Outubro de 2019: explosão social no Chile neoliberal

Mario Garcés D.

Historiador

Diretor da ONG ECO, Educación y Comunicaciones – Universidad de Santiago de Chile

Os acontecimentos

Durante a semana do dia 14 ao 18 de outubro, os estudantes secundários fizeram um chamado para evadir e não pagar as passagens do Metrô de Santiago, como uma forma de protestar contra o recente aumento das tarifas desse importante meio de transporte. “Evadir, no pagar, otra forma de luchar” foi o lema que centenas de estudantes cantavam na entrada das estações do metrô, de segunda em diante. O conflito começou a escalar, contando com o apoio tático de grande parte da população, tendo em vista que a tarifa do metrô alcança, em horário de pico, 830 pesos chilenos ($1,20 dólares americanos).

Juntamente com os cantos, os estudantes entraram nas estações de metrô e pularam as catracas, evitando o pagamento da passagem. Na quinta-feira 17, enquanto as estações estavam sob vigilância da Polícia das Forças Especiais, o conflito foi radicalizado com ataques às instalações de algumas estações, principalmente as catracas.

Mas foi até a sexta-feira 18 que o conflito se expandiu e ampliou com manifestações em estações de grande fluxo de usuários, o que alterou a operação regular do Metrô, que transporta diariamente aproximadamente 2,8 milhões de pessoas de Santiago. As estações começaram a fechar e a repressão aumentou em diferentes lugares, alterando todo o sistema de transporte de uma cidade de 7 milhões de habitantes. Ao anoitecer, a polícia se viu aparentemente superada e o governo ameaçou aos manifestantes com a aplicação da Lei de Segurança Interna do Estado e não ofereceu saída para o aumento das tarifas. Ou seja, só se criminalizou os protestos acusando os manifestantes de “vândalos e criminosos”. Às 20h30, as panelas começaram a soar em diferentes bairros de Santiago e muitos manifestantes se reuniram na entrada de várias estações de metrô e com uma maior presença de jovens dos bairros populares – de nossas poblaciones – veio a explosão da raiva acumulada das maiorias que vivem cotidianamente a precariedade e a desigualdade estrutural que o neoliberalismo configurou, materializou e naturalizou na sociedade chilena, desde a ditadura de Pinochet até hoje. Iniciaram-se então ataques e incêndios à algumas estações de metrô, além de saques de lojas e supermercados. A essa altura o metrô suspendeu todas as suas operações na cidade e o governo se reuniu com urgência em La Moneda, para decretar, depois da meia-noite, o “estado de emergência”, que entregou a manutenção da ordem pública aos militares.

A estratégia do governo estava errada e atrasada em todas as suas etapas. Na sexta-feira, quando o conflito escalou, apenas ofereceu repressão, o que estimulou ainda mais a mobilização que assumiu formas inéditas: o ataque às estações de metrô que em poucas horas destruiu e causou incêndios de magnitude diferente – os danos somam vários milhões de pesos – que deixaram o metrô praticamente fora de serviço (os danos ainda são avaliados e não se sabe quanto tempo levará a restituição do serviço).

No sábado 19, com um estado de emergência em exercício, as manifestações deram um duplo rumo: a) juntamente com a expressão pública do desconforto através de caceroleos e manifestações em praças e grandes avenidas, foram multiplicados os saqueos a supermercados e farmácias; e b) o protesto se estendeu às províncias e se tornou nacional, de norte a sul do país, pelo menos de Iquique a Punta Arenas, com maior intensidade em Valparaíso e Concepción, as duas maiores cidades depois de Santiago.

Nesta fase da mobilização, ainda em desenvolvimento, o estado de emergência foi desafiado e desobedecido pela população, a tal ponto que na noite de sábado o “toque de recolher” foi imposto em Santiago, Valparaíso e Concepción. O toque de recolher também não atingiu os efeitos esperados e as manifestações e saqueos públicos continuaram.

O Chile vivia, nesse momento, a maior “explosão social” desde a recuperação da democracia, ou seja, nos últimos 30 anos. Uma explosão que ninguém poderia imaginar ou antecipar, embora muitos admitam hoje, que os sintomas existiram e já existem há algum tempo. Como ponto culminante do que narramos, o Presidente Piñera, na sucessão de erros e fantasias de seu governo, declarou no domingo 20 de outubro, ao entardecer, que “estávamos em guerra”.

Essa explosão social, difícil de prever em sua magnitude e no momento nos surpreende num contexto francamente crítico do ponto de vista social e político. Simplificando e colocando de forma um tanto esquemática: por um lado, a partir do governo e do Estado, as instituições vivem seu pior momento de credibilidade e legitimidade, produto não apenas da corrupção – da qual não se salvam nem as igrejas – mas para além de sua distância abismal e indiferença com a sociedade e particularmente com o povo. Por outro lado, do ponto de vista das classes populares e de suas lutas, essa mobilização que leva a uma “explosão” é feita sem um convocador central, sem órgãos conhecidos (nem partidos, nem a CUT, nem coordenações territoriais), portanto adquirindo um certo caráter espontâneo, que deve ser melhor explicado, no sentido de que estudantes do ensino médio e vários movimentos sociais geraram seus próprios processos de organização e expressão pública que precedem essa explosão: o movimento Mapuche desde o final dos anos 90; o movimento estudantil, secundário e universitário (mochilazo, em 2002; revolta dos pingüins, em 2006; movimento pela educação pública, em 2011); o movimento “No + AFP” desde 2016; o “maio feminista” de 2018; os vários movimentos socioambientais e de luta por “água e territórios”; as lutas e greve dos professores em 2018 etc. Todas essas lutas têm um alto valor, mas ainda não possuem instâncias de coordenação e unificação suficientes.

Não é fácil propor uma perspectiva analítica sistemática do que temos vivido e estamos vivendo nestes dias. Em primeiro lugar, porque os acontecimentos ainda estão em desenvolvimento; em segundo lugar, porque a situação desafia nossas categorias analíticas tradicionais e, em terceiro lugar, pela carga subjetiva que representa para muitos de nós -os que viveram a ditadura- ver os militares novamente nas ruas. Mas, mesmo assim, é necessário tentar.

  1. Razões do desconforto

Há algum consenso na mídia, entre políticos e intelectuais e no senso comum, que o problema é mais do que o aumento de passagens de metrô, o que desencadeou as mobilizações. Essa foi “a gota que transbordou do copo” ou, seguindo uma certa tradição, nós chilenos reagimos “quando a água atinge nosso pescoço”. O consenso se move em duas direções: a) A desigualdade estrutural da sociedade chilena, que se tornou insuportável; b) O acúmulo de abusos e aumentos nos serviços públicos de luz e transporte, saúde (especialmente medicamentos), moradia e até produtos essenciais. Outros motivos podem ser acrescentados, como a precariedade dos direitos sociais e o crescente endividamento da população, principalmente os mais pobres com cartão de crédito, que vão do supermercado até roupas, carros e itens eletrônicos. Por fim, embora a lista de queixas possa continuar, há também uma razão política: nada pode ser alterado, não importa quanto os cidadãos se mobilizem e aos milhares, se eles não tiverem o consentimento da direita ou do governo do turno, por exemplo, pensões de fome e o sistema AFP, baixos salários, sistema público de educação, que só mudou parcialmente, sistema público de saúde, acesso à moradia etc.

Em suma, as “longas sombras da ditadura” significavam que a política era um monopólio de poderes de fato, especialmente o grande empresariado e os partidos políticos; que a promessa da transição, que “a alegria está chegando”, alcançou apenas alguns e excluiu a grande maioria, que era vista apenas como “objeto” de políticas públicas – administradas por vários tecnocratas – e nunca como o direito de participação e iniciativa do próprio povo. Na longa transição, o acesso ao poder do Estado foi relativamente democratizado, mas não a sociedade e seu direito à participação. A Constituição de 1980, aprovada pela ditadura, garantiu efetivamente esse curso.

Para o dizer de maneira breve e concisa: A política é uma questão de políticos e a população deve confiar neles – em sua sensibilidade, em sua noção de “serviço público” e em outros eufemismos – para que a sociedade progrida. Além disso, a economia, em crescimento, é capaz de oferecer mais trabalho por si só, mais recursos e, acima de tudo, mais consumo. Na verdade, como indicou em alguma oportunidade um político e intelectual de esquerda (dos quais existem muitos), a maior democracia é o que produz o mercado. Quanto mais consumidores tivermos, mais eficaz será a democracia. Torne-se um “empreendedor”, depende de você e, se você duvida, admita que “querer é poder!”, conforme proclamado pela publicidade de um banco.

Poderíamos continuar seguindo nessa linha, mas acho que a maioria do país sabe que vivemos em um país dual, um país para os pobres, com um segmento que caminha para a classe média, e um país para os ricos, com seu próprio segmento de classes médias prósperas. Essa dualidade tem expressões visíveis e manifestas; saúde para os ricos e os pobres; educação para os ricos e para os pobres; bairros e casas para ricos e pobres… A reprodução “moderna” do antigo e histórico classismo chileno, que nesta conjuntura explode, como tantas outras vezes na história do Chile, na cara dos poderosos.

  • A explosão como forma de expressão popular: Primeiro contra o metrô, ou seja, contra o Estado; logo contra o capital, ou seja, supermercados, farmácias, bancos e lojas de departamento.

Como indicamos na parte descritiva da crise, no início deste artigo, tudo começou com os estudantes secundaristas e seu chamado para evadir. Não é a primeira vez que os adolescentes chilenos se põe como vanguarda das lutas sociais (em 2006 foi a “revolta dos pinguins”, que precedeu o grande movimento estudantil de 2011). Parece curioso: por que os estudantes secundários? Uma hipótese possível e para o bem da nossa sociedade, os adolescentes estão pensando e fazendo isso mais livremente do que os adultos. Mas não só pensam, como também “atuam” sem medir as consequências muitas vezes, mas para além disso sua ação tem efeitos. Dessa vez, quando foram criticados por conta do aumento do preço do metrô não afetar os estudantes, responderam com clareza: “sim, mas afeta nossas famílias”; e essa resposta alcançou duas vitórias: se somaram suas mães e pais e tiraram o chão do discurso de Piñera e da direita que sempre diz atuar em defesa da família.

Por que o metrô? Esta é a pergunta que muitos fizeram e que geram sentimentos ambivalentes, já que o metrô é um bem público e presta um grande serviço para o transporte. E, além disso, o metrô simboliza a ordem e o Estado, ou em linguagem juvenil representa “o sistema” que organiza a vida cotidiana da cidade. O ataque ao metrô, se a vemos em retrospectiva, efetivamente golpeou o sistema e desarticulou. a ordem da cidade (como reza o refrão popular “para fazer uma tortilha há que quebrar ovos”, que dessa vez se quebraram).

Há de se admitir sim, que na noite de sexta 18 de outubro, os ataque ao metrô se estenderam e amplificaram quando se somaram os jovens dos bairros populares e as duas linhas mais afetadas foram o eixo La Florida e o eixo poente, Quinta Normal, Pudahuel e Maipú.

Na mesma noite de sexta, mas com maior amplitude no sábado, se multiplicaram, por todo o país, os ataque aos supermercados. O grupo mais afetado foi o Walmart, com seus emblemáticos Supermercados Líder (Walmart reconheceu que na noite de domingo 140 locais haviam sido saqueados). Pois bem, por que esse grupo foi o mais afetado? A razão parece simples: é o que está mais perto do povo, é onde o povo mais contrai dívidas e é um local visitado cotidianamente. As farmácias não exigem muita análise: a especulação com os preços dos remédios é sofrida pelos idosos, especialmente pelos aposentados, que ocupam neles a maior parte de suas precárias aposentadorias.  

Se o metrô representar o Estado, a rede de supermercados e farmácias representam o “mercado” e a “explosão social” criou a ocasião para “passar a conta para eles”.

  • Os distintos repertórios de ação, das classes médias e dos mais pobres

A maior surpresa para o governo e para todos os chilenos foi que decretado o “estado de emergência”, as mobilizações continuaram, ou seja, a medida que colocava os militares nas ruas não atuou como antídoto nem descomprimiu o protesto, que tomou duas formas: caceroleos e ocupação de praças (Praça Itália, no centro, e Praça Ñuñoa, no setor oriente, entre as mais destacados em Santiago), assim como “marchas” em provincias e saqueos nos bairros de Santiago e em importante cidades pelo país.  

As manifestações foram reportadas por meios de comunicação (rádios e TV) de modo quase ininterrupto, com um duplo discurso: protestar pacificamente é um direito, saquear é um delito. Evidentemente nesse discurso dos meios de comunicação está em jogo a legitimidade do protesto social, que revela a ação de dois grupos sociais distintos, da classe média e dos setores mais pobres. A estes últimos se criminaliza com uma variedade de argumentos que vão desde a condenação à violência até a defesa da democracia. O que não se diz é que a precariedade da democracia é o resultado do predomínio dos interesses de uns poucos, que têm sido protagonistas dos maiores atos de corrupção nos últimos anos, e que, ademais, se protegem entre si através de julgamentos prolongados e sem destino ou restauração de algo roubado do Estado, ou com a condenação de “aulas de ética”.  

A convivência de diversos repertórios de ação gera diferenças na “opinião pública” fortemente reforçada pelos meios de comunicação, que condenam em coro “a violência”. Entretanto, tem que se admitir que se isso não tivesse acontecido – os ataques aos símbolos do Estado e do mercado – não estaríamos no meio de uma explosão e crise que abre as possibilidades para recriar e re imaginar o futuro da sociedade chilena.

Provavelmente as manifestações continuarão nesses dias, mesmo que há de se admitir que a repressão e a presença militar nas ruas surtirão seus efeitos especialmente com relação aos saqueos, mas não é claro que diminuirá a pressão social e política diversificando os repertórios de ação (ou, dito de outra maneira, as formas de luta), mediante marchas, caceroleos, paralisações, pronunciamentos públicos, chamados a “protesto nacional”, onde as ações pacíficas irão conviver com surtos de violência social. Não ignoramos que as diferenças dos repertórios de ação geram divisões e conflitos que podem dificultar políticas de aliança e serem manejados pelo governo e pelos meios de comunicação como uma estratégia para legitimar a repressão.

  • O protagonismo dos jovens

Um fato que chamou atenção nas mobilizações dos últimos dias é a presença visível dos jovens. Desde as origens do movimento, que começou com os estudantes secundaristas, e praticamente em todas as mobilizações em praças, avenidas e também nos ataques à supermercados e as cadeias comerciais (farmácias, bancos, lojas de departamento, etc.), em todas as partes, “los jóvenes la llevan”. Este é um fenômeno talvez universal, entretanto no Chile adquire uma conotação especial, pois se trata das novas gerações que não viveram a ditadura e que de alguma maneira, pode ser sustentado, não são portadoras do “medo” que acompanhou suas mães, pais, avôs, avós e gerações que os precedem.

Mas também se trata de novas gerações que estão participando de mudanças culturais relevantes e de natureza diversa. Mudanças de estética, em sua relação com seus corpos, em seus modos de vestir, na sexualidade, relações de casal, nas novas formas de inserção e sobrevivência no trabalho (com estratégias de trabalho informal cada vez mais ampliadas) e, talvez o mais evidente, com um forte recurso à comunicação digital, que envolve redes de informação e intercâmbios – em tempo real – de informações, convocatórias, análises, jogos, distrações e uma espécie de “opinião pública” entre pares.

Desse modo, os jovens de hoje participam de uma nova subjetividade – mais libertária e mais cidadã – e com seus próprios meios de comunicação e intercâmbio que os dispõe à mobilização em tempos muito mais velozes que no passado. Estamos então em meio a novos atores e novas temporalidades.

Entre os muitos sucessos de certo impacto público, o dia da segunda 21 de outubro, centenas de jovens de classe média marcharam pela Avenida Providencia e se manifestaram em Apumanque e em frente à Escola Militar, em Apoquindo com Vespucio, no coração dos bairros da burguesia chilena, um tipo de manifestação impensável em tempos passados.

  • O caráter inédito dessa explosão, quando “o velho não termina de morrer e o novo não termina de nascer”

   Como indicamos mais acima, esta “explosão social” nos surpreende em meio a um esgotamento das formas políticas tradicionais que, em um certo grau, comprometem tanto o Estado e os grupos no poder assim como os grupos opositores e o povo, em um sentido mais amplos.

Desde o ponto de vista dos meios de comunicação, de grande protagonismo nesses dias e fazendo dos repórteres uma espécie de “intelectuais orgânicos” da crise, o que se argumenta é que o diagnóstico já é definitivo: a desigualdade e abuso levaram à “explosão social”. O governo de Piñera, depois de vários delírios, admite que teve que escutar “a voz dos cidadãos”. Desde a esquerda e as redes sociais se indica: “o povo se cansou”.

Nas primeiras horas das mobilizações, experientes analistas se perguntavam: Como isso não se pode prever? Onde estava o diretor de Inteligência? E os assessores do governo?   Ainda mais, sem considerar as causas da mobilização, as primeiras declarações oficiais do Ministro do Interior e da Ministra do Transporte simplesmente condenavam os violentos e criminalizavam quem protestava.

Ou seja, para os grupos no poder, o protesto e a explosão social os surpreendeu, não o puderam prever e talvez tampouco a imaginaram. Essa situação é reveladora de uma divisão e distância da política para com a sociedade, da “dissociação” do social e do político, base sobre a qual se organizou a transição para a democracia, que excluiu e subordinou os movimentos sociais que lutaram contra a ditadura. Este foi de algum modo, o resultado da adaptação da centro esquerda (democratas cristãos, socialistas e pepede) à Constituição de 1980 (herdada da ditadura) e ao modelo neoliberal. A primeira adaptação – à Constituição de 80 – conduziu à “elitização” ou “oligarquização” da política; a segunda adaptação – ao modelo neoliberal – conduziu à “mercantilização” da vida social (e junto a isso a colonização do Estado por grandes grupos econômicos nacionais e transnacionais, com seus reiterados episódios de corrupção). Nesse contexto, tanto a direita, por razões óbvias, como a centro-esquerda se assimilaram às lógicas neoliberais, melhoraram seus salários (especialmente parlamentares e altos funcionários públicos) e esvaziaram progressivamente a política de conteúdo ideológico. Tornaram-se todos, homens e mulheres funcionais e pragmáticos (as). É contra essa forma de exercício da política, desprestigiada atualmente e com uma débil legitimidade que explodiu nesses dias o protesto social exigindo mudanças profundas que atendam às demandas cidadãs e populares.

A situação nas forças progressistas, da esquerda extra-parlamentar e dos setores populares tampouco é tão simples. O povo chileno, nos últimos 50 anos, protagonizou duas grandes epopéias: a Unidad Popular e os protestos nacionais contra a ditadura. Ambas terminaram em derrotas, com altos custos humanos, políticos e simbólicos. A avaliação dela ainda não terminou de se realizar, ela foge ou nega responsabilizando os inimigos da esquerda. Através de uma perspectiva histórica, parece-me que o  ponto central  não resolvido possui relação com problemas que ainda nos acompanham e que a atual explosão social volta a colocar sobre a mesa: as relações entre o Estado e a sociedade civil; o papel dos movimentos sociais e dos sujeitos coletivos da transformação social.

O resultado das adaptações da centro-esquerda e das negações em avaliar as derrotas históricas nos conduziram ao desenvolvimento de uma esquerda difusa, diluída que participa do sistema político e de uma esquerda anarquista (especialmente jovem) e outra que vive do passado, rememorando glórias e tudo aquilo que não foi. De forma rigorosa, um dos maiores custos das derrotas é a crise da instituição “partido político de esquerda”.

Provavelmente, a maior novidade nos últimos anos tem sido a criação da Frente Ampla, que agrupou diversos partidos e coletivos de esquerda, alguns de recente criação, e que alcançaram uma importante representação parlamentarista nas eleições de 2017. Até agora teve um desempenho medíocre no parlamento e não conseguiu constituir-se em um referencial político significativo. Sua maior debilidade, sugestivamente, radica em sua débil relação com os setores populares.

O quadro não seria completo se não tivéssemos em conta o desenvolvimento dos tradicionais e novos movimentos sociais. No caso dos primeiros (sindicalistas, camponeses e pobladores) têm-se debilitado como sujeitos coletivos enquanto que os segundos – mapuche, feminismo, estudantes e ambientalistas – têm incrementado sua presença pública. O maior desafio da atual conjuntura tem a ver com o fortalecimento dessas dinâmicas da sociedade civil, que em lugar de arquipélago deveriam ser capazes de constituir um “continente”, reforçando os intercâmbios e gerando instâncias de unidade social e política.

  • As saídas políticas, de curto e longo prazo

É muito difícil prever as saídas para a atual crise social e política pela qual a sociedade chilena está passando. Em um muito curto prazo, se no domingo havia sido decretado “estado de emergência” em Santiago, Valparaíso e Concepción, com “toque de recolher incluído”, hoje terça 22 de outubro, o estado de emergência se estendeu tanto pelo norte como para o sul do país. Santiago funciona parcialmente, com uma única linha de metrô e um insuficiente serviço de ônibus, os supermercados abrem parcialmente suas portas (com apoio militar e de policiais), a maior parte das farmácias e dos bancos estão fechados os postos registram longas filas de automóveis que buscam abastecer-se de gasolina. Os cidadãos se movem como podem e o toque de recolher está conosco há 4 dias.

As mobilizações em avenidas e praças e os caceroleos seguem se reproduzindo, com inusitado vigor e entusiasmo ao longo do país, incluindo os “bairros altos” de Santiago. Os manifestantes não só reclamam respostas às demandas sociais (as mesmas que geraram o mal estar e a explosão social). mas também ao fim do “estado de emergência” e a retirada das forças militares das ruas. As vítimas fatais até hoje terça 22 de outubro somam 15 pessoas, 11 em saqueos e 4 por ação direta de policiais ou militares, além de maus tratos e humilhações de mulheres, desnudadas em recintos policiais. Para amanhã, quarta 23, diversas organizações sociais convocaram uma paralisação nacional das atividades.

As respostas do governo tem se centrado basicamente no controle da “ordem pública” e o presidente Piñera transitou desde o absurdo de declarar “que estamos em guerra” no domingo 20, para moderar-se na segunda 21, chamando a criação de condições para um novo “acordo social”. Os políticos de direita e de centro esquerda ampliam a noção e sustentam a necessidade de um novo “pacto social”, que em rigor nunca existiu no Chile. Nesse ínterim, o Chefe da Zona de Estado de Emergência de Santiago, ao dia seguinte da declaração de guerra de Piñera, indicou na televisão que “sou um homem feliz e não estou em guerra com ninguém”. Sua declaração surpreendeu  todo o mundo e pareceu que não existe consenso nas Forças Armadas sobre a conduta a se seguir na atual situação. Curiosamente, enquanto o presidente tomava a posição “militar” declarando “a guerra”, o chefe militar tomava uma posição “política”.

Além das diferenças entre o chefe político e o chefe militar, a posição do governo se move entre a repressão e a busca de acordos com a classe política. Hoje, terça 22, Piñera convidou os chefes de partidos à La Moneda, mas não compareceram os dirigentes socialistas, comunistas e da Frente Ampla. O temor que circula entre militantes da esquerda e dos cidadãos que protestam é que Piñera busque reproduzir a “democracia dos acordos”, estratégia que organizou a transição para a democracia, produzindo acordos elitistas entre os partidos e excluindo a sociedade civil e os movimentos sociais.

O conflito e a instabilidade, ao que tudo indica, vão se prolongar, gerando ou “um empate catastrófico”, ou uma saída golpista (o autogolpe de Piñera) pouco provável agora, ou um fortalecimento da mobilização e dos movimentos sociais que deveria ter como um horizonte um “processo constituinte” (ou Assembléia Constituinte em forma ou reformas parciais à Constituição) para o qual é necessário uma coordenação social e política suficiente que impeça que a energia desta termine dissipando-se.

Por hora, ninguém pode predizer como se conjura essa crise. O único que é evidente é que o Chile já não é mais o mesmo que antes, graças ao seu povo mobilizado.

1 Texto traduzido por Ian Gabriel Couto Schlindwein, Juan David Miranda González e Lucas Polli Bueno.

2 “Evadir, não pagar, outra forma de lutar” (Nota dos Tradutores).

 3 Hoje, aproximadamente R$4,80 (N.T.).

4 Panelaço (N.T.).

5 Roubos coletivos em massa ao supermercados, na conjuntura atual com motivações políticas (N.T.).

6 Central Unitaria de Trabajadores de Chile, maior organização sindical do país (N.T.).

7 “Não + AFP”. A Asociación de Fondos de Pensiones é responsável pela previdência, sendo baseada na capitalização individual e estando nas mãos de empresas privadas, sem participação dos trabalhadores (N.T.).

8 Título de um livro que avalia os 30 anos de democracia: Julio Pinto (editor). Las largas sombras de la dictadura. Lom Ediciones, Santiago, 2019.

9 Grupo transnacional reconhecido por suas práticas anti sindicais que, quando se instalou no Chile, buscou impedir a sindicalização de seus trabalhadores, mas sem sucesso.

10 A participação das classes médias representa um duro revés para a direita e o governo que tem pretendido se validar prioritariamente através desses setores.

11 Os jovens são a vanguarda (N.T.)..

12 Trabalhei esse tema em diversos artigos nos últimos anos. Ver www.ongeco.cl

13 Partido Por la Democracia, criado no final da ditadura.

14 No Chile, o termo refere-se às pessoas ligadas aos movimentos pela moradia do século XX, que conquistaram esse direito através das ocupações e que, posteriormente, conseguiram construir seus bairros nos locais das ocupações (N;T.).

15 Ver Revista Cal y Canto Nº 6. Em www.ongeco.cl

16 Noção cunhada por Antonio Gramsci para se referir à situações de confrontação dos projetos nacionais de país, assim como de oposição social e institucional e uma certa paralisia no Estado para resolver sua própria paralisia.

Facebook Comments