Os guardiões da propriedade privada

Por Marshall Steinbaum, originalmente publicada na Jacobin Magazine

 

Através da história a direta se preocupou mais em preservar a propriedade privada que com promover a democracia.

 

No novo livro de Daniel Ziblatt, Conservative Parties and the Birth of Democracy  não poderia ser mais atual, o que explica porque ele teve mais atenção na imprensa popular que a maioria dos livros de ciências políticas e história acadêmica.

 

Ziblatt argumenta que  os partidos conservadores determinam se um estado passará por uma democratização estável ou se a reação dos ideólogos mais linha dura da direita desfaz esses ganhos  totalmente. Escolhendo aceitar a democracia, “empreendedores políticos” conservadores  avaliam se seu partido e seu controle  está bem organizado o bastante para sobreviver e prosperar em um ambiente em que o poder político se estende além das elites do antigo regime.

 

Para provar esse argumento, Ziblat contrasta as experiências alemã e britânica entre o fim do século XIX e a Segunda Guerra Mundial. Pelo seu relato, o Partido Conservador do Reino Unido se tornou uma organização e massas entre os anos 1870 e 1880, o que permitiu que ele contivesse a ameaça do Sindicalismo Norte Irlandês e toda a ordem constitucional entre 1910 e 1914. Em última instância, a base massiva dos Tories ajudou a  conduzir a ordem  política britânica no século XX quando, em 1922, eles abandonaram a coligação que apoiava o governo pós-guerra de Lloyd George e caminho a passos largos em direção ao futuro como o único partido capitalista enfrentando um Partido Trabalhista completamente normalizado.

 

Em contraste, a sucessão dos partidos conservadores alemães e prussiano esteve ligada continuamente aos propriedade rural e à política aristocrática. . o notório privilégio de três classes que determinou a representação na câmara baixa prussiana  super representou os interesses aristocráticos na política nacional, apesar do voto ostensivamente universal operando a nível federal. Assim que o Partido Conservador perdeu poder político graças à Primeira Guerra Mundial, ele só conseguiu voltar ao poder restaurando os vestígios pré-democráticos,  algo que a facção  linha dura conseguiu na metade dos anos 1920.

 

Esses casos oferecem um contraste instrutivo, e  a habilidade do establishment político de conter revoltas de direita certamente é uma separação que merece consideração. Mas nós devemos  ir com calma, quando a análise de Ziblat omite, ou melhor, leva pouco em conta um ingrediente crucial: ideologia.

 

De forma simples, a direita se importa mais com preservar a propriedade privada e com o poder que tem sobre a política, a economia , e a sociedade que com a democracia. Se eles podem ter os dois, então os políticos e partidos conservadores apoiam a democracia e  frequentemente conseguiram exatamente o que querem, já que a democracia formal  em si se provou compatível com um capitalismo anti-democrático que concentre poder econômico. Mas se os conservadores forem forçados a escolher- como foram nos contextos britânico e Alemão- eles sempre vão escolher a propriedade. As circunstâncias dessa escolha  determinam se eles também  vão baixar a cortina da  democracia.

 

Segundo,  a análise  de Ziblatt das revoltas conservadoras merece  uma análise crítica, na Grã-Bretanha ela começou  com a vitória esmagadora da coligação  entre Liberais e Trabalhistas nas eleições gerais de 1906  depois de onze anos de hegemonia Conservadora-Unionista. A oposição tory a esse governo entraria na história  por sua irresponsabilidade e displicência  processual: a Casa dos Lordes votou contra lei atrás de lei culminando no “orçamento do povo” de 1909 que cobrou pela primeira vez   o imposto progressivo  em tempo de paz na  história britânica.

 

Depois disso, a coligação liberal-trabalhista tentou uma reformar a constituição para minar o poder dos lordes. Em seguida vieram duas eleições gerais baseadas nisso, nas quais o governo precisou do apoio  dos nacionalistas irlandeses para sobreviver, eles  conseguiram passar o Parliament act de 1911 assegurando a supremacia inquestionável da Casa dos Comuns.

 

Entretanto, essa vitória só aumentou a disposição da oposição para usar meios lesa-democracia para conseguir poder. Em troca de seu apoio os nacionalistas irlandeses  exigiam um governo autônomo–  como eles haviam tentado por décadas frente a repetidos bloqueios dos Tories na Casa dos Lordes. Quando a casa mais alta não podia mais atrapalhá-los processualmente, os  Tories incentivaram a rebelião dos protestantes do Ulster até o ponto da insurreição violenta.

 

Ziblatt dá um relato factual desses eventos, mas  ele também dá atenção suficiente ao testemunho posterior do primeiro ministro liberal H. H, Asquith. Ele relata, por exemplo, uma anedota que o líder tory Andrew Bonar Law– que demonstrou publicamente o apoio a medidas lesa-democracia para “preservar a União”- supostamente contou a Asquith, parafraseando, “ se nós não queríamos mesmo dizer isso- você entende que isso é só jogo político, não entende?”

 

É evidência suficiente para decidir que  um Law claramente democrático tinha controle de seu partido? Ziblatt dá  certo um valor  a  esse depoimento de segunda mão e adiciona dois ingredientes posteriores.primeiro, os Tories esperavam vencer as próximas eleições gerais, então todo seu afiar de facas figurativo( eventualmente literal) estava planejado simplesmente para isso. Segundo, oito anos depois e  em circunstâncias políticas bem diferentes, Law liderou a facção Tory que votou a saída da coalizão de Lloyd George  e enfrentar os trabalhistas pelos próximos noventa anos- selando o acordo pela concordância e apoio dos Tories à democracia.

 

Existem evidências sugestivas , mas individualmente elas não resistem. Ziblatt tece uma  tapeçaria intrincada com material bem bruto, especialmente quando lembramos seu argumento de que as decisões  de construção de partido dos Tories de trinta anos antes presumidamente fizeram isso acontecer.

 

A Primeira Guerra Mundial acabou com a rebelião política da direita. Só no período da guerra que a  ameaça do Unionismo do Ulster desapareceu- pelo menos por um tempo- e os antes intransigentes Tories se tornaram cooperativos de novo. Porque a guerra aconteceu, e porque os Tories terminaram  provocação política quando podiam ir além do alcance da análise de Ziblatt. Certamente, não existe consenso acadêmico sobre essas questões.

 

A explicação mais óbvia provavelmente chega mais perto da realidade: durante a guerra , o governo liberal finalmente adotou a política externa dos Tories, que ajudou os conservadores a encontrar um rumo para fora do seu  pântano político. O que nos traz de volta a ideologia: se os conservadores  conseguem o que eles querem, eles podem viver com a democracia. O governo liberal sitiado  sabia disso, o que ajuda a entender por seus atores críticos mais ou menos deram boas vindas à guerra quando ela chegou.

 

Essa narrativa aponta para uma terceira deficiência no argumento de Ziblatt: ele acredita completamente que os líderes do Partido conservador tinham boas intenções. Ele faz uma distinção clara entre as elites conservadoras que buscam poder pelos meios democráticos e os militantes  linha dura que  não são limitados por essa lealdade institucional. Mas Law e seus colegas na liderança instigaram conscientemente os grupos de interesse extremistas, primeiro na forma dos aristocratas de “ultima tentativa”  inclinados a manter o poder independente da Casa dos Lordes, e na forma do sectarismo violento dos protestantes do Ulster.

 

As elites conservadoras da Era de Weimar fizeram o mesmo, se escondendo atrás de grupos de veteranos como os Freikorps e os  Capacetes de Aço para executar sua violência política, ainda que o partido publicamente  se desassociasse deles e criticasse seus golpes.

 

O relato de Ziblatt sobre a radicalização conservadora alemã começa em 1928 ou  pouco antes, quando o magnata da mídia e agitador conservador Alfred Hugenberg lançou  oferta pública de aquisição para o Partido Popular Nacional Alemão(DNVP),o principal partido conservador da nação na época. Oficialmente antidemocrático, o DNVP se juntou a uma série de gabinetes de centro-direita que ratificaram efetivamente o Tratado de Versalhes ainda que aliviassem seus termos mais agressivos.

 

O contragolpe  de Hugenberg aconteceu porque ele manteve o dinheiro do partido em suas mãos e encheu os conselhos locais com ultra nacionalistas que podiam compor a  lista do partido nas eleições  nacionais. É como se um híbrido de Roger Ailes e Charles Koch tomassem controle pessoal do Partido Republicano e fizessem John Boehner se aposentar à força- e ai, anos depois conduzissem um demagogo ao poder absoluto.

 

Que é, se pensarmos,  é basicamente o que aconteceu,  e isso explica o elogio e David Frum ao livro de Ziblatt. Quanto ao passado recente do  Partido Republicano, ele escreve, “assim como  na Alemanha pré-1914, um partido  poroso institucionalmente foi rapidamente tomado de fora.” Frum parece  ter esquecido que as mesmas pessoas que votaram nas  primárias republicanas e  que foram aos protestos do Tea Party que elegeram Trump, e que ele ganhou a eleição com uma grande ajuda das leis e títulos eleitorais,  expurgos eleitorais, e pelas políticas de encarceramento em massa e  desfiliação de condenados que  as legislaturas republicanas e  seus cargos de confiança  tem promulgado ansiosamente por um bom tempo.

 

Distinguindo entre uma elite política conservadora responsável e uma base nacionalista irresponsável, Frum se coloca  no exato papel histórico que quer ocupar. Entretanto ele ignora as décadas em que a elite passou incentivando o nacionalismo branco para fazer os governos e centro esquerda de refém: “ nos faça outra concessão, ou os verdadeiros malucos vão tomar conta”. Esses malucos  serviram como tropa de choque em episódios de violência na rua que criaram grandes dividendos políticos tanto  por  fazer eleitores irritados irem às urnas quanto por minar diretamente processos democráticos.
Ziblatt, claro, não escreveu esse livro para oferecer uma carta de fuga  da cadeia- ele não menciona eventos políticos contemporâneos, e é um desserviço ao livro  ler seu argumento  só à luz deles.
Além disso, com todos seus efeitos, o relato de Ziblatt  vai mais fundo que The Economic Origins of Dictatorship and Democracy  de  Daron Acemoglu e James Robinson, que argumenta que a ameaça de uma revolução armada dos debaixo forçou o Ancien regime a aceitar a democracia.

 

A argumentação central de Ziblatt está absolutamente certa: vitimada por um estratagema antidemocrático, a esquerda apoiou a democratização  muito mais consistentemente que a direita. A direita- e não a esquerda- usa seus privilégios e ameaças de deserção para extrair concessões para os detentores de capital, enfraquecendo sistemas políticos pelo uso do nacionalismo atavicamente violento.

 

Isso continua verdade estejamos falando de 1914, 1933 ou 2016- e o privilégio ideológico dos conservadores, é um filão a ser explorado.

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....