O Trade-off da representatividade política

Verticalidade e horizontalidade políticas como uma lei de potências ou distribuição de Pareto.

Trade-off tridimensional para três aspectos de um serviço comercial em representação gráfica usada para fins humorísticos.

Trade-off é um termo em inglês que define comprometimento a partir de uma escolha com perdas e ganhos, custos e benefícios. São exemplos os gâmbitos do Xadrez, onde se sacrifica uma peça para poder comer outras ou os algoritmos que salvam imagens JPG ou áudios MP3 ocupando menos espaço mas com pequena perda na qualidade original. Trade-offs são importantes na teoria da evolução. Os leões, maiores, conseguem capturar grandes bovinos como búfalos, mas foram seus primos guepardos menores e rápidos que evoluíram para pegar as gazelas mais ágeis. A bela cauda do pavão beneficia seu sucesso reprodutivo mas, por trade-off, ele fica mais exposto e imobilizado.

Na economia, Paul Samuelson propôs que a sociedade precisa escolher entre produzir “canhões ou manteiga”. Outros exemplos de trade-offs são: o crescimento econômico rápido compromete o meio-ambiente, como no caso da usina de Belo Monte em Altamira-PA, e que também tornou a cidade a mais violenta do Brasil; o recuo e as concessões à iniciativa privada durante a Nova Política Econômica soviética de Lênin, que teria se justificado: “Um passo atrás para dar dois à frente” e o acolhimento pelo Brasil dos mega-eventos Copa e Olímpíadas com comprometimento econômico-social que consagrou Ronaldo Fenômeno com o comentário: “Não se faz Copa com hospitais”.

Uma lei potências logaritmica como um modelo de possíveis representações políticas.

Os trade-offs pode ser analisados pelo gráfico de Pareto, onde uma curva de potência logaritmica permite flutuar valores para as duas dimensões inversas. O gráfico desse exemplo é sobre um trade-off de discussão ainda incipiente no Brasil: a concentração política. No eixo horizontal está a representatividade. Quanto mais próximo a zero, mais concentrada é a representação política. Na origem, temos a tirania extrema, onde um único representante detem poder absoluto (verticalidade). Quanto mais se caminha pelo eixo da horizontalidade, surgem mais pessoas com representação política até a situação de democracia direta, onde cada pessoa seria seu próprio deputado.

Prisão do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e a repressão a protestos. A imprensa costuma questionar muito mais os ataques à democracia na primeira situação do que na segunda, quando iguala manifestantes a “vândalos”.

No sistema político brasileiro (B), a participação nas decisões políticas é limitada aos representantes dos privilegiados que conseguem bancar as campanhas eleitorais, financiando, assim, ações executivas e emendas parlamentares através de lobbyistas que compõe a oligarquia política. Os grandes partidos, inclusive o Partido dos Trabalhadores que domina a esquerda, operam dentro dessa a lógica, se justificando pela necessidade de conciliação de interesses em uma leitura rasa de Maquiavel onde “os fins justificam os meios”. Ao serem questionados, se dizem vítimas de uma “criminalização” da política profissional, como se esse modelo fosse o único possível.

Esse trade-off permite que os 54 milhões de votos dados à Dilma Roussef, por exemplo, mesmo antes de sua destituição, valham bem menos que o correspondente poder político que a coletividade desses eleitores teria se a representação fosse descentralizada. Pela esquerda, o trade-off fica evidente quando o crescimento eleitoral de seus partidos por vias eleitorais e alianças palacianas coincide com regressão de consciência, apaziguamento social e desmobilização, como ocorreu recentemente quando a resistência contra as reformas trabalhistas foi desviada para a defesa incondicional das suas lideranças, ou seja, na defesa da verticalidade via trade-off.

O apaziguamento da luta social é resultado da defesa do trade-off pela esquerda oficial que faz parte da oligarquia representativa.

Políticos ambi-destros escondem a dívida social cara desse sistema energeticamente ineficiente. Suga-se mais energia política social do que os representantes, mesmo os mais bem intencionados, depositam nas intituições. Os interesses dos eleitores são desrepeitados na proporção de uma grande fogueira feita para esquentar uma caneca de água. Ao invés de propor uma reforma de base para dar voz a mais pessoas, a burocracia suprapartidária impede que o poder político flua para as bases, coletivos, redes de solidariedade, associações de bairros, casas de cultura, centros comunitários, cooperativas de trabalho e crédito, sindicatos sem pelegos e assembléias populares.

Já não mais defendemos políticas públicas descentralizadas como o “orçamento participativo”. Essa insistência na defesa do modelo atual de “democracia a conta gotas”, leva a situações bizarras como o PT fazendo a defesa de Gilmar Mendes ou de Aécio Neves, seus maiores algozes, o que contribui para discrédito no ideal democrático e alimentam sentimentos autoritários de mudança puxados pelo fascismo ou populismo na população que, com razão, despreza esse sistema injusto, mas foi condicionada a ter sua fé renovada a cada eleição. Como em um vício, o excesso de Maquiavel vai ficando um remédio cada vez mais caro e menos eficaz.

Contra-argumentos de que a democracia direta não funciona costumam ser baseados em uma leitura rasa de Freud, onde o povo é uma multidão volúvel, irracional e que uma elite intelectual que contenha as pulsões primitivas das “ditaduras dos desejos” seria necessária.

Esse argumento costuma vir pareado a outro platônico que expõe a inutilidade da crítica à política, pois “quem não se interessa por política é governado pelos que se interessam”.

Esse falácia é a base do elitismo oligárquico que discursa contra a “criminalização da política” mas que, na verdade, esconde a criminalização da autonomia.

Uma vez que a autonomia é hiperpolítica, ou seja, mais democrática que a oligarquia, ela é não apenas desejável, mas uma meta a ser atingida no horizonte da utopia.

Comentárista político ligado ao Partido dos trabalhadores, fazendo malabarismos retóricos para aparentar ser crítico ao ministro do STF Gilmar Mendes, mas defendendo suas condutas e ideologia.

Nesse casos, os políticos profissionais seriam desnecessários e a separação platônica se desfaz: Se todos se interessassem por política, seríamos todos cidadãos plenos e auto-governáveis.

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Mauro Cardoso

Médico Epidemiologista e Estatístico, atua na área de saúde pública estudando os cavaleiros do apocalipse: a peste, a fome e a guerra.