las Vegas Sun  em 25 de outubro de 1952. Greenspun escreveu: “há uma conversa comum entre Homossexuais de Milwaukee que se encontram na White Horse Inn que o senador Joe McCarthy já se envolveu em atividades  homossexuais.”

 

Joseph McCarthy considerou processar Greenspun por difamação mas decidiu não fazê-lo quando foi aconselhado pelos seus advogados que se o caso fosse adiante ele poderia precisar de testemunhas no tribunal que respondessem sobre a sua sexualidade. Em uma tentativa de parar a circulação dos rumores, McCarthy se casou com sua secretária, Jeannie Kerr. mais tarde o casal adotou uma garota de 5 semanas de idade da New York Foundling Home.

 

Em outubro de 1953, McCarthy começou a investigar infiltração comunista no exército. McCarthy fez tentativas de desacreditar Robert Stevens, o Secretário do exército. O presidente, Dwight Eisenhower, ficou furioso e percebeu que era hora de acabar com as atividades de McCarthy.

 

O exército dos Estados Unidos passou informações sobre Joseph Mccarthy a jornalistas conhecidos por  se oporem a ele. Isso incluía as notícias que McCarthy  e Roy Cohn abusaram do privilégio congressual tentando prevenir que David Schine fosse intimado. Quando isso falhou, Cohn tentou pressionar  o exército para garantir privilégios especiais à Schine. O conhecido colunista de jornais, Drew Pearson,publicou a história em 15 de dezembro de 1953.

 

Dwight Eisenhower também instruiu o vice presidente , Richard Nixon, a atacar Joseph McCarthy, em 4 de março de 1954, Nixon fez um discurso onde, ainda que não mencionasse McCarthy, deixou bem claro de quem ele falava: “homens que fizeram trabalho efetivo expondo comunistas nesse país se tornaram , por falas irresponsáveis e métodos questionáveis, uma questão mais séria que a causa em que eles acreditavam tão profundamente.”

 

O fim do Macarthismo
Algumas figuras da mídia, como os escritores Freda Kirchway, George Seldes e I. F. Stone, e cartunistas como Herb Block e Daniel Fitzpatrick, fizeram uma longa campanha contra Joseph McCarthy. Outras figuras na mídia, que já se opunham faz muito tempo ao macarthismo mas estavam com medo de se pronunciar, agora começaram a ter confiança e aderir ao contra ataque.Edward Murrow, apresentador experiente, usou seu programa de televisão, See It Now, em 9 de março de 1954, para criticar os métodos de McCarthy. Colunistas dos jornais como Walter Lippmann e Jack Anderson também se tornaram mais explícitos em seus ataques a McCarthy.

 

As investigações do senado ao Exército dos Estados Unidos foram televisionadas e isso ajudou a expor as táticas de Joseph McCarthy. Um jornal, o Louisville Courier-Journal , noticiou que: “durante esse tempo, numa degradante farsa de processo democrático Joseph McCarthy se mostrou maligno e sem par em sua maldade.” os principais políticos dos dois partidos, ficaram envergonhados da performance de McCarthy no dia 2 de dezembro de 1954, e uma moção de censura condenou sua conduta por 67 votos a 22.

 

Raymond Gram Swing, que tinha sido forçado a se demitir da Voz da América por causa de McCarthy, disse em sua autobiografia,Good Evening (1964), que isso não marcou o fim do Macarthismo: “eu estou mais inquieto com o fato da condenação de  McCarthy pelo senado e sua morte logo em seguida fizeram as pessoas ficarem satisfeitas com o fim do Macarthismo.  Por uma coisa, considero que a condenação pelo senado deu uma  satisfação injustificada. Ela foi baseada em uma sensação peculiar de importância de coisas secundárias. Eu estou profundamente grato que o comitê tenha ido tão longe. Mas eu sinto que deixou fora de sua condenação a maioria das coisas insultuosas que McCarthy fez. Ele ignorou sua violação e desprezo pelos direitos civis e sua hipocrisia sem freio, e o fato de que elas existiram enquanto ele atuava com a autoridade conferida pelo senado. Essas transgressões não foram especialmente  e diligentemente  censuradas na época nem nunca. Os princípios e ética americanos no foram reforçados pela resolução de  condenação do senado. A nação não se tornou mais saudável com isso.simplesmente se livraram do problema porque alguns conservadores do senado perceberam que sua dignidade estava ficando manchada.”

 

McCarthy perdeu a presidência do comitê governamental de operações do senado.agora ele  estava sem sua base de poder e a mídia perdeu o interesse em suas denúncias de conspiração comunista. Como um jornalista, Willard Edwards, apontou: “a maioria dos repórteres se recusou a enviar as histórias de McCarthy , e a maioria dos jornais não as publicaria, de qualquer forma” embora alguns historiadores digam que isso marcou o fim do Macarthismo, outros argumentam que a histeria anticomunista nos Estados unidos durou até o fim da Guerra Fria

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....