O vínculo entre as lutas revolucionárias palestina e curda

Por Marciel Cartier, originalmente publicado em Kurdistan América  Latina

Há algo de profundamente inquietante em ver figuras tirânicas, cujas mãos estão gotejando do sangue de quem, em suas regiões, tenta se posicionar como defensores da ideia da liberdade. A pura hipocrisia com que um assassino que pode acusar, atacar e queixar-se dos atos atrozes de outro que é difícil saber se tal guerra de palavras é realmente sobre os ciúmes. Quase parece como se tais palavras pudessem guiar-se por um sentimento de ciúmes dos atos genocidas do outro, que alcançaram o prefeito nível de destruição.

Esta é a realidade confusa que persiste a luz das estranhas discussões acaloradas que surgiram nas ultimas semanas entre o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan e o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pela decisão de Donald Trump de proclamar Jerusalém como a capital de Israel.

Para não ter dúvidas, a decisão da administração Trump de romper com décadas de política dos Estados Unidos e essencialmente farol verde a continua anexação do resto da Palestina histórica por parte do Estado de Israel, é algo que devirá se condenar facilmente. Todas as forças progressistas deveriam continuar sua marcha em defesa da causa palestina contra as políticas expansionistas e racistas de Israel.

Hipocrisia na tela

Contudo, a imagem se torna um pouco mais complexa uma vez que reacionários com orientações direitistas – e suas próprias posições racistas e expansionistas – começam a se colocar como opositores da limpeza étnica e a anexação.

Ninguém deve ser enganado e crer que, de alguma maneira, a postura de Erdogan como um dos opositores mais militantes e abertos a decisão sobre Jerusalém significa que o Estado turco esta desempenhando um papel sincero ao apoiar o povo palestino. Não é só que o próprio Erdogan tenha colocado o pé em Jerusalém. Tampouco é simplesmente porque os acordos comerciais entre Turquia e Israel floresceram nos últimos anos, apesar de certo grau de tensão diplomática após o ataque israelense a embarcação de ajuda turca com destino a Gaza.

O comentários de Erdogan logo após o anuncio de Trump, em dezembro, apontam Israel como um “Estado terrorista” que “mata crianças”. Seria difícil encontrar um revolucionário sincero que não esteja de acordo com isso. Contudo, como podia ser um líder, cujas políticas pressionam cada vez mais a Turquia para um governo autoritário e fascista, que esta na vanguarda de uma “guerra contra o terror” que condena o povo curdo a uma vida de exclusão, negação de sua existência e destruição total? É possível que seus povoados e cidades se atrevam a abrir a boca ante problema semelhante? Não esta consciente do paradoxo de suas acusações? Erdogan disse que o governo de Netanyahu não tem outras políticas ademais da “ocupação e saque”. Parece seguro que qualquer numero de curdos no sudeste da Turquia atribuiria essas mesmas características ao estado turco.

Netanyahu, de sua parte, decidiu responder as palavras de Erdogan apontando essa mesma contradição, dizendo que o líder turco não tinha a superioridade moral para julgar Jerusalém, dado que “bombardeava vilas curdas”. Contudo, assim como ninguém deve ser enganado para crer que Erdogan pode assumir a liderança regional na resistência ao governo de Tel Aviv, Netanyahu esta muito longe de ser um amigo da resistência do povo curdo. É verdade que Israel apoiou no 25 de setembro o referendo sobre a independência da região curda do Iraque, o que converte Israel no único país que o fez. Como apontei em numerosas ocasiões e artigos anteriores sobre as divergentes formações políticas curdas, a direção do KRG (governo semi autônomo) esta longe de ser revolucionária. Em contraste marcado com o apoio israelense a direção do norte do Iraque, Netanyahu sempre se opôs firmemente ao grupo que na Turquia esta na primeira linha de resistência frente aos bombardeios ao povo curdo: o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

A posição dos nacionalistas árabes e os curdos reacionários

Muitos nacionalistas árabes, assim como outros partidários da causa palestina, foram compreensivelmente motivados pelos comentários de Erdogan sobra a transferência Jerusalém, apesar das previamente cordiais relações do líder turco com o Estado de Israel.

Sua esperança era que, talvez, esse era mais um passo a favor do Estado turco longe do ditame das potências ocidentais e daria como resultado um maior apoio de Ankara a facção da resistência palestina Hamas (um ponto em que Netanyahu tampouco hesitou em responder aos comentários de Erdogan).

Enquanto isso, não é de estranhar que alguns ativistas curdos e seus partidários estivessem cheios de energia porque Netanyahu tenha feito referência a sua situação e luta em seus comentários. Poderia um aumento nas tensões entre Tel Aviv e Ankara significar uma reavaliação em nome do governo do Likud de como avaliar o apoio as organizações de resistência curda?

A realidade é que, contrariamente as afirmações de um considerável número de nacionalistas árabes de que “os curdos” são marionetes sionistas, e uma firme oposição ao conceito apoiado por alguns curdos não revolucionários de que Israel deveria ser visto com um aliado, são as lutas revolucionárias de palestinos e curdos as que se unem como duas pernas.

Vínculos históricos entre a luta curda e a palestina.

Não se trata simplesmente de que ambos movimentos se refiram principalmente a se opor a limpeza étnica e a ocupação colonial, A esquerda palestina e curda tem laços profundos que remontam aproximadamente a meio século.

Com a aparição da revolução de Rojava no norte da Síria em 2012, o líder do PKK, Abdullah Öcalan, declarou seu desejo de converter a região no atual Vale do Bekaa. O que ele quis dizer foi o que essa região do Líbano era para os internacionalistas nos anos 70 e 80 – um centro de formação revolucionária, desenvolvimento e solidariedade – era o que Rojava deveria aspirar a ser na era moderna.

O Vale do Bekaa foi significativo não só para os internacionalistas que queriam unir-se a luta palestina (já que era lugar de acampamentos administrados pela Organização de Libertação Palestina – OLP -), senão também era onde o PKK enviava grandes quantidades de seus combatentes para treinar, a fins da década de 1970. Em particular, as facções marxistas palestinas do Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), ajudaram a facilitar o treinamento militar para os quadros do PKK que seriam essenciais antes da declaração de guerra com o Estado turco em 1984.

Mustafa Karasu, membro fundador do PKK, recordou esta relação histórica em uma declaração no mês passado “ Em 1982, 13 de nossos quadros caíram na luta contra a ocupação do Líbano por Israel. O Estado israelense também participou da conspiração internacional contra Abdullah Öcalan e assassinou quatro de nossos camaradas em Berlim. Sem dúvida, nunca esqueceremos o apoio que os palestinos deram ao povo curdo na década de 1980. Nossa atitude em relação ao sionismo sempre foi ideológica. Até hoje, estamos do lado dos palestinos e de todos aqueles que estão lutando por uma solução democrática na região”.

Superando o nacionalismo estreito, construindo solidariedade

Se bem é verdade que tanto a esquerda palestina quanto a curda tem uma história de cooperação e solidariedade, também é certo que estes vínculos não tem sido tão frequentes nos últimos anos como foram no apogeu de anos passados.

É desconcertante que, com grande frequência, os ativistas curdos de solidariedade não levantes suas vozes quando se trata de defender e apoiar o movimento de libertação palestino, assim como é profundamente problemático que o mesmo ocorra com vários vários ativistas palestinos de solidariedade quando se trata de resistir o genocídio na Turquia. Na medida que isto se deva a ignorância geral das características comuns de ambos movimentos de resistência, significa que se devera realizar um esforço concentrado para superar qualquer nacionalismo estreito que tenha criado raízes em ambos movimentos e afirmar um perspectiva internacionalista que proponha a noção de que estas são lutas gerais. Os golpes que realiza o movimento curdo contra sede de sangue do governo do AKP devem ser vistos como vitórias para os palestinos, assim como os ataques ao sionismo deveriam ser vistos como um fator energizante para o movimento curdo.

É importante que os comentários de Karasu sobre a decisão de Jerusalém sejam escutados amplamente, para ajudar a fomentar um renascimento dessa relação. Como colocou explicitamente, “Desde o surgimento do PKK, fomos contra o sionismo. Comparamos o genocídio dos curdos na Turquia com o sionismo israelense e o regime de apartheid da África do Sul.”

Qualquer um que esteja genuinamente interessado na política emancipadora deveria pensar duas vezes antes de tomar posições oportunistas sobre quem deveriam ser os amigos dos revolucionários curdos e palestinos. Certamente, não são políticos de mentalidade colonial como Erdogan ou Netanyahu. O velho ditado sustenta que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Infelizmente, o mundo nem sempre esta tão bem fechado em uma contradição tão fácil de ler. As vezes, o ditado pode ser certo. Em outras ocasiões, contudo, o inimigo do meu inimigo bem poderia ser um fascista. O internacionalismo é realmente essencial.

 

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