O Retorno de Cabo Aço

– Você é um frouxo! Rendido!
Bolsonaro estava aturdido. O sujeito era coronel, mas não militar.
Mesmo assim, sabia lhe impôr a autoridade como ninguém nunca havia imposto em sua vida.
O clima nos corredores da Band estava mais que tenso. Era um verdadeiro pesadelo e Boechat, outro grosseirão, teve que se intrometer.

– Pó pará essa méirrda aí. Baixaria só no debate, porra!

A cada ameaça de Ciro, o miliquento pulava, como alguém com a doença do lenhador. Como uma galinha assustada. Começava a suar frio. Não suava tão frio desde o tempo de colégio, quando os meninos zombavam de seu corte de cabelo.

Cabelo de sebo, assim o chamavam. Bolsonaro nunca foi afeito ao banho, por isso seu cabelo sempre pareceu sujo. No exército, onde os banhos eram rápidos se deu bem, gozava de certo respeito. Ganhou as graças dos superiores. Até descobrirem temível seu segredo. Tinha 30 anos. Era virgem. E aí que veio o novo apelido. Cabo Aço. Em um acesso de raiva, no frênesi do chilique, tentou explodir o quartel. Ganhou a mídia. Era a pós-ditadura e todo mundo pisava em ovos com a volta do regime democrático. Colocaram ele de lado e aí ele tentou a política.

Ali era Omertá. A lei do silêncio da Máfia italiana. Todo mundo sujo, ninguém iria debochá-lo. Todo mundo de rabo preso. Intocável, nunca fez nada. Nunca aprovou nada. Usava o dinheiro público para ter a experiência sexual que não teve em mais de três décadas. Pagando, é claro. O que era difícil. Seus hábitos higiênicos afastavam qualquer possibilidade de ter relações, mesmo que com garotas de programa. Rejeitado por tudo e por todos, desenvolveu raiva das mulheres.

O caudilho cearense não cessava ao ataque.
– Eu só não lhe sento uma bofetada nessa sua boca cheia de bosta porque você tem essa cara de vítima.

Como legítimo cangaceiro cearense, Ciro Gomes o fazia de montaria  o bom burro que era o militar de reserva. E burro com orgulho. Só perdia para Dacciolo. O seu Sancho Pança. A cada resposta errada que dava, Ciro sussurrava baixinho: Cabo Aço. E ria sardônico, com cara de deboche. Sabia que seu último fiasco havia sido abandonar o partido envergonhado, após conseguir fazê-lo mudar o nome para Patriota. Haviam descoberto e incorporado o maldito apelido.

O debate, no entanto, foi interessante. Fashionistas, Boulos e Álvaro Dias haviam combinado previamente o look. Boulos viria todo de branco, Dias todo de preto. Primorosos. Entediado de ficar nos bastidores, Eduardo Jorge acendeu um baseado na platéia. A marofa, combinada com o discurso entediante de Henrique Meirelles e Marina Silva obrigava a Boechat ficar cutucando os candidatos a cada fala. Dacciolo, que havia recém voltado de um retiro cristão-hippie, estava inspirado pela fumaça canábica que infestava o ambiente. Entrou em transe e começou a falar sobre Nova Ordem Mundial, URSAL, Cientologia e Paz e Amor. Foi então que Meirelles e Bolsonaro começaram uma batalha de rimas cuspindo em todo mundo com suas respectivas bocas de batata. Boechat não aguentou. Adora o pulso enérgico da juventude e não resiste a uma roda de freestyle. A rima, obviamente, foi estilo joão do pé de feijão.

– Tô aqui com o Cabo Aço, o milico mais cabaço do pedaço.

Ao final do programa, Cabo Aço foi detido tentando botar fogo na emissora de televisão, mas como tinha as costas quentes, não deu em nada. Só uma advertência de Meirelles e Marina Silva, que em si já é um castigo muito grande. Haja paciência para vozes tão irritantes.

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