Oprah Winfrey: uma das melhores pensadoras neoliberais e capitalistas do mundo

Por Nicole Aschoff, Originalmente Publicado no Guardian

 

Na tradição de Oprah Winfrey, uma história em particular é repetida sem parar. Quando Oprah tinha 17 , ela ganhou o concurso de Miss prevenção de incêndio em Nashville , Tennessee. Até aquele ano todas as vencedoras tinham  uma cabeleira ruiva, mas Oprah Provou ser  aquela capaz de mudar o jogo.

 

O concurso foi o primeiro e vários sucessos para Oprah. ela venceu inúmeros Emmys, foi indicada ao Oscar, e aparece na lista das 100 pessoas mais influentes da Times. Em 2013, foi concedida a ela a Medalha Presidencial da Liberdade . fundou o Clube do Livro da Oprah, que com frequência tem recebido crédito por reviver o interesse dos americanos pela leitura. Sua generosidade e espírito filantrópico são lendários.

 

Oprah tem legiões de fãs obsessivos, devotos que escrevem cartas pra ela e a seguem em banheiros públicos. Oprah se delicia com seu amor:” eu conheço pessoas que realmente, realmente ,realmente me amam.” e retribui seu amor. É parte de sua “maior vocação”. Ela acredita que ela foi posta no mundo para levantar as pessoas, para ajudá-las “ a viver uma vida melhor”, ela encoraja as pessoas a se amarem, a seguir seus sonhos.

 

Oprah é parte  de um novo grupo de narradores da elite que apresentam soluções práticas para os problemas  da sociedade advindos a lógica das estruturas de produção e consumo movidas pelo lucro. Eles promovem soluções baseadas no mercado para os problemas do poder corporativo, tecnologia, divisão de gênero, degradação ambiental, alienação e desigualdade.

 

A popularidade de Oprah se sustenta em sua mensagem de empatia, apoio, e a amor em uma sociedade cada vez mais estressante e alienante.  Três décadas de reestruturação das operações das empresas eliminando empregos(por desgaste, tecnologia, e  terceirização)  e desmantelando tanto a classe operária organizada e o estado de bem estar social deixou os trabalhadores em uma situação extremamente precária.

 

Hoje, os novos trabalhos da classe operária são  principalmente empregos de salário baixo, e  os benefícios que antes vinham junto com  empregos de colarinho branco intermediário desapareceram. . o trabalho flexível, orientado a projetos e  eventual se tornou norma, permitindo que as empresas aumentassem suas exigencias para com todos os trabalhadores exceto aqueles no pico da hierarquia empresarial. Enquanto isso , os custos de educação, moradia, creche, e saúde dispararam,  tornando a sobrevivência ainda mais difícil para indivíduos e famílias, quanto mais  a prosperidade.

 

Nesse clima de estresse e incerteza, Oprah nos conta as histórias da sua vida para ajudar a compreender nossos sentimentos, lidar com a dificuldade e melhorar nossas vidas. Ela apresenta sua jornada pessoal e sua metamorfose de garotinha pobre no Mississippi rural a profetisa bilionária como modelo para superar as adversidades e encontrar “uma vida suave”.

 

O conto de fadas biografia de Oprah tem sido administrado, refletido, e massacrado em publico por 30 anos. Eles usou sua inteligência e perspicácia precoces para canalizar a dor do abuso e pobreza na construção de um império. Ela estava na televisão aos 19 anos e em uma década conseguiu seu próprio programa.

 

O movimento feminista dos anos 1970 abriu as portas para a esfera doméstica, privada, e a programa  estreou na década seguinte, abrindo um novo caminho como espaço público para discutir problemas pessoais que afetam os americanos, particularmente as mulheres. Oprah abordou temas (divórcio, depressão, alcoolismo, abuso infantil, adultério, incesto) que num haviam sido discutidos com franqueza e empatia na televisão.

 

A evolução do programa durante as últimas décadas espelhou a evolução da vida pessoal de Oprah. Em seus primeiros anos o programa seguiu o “modelo de recuperação” com convidados e audiência sendo encorajados a superar seus problemas construindo autoestima e aprendendo a se amar.

 

Mas quando os programas imitadores e as críticas por “conversa mole” aumentaram nos anos 1990, Oprah mudou o formato do programa. Em 1994, Oprah declarou que ela estava cansada da “vitimização” e da negatividade:” é hora de mudar do discurso de “somos disfuncionais” para “o que nós estamos fazendo para resolver isso?”” Oprah creditou sua decisão ao sua própria evolução pessoal :” as pessoas precisam crescer e mudar” ou “elas vão murchar” e “ suas almas vão regredir”.

Em uma aparição no programa Larry King Live, Oprah reconheceu que ela tinha ficado preocupada sobre a mensagem do seu programa e então decidiu embarcar em uma nova missão: “elevar as pessoas”. Temas de espiritualidade e empoderamento substituíram os temas das patologias pessoais. Para Oprah, a transformação foi total:” hoje eu tento fazer melhor e ser melhor com todos que eu alcanço ou encontro. Eu tento garantir que eu uso a minha vida para que possa ser  benevolente. Sim, isso me trouxe muita riqueza. Mas mais importante, isso me fortaleceu espiritualmente e emocionalmente.”

 

Uma torrente de gurus de auto ajuda passou pelo palco de Oprah na última década e meia, todos com a mesma mensagem. Você tem escolhas na vida. Condições externas não determinam sua vida. Você determina. Está tudo em você, na sua cabeça, nos seus desejos e vontades. Pensamentos são o destino, então ter pensamentos positivos permitirá que as coisas positivas aconteçam.

 

Quando as coisas ruins acontecem conosco, é porque nós estamos atraindo pra nós pensamentos e comportamentos doentios. “ Não se preocupe com o que você não tem. Use o que você tem. Fazer menos que os eu melhor é pecado. Cada um de nós tem o poder para a grandeza porque a grandeza é determinada pelo serviço- a si mesmo e aos outros.” se nós ouvirmos aquele “sussurro” e afinar o nosso “GPS interno, moral e emocional”, nós também podemos aprender o segredo do sucesso.

 

Janice Peck, em seu trabalho como catedrática de jornalismo e estudos da comunicação, estudou Oprah por anos a fio. Ela argumenta que para compreender o fenômeno Oprah nós precisamos retomar as ideias que circularam na Era de Ouro dos Estados Unidos. Peck vê fortes paralelos no movimento de cura pela mente da Era de Ouro e a  iniciativa em desenvolvimento de Oprah a nova era de Ouro, a era do neoliberalismo. Ela argumenta que a iniciativa de Oprah reforça o foco neoliberal no Eu: “ a iniciativa de Oprah É uma combinação de práticas ideológicas que ajudam a legitimar um crescimento mundial na desigualdade e o encolhimento das possibilidades de promover e  materializar uma configuração do eu compatível com esse mundo.”

 

Nada captura o conjunto e práticas ideológicas que a O Magazine, cujo objetivo é “ ajudar as mulheres a verem cada experiência e desafio como uma oportunidade para crescer e descobrir o melhor de si. Para convencer as mulheres que o objetivo real é se tornarem mais quem elas são de verdade. Abraçar  a própria vida.” A O magazine de forma implícita, e às vezes explícita, identifica uma gama de problemas no capitalismo neoliberal e sugere formas das leitoras se adaptarem para diminuírem ou superarem esses problemas.

 

Seu emprego de 60 horas por semana faz suas costas doerem e te deixa emocionalmente exausta e estressada? Claro que sim. Estudos mostram que “morte por emprego em escritório” existe: pessoas que passam o dia todo sentadas tem mais chance de se tornarem obesas, deprimidas, ou morrem sem razão aparente. Mas você pode aliviar esses efeitos e melhorar seu bem estar  com essas estratégias aprovadas pela O:  pense mais “fora da caixinha” porque pessoas  criativas são mais saudáveis. Leve fotos, pôsteres, e “bibelôs” para decorar seu lugar e trabalho:  “você vai se sentir menos exausta emocionalmente e reduzir a fadiga.” escreva trẽs coisas positivas que aconteceram durante seu horário de trabalho toda noite antes de sair do escritório para “reduzir o stress e a dor física do trabalho”.

 

Em dezembro de 2013, a O devotou um lançamento inteiro à ansiedade e preocupação. O tema” conquiste uma vida digna de ansiedade e apreensões” um assunto adequado dados os níveis crescentes de ansiedade em todo o espectro de idades.

 

Na reportagem, as biblioterapeutas Ella Berthoud e Susan Elderkin apresentaram uma lista e livros para os ansiosos, prescrevendo-os em vez de uma “ida à farmácia”. Se sentindo claustrofóbica por que você é pobre demais para sair da casa dos seus pais? Leia “Uma Casa na Campina” se sentindo estressada porque se projeto no trabalho está acabando  e você não tem outro planejado? Leia “O Homem que Plantava Árvores”. Preocupada porque você não vai poder pagar o aluguel porque perdeu o emprego? Leia “Wind-Up Bird Chronicles”, “ em vez de se sentir deprimida, siga o personagem principal Toru Okada, que, enquanto estava desempregado, embarca em uma fantástica jornada de libertação que muda a forma como ele pensa.”

 

Oprah reconhece a onipresença da ansiedade na nossa sociedade. Mas em vez de examinar a base econômica ou política desse sentimento, ela nos aconselha a virar nosso olhar para dentro e nos reconfigurar para nos tornar mais adaptáveis aos caprichos e estresses do momento neoliberal.

 

Oprah é apelativa precisamente porque suas histórias escondem o papel das estruturas políticas, econômicas e sociais. Fazendo isso, eles fazem o sonho americano parecer alcançável. Se nós apenas nos corrigirmos, nós poderemos atingir nossos objetivos. Para algumas pessoas, o Sonho Americano é alcançável, mas para entender as chances de todos, nós precisamos olhar desapaixonadamente para os fatores que moldam o sucesso.

 

A encarnação atual  da narrativa do Sonho Americano garante que se você adquirir capital cultural suficiente( qualificações e educação) e capital social(conexões, acesso a redes de pessoas), você será capaz de  traduzir esse capital tanto em capital econômico(dinheiro) quanto felicidade. Capital cultural e capital social são vistos como disponíveis  para pegar(particularmente com os avanços da tecnologia e da internet), então os únicos ingredientes necessários são coragem, paixão e persistência- todos atributos que supostamente vem de dentro de nós.

 

O sonho americano é baseado na presunção de que se você trabalhar duro, a oportunidade econômica surgirá, e a estabilidade financeira virá em seguida, mas o papel do capital cultural e social na pavimentação do caminho para a riqueza e satisfação, ou para bloqueá-lo, pode ser tão importante quanto o capital econômico. Algumas pessoas são capazes de traduzir suas habilidades, conhecimento, e conexões em oportunidades econômicas e estabilidade financeira, e alguma não são- tanto por causa de que suas habilidades, conhecimento, e conexões  , não parecem funcionar tão bem, ou que elas não conseguem adquiri-las porque são pobres demais.

 

Hoje, a centralidade do capital social e cultural é ofuscada(algumas vezes de forma proposital), como demonstrado na  mensagem implícita e explícita de Oprah e seus colegas ideológicos. Em suas histórias, e  em muitas outras como as deles, capital social é fácil de  conseguir. Eles nos dizem para estudar. Pobre demais? Faça um curso online. Use a Khan Academy. Eles nos dizem para encontrar pessoas, construir nossa rede.  Não tem nenhum familiar com conexões? Entre no LinkedIn

 

É simples. Qualquer um pode se  tornar qualquer coisa. Não existe distinção entre a qualidade e a produtividade do capital social e cultural de pessoas diferentes.  Todos nós estamos construindo habilidades. Todos nós estamos fazendo networking.

 

Isso é uma ficção. Se todas ou a maior parte das formas de capital social fossem igualmente valiosas e acessíveis, nós veríamos os efeitos   disso na mobilidade em direção ao andar superior da escala social e em riquezas sendo criadas de novo  por novas pessoas em cada geração em vez de sendo passadas e expandidas de uma geração para a outra. Os dados não demonstram essa mobilidade rumo ao andar superior.

 

Os EUA, em uma amostra de 13 países ricos,  apresentam os mais altos índices de desigualdades e os mais baixos índices de mobilidade inter-geracional de ganhos. A riqueza não é recebida fresca em cada nova geração por novos corajosos batalhadores. Ela é passada, preservada, e expandida por meio de generosas leis tributárias e transmissão incessante do capital social e cultural.

 

A forma como Oprah nos diz para superar  tudo isso e realizar nossos sonhos é nos adaptar ao mundo em constante mudança, não para mudar o mundo em que vivemos. Nós exigimos pouco, ou nada do sistema, do aparato coletivo de pessoas e instituições poderosas. Nós só exigimos de nós mesmo.

 

Nós somos os súditos  neoliberais  perfeitos  despolitizados e complacentes.

 

E ainda assim , não somos. A popularidade das estratégias  para atenuar a alienação estão em nosso desejo profundo, coletivo por sentido e criatividade. O crítico literário e teórico político Fredric Jameson diria que as histórias de Oprah, e outras similares, são capazes de “manejar nossos desejos” apenas porque eles apelam para fantasias profundas sobre como queremos viver nossas vidas. Isso, apesar de tudo, é sobre o que a narrativa do sonho americano é- não necessariamente uma descrição de uma vida, mas uma visão de como a vida deve ser vivida.

 

Quando as histórias que manejam nossos desejos quebram suas promessas uma vez atrás da outra, as histórias em si se tornam combustível para a mudança e abrem espaço para novas histórias  radicais. Essas novas histórias devem apresentar demandas coletivas que providenciam uma perspectiva crítica dos limites reais de sucesso na nossa sociedade e promover uma visão de vida que alimente o desejo e autorrealização.

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....