Os herdeiros idiotas do neo-ateísmo

 

 

 

 

Por Alex Nichols, originalmente publicado em The Baffler

 

No auge dos fóruns de internet, digamos  nos anos 90, uma certa espécie de idiota se materializou. Ele era homem, agressivamente pedante,lógico autodeclarado, comprometido com as ciências exatas,propenso a começar sentenças com “na verdade”, e quase sempre devotado à ideia que a descrença em Deus lhe incutiu uma superioridade intelectual. Os anos e ouro de arquétipo foram os anos 2000, uma década que viu George W. Bush politizar o criacionismo e o uso dos fóruns da web no seu pico. Assim que a década terminou,  a internet se cansou de suas artimanhas e fez eles um elemento central em várias piadas internas- “neckbeard” descrevendo seus  hábitos  menos habilidosos de sedução; e seu chapéu preferido, o Fedora, se tornou centro de inumeráveis piadas durante o primeiro mandato de Obama. Não mais necessários ou tolerados, esses  defensores incompreendidos  dos valores centrais do iluminismo começaram uma jornada que os levou ao pior destino possível: o Partido Republicano.

 

O período Bush providenciou aos ateus militantes e aos entusiastas amadores de debate um pasto adequado para sua condescendência performativa. Parece quase pitoresco no retrospecto, mas novo, a cristandade performativa sendo testada em laboratório na época. Bush mesmo era um cristão renascido que citava uma visão de Deus quando justificava sua invasão desastrosa do Iraque, e sua liderança inspirou zelotes por todo o país a  aumentar a aposta. Em 2001 Jerry Falwell que tinha acusado o programa Teletubbies de “exemplificar um estilo de vida gay” para as crianças, pôs a culpa do 11 de setembro nos pagãos e abortistas. Em 2003, o Juiz Roy Moore instalou um monumento de 2000  quilos aos 10 mandamentos do lado de fora da Suprema Corte do Alabama, se recusou a cumprir as ordens da corte para derrubá-lo, e que , por fim, foi retirado do cargo como resultado.

 

Era um momento fantástico para  ser um idiota autocentrado com propensão por explicar coisas para as pessoas.  Deus um Delírio , de Richard Dawkins, publicado em 2006 e Deus não é Grande, de Christopher Hitchens, publicado em 2007, venderam milhões de cópias, cada um, e  Religulous de Bill Maher foi o documentário de maior bilheteria em 2008.South Park  ridicularizou os mórmons, e troll de internet declararam guerra a alvos fáceis como a Westboro Baptist Church e a Igreja da Cientologia. Até seu banimento em 2008, Gamers se mobilizaram para impedir o advogado evangélico Jack Thompson de  iniciar processos frívolos por obscenidade contra os criadores do Grand Theft Auto. Ateus inventaram uma religião envolvendo o “Monstro do Espaguete Voador” e exigiram peso igual nos livros didáticos, para satirizar o ensino do design inteligente nas escolas públicas. Essa subcultura foi batizada de “neo-ateísmo”. Ela fez um belo passeio.

 

Assim que Bush terminou o mandato, os defensores do currículo com  “design inteligente” se retiraram da esfera pública, o os Millennials  se afirmaram como a geração menos religiosa até agora; o grupo que se uniu em torno da prática de refutar logicamente os criacionistas precisou de novos alvos. Um dos alvos escolhidos foram as mulheres. O ateísmo militante sempre foi um ambiente masculino, mas  levou alguns anos e uma mudança de maré na política americana para que o sexismo em suas fileiras desabrochasse completamente. Em 2011, a blogueira cética Rebecca Watson descreveu em um vídeo do Youtube como um frequentador  masculino  de  uma palestra  ateia a seguiu até um elevador Às 4 da manhã para chamá-la para um encontro- comportamento que , compreensivelmente ,  a deixou muito desconfortável. A comunidade explodiu  no que mais tarde foi lembrado como “Elevadorgate”. Um Fórum foi criado para assediar Watson, e o próprio Richard Dawkins escreveu um comentário mandando que ela  “reclamar” porque ela tinha se dado melhor que as vítimas de assassinatos por causa de honra e de mutilação genital feminina.

 

Essa dinâmica se repetiu várias vezes. Em 2012, o famoso vlogger ateu Thunderf00t (nome real Phil Mason) voltou sua mira para Watson em um vídeo intitulado “porque o ‘Feminismo” está envenenando o ateísmo”  assim reacendendo a controvérsia do ano anterior. Dessa vez eles estourou, levando-o a criar vários  vídeos na sequência acusando as mulheres de destruírem o paraíso que o neo-ateísmo era para  vantagem própria. Em 2013 Mason criou sua série de vídeos “FEMINISM vs. FACTS”( feminismo versus fatos), que atacou Anita Sarkeesian, uma crítica de videogames feminista que  estava sofrendo uma onda de assédios e ameaças violentas na época  por ousar analisar Super Mario Bros. esse tipo de idiotice, combinada , de novo, com a crescente popularidade das piadas  associando ateus declarados e fedoras, ‘neckbeards’, e virgindade, levou a um êxodo de pessoas da centro esquerda e esquerda do guarda-chuva “ateu”. Os que ficaram em sua maioria não tinham habilidades sociais e autoconfiança, e os resultados foram desastrosos.

 

O Neo Ateísmo e o movimento Gamergate de 2014- que incitou bandos furiosos online contra jornalistas femininas e game designers baseado em  alegações falsas de corrupção da mídia- sobrepostas e várias formas. Os dois eram ambientes de maioria masculina, o último quase exclusivamente,  e os dois se deterioram em fóruns de internet voltados para nerds. Ambos movimentos se ressentem das mulheres e das minorias que se afirmaram nesses espaços, supostamente porque elas causara uma distração desnecessária das suas respectivas metas de destruir  a religião e consumindo produtos de entretenimento acriticamente. A diferença, entretanto, foi que o Gamergate não tinha base na realidade. A alegação central essa polêmica, que uma desenvolvedora  tinha dormido com um autor da Kotaku  para garantir uma boa review do seu jogo, era descaradamente falsa. Essa review nunca existiu, o que foi um problema para qualquer um que se via como um protagonista em uma batalha “vs FEMINISMO’. Para continuar essa guerra total contra as feministas- substituição curiosa para os criacionistas em uma década  sem eles- esses neo-neo-ateus tiveram que negar totalmente a realidade.

 

Os herdeiros do neo-ateísmo precisavam de um novo alvo e de um ethos remodelado, mas  suas muletas retóricas continuavam as mesmas. Eles  avisam a  todo momento que eles defendem a lógica, a evidência, a ciência, mesmo que o oposto seja completamente verdadeiro. Vejamos o caso de James Damore, o engenheiro que foi demitido do Google depois de lançar um memorando criticando as políticas pró-diversidade da companhia. Damore argumentou no memorando , intitulado “ a  câmara de eco ideológica do Google” que  diferenças biológicas entre homens e mulheres, e não sexismo, deveria ser levadas em conta para a falta de paridade entre os gêneros na indústria de tecnologia. No memorando, ele usa repetidamente os chavões favoritos dos ateus pedantes. Ele escreveu que “defendia os valores  individualismo e  da razão”  reclamou que “ a esquerda tende a negar a ciência” e pediu para o Google “ ser aberto para a ciência da natureza humana”. A repetição dessas posições falharam  em fortalecer sua posição, que  era feito de instintos e justificado retroativamente  lógica falsificada e estudos irrelevantes. Uma reportagem da Wired  encontrou dois dos pesquisadores que  discordaram as conclusões que ele tirou de seu trabalho, com um eles dizendo que “ não é claro para mim que  essa diferença entre os sexos cumpriria um papel no sucesso no ambiente de trabalho do Google(em particular, não ser capaz de lidar com os estresses da liderança no ambiente de trabalho. Isso é um grande exagero para mim).”

 

Se tornou mais evidente que Damore estava menos interessado na verdade científica quem em dar credibilidade a seus preconceitos quando levou suas queixas à direita da internet. Apesar de escrever no memorando que “ alguns na direita negam a ciência quando ela vai de encontro à hierarquia “Deus>humanos>ambiente”(por exemplo: evolução e mudanças climáticas), “ ele se dispôs a ser entrevistado pelos oportunistas  universitários Milo Yiannopoulos e Ben Shapiro, sendo que ambos são negacionistas das mudanças climáticas. A escolha dos entrevistadores por Damore causou danos a sua causa, mas revelou seus motivos.

 

Ben Shapiro, ex-editor do Breitbart e agora editor-chefe do Daily Wire, fez um projeto e adaptar o estilo retórico pedante do neo-ateísmo para o conservadorismo, uma ideologia que persiste em constante tensão com o pensamento racional. Seus discursos e aparições na televisão são um apoio ao “feminismo DESTRUÍDO  pelos fatos “ do YouTube, e eles frequentemente conseguem milhões de visualizações. Suas posições políticas republicanas ortodoxas são quase idênticas àquelas dos teocratas malucos que os neo-ateus derrubaram alegremente durante a era Bush- incluindo que a Homossexualidade é uma escolha, transexualidade é uma doença mental, pornografia deveria ser ilegal, e  que programas de TV de classificação livre estão corrompendo nossas crianças.  Ainda assim, ele frequentemente  confessar amar a “ciência”, que é tudo o que seus fãs crédulos exigem. Comicamente,  dada a sua visão de mundo derivada a religião, o bordão atual de Shapiro é “fatos não se importam com seus sentimentos.”

 

A primeira e mais condenável entrevista de James Damore depois de ser demitido foi com o escritor e personagem do YouTube Stefan Molyneux, que representa o exemplo mais extremo do mal uso da retórica ateu militante. Molyneux é um apoiador entusiasmado de Trump, um colaborador frequente  de Alex Jones, e  um auxiliar da Alt-right. Como  outros conhecidos de Damore, ele nega que a mudança de clima exista, também concorda com uma ciência racial fraudulenta, argumenta que as doenças mentais são uma conspiração judaica, e acredita que o assassinato em massa em Las Vegas foi resultado de uma guerra nacional contra as crianças. Apesar de toda essa bobagem lunática, Molyneux escreve e fala no estilo neo-ateu, se disfarçando de mestre da lógica, razão e  da comprovação.

 

Em uma charge política  de Ben Garrison, um ex-libertariano que agora tende à alt-right, Molyneux está desenhado estourando bolhas-escritas “Trump é misógino”, “Trump é estúpido”, e “meus sentimentos”- com  agulhas enormes escritas “lógica” ,”razão” e “comprovação”. Em outra Molyneaux seguram um escudo dourado com um brasão escrito “RAZÃO EVIDÊNCIA LÓGICA”  enquanto Hillary Clinton atira flechas representando seus vários slogans de campanha. Nesses retratos, a evidência ou  raciocínio em questão nunca é revelada, e por uma boa razão. O slogan retratado, “Stronger Together” ( mais fortes juntos) é  esquecível, sem dúvida,  mas o que nele é inerentemente ilógico? Qual evidência pode “desprová-lo”? Os conceitos em si, imbuídos desse tipo e valor inerente de  que  eles podem ser encantamentos mágicos, são poderosos o bastante para assustar atacantes antes de uma discussão possa surgir.

 

O último livro de Molyneaux, intitulado The Art of the Argument,  está  repleto de erros e exibe  um desprezo completo pelas convenções da lógica formal. Ele  oferece explicações erradas para conceitos básicos como silogismos e raciocínio indutivo. Mas isso não faz diferença  para  a população-alvo confusa pela guerra de informações. Para o leitor padrão de Molyneaux, que certamente explicava Darwin em Fóruns de videogames por volta de 2006,  retórica é menos um campo de  conhecimento do que   uma coleção de chavões para arremessar durante discussões online. Possuir uma cópia de The Art of the Argument oferece ao lógico amador confiança o bastante para soltar  a replica tipica de Molyneux “isso nem é um argumento!” para qualquer um com mais que um conhecimento superficial desses conceitos (ou familiaridade com o culto de Molyneaux) qualquer  acusação cuja réplica vai de encontro com os critérios confusos, contraditórios de Molyneux  do que é “um argumento” é inútil. Para o repetidor dos sofismas de Molyneux, usar isso é como dar um Fatality no Mortal Kombat.

 

O única coisa surpreendente nesse casamento de conveniência entre o estilo retórico mais chato e a ideologia mais imbecil possível é que ele demorou muito tempo para acontecer. Com quaisquer méritos que o anti-teísmo possa ter tido relativos aos assuntos sociais,  o humanismo nunca foi o motivo primordial dos defensores mais devotos do neo-ateísmo. Eles estavam atrás da explosão de dopamina que vem de se achar mais esperto que os outros, de exercer o simulacro patético de poder masculino, de ver alguém se sentir mal e saber que eles foram responsáveis. Estranhamente, porém, esse também é o objetivo da política da direita moderna. Logo que a direita descobriu que ela podia pular direto para a parte do argumento sobre “a centro esquerda raivosa” elegendo Trump, os piores neo-ateus descobriram que eles não precisam e ateísmo nenhum. Os gregos,  presumidos inventores da lógica ocidental, tinham um nome para os homens que se separavam do bem comum. Eles os chamavam de “Idiota”.

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....