O Velho Oeste Paulista

No filme Footloose, os políticos de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos decidem proibir a dança na cidade, pois consideram as festas um perigo para os jovens. A realidade, como sempre, supera a ficção. E aqui está a história de uma cidade média no interior do Estado de São Paulo.

Bauru tem cerca de 400 mil habitantes. O reacionarismo não é algo novo nela. O maior jornal municipal, “Jornal da Cidade”, pertence a família Franciscato, cujo patriarca Alcides era amigo pessoal de Figueiredo, o último general da ditadura militar, e chegou a ser prefeito pelo ARENA. Durante o Regime, a cidade abrigou organizações paramilitares anticomunistas, que articularam ataque contra o Jornal Última Hora, conforme relatado pela Comissão da Verdade. Uma das famílias locais patrocinadoras foi a Coube, com ligações com o PSDB e com a empresa Tilibra.

Ainda antes, Bauru testemunhou na década de 30 a agitação da extrema-direita integralista, e o fascista João Maringoni hoje batiza escola estadual. Essa ideologia, inclusive, se perpetua até hoje municipalmente.

Bandeira integralista no ato pelo Impeachment

A organização Direita Bauru, inclusive, que possui laços com o MBL e o PSDB, tem entre seus membros os Carecas, organização extremista conhecida por atacar população LGBT no país.

Mas o que vem se destacando nos últimos tempos é a estranha ligação da cidade com coronéis da Polícia Militar. Todos associados ao Governador Geraldo Alckmin.

Os Coronéis

O Coronel Manoel Messias Melo foi o responsável pela reintegração do Pinheirinho. O Prefeito Clodoaldo Gazzetta, do direitista PSD (racha do DEM, descendente do ARENA), o convidou para a Comissão de Transição de seu governo. A operação de desocupação foi considerada desastrosa.

Outro nome foi o Coronel Elizeu Eclair. Ele foi Comandante-Geral da Policia Militar de São Paulo durante o ano de 2006, quando ocorreram os ataques do PCC. Grupos de extermínio impuseram toque de recolher estadual e executaram centenas de pessoas, levando o Brasil a ser denunciado perante a OEA. O homem que negou qualquer violação policial hoje é presidente da Empresa Municipal de Desenvolvumento Urbano, EMDURB.

Mas o maior destaque nos últimos dias é Benedito Meira, eleito vereador em 2016 pelo PSB. Foi Comandante-Geral da PM em 2013, quando milhares de manifestantes em São Paulo foram agredidos com imensa violência pela tropa de choque. Ele também esteve envolvido com a criação do Partido Militar, sendo próximo do deputado Capitão Augusto e simpático à Bolsonaro.

Coronel Benedito Meira

Bauru se torna a cidade do filme Footloose

No começo do ano de 2016, uma República de estudantes foi alvo da PM, marcando a intensificação da repressão aos espaços da juventude.

Quando o Coronel Meira chegou à Câmara dos Vereadores, o primeiro ato foi assumir a pressão pela aprovação da Lei antifestas, criada por lobby dos clubes noturnos da cidade que buscavam acabar com a concorrência popular. O primeiro vereador a iniciar a luta contra as festividades foi Marcos Souza, sócio de uma casa noturna da cidade e vereador do partido direitista PP. O argumento era de preservar o “sossego da vizinhança”, bem como “proteger a juventude”.

Se o objetivo era apenas garantir o sono das pessoas, por que a proposta de lei atinge toda e quaisquer festas, independente de dia e horário ou localidade? E se querem preservar os jovens, por que permitir a violência policial contra eles? Durante os protestos da juventude contra a medida autoritária em 2017, a Câmara dos Vereadores fechou as portas, votou de forma antidemocrática protegida pela PM e com apoio da mídia dos Franciscato.

Direita, Volver

Coronel Meira ainda se posicionou pela repressão aos ambulantes/camelôs; pela privatização do Departamento de Água e Esgoto (DAE); pela mudança de lei que coloca o Cerrado em risco, a serviço das empreiteiras e imobiliárias; pela implantação de câmeras de vigilância por toda cidade; pela expansão do poder da polícia e pelo aumento de seu efetivo; pela militarização de escola e da câmara; pela repressão à bares. Uma de suas principais aliadas, a Vereadora Yasmin Nascimento (PSC), é filha do Dep Estadual Celso Nascimento (PSC), que em 2015 articulou lobby evangélico contra a comunidade LGBT, com apoio da Diocese Católica (com histórico de conservadorismo).

Neste momento, alerta que instalará na cidade a Lei do Silêncio, permitindo que multas sejam aplicadas por Policiais Militares sem necessidade de provas de que há barulho, pois estes possuiriam “fé pública”.

No ano que vem, a política estará polarizada e a candidatura de Jair Bolsonaro vem a passos largos, com sua proposta de ditadura militar e religiosa. Está claro que Bauru é um laboratório para a Reação, e historicamente vem sendo um ninho do Fascismo brasileiro. A esquerda não pode mais permitir isso.

Se a Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia deseja fazer desta cidade seu teste de projeto de poder, nós devemos fazer o nosso de resistência e derrotar a direita aqui.

Não vai passar. Não vão passar. Não passarão.

Congresso do Partido Militar em Bauru, 2015, com Meira ao centro

 

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