O que é direita e esquerda, afinal?

Pílulas de política para pessoas nem tão politizadas assim…

Este é o primeiro texto de uma longa série que vamos apresentar aqui no El Coyote a partir de hoje, a série: Pílulas de política para pessoas nem tão politizadas assim… O intuito da série é mostrar em pequenos textos, que podem ser lidos em menos de cinco minutos, alguns conceitos muito importantes para entender um pouquinho de política. O primeiro texto, inspirado pelo nosso eterno príncipe o Luiz Philippe de Orleans e Bragança, também, ironicamente filiado ao Novo, será sobre esquerda e direita, afinal, ficou muito claro que o pequeno princípe não tem a menor ideia do que esses conceitos significam. Mas, como você não é da realeza, não pode se dar ao luxo de passar essa vergonha por aí, né?

O primeiro ponto para começarmos essa discussão é desmistificar uma ideia que é muito difundida, às vezes até pelos coleguinhas da própria esquerda. A presença de um Estado forte, ou a ausência de Estado não determinam o que é esquerda e direita. Por exemplo, os anarquistas, são de extrema-esquerda e defendem o fim do Estado (e não, pelo amor das deusas, anarcocapitalismo NÃO EXISTE), por outro lado, existem iniciativas de direita que contam com uma forte presença do Estado, por exemplo, com subsídios, isenção de impostos, regulamentações mais favoráveis a empreendimentos que geram acumulação de capital. Então sabe aquele quadrinho que tem Estado no meio e setinhas pra lá e pra cá? Então, ele não diz nada sobre ser ou não de esquerda ou direita.

Mas, se não é a presença do Estado que determina a esquerda e a direita, então, o que é?
Os termos se originam na França, no século XVIII, e àquela época, estavam ligados a uma concepção direta de partidos, ainda que hoje não seja mais assim. O conceito literalmente se referiam a que lado no Congresso as pessoas com determinadas posições se sentavam. Do lado direito, ficavam aqueles que defendiam os interesses e direitos da monarquia. Enquanto, do lado esquerdo, estavam os que defendiam a mudança do regime vigente, e portanto, não estavam ao lado dos poderosos da época. Pasmem, aqueles que estavam à esquerda defendiam a burguesia. Sim, porque a luta no período iluminista era para que se desconcentrasse o poder da mão dos monarcas, e repassasses àqueles que movimentavam a economia, os então burgueses. E haja guilhotina.

Um dos mais conhecidos filósofos que fazem essa distinção é Norberto Bobbio, que não é um cara lá muito revolucionário assim. Para Bobbio, tanto a direita quanto a esquerda, de modo geral, são favoráveis a reformas na sociedade, Bobbio resume que a diferença entre esquerda e direita seria que a primeira busca reformas que promovem justiça social enquanto à segunda quer maiores garantias e liberdades individuais.

Como eu disse, Bobbio não é dos mais progressistas por aí. Você vai encontrar dentro da esquerda hoje pautas que buscam a garantia de liberdades e garantias individuais, que dizem por exemplo sobre casamento igualitário, regulamentação do uso de entorpecentes, liberdade de expressão, dentre outros.

Estas pautas podem ser defendidas tanto por esquerdistas como por pessoas de direita, uma vez que elas não estão ligadas diretamente com os aspectos materiais da vida, ou seja de como você faz para suprir suas necessidades de sobrevivência. Mas, em geral elas são defendidas por esquerdistas, porque, no frigir dos ovos, a esquerda está sempre muito mais preocupada com o bem-estar de todos, inclusive das minorias, que a direita. O conservadorismo nos “costumes”, como os “liberais” brasileiros gostam de falar, está atrelado com aqueles que defendem um modelo social de acumulação de capital na mão de poucos.

Inclusive, num outro momento, falaremos melhor do que é liberalismo, que é uma corrente de direita, mas que tem, dentre suas pautas (ao menos em teoria, o fandom tá sempre ferrando), a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e outras formas de liberdades individuais, que se você defender perto de um direitista brasileiro, vai receber um “Vai pra Cuba”.
Pois bem, se não se trata de maior ou menor presença do Estado, tampouco se trata de defender direitos individuais, então como a gente vai diferenciar? Hoje, como se entende direita e esquerda, à medida que o conceito evoluiu, nós vamos diferenciar a partir de aspectos materiais (sim, eu estou falando de economia). À direita do espectro estão aqueles que acreditam num modelo de produção baseado na acumulação, ou seja, uns poucos exploram a mão-de-obra de um monte de gente para permitir que estes poucos acumulem capital. Resumindo, todo aquele que defende o capitalismo está à direita do espectro.

Por sua vez, à esquerda estão aqueles que defendem a redistribuição, também chamado de princípio solidário, apoio mútuo, ou o temido socialismo. Nem todo esquerdista é necessariamente socialista, do tipo “socialistão” mesmo, tem a galera da centro-esquerda, que fica transitando para lá e para cá e defende modelos como o nacional-desenvolvimentismo, que se baseia sim em políticas de distribuição de renda, sem necessariamente alterar a configuração do jogo a respeito da acumulação.

Mais ou menos, a direita acredita que poucos podem, como diz ela, por mérito (a gente também vai discutir meritocracia mais adiante), acumular riquezas ainda que isso signifique a grande maioria da população na miséria. A esquerda por sua vez mantém o foco no trabalhador, e entende que aquele que trabalha é quem de fato gera a riqueza para a sociedade, portanto, não faz sentido nenhuma organização social em que não haja real valorização da mão-de-obra (direitos trabalhistas, por exemplo), distribuição de renda e políticas sociais.

Claro, por aqui eu simplifiquei muito, dentro do guarda-chuva esquerda e direita cabem diferentes grupos muitos distintos entre si. A percepção sobre o Estado, sobre direitos das minorias, sobre costumes, sobre direitos individuais, dentre outros, mudam significativamente o tom de cada partido, organização, grupo ou indivíduo. Como dissemos, os anarquistas são de esquerda, certo? Mas, por exemplo, eles se distinguem significativamente de grupos stalinistas, por exemplo, que tem como meta a criação de um Estado forte gerido pelo povo, pós-revolução. Mas, para começo de conversa, se a gente entender que à direita está a acumulação e à esquerda a distribuição já conseguimos entender muita coisa, e mais, dá pra sacar que aquele Power Point da realeza brasileira ou é desinformado, ou é desonesto, eu aposto na segunda opção.

 

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C. Melo

Eu queria ser M.S.