Para entender a ascensão da direita radical

Originalmente publicado em anarkismo.net

Tradução por Patricia Barbosa

É o tempo dos monstros. a crise orgânica do velho projeto neoliberal trouxe o surgimento de uma nova direita radical. Ainda, esses monstros são bem diferentes um do outro: nós temos homens fortes como Trump, Kurz e Macron, empresários políticos que moldam um novo autoritarismo para posições de governança. Theresa May e Boris Johnson agem de forma semelhante, com menos sucesso, mas, ao contrário dos outros, eles têm estabelecido representantes do conservadorismo de direita da elite autoritária. Todos eles compartilham  um discurso antiestabelecimento, apesar de terem forte facções do capital que os apoiam.

Os regimes autoritários-nacionalistas na Polônia e Hungria (ou Turquia) são distintos, como o Front National, Geert Wilders’s, PVV ou o Alternative für Deutschland (AfD), o Austriaco FPÖLega italiana – ambos operando de uma posição de governo. Muito diferente deles, por sua vez, é o Five Star Movement. Como nós podemos entender estas formações, diferenças e traços em comum? esta questão deve ser endereçada para identificar táticas específicas e contra-propostas em países concretos. (veja Wiegel 2018).

Aqui, eu tentarei destrinchar uma questão mais fundamental: como nós podemos entender as razões por trás da ascensão da direita radical? Existem muitas diferentes explicações, a maioria delas valiosa para a explicação de certos aspectos. Mas elas existem em paralelo, no máximo, às vezes até mesmo em conflito com outro. Então, há uma relação específica que poderíamos detalhar teoricamente?

Além dos detalhes empíricos, apenas algumas tentativas de pesquisas sistemáticas e orientadas ao assunto foram realizadas. Raramente estes são conduzidos com recurso ou para o refinamento adicional da teoria crítica. Naturalmente, o fenômeno é extremamente heterogêneo e altamente dinâmico e, portanto, escapa à explicação simples. Deve ser visto no quadro de uma crise e transformação concreta do modo de produção e de vida. Por que esse fenômeno ganhou tanta importância agora, e não há dez anos? Na verdade, já estava lá. Procurarei, assim, elaborar o conceito de uma cultura generalizada de insegurança, incluindo dimensões altamente distintas, mas entrelaçadas no contexto de uma crise orgânica do antigo projeto neoliberal, insegurança no campo do trabalho, família, território e pátria, perspectivas próprias e história, identidade de gênero ou modo de vida.

A seguir, um projeto de pesquisa conduzido com a Universidade de Stendal, uma pequena cidade no leste da Alemanha e antiga fortaleza de Die Linke, que agora se tornou um bastião da AfD. Também usamos a nossa experiência das centenas de conversas porta a porta e do nosso projeto piloto em bairros desfavorecidos. Embora a Alternative für Deutschland não seja certamente um partido dos trabalhadores, quando olhamos para o distrito eleitoral e o eleitorado, parece que eles recebem um grau significativo de apoio dos trabalhadores e das pessoas pobres. O sociólogo francês Didier Eribon chama essa decisão eleitoral de um “ato de autodefesa” – ter voz, ser ouvido no discurso político, mesmo quando é apenas uma “auto-afirmação negativa”. Isso é verdade em nossa experiência, ademais. Traídos pela social-democracia e desapontados pela impotência da esquerda, eles se voltam para uma nova narrativa poderosa: a defesa de homens trabalhadores, de nossa nação, nossa cultura, contra o Outro – Islã, refugiados, globalização, gays e lésbicas, a elite moralizadora de 68 no governo, etc.

Este fenômeno não é novo e está bem documentado. Mas por que ganhou esse ímpeto? As explicações frequentemente colocam o dilema de: é a questão social ou o racismo? Nas palavras de Stuart Hall, podemos dizer que “o problema não é se as estruturas econômicas são relevantes para as divisões raciais, mas como elas estão conectadas.” (HALL, 1980: 92). Ele continua: ” não é a questão se as pessoas fazem atribuições racistas, mas quais são as condições específicas sob as quais o racismo se torna socialmente decisivo e historicamente eficaz.” (129)

Uma cultura de insegurança

1989 marcou uma ruptura história que começou com a crise do fordismo no Oriente e no Ocidente, 20 anos antes. Este foi um momento de neoliberalismo generalizado, com terapias de choque na Europa Oriental e desindustrialização com subsídios sociais no leste da Alemanha. O leste era um campo de experimentação para a flexibiliação e precarização neoliberal, mas era também o momento de eliminar progressivamente os restos do fordismo da Alemanha Ocidental e da Europa Ocidental.

O resultado foi uma cultura generalizada de insegurança – os programas de trabalho foram emblemáticos em toda a Europa e nos EUA e a Agenda 2010 na Alemanha, que desmantelou o antigo sistema de segurança social. O objetivo era estabelecer o maior setor precário de baixos salários na Europa Ocidental. O medo de cair não se limitava àqueles que se encontravam na base da hierarquia social, mas se estendia às chamadas classes médias, que sabiam que a rede de segurança estava se desgastando enquanto experienciavam um rápida intensificação do trabalho, flexibilização e estruturas fluidas de proteção. O medo fo usado para produzir “trabalhadores complacentes”, como diz Klaus Dörre (2005).

O contrato social implícito – prometendo reconhecimento e segurança social em troca de trabalho duro – foi quebrado unilateralmente. Embora os sindicatos fossem incapazes de se opor a esse desenvolvimento, a frustração e a raiva muitas vezes eram direcionadas a grupos supostamente menos pressionados, com menos desempenho e recebendo dinheiro do Estado – desempregados, pessoas que recebiam assistência social e refugiados.

Como eu disse, essa reação não era particularmente verdadeira para os segmentos de classe mais baixos, mas emanava do meio – aqueles que tinham algo a perder, que se viam como o núcleo produtivo da sociedade. Mesmo quando conseguiam manter, ou mesmo melhorar sua posição social e status, isso acontecia com o aumento de cargas de trabalho, de horários de trabalho sem restrições, e requisitos de flexibilidade exaustivos.

Oliver Nachtwey (2016) encontrou uma metáfora brilhante para a situação: a imagem de uma escada rolante em movimento, descendo. Não se pretende ficar parado – é preciso lutar para evitar ir para baixo, enquanto a subida se mostra ainda mais desgastante. Apenas alguns conseguem pegar a escada rolante até o topo. Mas os segmentos superiores da sociedade estão fechados; os ricos vivem em um mundo próprio.

Além do aumento dramático da desigualdade, divisões duras de respeitabilidade (não apenas pequenas distinções) foram traçadas: a classe burguesa produziu imagens populares legitimando a educação autoritária dos desempregados, migrantes e outros grupos subalternos, pressionando por uma consciência de classe distinta das pessoas com baixo desempenho. As partes da classe trabalhadora que têm algo a perder traçam uma linha contras que estão abaixo, negando-lhes também a respeitabilidade. O medo de não ser respeitável – o medo de cair e fracassar – produzia um sentimento de culpa que levava à autodepreciação dirigida contra grupos e indivíduos mais fracos: uma reavaliação do eu através da desvalorização dos outros. As formas mais eficazes disso são o classismo, o racismo e o sexismo.

Além da precarização, no entanto, mais dimensões estão na raiz de uma cultura de insegurança e todas estão interconectadas. Uma breve visão geral:

  1. a) A crise da subjetividade masculina:

Novas formas de individualidade masculina não poderiam ser generalizadas no neoliberalismo – “inteligência emocional”, auto-reflexividade, capacidades cooperativas e comunicativas, igualdade de gênero, discurso anti-sexista, e assim por diante. Em contraste, muitos sentem uma espécie de feminização dos requisitos de trabalho, bem como nas relações familiares e no cuidado com os filhos, até se sentir forçados a comer menos carne. No mercado de trabalho, eles experimentam mulheres como uma competição acirrada, enquanto perdem seu papel como chefes de família, e sentem que a hierarqui de gênero em casa está virada de cabeça para baixo. Setores inteiros dominados por homens da economia, muitas vezes ligados a uma certa exploração da natureza, estão ameaçados – da mineração à fabricação de automóveis. Isso desafia certos hábitos de mão de obra masculina qualificada, já sob pressão de exigências tecnológicas permanentes de requalificação e educação continuada. Isso leva a experiências de ser incapaz de atender às exigências – incorrendo em certas nostalgias pelas boas e velhas noções de família, papéis de gênero claros e hábitos de trabalho masculinos. Esta pode ser uma razão pela qual os homens de certa idade são particularmente propensos a votar pela direita radical e por que o anti-gênero é tão central para eles.

  1. b) A crise da subjetividade feminina:

Promessas de emancipação através da integração no mercado encontram vários “tetos de vidro”: a disparidade salarial, exigências onipresentes de ser flexível, incompatíveis com a vida familiar – mesmo com uma distribuição mais ou menos igual de trabalho de cuidado ou delegação a outros, migrantes muitas vezes ilegalizados – Os novos modelos familiares (Gabriele Winker) não estão funcionando, não apenas por exigências crescentes no trabalho, mas também por novas aspirações relativas ao tempo (qualidade) com crianças e parceiros de vida (mas também para atender às pressões competitivas sobre instituições, no que diz respeito à sua própria aptidão, etc.). Deste estresse entre o aumento das exigências e as próprias aspirações, alguns desenvolvem uma nostalgia por modelos familiares antigos – exagerando o valor da maternidade, especialmente onde essas novas experiências se encontram com valores conservadores. Esta pode ser a razão pela qual algumas mulheres votam por um direito radical que é tão anti-feminista – afinal, o feminismo liberal raramente se refere a essas necessidades e problemas, particularmente para as mulheres das classes populares.

Existem outras dimensões também, mas nos falta espaço para mergulhar nelas. Vou simplesmente nomeá-las:

  1. c) Insegurança devido a certos tipos de estilos de vida que crescem desatualizados, perdendo sua pretensão ao que é culturalmente “normal”. Os velhos meios de vida se dissolvem e novos estilos de vida modernos, diversificados, cosmopolitas, multiculturais e multilíngues parecem dominar a mídia e a publicidade. O mundo e a experiência de trabalhadores qualificados não são mais o padrão – tornam-se instáveis, proletarizados. Ser sensível ao gênero, ecologicamente responsável, receptivo aos gays e queer, usar uma linguagem não discriminatória, etc., tudo isso é percebido como “politicamente correto”, dirigido contra hábitos persistentes, ms ultrapassados. Isso muitas vezes atende ao preconceito pré-existente e pode se transformar em negação agressiva ou intolerância.
  2. d) Insegurança devido a “ameaças externas”:

O desaparecimento de infraestruturas sociais (especialmente escolas, transportes públicos, administração pública e polícia, segurança pública em geral), particularmente em certas regiões, causa verdadeiros problemas sociais, mas que não se devem às raízes da reforma neoliberal, em fez disso falsamente associadas a causas externas assumidas como “migração para nossos sistemas sociais”, “kanakização” de nossas escolas, “sociedades paralelas”, delinquência migratória ou islamismo, até mesmo terrorismo, mas também insegurança trabalhista por causa de corporações multinacionais, reformas europeias, ou concorrência, através de migração laboral. Isso geralmente se liga ao preconceito racial pré-existente, que se torna cada vez mais importante para os indivíduos contra esse pano de fundo.

  1. e) Insegurança por meio de instituições democráticas e irresponsabilidade organizada:

Quem decide sobre novas exigências, que tipos de experiências de vida e identidades ainda estão representadas, onde tenho voz nas decisões familiares, vivendo minha própria identidade, nas cadeias produtivas transnacionais ou relações despóticas de baixos salários? O imperialismo econômico está corroendo a responsabilidade individual. Não se pode dirigir demandas para um mercado globalizado superpotente. A política parece ter-se privado do poder de vis-à-vis do mercado e se desvinculado das pessoas, até se corromper. A democracia está se tornando uma peça sem atores reais. Isso pode muitas vezes ser articulado erroneamente, mas a experiência é real: sentir-se desamparado e impotente, sem controle das condições de vida. Isso reverte em “raiva sem alvo” (Detje et al. 2013) e a um “fatalismo extremo” (Haug 1993: 229): “Você não pode fazer nada sobre isso”.

O ponto é: quando as várias dimensões se juntam, isso pode se condensar em estado de pânico (Balibar / Wallerstein 1990:271).  A direita radical está mobilizando e alimentando um “pânico moral” (Demirovic, 2018:29). Dessa forma, eles encorajam o subalterno a desconectar seus sentimentos dos esforços para entender as razões por trás de sua situação e traduzi-los diretamente em ressentimento, racismo, frieza e negação da solidariedade. A recompensa é a atenção e a falsa tristeza de cima: Nós compreendamos e levamos suas aflições e preocupações a sério, etc. (32)

Consciência cotidiana bizarra e populismo de direita

Na maioria das vezes encontramos, no entanto, uma forma bizarra de consciência cotidiana (Gramsci), não uma visão coerente e fechada do mundo mas o que WFHaug chama de “material proto-ideológico” (Haug, 1993:52), significando impulsos e elementos de sentimento e pensamento que ainda não são ideologicamente determinados. O impulso do descontentamento e da raiva não é, em si mesmo, ideológico. Isso depende de como se articula ele mesmo e como é articulado junto com outros elementos. Assim, o descontentamento pode ser traduzido em solidariedade e práticas horizontais de associação a partir de baixo, ou reverter em forma hierárquicas, depreciando e excluindo o Outro.

Se buscamos entender a ascensão da direita radical, é menos sobre as atitudes de direita na população (como pode ser encontrado nas pesquisas dos últimos 20 anos ou mais)do que sobre como esses impulsos soltos e proto-ideológicos, sentimentos, formas de pensamento, desejos e aspirações – muitas vezes em contradição uns com os outros – são integrado a um projeto político, dando-lhes uma articulação coerente. Isso explica por que as atitudes direitistas podem diminuir nas pesquisas, enquanto a agenda da direita continua a crescer aos olhos público.

Este não é um processo monocausal: o material proto-ideológico é formado e processado em discursos constantes em vários aparelhos ideológicos, como a mídia e os partidos políticos, mas também nas escolas, no chão de fábrica, nas associações ou na família. Ao mesmo tempo, os indivíduos sociais se apropriam do discurso político no sentido de subjetivação ativa, adaptando-os às suas respectivas condições, a fim de obter pelo menos uma “capacidade restrititva de agir” (Holzcamp, 1987). A questão é “como os indivíduos sociais se integram nas estruturas (e discursos) existentes, moldando assim sua própria subjetividade” (F.Haug 1983:16). Mas também temos que perguntar por que os discursos esquerdistas ou solidários são menos eficazes do que em outros lugares, por exemplo na Espanha ou na Grécia (Ver Candeias e Völpel 2013).

Especialmente quando a experiência de solidariedade está faltando ou está decepcionada, isso abre uma janela de oportunidade para a direita radical. Quando a experiência da prática solidária, ou a perspectiva de seu possível sucesso está ausente, isso pode levar à dissidência teimosa, como também representada pela direita radical: sua dissidência defende ao mesmo tempo o status quo das relações sociais existentes, o “bom e velho passado”, questionando-o parcialmente. Há um sentimento dominante de “fatalismo extremo”, muito consciente de sua impotência contra “os que estão no topo”, reencenando um gesto rebelde, combinado com um voluntarismo extremo (Haug 1993:229) contra os grupos sociais mais fracos, os “de baixo e de fora”, conscientes de que enfrentam pouco perigo de seres aprovador por isso. Esta atitude está em “oposição ao bloco governante no poder”, mas é “perigosa” somente onde o fundamento do governo capitalista não está em causa (222). A direita radical permite aos indivíduos sociais um “conformismo não conformista” (Thomas Barfuss): uma atitude de resistência em relação ao bloco de poder dominante, ao mesmo tempo em que solicita (em uma forma de interpelação) sua ação para depreciar e excluir ativamente o “outro” – migrantes, aqueles que “não querem trabalhar”, as feministas “tóxicas”, etc. Isso pode ser experimentado com estabilizador da capacidade restritiva de agir sob condições de insegurança elevadas.

O novo autoritarismo poderia ser lido como uma “tentativa de construir uma coalizão com partes da pequena burguesia e da classe trabalhadora do lado da classe burguesa, sem a necessidade de fazer concessões. Funciona como um curta-circuito entre as forças da burguesia e do subalterno” (Demirovic, 2018:34). Ao fazê-lo, isso não leva a uma simples rejeição da democracia, mas à sua reatribuição reacionária – uma democracia não liberal – uma estratégia plebiscitária, dividindo e mobilizando ao longo das linhas do racismo, nacionalismo, religião, sexo e gênero, ou forma de exploração da natureza, “reproduzindo e desarranjando  consciência cotidiana bizarra, convertendo-se em subjetividades neuróticas” (ibid).

Sua forma de mobilização está ligada a uma auto-capacitação imaginada do subalterno, baseada na promessa de retomar o controle. Uma vez que os diferentes elementos proto-ideológicos são articulados de forma coerente, é muito mais difícil rearticulá-los de uma maneira diferente.

Novas relações de representação

Contra o pano de fundo dessa cultura de insegurança, os partidos de direita radical modernizados – os irmãos feios do neoliberalismo – poderiam ser estabelecidos em muitos países europeus nos últimos 20 anos. Na Alemanha eles desapareceram de vez em quando, no entanto, atitudes autoritárias ou racistas se espalharam. Com a ascensão da Alternative für Deutschland, pode-se dizer que o país reverteu para a norma europeia (Opratko, 2016). Sua aparência levou a uma mudança completa de todo o espectro político e ideológico para a direita, criando uma nova relação de representação (Demirovic, 2018:28). A “raiva sem alvo” anterior encontrou um representante para articular essa raiva – não no sentido de expressão simples dessa raiva, mas de uma maneira específica coerente e cada vez mais radical.

A AfD começou com o sonho de um retorno ao marco alemão e a um nacional forte, quase se podia dizer “economia imaginada”. A ascensão não poderia ter sido consolidada apenas com a crítica do euro. O caráter claro de classe do projeto, criado por pofessores neoliberais furiosos que olham com arrogância e desdém para o subalterno, teria sido óbvio demais.

Somente retomar e intensificar o discurso antimigratório, antimulçumano, anti-feminista, homofóbico e antiliberal, estrategicamente dirigido contra todas as minorias, permitiu ao partido inverter a discórdia popular em conformidade popular – contra sua própria composição de classe em relação a seu eleitorado e liderança (cf. Hall 1992:114). Polêmicas contra a “migração para nossos sistemas de seguridade social” e a transformação da questão social em uma questão étnica se mostraram particularmente eficazes (Wiegel, 2014:83).

Na medida em que as alas étnico-nacionalistas e sociais do partido estão se tornando mais influentes (no local de trabalho também), sua noçao de “solidariedade exclusiva” (Dörre, 2005) poderia ampliar seu apelo em setores da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, não parece importar que o partido defenda as reformas neoliberais mais radicais. Na verdade, eles jogam com ambiguidade, relativizando  a verdade. Esta é uma das estratégias mais eficazes. Eles conseguiram rearticular a agenda populista e afirmar a hegemonia da direita no discurso público.

A maioria das outras partes está assumindo essa agenda, sempre com uma mudança para a direita – até mesmo a mídia e talkshows, em particular. Agora, parece que as pessoas podem dizer o que quiserem em público. Um símbolo surpreendente foi a última crise do governo alemão entre Horst Seehofer, ministro do interior e cabeça da direita radical bávara CSU (a irmã do partido CDU) e a chanceler Angela Merkel. Ele girou em torno de centros de detenção fechados e em como enviar de volta refugiados, ignorando completamente a carnificina em massa no Mediterrâneo.

A direita radical definiu a agenda e está “à caça”, como disse Alexander Gauland, diretor da AfD. Apenas algumas semanas depois vimos grandes multidões de neonazistas desfilarem pela pequena cidade de Chemnitz (antiga Karl-Marx-Stadt), saudando Hitler e perseguindo pessoas de cor pelas ruas, com um pequeno número de unidades policiais, incapazes e indispostos a parar a multidão (enquanto qualquer atividade esquerdista ou antifascista é confrontada com um grande número de unidades anti-terroristas militarizadas.

O chefe do serviço secreto (o chamado “Escritório Federal para a Proteção da Constituição”) Hans Georg Maaßen, negou os incidentes e deixou implícito que a cobertura da mídia e as filmagens foram “notícias falsas”. Isso provocou outra crise do governo com Seehofer apoiando Maaßen, enquanto Merkel e seu parceiro de coalizão, o SPD, exigiram seu rebaixamento. No final, Maaßen foi removido de sua posição, mas apenas para se tornar secretário de Estado para segurança interna e segurança cibernética. A crise ainda está latente e os partidos estabelecidos estão perdendo popularidade, levando mais pessoas à frustração e em direção ao curso anti-elite da AfD.

A estratégia da direita radical é combinada com uma hostilidade aberta em relação ao parlamentarismo e seus procedimentos democráticos, enquanto usa o parlamento como um palco. É claro que a pós-democracia já começou sob o neoliberalismo, mas agora se aproxima de uma ruptura com procedimentos democráticos, começando com Berlusconi, Orbán, Trump, etc. A direita radical, pode-se dizer, está fazendo o trabalho para um novo projeto autoritário.

Estão em curso tentativas para afirmar o controle político sobre a jurisdição (na Polônia, Hungria, EUA, Turquia) e restringir a liberdade de imprensa, ou, pelo menos, desacreditá-las como “imprensa mentirosa”, ao mesmo tempo em que divulgam notícias falsas e “fatos alternativos”, muitas vezes combinados com um revisionismo histórico vulgar. Os direitos das minorias, mulheres, sindicatos e ciência são pelo menos questionados. Uma linguagem violenta torna-se normal, afirmando e relativizando a violência física, reforçando discursos de segurança e aparatos repressivos. Expandir o alcance da linguagem aceitável está expandindo o espaço para a malícia do ódio aberto à real violência individual. Acho que essas são tendências  claras do que em alemão se chama Faschisierung: não regimes fascistas, mas tendÊncias claras contra um modo de vida democrático e solidário.

Racismo de baixo como auto-capacitação reacionária e expansão da capacidade de agir

A produção e o combate do “Outro” desempenha um papel central aqui

A tremenda heterogeneidade das classes subalternas poderia servir como uma base frutífera para a solidariedade na pluralidade, mas é claro que também poderia ser a base para dividir estrategicamente a classe. Isso é feito especialmente pela integração de facções da classe em um projeto hegemônico. Formas de chauvinismo, racismo, sexismo e classismo na consciência cotidiana – bem como as distinções de certas profissões de outras, diferentes modos de consumo e estilo de vida – são elementos úteis para expandir pequenas diferenças em divisões reais.

Um padrão comum é compensar o próprio declínio social (real ou temido) depreciando outros, porque o sentimento de dignidade de e posição social individual é relativa sempre em comparação com os outros. Alocar alguém com uma posição mais baixa faz com que se sinta que eles não estão na base da hierarquia social, talvez ainda façam parte da classe média, parte de uma nação – no caso alemão, um líder de exportação bem sucedido e campeão mundial de futebol. Este último pode ser enfraquecido após a última copa do mundo, em que a Alemanha foi eliminada no primeiro turno.

O racismo e o nacionalismo estavam sempre presentes, mas permaneciam em posição subalterna na mente da maioria das pessoas, emergindo de vez em quando, mas não sistematicamente. Que eles ganharam tanta importântica é também um sintoma da falta de luta de classes efetiva (Balibar/Wallerstein, 1990: 259). No momento dessa generalização de uma cultura de insegurança e crise do antigo projeto neoliberal, a articulação dos elementos proto-ideológicos muda: o que era marginal ou menos importante assume uma posição central na estrutura ideológica, torna-se um ponto de condensação.

A classe dominante procura dividir as classes subalternas via integração em um projeto hegemônico. Este não é um mero fenômeno ideológico, mas inclui a realização de interesses materiais: por causa das relações de poder e de um forte movimento operário, o compromisso de classe no fordismo foi amplamente inclusivo, embora também produzisse um exterior e exibisse uma estrutura patriarcal e paternalista. No neoliberalismo a base do compromisso de classe era muito menor, cada vez mais reduzida a especialistas de alta tecnologia e à força principal de trabalho na produção. O nacionalismo-exportador, comprado pelo preço caro da austeridade e da contenção salarial, ainda garante um grau de participação altamente contestado por uma certa parte da classe trabalhadora. Esse tipo de compromisso de classe tem altos custos que implicam subordinação, maior flexibilização, exigências de desempenho mais rigorosas, etc. Esse tipo de compromisso de classe com menos e menos concessões mobiliza medos tremendos de seguir para continuar esta “guerra universal de todos contra todos” (Hobbes, como citado por Haug, 1993:228).

Isso fica evidente com o ônus constante de aumentar as contribuições para o seguro social e impostos mais altos, combinado com benefícios em declínio e infraestrutura social em ruínas – primeiro devido à reunificação alemã, aumento do desemprego, os custos da UE e a chegada de centenas de milhares de refugiados. As chamadas classes médias e de alto desempenho são cada vez mais sobrecarregadas (assim diz a história), enquanto as razões reais – a dramática redistribuição da riqueza em favor do capital e dos ricos – não são discutidas. Não se pode fazer nada  a respeito – caso contrário, eles teriam voltado sua raiva contra o bloco de poder dominante, para oferecer pelo menos uma pequena parcela do sucesso econômico como parte do compromisso de classe, embora em uma posição muito subalterna.

O sentimento de suportar o fardo cresce ainda mais quando se enfrenta uma maior concorrência no mercado de trabalho, na moradia, pelo acesso a serviços sociais de alta qualidade, especialmente creches e escolas, e pelo acesso ao espaço público. Embora a causa real possa ser a reestruturação neoliberal permanente, alguns temem que, com a chegada de tantos refugiados, haja ainda menos para eles.

Essas exigências não razoáveis também devem se aplicar ao Outro, até negar-lhes direitos individuais e sociais. Quanto maior a pressão percebida, maior a ruptura com a solidariedade em relação aos grupos sociais fora do compromisso de classe. Mesmo uma parcela daqueles excluídos, os pobres, querem desesperadamente fazer parte desse compromisso, lutando por reconhecimento, adotando as imagens e formas de exclusão social contra seu próprio grupo para marcar uma distinção deles.

Se é verdde que a ideologia racista é primordialmente uma ideologia daqueles segmentos das classes intermediárias – não apenas no sentido de segmentos de classe ascendentes ou descendentes, mas concernentes à “negação ativa da solidariedade de classe” como Balibar/Wallerstein colocou (1990, 263) – então poderíamos entender a direita radical como uma aliança de classes entre segmentos descendentes de mão de obra qualificada, segmentos ameaçados da classe trabalhadora que se desenvolveram em uma pequena burguesia defendendo sua pequena propriedade residencial e status abusivo ente altos profissionais individualistas ascendentes, empresas familiares sob pressão da globalização, intelectuais burgueses sem reconhecimento ou experimentando marginalização nas instituições. Em relação às facções da classe descendente, pode-se falar de desclassificação social manifesta ou ameaçada (ver Kahrs, 2018), enquanto os segmentos ascendentes e as facções de classe estão engajados na luta pela recomposição do bloco de poder.

A mistura de exigências elevadas e demandas não razoáveis, experiências de desclassificação, insegurança, tentativas de estabilizar o eu através de comunidades imaginárias (Benedict Anderson), racismo e outras formas de desvalorizar Outros, somam-se à articulação da direita radical de fenômenos inicialmente independentes. “O estigma racial e o ódio de classe” contra os que estão abaixo na hierarquia social coincidem com a categoria de migração (Balibar/Wallerstein 1990, 249). “Na medida em que projetam seus medos e ressentimentos, seu desespero e sua rebeldia sobre os desconhecidos, eles não apenas combatem a concorrência, como é dito, mas tentam se distanciar de sua própria exploração. Eles se odeiam como proletários ou como seres humanos em perigo de cair na proletarização” (258). Uma constante interação e emaranhamento de “racismo de classe” e “racismo étnico” (ibid) contra os que estão abaixo e fora. A interpelação do racismo (ou antissemitismo) “opera instantaneamente como dirigir um imã a limalhas de ferro soltas”, reajando todo o campo político – após o que se torna possível “organizar um populismo da direita, ou seja, uma constituição autoritária de Volk” (uma unidade étnica do povo) (Haug 1993, 222).

Contra esse pano de fundo, podemos entender o crescente significado do racismo, do chauvinismo, do nacionalismo, etc., como a criação de uma consciência cotidiana mais coerente como inscrição ativa de indivíduos em um projeto ideológico da direita. Isso está ligado a uma transição de um modo de vida latente, assumidamente racista.

Isso não é uma sedução dos flautistas da extrema-direita, mas uma subjetivação ativa que permite um auto-fortalecimento reacionário e a expansão da capacidade de agir. Isso pode ajudar a entender por que a questão da migração avançou como uma linha social central de conflito, invertendo o conflito hierárquico entre capital e classe em um conflito horizontal entre facções de classe dentro e fora do compromisso de classe.

O problema? A esquerda não pode ganhar nesse terreno. Precisamos mudar isso.

Política de classe conjuntiva de porta a porta

Assim, voltando às múltiplas dimensões de uma cultura generalizada de insegurança em tempos de crise orgânica do projeto neoliberal, com incerteza no trabalho, nas relações familiares, bairros e regiões inteiras, perspectivas futuras, história própria, identidade, gênero, ou modo de viver. Essa insegurança generalizada é a base das estratégias subjetivas para enfrentar a situação, que, na ausência de experiências solidárias, recebem um suprimento ideológico do direito de recuperar o controle.

Mas pode-se conectar à esquerda a partir da mesma base. A maioria das pessoas não têm uma visão fechada do mundo, mas uma consciência cotidiana bizarra em que coexistem impulsos conflitantes. Temos que estar conscientes de que é muito mais difícil reconquistar as pessoas quando elas se tornam parte de um projeto de direita radical, buscando dar coerência à sua consciência cotidiana com uma visão de direito radical  do mundo e um modo de vida racista. Mas muitos estão cientes de que a direita radical não resolverá seus problemas cotidianos de múltipla insegurança, e sentirá desconforto e uma consciência culpada com a direita. O Die Linke perdeu 400 mil eleitores para a AfD nas últimas eleições. Nós os queremos de volta. Então, como se conectar com eles a partir da esquerda?

Este tem sido um foco de debate em torno de novas políticas de classe conectiva (cf. Luxemburg Special Issue, 2017) nos últimos anos, ou seja, uma política de classe que vai além dos suspeitos usuais (Candeias 2017) desenvolvendo e experimentando novos projetos concretos. Isso às vezes significa coisas simples que parecem tão difíceis: bater em portas de bairros desfavorecidos por toda a Alemanha (e especialmente nas antigas fortalezas da esquerda), tomando lições da Grécia e Espanha, Holanda, Áustria, Grã-Bretanha e EUA (cf. Steckner 2017a, Pieschke 2016). Precisamos de paciência e resistência para construir relações ativas. Temos que ouvir, debater, organizar reuniões locais centradas em torno de problemas cotidianos, como políticas de aluguel no bairro ou lutas nos serviços de saúde e assitência infantil. Temos que voltar e tentar de novo. Muitas vezes foi uma experiência surpreendente para os dois lados: primeiro para abordar a todos, depois ter uma conversa política focada nos problemas cotidianos.

Enviamos centenas de militantes para bater em portas por toda a Alemanha. Nossos ativistas, é claro, encontraram ressentimento e racismo, mesmo entre pessoas inclinadas à esquerda. No entanto, na maioria das vezes, uma conversa era possível. Frequentemente as pessoas responderam à questão do que deve acontecer para que sua situação progrida com “Asylanten”  – um termo depreciante para os solicitantes de asilo – “deve ir!”. “Tudo bem, mas a sua situação era melhor antes dos refugiados chegarem – ou você espera que seja melhor quando eles forem embora?”

“Não! Eu sei que isso não vai mudar, mesmo com a AfD…”

As pessoas começaram então a falar sobre seus próprios problemas: que eles têm três filhos, recebem assitência social, mas não podem pagar o aluguel ou comprar comida suficiente ou um presente de aniversário para seus filhos, e assim por diante. Menos correção política e mais ouvir e levar as experiências a sério – sem negar o ponto de vista político da pessoa.

Outros estudos confirmam nossas descobertas: de acordo com um estudo recente documentando um projeto de porta a porta em mais de 500 portas na Alemanha e França (Hillje 2018), as primeiras coisas que as pessoas gostariam de mudar se estivessem no poder eram: “salários mínimos mais altos, renda básica universal e mais assistência às mães solteiras” (15f).

O mesmo estudo concluiu que “quando as pessoas falam de política com suas próprias palavras, o medo do islã, o euroceticismo, a ‘mídia mentirosa’, ou uma ênfase na identidade nacional não desempenham um papel importante”. Eles nem sequer tem nada contra os migrantes, ao menos não é um ponto importante, mas o sentimento de que a política segue as prioridades erradas não atende às suas necessidades, especialmente em regiões ou bairros desfavorecidos.

Como discutido acima, eles não acreditam necessariamente que a AfD ou Front Nacional poderiam resolver seus problemas (Hillje 2018, 10). Isso também era verdade para nossas conversas: votar na direita radical é mais uma expressão do desejo desesperado de ser ouvido e ter políticas voltadas para as necessidades cotidianas. Entrevistamos um homem de meia idade que sempre votou pela esquerda. Após anos de decepção, ele votou na AfD. Quando conversmos, ele já estava cético de que isso mudaria tudo para melhor. Nós o convidamos para uma entrevista mais longa. Depois de um tempo ligamos novamente, ele se juntou à inicitiva da organização local e votará novamente na esquerda. Esse não é um caso isolado. Esta é uma oportunidade para a esquerda: proceder a partir de formas solidárias de trabalho conjunto em problemas sociais no bairro, construindo estruturas de solidariedade mútua (ver Candeias e Völpel, 2013). É isso que estamos tentando desenvolver e propagar por todos os partidos e apoiar movimentos que façam coisas semelhantes.

A partir desse terreno comum sobre questões sociais, podemos trabalhar em questões como racismo e sexismo, à medida que são modificados e reduzidos em importância a uma inicialmente reacionária capacidade de agir. No entanto, não podemos parar por aí, pois isso leva a uma tolerância silenciosa dessas ideologias. Antes nós temos que trabalhar com isso, com treinamento contínuo e educação política, mas, além disso, organizando espaços para experiências de solidariedade, independentemente de sua origem migratória. A experiência com refugiados como parte da organização de projetos nos bairros é crucial. Além disso, é pelo menos tão importante apoiar a auto-organização dos migrantes e refugiados. Como tudo isso pode ser aprendido, exigindo treinamento sistemático para que as pessoas percam o medo de se aproximar do Outro.

No momento, achamos que é a única e mais promissora maneira de reconquistar os segmentos das classes populares que perdemos ao longo dos anos – não apenas aqueles que votaram na AfD, mas o número ainda maior de pessoas que não votaram (cf. Candeias 2015, Schäfer et al. 2013a, 2015).

Decisivo é se a experiÊncia cotidiana é moldada pela solidariedade prática ou pela competição e isolamento. Não é impossível que uma prática sucessiva de solidariedade possa ser mais atraente do que a auto-capacitação imaginária da direita radical, sem qualquer solução para os problemas cotidianos das pessoas. Trata-se de uma “capacidade generalizada de agir” (Klaus Holzkamp) no caminho em direção a uma disposição comum e solidária sobre nossas próprias condições de vida – “retomar o controle”, mas “para muitos, não para poucos”.

Um “anti-fascismo desamparado” (Haug) focalizando demais a direita radical e sua agenda, correndo de uma contra-demonstração para outra, concede a escolha do terreno de luta. Temos que desenvolver nossa própria agenda e mudar o terreno com organização concreta em torno de problemas sociais cotidianos, com políticas de classe conectivas, focadas não apenas no antagonista de cima e da direita radical, mas criando suas próprias bases mais amplas para uma solidariedade vivida por todos (cf. Candeias 2017).

 

 

 

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