Os jovens líderes da direita latino-americana: libertarianismo neofascista e interferência americana

Por David Pavón Cuellar, originalmente publicado em Michoacán 3.0
Nós vemos em todos os lugares os mais jovens líderes da direita latino-americana. Eles tendem a se apresentar como libertários, liberais ou neoliberais, e defender o capitalismo, políticas anti-estatais, livre mercado e liberdade individual. São principalmente de cor branca, descendentes das elites locais e com estudos em universidades privadas. Eles nasceram depois de 1970. Eles são carismáticos e bem-sucedidos. Muitos conseguem ter sucesso no YouTube e nas redes sociais. Às vezes, eles também são promovidos pelos impérios midiáticos da região.

Seus nomes começam a ser conhecidos: Gloria Álvarez Cross na Guatemala, Axel Kaiser no Chile, Agustín Laje e Nicolás Márquez na Argentina, Rodrigo Constantino e Fábio Ostermann no Brasil, Juan Carlos Hidalgo e Natalia Díaz Quintana no Costa Rica, etc. Alguns deles demonstram ocasionalmente sua modernidade ao mostrar seu ateísmo e ao defender a legalização do aborto. E é verdade que tentam cultivar um tom afável, sereno e racional, mas não conseguem dissimular seu ódio feroz contra o comunismo, o socialismo, o marxismo, o keynesianismo, o igualitarismo e em especial ao populismo. Também deixam transparecer seu desdém ao feminismo, ao ambientalismo, ao indigenismo, ao latinoamericanismo, ao anarquismo e ao zapatismo. Depreciam igualmente ideais como os da descolonização, da libertação nacional, da soberania dos países latino-americanos, da igualdade social e da redistribuição da riqueza. Não hesitam em tirar sarro dos grandes ícones da esquerda latino-americana como Emiliano Zapata, Che Guevara e Salvador Allende. Preferem invocar um Friedrich Hayek e um Milton Friedman, um Ronald Reagan e uma Margaret Thatcher, mas tentam disfarçar sua devoção à Pinochet e outros ditadores.

As vezes afirmam que não são direitistas, que estão além da polarização entre direita e esquerda, mas sempre, como que por acaso, os vemos aparecer no campo da direita e da extrema-direita. É aqui onde militam, se desenvolvem, se tornam conhecidos, conquistam a fama, conseguem recursos,recebem patrocínios, encontram os jornais onde escrevem e os canais de TV em que se apresentam. Contam sempre de forma suspeita, por exemplo, con o apoio incondicional dos impérios midiáticos mais reacionários e conservadores, antigos cúmplices das ditaduras e das estratégias golpistas, como o Grupo Globo no Brasil e El Mercurio no Chile.

Se pesquisarmos suas ligações familiares, institucionais e políticas, geralmente chegamos até regimes ditatoriais ou até as mais sórdidas organizações de direita. Eles mesmos tem apoiado recentes manobras golpistas como as ocorridas na Argentina e Brasil, mas não deixam se espernear frente a Cuba e Venezuela. Sua alta severidade diante da esquerda é proporcional a sua indulgencia ante a direita, talvez precisamente porque seu mundo é o da direita, o das grandes empresas, dos latifundiários e das demais oligarquias locais, o das opulentas elites brancas, dos bancos no Panamá e das mansões em Miami, da mais cara educação privada, o da Opus Dei e dos Legionarios de Cristo, o da Operação Condor e agora o da Rede Atlas, ponta de lança da atual intervenção dos Estados Unidos na América Latina.

Os jovens de direita não só contam com o apoio daquelas Universidades Privadas, como a Universidad Francisco Marroquín da Guatemala, destinadas a difusão do neoliberalismo e das demais doutrinas que o governo estadounidense decide impor em terras latino-americanas. Também se mantém estritamente vinculados com organizações de direita, anticomunistas, a vezes racistas e elitistas, como o recentemente extinto Movimiento Cívico Nacional (MCN) da Guatemala, de onde vem Gloria Álvarez. Ao mesmo tempo, dispõe de respaldo e de orientação dos grandes think tanks da direita liberal e neoliberal, como Libertad y Desarrollo no Chile, o Instituto Liberal e o Instituto Millenium no Brasil, a Fundación Friedrich Naumann para la Libertad no México, a Fundación Eléutera de Honduras, o Centro para la Apertura y el Desarrollo de América Latina (CADAL) na Argentina e no Uruguay, e o Centro de Divulgación del Conocimiento Económico para la Libertad (CEDICE Libertad) na Venezuela. Tem também, desde já, seus própios grupos, como Estudantes pela Liberdade em dezoito países latino-americanos.

Glória Alvarez, na Veja

A seus agrupamentos e organizações não faltam recursos financeiros. Não apenas são diretamente financiados pelas classes mais ricas de cada país, como também por empresas nacionais e internacionais. Para mencionar um só caso, o Instituto Millenium do Brasil é patrocinado pelol gigante financeiro Bank of America Merrill Lynch, pelas corporações midiáticas Globo e Abril, pelo holding Évora, pelo conglomerado industrial Gerdau e pelas grandes seguradoras Pottencial e Porto Seguro.

Além das empresas e classes mais abastadas, outra fonte inesgotável de recursos se encontra em uma constelação de fundações estrangeiras e particularmente estadounidenses que financiam a quase todalidade das organizações a que nos referimos anteriormente. Estas fundações dispõe de uma enorme capacidade financeira e apenas seguem uma agenda política e economica centrada na erosão da esquerda, na desestabilização dos regimes populistas, na liberalização dos mercados e no fortalecimento da direita. Muitas delas recebem abertamente recursos da já mencionada Rede Atlas. Entre os maiores doadores desta rede, está o império de petróleo Exxon Mobil, com óbvios interesses econômicos na Venezuela e no resto da América Latina, e a ultradireitista Carthage Foundation, com a qual tem se financiado grupos islamofóbicos e anti-imigrantes nos Estados Unidos.

Ao ter que obedecer a quem lhes paga, os jovens líderes de direita não podem fazer outra coisa senão preparar o terreno para que as multinacionais e outras empresas possam saquear o que quiserem e recolonizar tudo que resiste ou que havia conseguido se libertar na América Latina. É por isso que atacam a comunidade, a solidaridade e qualquer outra coisa que possa interferir no avanço do capitalismo globalizado e do renovado imperialismo estadounidense. É pelo mesmo motivo que divulgam os axiomas ideológicos do pensamento único, do neoliberalismo e do libertarismo: a crença no egoísmo constitutivo do individuo, da liberdade individual sem concessões, da democracia liberal, da economia capitalista de livre mercado, da desregulamentação econômica e das privatizações generalizadas,em outras palavras, em definitivo, a expansão do privado às custas do público, do individual às custas do social, do mercantil às custas do comunitário, do morto às custas do vivo.

Além dos princípios neoliberais e libertaristas, os jovens líderes da direita também defendem e propagam ideias que nos fazem pensar no neofascismo e que estão em perfeita consonância com os programas de extrema direita em outros países. Ao declararem que não são direitistas, nossos jovens já podem ser tão de ultradireita quanto quiserem e expressar toda classe de ideias racistas, classistas, elitistas, discriminatórias, xenofóbicas e homofóbicas.

O argentino Nicolás Márquez, por exemplo, descarrega sua ira contra as organizações de esquerda por querer “dissolver” a família, cultivar o “relativismo igualitário”, fomentar a “anti-hierarquização”, promover “o homosexualismo” e oferecer um “alivio moral” a “sodomitas”. O chileno Axel Kaiser arremete contra os imigrantes que ganham atendimento médico nos países ricos e não pestanejou em publicar um livro intitulado Tiranía de la igualdad: por qué el igualitarismo es inmoral y socava el progreso de nuestra sociedad. O brasileiro Rodrigo Constantino chega mais longe ao se opor a celebração de um Dia da Conciência Negra, ao acusar os militantes de esquerda e “progressistas modernos” de tolerar a pedofilia e de sofrer uma “desordem psiquiátrica” e ao descrever os “pobres e negros” que participaram de flash mobs dentro de centros comerciais como “bárbaros incapazes de reconhecer sua própia inferioridade”. Como mostrei em outro lugar, a guatemalteca Gloria Álvarez não fica atrás: atribuiu aos indígenas guatemaltecos uma tendencia a estuprar e tolerar o estupro, acusa os inmigrantes de “chegar para destruir a cultura” do país à que emigram, e aprecia positivamente a “valentia” de Trump, seu “discurso elevado” e sua capacidade para “fazer grande de novo a América”.

É indiscutível que há profundas afinidades e estreitas relações entre o atual governo dos Estados Unidos e a jovem direita liberal, neoliberal e libertarista latino-americana. Em ambos os casos, não só temos neoliberais que não gostam de serem chamados de neoliberais, como neofascistas que negam sê-lo: ultradireitistas descaradamente homofóbicos e xenófobos, racistas e elitistas, que não conseguem ser convincentes quando tentam persuadir de que estão além da divisão direita/esquerda. Conseguimos discernir também, tanto no Norte quanto no Centro e no Sul da América, a mesma ultradireita rejuvenescida e apresentada como alternativa (aa alt-right estadounidense), a mesma fascinação pelo politicamente incorreto e a mesma cumplicidade com as elites financeiras.

Santoro, economista liberal, e Bolsonaro

No gabinete de Trump, de fato, há multiplos funcionários que tem vínculos diretos com a Rede Atlas a que já nos referimos, entre eles o próprio vice-presidente Mike Pence, a magnata e Secretaria da Educação Nacional Betsy DeVos, o assessor islamofóbico Sebastian Gorka e particularmente Judy Shelton, presidenta da Fundación Nacional para la Democracia (NED), especializada precisamente na intervenção América Latina. Tudo propicio para que o governo estadounidense, através da nova direita latino-americana, mantenha e aumente seu poder sobre a América Latina. A conjuntura favorável a emancipação parece ter ficado para trás.

É como um retorno à época da Operação Condor, mas os métodos mudaram. Os generais e coronéis cederam lugar à civis aparentemente inofensivos como os jovens mencionados. Agora devemos lidar con personagens pos-modernos, confusos, equivocados e evasivos, geralmente com grandes carências intelectuais, mas com um rico arsenal de táticas político-empresariais e truques ideológico-publicitarios como os que aprendem em seus think tanks. Também há seu neofascismo, ao qual, como qualquer fascismo, não é contrário nem ao neoliberalismo nem ao libertarismo, senão sua evolução lógica e natural, como Franz Neumann evidenciou magistralmente no caso do nazismo e como já tentei mostrar sobre Trump em outro artigo. Não é o mesmo que Pinochet e outros mostraram na América Latina? Estaremos condenados a ditadura, a ultradireita, a violência fascista ou neofascista enquanto continuarmos a acreditar nos vendedores e publicitários bem pagos do capitalismo liberal, neoliberal e libertário.

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