O plano 2.0 da Blackwater para o Afeganistão.

Por Sean Mcfate, originalmente publicada em the Atlantic

 

Há uma ideia maluca flutuando em Washington hoje em dia, estranha até pelos padrões estranhos de hoje: os Estados Unidos deveriam contratar um exército de mercenários para “consertar” o Afeganistão, um país em guerra desde 2001, com o gasto de bilhões durante a guerra. A grande ideia aqui é que eles podem retirar os soldados dos EUA do pântano e de certa forma solucioná-lo.

 

Não surpreendentemente, , a indústria militar privada está por trás da proposta. Erik D. Prince , fundador da companhia militar privada Blackwater Worldwide , e Stephen A. Feinberg, um financista bilionário que é proprietário da empreiteira militar gigante Dyncorp International, cada qual vê um papel para si nesse futuro. Sua proposta foi feita a pedido de Steve Bannon, estrategista chefe do presidente Donald Trump, e de Jared Kushner, seu conselheiro sênior e genro, de acordo com pessoas informadas das conversas.

 

E pode ficar pior, em um artigo de opinião recente no Wall Street journal, Prince delineou um plano  pelo qual a força combatente seria coordenado por um governador  americano que se submeteria diretamente a Trump. Modelada com base no General Douglas MacArthur, que governou o Japão depois da segunda guerra mundial, o governador consolidaria todo poder americano em uma única pessoa. Sua missão: fazer o que fosse preciso para pacificar o Afeganistão. Sem a necessidade de andar de carona na guerra de  burocratas tediosos de Washington, ou das regras de engajamento restritivas impostas aos soldados. Um governador americano com uma força de combate privatizada faria o trem chegar na hora no Afeganistão -se eles tivessem trens.

 

Quem poderia ser esse governador? Provavelmente Prince pensou em si mesmo, e isso deveria preocupar todos. Durante sua gestão, funcionários da Blackwater abriram fogo em uma praça em Baghdad, matando 17 civis em um dos piores episódios da guerra do Iraque. Quando questionado pelo congresso como avaliava o potencial de  seus empregados para cometer delitos em 2007, ele disse:”se houver algum tipo de .. problema, seja ele má atitude, arma suja, andar na moto de alguém que não a sua, nó… nós demitimos… se ele não mantiver o padrão, eles tem uma decisão a tomar: janela ou corredor.”

Prince vem desenvolvendo essas ideias faz algum tempo. Em seu artigo de opinião para o Journal, ele escreveu que a Companhia Britânica das Índias Orientais deveria ser o modelo para as operações dos EUA no Afeganistão. Essa companhia privada foi o instrumento da colonização britânica na Índia por séculos, gerida por um governador com poderes monárquicos e um exército privado para governar os nativos. A solução de Prince para o Afeganistão é o neocolonialismo

 

Há outros problemas na proposta de Prince. MacArthur foi demitido pelo presidente Harry Truman por abuso de dificilmente ele é um modelo venerável de governador. Também, os exércitos da Companhia Britânica das Índias Orientais causaram muitos danos à Índia, e faliram a companhia. Os contribuintes britânicos tiveram que socorrê-la em 1770 e então o governo tomou o controle em 1874

 

Para Prince, uma grande força mercenária inspirada pela Companhia Britânica das Índias Orientais seria a Blackwater 2.0, uma oportunidade fenomenal de negócio para alguém com conexões na casa branca.(ele é irmão de  Betsy DeVos, secretária de educação) mas ele possui caminhos próprios. Em janeiro, ele teve encontros secretos nas Ilhas Seicheles, supostamente para estabelecer um canal secreto entre Trump e Putin (um porta-voz de Prince negou ao post que o  encontro não tinha nada a ver com Trump)ou talvez ele apenas queira voltar ao lar. Depois do fiasco no Iraque, ele foi para um auto-exílio, ajudando Abu Dhabi  a recrutar um exército secreto no deserto e trabalhando para a China na África.

Apesar do ridículo disso tudo, a ideia parece ter ganhando tração em Washington. Recentemente Bannon foi ao Pentágono para pressionar, e outros na indústria militar privada estão fazendo lobby em apoio. Seus interesses bem mais provavelmente são lucro que preocupação com os afegãos. O fato que há  defensores dessa ideia na West Wing , manda uma mensagem a toda uma galáxia de empreiteiros militares privados: “os negócios vão florescer mais uma vez!” se a América anima a possibilidade de despejar uma quantidade enorme desses combatentes, é  oferta  e procura, gerando dezenas de milhares de soldados da fortuna.

 

Alguém pode pensar que estamos em épocas diferentes- que os abusos da Companhia Britânica das Índias Orientais são irrelevantes para a época atual. Isso está errado.

Como Prince, eu fui um empreiteiro militar por anos. Eu trabalhei na maioria do tempo na África, onde eu ajudei a parar um genocídio antes que ele começasse, desmobilizei senhores de guerra, ajudei em missões de paz da ONU, negociei acordos na Europa oriental, recrutei pequenos exércitos pelos interesses dos EUA. Baseado na minha experiência, eu diria q nem tudo o que Prince propõe é loucura. Nós estamos vendo uma nova safra de empreendedor de conflito  andando pelo campo de batalha, vendendo guerra para quem puder pagar. Eles não são só soldados da fortuna solitários carregando uma Ak-47, mas sim pequenos exércitos com força aérea e unidades das forças especiais. Apesar do clamor para aqueles que nunca entraram em batalha, esses combatentes privados são bem efetivos, e é por isso que a indústria é próspera.

 

A verdade é que , vaŕios países estão investindo em soluções militares privadas para resolver seus problemas, todos na sombra. Dois anos atrás a Nigéria contratou mercenários secretamente depois de um combate de seis anos contra o Boko Haram, um grupo terrorista jihadista. Eles apresentaram ataques de helicópteros e unidades de forças especiais, e executaram em semanas o que o exército nigeriano não pode: empurrar o Boko Haram fora de grande parte do território que este mantinha na Nigéria. Alguns pensam em silêncio se a mesma coisa não poderia ser feita contra o Estado islâmico ou o Al Shabaab.

 

A Nigéria não é a única. A Rússia, Os Emirados, Uganda e até grupos terroristas, contratam combatentes privados para disputar guerras secretas em todos os lugares, Navios alistam-nos como “segurança a bordo”. Existem até cyber guerreiros privados, chamados de “Companhias Hacker de apoio” que caçam hackers que atacam os clientes. De certa forma o governo Trump só está fazendo esse assunto oculto claramente aparente, um golpe e afirmação finais do que tem sido construído por duas décadas.

Entretanto, como ex-empreiteiro militar, eu não consigo pensar em uma solução pior para o Afeganistão. há  muitas preocupações sobre a segurança,  responsabilização, e moralidade de fazer negócios com este tipo de equipamento. Enquanto eu estava na indústria, eu tive múltiplas oportunidades de “ir além do contrato” e formar uma guarda pretoriana. Na Roma antiga a esses infames guarda-costas imperiais assassinaram 14 imperadores, indicaram 5, e até venderam o posto para o proponente mais rico em uma ocasião. Pretorianismo é realidade, e é algo que Prince, como governador poderia facilmente orquestrar.

 

Por outro lado, o que aconteceria se Rússia, China ou Paquistão oferecessem um melhor negócio melhor? Haveria uma guerra de licitações pela lealdade dessa força, é algo que eu vi Senhores da guerra fazerem na África.ao contrario dos soldados, esses combatentes são algo próximo de produtos de um eBay da guerra.

Mercenários também trazem guerra e sofrimento. Guerreiros pelo lucro proliferam conflitos armados- enquanto existe alguém que os pague, sempre haverá uma guerra para começar, expandir ou prolongar. A história nos mostra que eles se oferecem para saquear entre contratos, perturbar os inocentes. Na Idade média, ás vezes eles extorquiam cidades inteiras em esquemas de chantagem, como aconteceu em Siena na Itália várias vezes entre 1342 e 1399. Outros criam reinos por sua própria conta, como aconteceu em Milão por volta de 1400. Às vezes eles são contratados para cometer atrocidades, poupando deus clientes do trabalho sujo. Em 1377, o exército privado do papa recebeu a ordem de aniquilar a cidade de Cesena, massacrando todos os seus habitantes.

 

Mas empreiteiros não são intrinsecamente maus; de fato eles podem ser uma força boa. Eles são uma ferramenta, como o fogo -que pode queimar uma construção ou reforçar um motor a vapor. Que bem eles podem fazer? Eles podem prevenir atrocidades massivas, policiar senhores da guerra, reforçar missões de paz, recrutar exércitos legítimos ou reforçar o cumprimento da lei- eu sei porque eu fiz essas cosias. É executável, mas requer uma pequena força dentro de certas condições e a supervisão adequada. E totalmente diferente do exército mercenário massivo que Prince prevê para governar o Afeganistão.

 

A privatização da guerra talvez já esteja a caminho. A negação não é uma estratégia para lidar com esse problema crescente. Prince vê como isso pode ser aproveitado para os interesses dos EUA e empurra essa proposta, assim como outros na indústria. Mas a América não está pronta para essa ideia radical, e talvez nunca esteja

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....