Os “bons homens”

Em 1988, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz conduziu uma pesquisa sobre preconceito racial no Brasil.  A primeira pergunta das entrevistas era: “Você tem preconceito?” Entre os entrevistados, 96% responderam “não”. A segunda pergunta era: “Você conhece alguém que tenha preconceito?”. 99% das mesmas pessoas disseram “sim”, entre seus amigos próximos, pais, irmãos. A partir da conclusão informal da pesquisa, Lilia Moritz cunhou sua frase célebre: “todo brasileiro se sente uma ilha de democracia racial cercada de racistas por todos os lados.” 

Apesar da pesquisa de Lilia Moritz ter tratado da questão racial, é possível fazer um paralelo de sua frase às questões de gênero e da relação de homens com seu próprio machismo. “Todo homem se sente uma ilha de igualdade de gênero cercado de machistas por todos os lados”. Dificilmente vemos um homem admitir sua misoginia, ainda que ela seja escancarada. No pior dos casos, não admitem por desonestidade intelectual, no melhor porque o privilégio de um pinto entre as pernas os faz acreditar REALMENTE que tratar mulheres com um mínimo de dignidade os exime de qualquer outra culpa.  Em ambos os casos discutir, especialmente se o call out for feito por uma mulher, é inútil. Os “bons homens”, aqueles que nunca admitem o próprio machismo, não tem compromisso com a luta das mulheres, estão comprometidos apenas com seu próprio ego de macho ferido. Com tantos “bons homens” vivendo por essas terras, como explicar a quantidade de feminicídios, espancamentos e estupros que colocam o Brasil nos rankings internacionais como sendo um dos piores países para ser mulher? Realmente um mistério.  

Estudo situa o Brasil: Um dos piores países para mulheres

Agora mais do que nunca, feministas devem ser céticas sobre caras que se autoproclamam feministas, aliados ou simplesmente “bons homens”. Se dizer a favor da luta pela emancipação da mulher não é mais considerado um tabu como era há décadas atrás – pelo contrário, é tendência e dá passe livre para que muitos abusadores invadam nossos espaços políticos e nossas mentes. E por abusadores, não me refiro apenas àqueles que cometem as brutalidades que assistimos às pencas nos Cidade Alerta, Balanços Gerais… Me refiro também a homens verbalmente e psicologicamente violentos, gaslighters, possessivos e que transferem às mulheres ao seu lado a carga pesada de suas inseguranças, de suas cabeças bagunçadas, de suas responsabilidades – reafirmando o status quo de que a feminilidade está inerentemente ligada ao cuidado, à maternidade… ainda que seja ilógico que você, de vinte e poucos anos, materne uma eterna criança de trinta+. Mas é exatamente isso a que estamos sujeitas: a maternar homens adultos que às vezes não paternam nem os próprios filhos mas que se acham bons demais por supostamente nunca terem agredido, estuprado ou matado mulheres (talvez por falta de uma boa oportunidade).  

Estudo situa o Brasil: Um dos piores países para mulheres

Nenhum homem deve se colocar na posição de porta-voz das nossas pautas ou decidir sobre o que é ou não considerado violento contra nós. Nós não somos amebas, podemos e definimos internamente enquanto classe o que nos machuca. Mas ai nós questionar os erros dos “bons homens”, tão empenhados em compartilhar conosco, o sexo incompleto, um ínfimo olhar no oceano que é o saber da masculinidade.  Estes homens ficam irados quando você conta a eles que suas atitudes como microagressões e abusos verbais também são um tipo de violência e que suas opiniões neste debate valem pouco ou nada. Alguns ainda tentam fazer alguma ginástica mental para te convencer de que você está errada e LOUCA. Outros, com capacidade argumentativa mais reduzida (os jumentos, os burros, os cavalos, apesar das minhas reservas morais em comparar animaizinhos inocentes a este tipo de scum) já apelam para as reações emocionais e/ou violentas: chantagens, xingamentos, choro, silêncio, papel de vítima. Às vezes evocam violências sofridas por você no passado para justificarem suas próprias violências já que, se em 1998 você esteve presa a um relacionamento fisicamente abusivo, por que EU, o “bom homem”, não posso abusar verbalmente de você enquanto você fica calada?  

Estudo situa o Brasil: Um dos piores países para mulheres

Eu conheço alguns homens que são realmente aliados do movimento feminista e raramente os vejo se descrevendo dessa forma. A aliança é baseada nos seus comportamentos, na compreensão de que o PESSOAL TAMBÉM É POLÍTICO, não nos tapinhas nas costas que recebem dos amigos, que coincidentemente também se declaram “bons homens”. Que confortável, ao invés de fazer uma autorreflexão sobre seus próprios comportamentos como homens e sobre as formas como eles vagam pelo mundo equipados do seu privilégio masculino, simplesmente olhar para atitudes completamente bestiais de outros machos e se colocar no posto iluminado de homem infalível.  
 
Não me digam que são bons homens. Não me digam que vocês se preocupam com as nossas feridas quando vocês próprios sabem que não fazem idéia do que essas feridas são e como se as suas palavras tivessem qualquer influência sobre o que aconteceu comigo ou com qualquer outra mulher viva durante todas as nossas vidas. Eu quero ação. Eu quero que vocês se responsabilizem por seus próprios erros, pela cumplicidade com o erro dos seus pares, por não cortarem laços com seus amigos misóginos em nome do bromance que vocês vivem. Eu não quero desculpas. Até porque vocês gostam de fazer isso publicamente, nas redes sociais, e ainda ganham biscoitos sobre o quão maravilhosos e corajosos vocês são por exporem a podridão que ainda existe dento de vocês e que vocês não estão dispostos a depurar.  

Vocês não são “bons homens” por nos tratarem mais do que como orgasmos em potencial. Nos tratar como iguais não é mais do que uma obrigação porque, acreditem ou não, nós somos. E quando se trata das nossas vidas, nós sabemos mais do que vocês. Então aceite a sua parcela de culpa quando uma de nós apontar as suas falhas. Não é o seu trabalho nos dizer que estamos erradas quando falamos com vocês sobre o que nos machuca: Nós, enquanto uma classe sexual explorada e oprimida, é que vamos definir nossos próprios termos e caminhos para nossa libertação.  
Se isso é pedir demais a vocês, sejam pelo menos coerentes com o papel maternal que vocês nos delegam e, por favor, fiquem caladinhos quando mamãe mandar.  

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.