O que é jineologia?(Parte I)

por Zilan Dyiar, Originalmente publicada em Komun Academy

 

Jineologia é um rio descobrindo seu próprio curso. As ideias de toda mulher, seu estudo, as informações que encontra, os segredos sussurrados por sua mãe, o poder da interpretação, cada um destes pingos fortalece a correnteza desse rio. Espontaneamente lança luz à cegueira social – incapacidade de enxergar o outro – sendo este um de seus aspectos mais bonitos. A jineologia está garantindo que este conhecimento seja disseminado por toda a sociedade. Além disso, a jineologia está somando à pesquisa em todos os campos, sejam estes economia, saúde ou história.

 

A resistência aos ataques do Estado Islâmico contra Kobane em 2014 deu visibilidade à luta das mulheres curdas. “Deu visibilidade” porque a resistência das mulheres curdas tem uma história de aproximadamente 40 anos (se considerarmos o congresso de fundação do PKK em 1978, que teve como co-fundadora Sakine Cansiz, assassinada em 9 de Janeiro de 2013, como marco inicial). Sendo assim, a organização confederalista das mulheres em todo o Curdistão é um resultado da batalha contra o Estado Islâmico. Então, seria o resultado de quê? Seria este o resultado da participação das mulheres curdas num partido de força bélica, que trava uma luta ideológica pela identidade nacional contra os Estados dominantes, ou o resultado de uma resposta cada vez mais original da vanguarda do partido à questão feminina? Acredito que ambos são fatores fundamentais, levando em conta que não estamos presos à uma ciência social que reduz realidades a um único aspecto.

 

Existe um sistema sob o guarda-chuva do Movimento de Libertação das Mulheres no Curdistão (PAJK) que está travando uma luta pela identidade nacional, composto por uma série de organizações de autodefesa; em Rojava o YPJ, em Rojhılat (Leste iraniano) HPJ (Unidades de Proteção das Mulheres), em Bakur (Norte) YPS (Força Civil de Auto-Defesa), em Sinjar (Sul) (União das Mulheres de Sinjar), sendo a origem deste YJA STAR (Unidade de Mulheres Yazidi), com um sistema confederalista regido pela TJA – Tevgera Jinen Azad (Movimento pela Liberdade) em Bakur (Norte), RJAK (Organização de Mulheres Livres) no Sul, KJAR (Organização de Mulheres Livres do Curdistão Oriental no Leste, Kongreya Star em Rojava, TJK-E na Europa. Se falarmos sobre todas as centenas de assembléias, comunidades, ONGs, grupos religiosos, seções de partidos políticos de mulheres e iniciativas, não será possível chegar ao assunto principal.

 

O progresso organizacional, institucional e sistemático descrito acima é um importante passo na luta feminina pela existência. Entretanto, ainda há um longo caminho a se percorrer. Obviamente que abordamos o assunto segundo as palavras do líder popular curdo Ocalan: “a primeira classe oprimida, a primeira colônia e nação são as mulheres”. Sendo assim, acrescentamos que o ponto crucial da luta feminina é uma mudança de pensamento. Esta é a razão principal de discutirmos a Jineologia – ciência das mulheres, algo que somos frequentemente questionadas sobre. Acreditamos que somente uma forte construção de pensamento neste nível sistemático de desenvolvimento garantirá a transformação social. O mais importante de se perceber é que apesar de todo avanço organizacional, político, prático e teórico contribuir para a transformação social, este apenas soluciona parte dos problemas sociais das mulheres, que são um nó górdio (sem solução aparente). A estrutura patriarcal governamental, que tem se construído às custas dos corpos, sentimentos, ideias, crenças e trabalho das mulheres, interfere constantemente em nosso cotidiano. Invade nosso espaço com violência, invisibilizando a exploração, assassinando e criando ilusões. Tão importante quanto arrancar estas máscaras e organizar uma força de autodefesa contra os ataques patriarcais é a construção de uma mentalidade. A Jineologia, que conseguimos conquistar a partir de um paradigma libertário, conseguirá atingir este ideal. A Jineologia pode desmantelar o sistema patriarcal, não somente fisicamente mas também com uma mentalidade de auto-defesa. Estamos cientes de que esta é uma afirmação  poderosa. A base de nossa assertividade é constituída por um desejo de corrigir a distorção de consciência criada pelo capitalismo, que mutila conceitos. Nesse caso, podemos começar redefinindo as mulheres e a ciência.

O que é uma mulher? As mulheres são a primeira forma criada pelo universo, que queria variedade. Uma forma que combina todos os outros elementos com a sua própria realidade, dando um significado universal original, combinando beleza, diversidade e um fluxo livre.

 

Ocalan considera a questão feminina enquanto uma massa social, uma realidade composta por aspectos econômicos, sociais e políticos, muito além da relação sujeito-objeto e da questão do gênero, ressaltando que as mulheres constituem a seção mais ampla da natureza social, tanto fisicamente quanto simbolicamente. Segundo ele, as mulheres devem ser definidas como a essência da sociedade, e não a escória.

 

O que é a ciência? A Ciência é o método de causa-efeito, conexões, poder de mudança e desenvolvimento do pensamento humano de encontro ao universo. Em outras palavras, é um produto da consciência social que transforma-se em força de mudança. Nós, mulheres, desafiamos com o intelecto social a civilização estatal de 5 mil anos, clamando que traremos mudanças. Por esta razão, dizemos Jineologia. Quer dizer, queremos aproximar as mulheres, que foram afastadas da ciência por razões sociais, e agir.

 

Qual é a relação da ciência com as questões sociais?

 

A Jineologia se construirá enquanto uma ciência social, visto que tem muitas críticas às ciências sociais e se desenvolverá a partir delas. Sendo assim, listamos nossas críticas: primeiramente, o fato de que as ciências sociais – que consideram implementar leis naturais à nossa sociedade – fazem uso de engenharia social. O ciclo do universo está se unindo, e não se fragmentando. Nos opomos às ciências sociais abordando a sociedade enquanto um objeto, pois quando a sociedade é percebida como um objeto, o cientista social se vê diretamente como sujeito. Soluções apresentadas sem levar em consideração condições emocionais, intelectuais, geográficas ou sociais causarão consequências inesperadas. Perceber quantas previsões acerca da Primavera Árabe se realizaram e o resultado de iniciativas que não estavam em consonância com o tecido social do Oriente Médio é suficiente, acredito. Nos opomos à ciência social constituindo leis rígidas, universais e imutáveis para a sociedade. Suponhamos que você seja um sociólogo. Você pode afirmar que os motivos e as soluções para a violência contra a mulher são as mesmas na América e na Guiné? Ou você pode chegar às mesmas soluções para uma mulher que sofreu mutilação genital (FGM) no Iêmen e uma mulher na Grã Bretanha que está sofrendo abuso psicológico? Mais importante de tudo, você pode afirmar ser possível tocar as almas destas mulheres de longe, dizendo que a “ciência é imparcial”? O fato de você enxergar a sociedade de uma perspectiva externa não significa que você se iguala aos governantes? Você pode ser um cientista social procurando a origem dos problemas no Leste, mas procurando as respostas no Oeste? Separar a ciência social em áreas específicas não é conflitante com as leis universais?

 

Seria apenas uma coincidência que as ciências sociais, divididas em duas centenas de seções e diferentes disciplinas, não tenha feito das mulheres, a vanguarda da socialização, objeto de pesquisa? Ao invés de definir as mulheres enquanto o elemento fundamental e inicializador da socialização, as definiu enquanto o elo mais fraco e a fonte de todos os problemas.

 

Jean Jaccques Rousseau definiu as mulheres enquanto “uma desordem em potencial com necessidade de dominação”. Auguste Comte, o fundador da sociologia, afirmou que os cérebros femininos eram menores do que o ideal. O objeto de pesquisa era apenas o homem branco europeu.

 

Na verdade esta não é apenas uma distorção da ciência social, mas também uma distorção das estruturas anteriores do conhecimento, da mitologia, da religião e da filosofia. Platão, depois de dizer que as mulheres fariam o mesmo trabalho dos homens, acrescentou que “às mulheres seriam dados trabalhos mais fáceis em razão da fraqueza de seu sexo”.

As religiões também não retratam as mulheres como a causa de todos os desastres, fazendo com que esta mentalidade criada pelo patriarcado tenha fundamentação divina? Para ilustrar: Tomás de Aquino, se referindo às mulheres: “Deus sabia de antemão que as mulheres pecariam. As mulheres se tornaram o resultado de um grande erro.” No Antigo Testamento Judaico encontram-se as palavras: “Criei as mulheres a partir de uma parte do corpo de Adão que está sempre coberta e escondida para que a mulher seja sempre recatada e casta”. O verso número 223 do Alcorão diz: “Vossas mulheres são vossas semeaduras. Desfrutai, pois, da vossa semeadura, como vos apraz…”

 

Está claro que a ciência social e as estruturas de pensamento anteriores não fizeram nenhum tipo de mudança de paradigma no que se refere à mulher, já que sua existência foi sempre definida a partir do homem. Estas questões são os aspectos aceitos como parte da atual crise da ciência social. A diferença da Jineologia começa aí, pretendendo dar um fim à distorção que permeia a existência feminina. Talvez as palavras de Ocalan, “a coisa sobre a qual os homens mais mentem são as mulheres” (‘the thing men tell most lies about is women”) seja suficiente para entender a questão. Vamos agora definir a Jineologia.

 

A Jineologia enquanto conceito

 

Jineologia é uma definição curda. Eu particularmente enfatizo isto, pois o lugar das mulheres nas sociedades do Oriente Médio (sociedade natural) é importante, ao contrário das circunstâncias atuais. Apesar de que a mentalidade do sistema patriarcal tenha tentado apagar a existência feminina, um estudo etimológico explica este ponto. Quando observamos grupos linguísticos indo-europeus percebemos que muitas das palavras relacionadas ao termo “vida” são femininas. A palavra “vida” (jiyan) em curdo é derivada da palavra “mulher” (jin), da mesma forma que a palavra “vida” em persa (zendegi) deriva da palavra “mulher” (zen). Já “liberdade” em sumério, “margi”, significa “retorno à mãe”. Na língua sorâni “afrat” é mulher, enquanto “afirandin” é “criar”. Outras palavras derivadas de “jin” são: jindar (vivacidade) e jinda (dar vida). “Árvore” (wê darê) em curdo é feminina, enquanto madeira (wî darî), que não tem vida, é masculina. Como se pode notar, linguisticamente “vida” e seus derivados são femininos, enquanto que o que não carrega mais esta energia, está morto, é masculino.

 

Se expandirmos a definição de jineologia: é a ciência que estuda a mulher com base na identificação da vida-mulher, natureza-mulher, natureza-social-mulher, a cultura assim criada, seu reflexo histórico e as razões, origens e consequências da transformação de instituições, estruturas e conceitos a partir da definição da mulher.

 

Também podemos definir Jineologia enquanto a ciência da vida, ciência social, tendo por “ciência” a ciência da modernidade democrática e ciência da vida em comunidade, para além da ciência das mulheres. Abdullah Öcalan fez a primeira reflexão em relação à conceitualização da Jineologia 7 há 7 anos no livro “Sociologia da Liberdade”:

 

“É um fato inquestionável que as mulheres constituem o setor mais amplo da natureza social, tanto fisicamente quanto simbolicamente. Neste caso, porque uma parte tão importante da natureza social não deveria ser estudada pela ciência? Não há outra explicação para o fracasso da sociologia, que foi seccionada, assim como a Pedagogia para as crianças, para endossar o discurso do macho dominante, ao invés de construir uma ciência das mulheres.” (p. 289)

 

É correto definir Jineologia enquanto um ramo das ciências sociais ou da sociologia libertária? Este é um debate em curso. No entanto, vamos fazer uma proposta sem colocá-la dentro de definições pré-existentes. Sendo objetivo principal da Jineologia definir a existência feminina, enquanto cumprir este propósito esta será capaz de ser uma força de mudança para os problemas sociais e desenvolverá uma alternativa libertária. Neste contexto, mais acertado seria defini-la não enquanto a sociologia da liberdade, e sim, mais precisamente, a ciência para desencadeá-la. A sociologia da liberdade visa essencialmente combinar a ciência social com a orientação libertária social. Quanto à Jineologia, esta é a ativação da análise filosófica e científica da sociologia da liberdade baseada na realidade e vida das mulheres. Sendo assim, há uma relação estreita entre ambos onde um complementa o outro.

 

Por que definimos Jineologia como a ciência da modernidade democrática? Quando Ocalan disse que a civilização era uma criação masculina de 5 mil anos ele definiu a democracia moderna enquanto uma civilização das mulheres. A Jineologia busca trazer à luz a existência feminina. Enquanto a ciência das mulheres se constrói, a liberdade feminina progredirá. Tanto na teoria quanto na prática, desmentir distorções referentes à condição feminina causará avanços na liberdade das mulheres. Consequentemente, as mulheres, o elemento fundamental da modernidade democrática, se tornarão muito mais ativas e assim seu curso se prolongará. É por esta razão que se define o século XXI enquanto a era da liberdade das mulheres. Como toda ciência precisa responder às necessidades da época, é correto definir Jineologia como a ciência da modernidade democrática. Como sempre dizemos, “Este mundo deve ser tecido com o espírito das mulheres”

 

Nossa resposta para aqueles que consideram a Jineologia uma jogada organizacional e ideológica é clara. Nós já temos uma ideologia. Desde 1998 temos a “Ideologia da Libertação Feminina”, cujos princípios são patriotismo, liberdade de pensamento, liberdade de escolha, organização e luta. Também temos dezenas de organizações baseadas nas mais variadas demandas e movimentos sociais. Consequentemente, não é isto que queremos para a Jineologia. Será uma esfera importante na construção de uma mentalidade democrática moderna. Se deve haver alguma relação com uma ideologia, vale a pena dar atenção à determinação de Ocalan para a evolução em direção a uma ciência social consistente entre o pensamento socialista ideológico, sociológico e científico. É a crítica mais forte do positivismo, “Ao passo em que o grau da ciência na capacidade ideológica e sociológica dos partidos revolucionários se desenvolve, ela indica que conquistou a liberdade que prometia à sociedade”.

A Jineologia é a disputa pela mentalidade das ciências sociais

A crítica da Jineologia às ciências sociais também pode ser entendida como uma intervenção de pensamento nesta esfera. Ao definir as mulheres corretamente em relação a todas as esferas da vida, os efeitos do positivismo e do sistema patriarcal podem ser superados. À luz da crítica de Öcalan, “as estruturas existentes de conhecimento ou se dissolveram nas autoridades existentes ou se tornaram seitas raquíticas”, a estrutura de conhecimento estabelecida pelas autoridades será submetida a críticas e também à pesquisa por sua própria epistemologia e métodos.

 

É evidente que a autoridade manteve as mulheres afastadas das esferas do conhecimento. Então seríamos nós, mulheres, realmente despidas de conhecimento? Ou podemos aprender de acordo com nossas experiências?

 

Embora as autoridades empenhem-se em privar-nos do conhecimento, não podemos afirmar que não o possuímos. É, portanto, necessário incluir o conhecimento que adquirimos de nossa experiência na epistemologia da Jineologia.

 

Da fermentação da massa ao tratamento de pessoas doentes, da lavoura da terra à domesticação do gado, as mulheres têm absorvido a maior parte de seu conhecimento através da vivência. Não são os momentos que chamamos de instinto ou superstição, o produto do conhecimento transmitido de geração em geração e armazenado em nossas mentes? Nas oficinas de Jineologia organizadas em Sur durante a resistência autônoma, esse conhecimento está emergindo e está sendo valorizado. No Curdistão, todas as mulheres se levantam antes do sol e rezam. Quando perguntadas por que eles fazem isso, sejam Yazidi, Alevitas ou Sunitas, a maioria das mulheres não sabe por que o fazem, dizendo que aprenderam assim. As mulheres também dizem “Ya Star” como uma súplica. Como “Estrela” é a deusa mãe na cultura suméria, semelhante a Astarte, Ísis, Vênus e Cibele em outras culturas, isso não indica uma ligação contínua com a cultura da deusa mãe?

 

Em suma, a Jineologia, antes de reunir dados científicos sobre mulheres curdas e submeter ensaios a círculos acadêmicos para sua aprovação (sem menosprezá-los), primeiro procurará o conhecimento obtido pelas mulheres curdas através de experiências de vida, o mais imaculado e despretensioso dos conhecimentos. Este primeiro feixe que ilumina a história torna-se ainda mais precioso pelo fato de que a maioria das pessoas nem sequer o consideraria enquanto conhecimento.

 

A dialética do movimento de mulheres curdas tem funcionado assim: Análise de Mulheres e Família (1986), organização de mulheres (YJWK – 1987), exército de mulheres (final de 1992), YAJK, que foi estabelecido em áreas de guerrilha e colocou a liberdade das mulheres na agenda do Movimento Curdo de Libertação, partido de mulheres (PJKK -PJA e PAJK) e a situação alcançada hoje com o sistema KJK.

Além dessas estruturas institucionais, existem as teorias desenvolvidas para tornar visível a questão das mulheres: “Ideologia da libertação das mulheres”, “matando o homem”, “divórcio sem fim”, “contrato social”, etc… Estes vem a ser um ciclo de teoria e prática que nutrem um ao outro e as teorias e instituições que são a fonte da epistemologia Jineológica. É evidente que só isto não é suficiente. Enquanto construímos nossa epistemologia também confrontaremos as estruturas dominantes que destroem a estrutura do conhecimento e teremos um olhar cético aos fundamentos da modernidade capitalista, sexista, nacionalista e religiosa que influenciam nossa mentalidade.

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