Parece Magia

Desde o comeco da campanha de Bolsonaro  – e mesmo antes da campanha presidencial ter comecado oficialmente – varios analistas notaram a semelhanca entre sua campanha e a que levou Donald Trump a presidencia dos EUA em 2016 inclusive com apoio explícito do ex-estrategista chefe de Trump a Jair Bolsonaro . O artigo a seguir foi traduzido e adaptado do artigo Ten Techniques Authoritarians Use to Bend and Twist Reality (and How to Fight Them) – The Authoritarian’s Rhetorical Playbook, escrito por Umair Haque da Eudaimonia&Co, e tem como objetivo esclarecer quais as tecnicas utilizadas, como elas se enquadram no contexto brasileiro e quais as formas de identifica-las e combate-las.

 

Parece magia. Avada Kedavra! Parece que os autoritários de hoje em dia são capazes de controlar as mentes das pessoas, sequestrar a atenção da sociedade, moldar e distorcer a realidade, tudo com meia dúzia de palavras.

 

Porque será que todos os fatos do mundo não bastam pra convencer os eleitores do Trump de que eles estão errados? Por que será que nós mesmos prestamos atenção a todas as suas palavras, mesmo sabendo que são só manipulações e mentiras pueris? Por que será que as notícias na imprensa não falam mais de nenhum assunto, só das últimas proclamações, frases, declarações do autoritário? Tá vendo? Estamos mesmerizados, hipnotizados, acossados, compulsivos obsessivos de papel passado. E isso é a prova de que a magia negra autoritária funciona até bem demais.

 

Como? Como que eles nos controlam tão facilmente, tanto cognitiva quanto emocionalmente? Será que há como resistirmos? Claro que há – se soubermos como. Eis uma lista de dez técnicas que os autoritários estão usando para distorcer, rasgar, e dobrar a realidade, começando com a mais básica, que vou explicar com detalhes.

 

A Grande Mentira

Li sobre isso – acredite se quiser – em quadrinhos do Archie* quando tinha seis anos. E eu ri, porque é a cara do Reggie. Mas nas palavras do próprio Hitler:

 

“Numa mentira grande, há sempre uma certa força de credibilidade; porque as massas de uma nação são sempre mais facilmente corrompidas através das camadas mais profundas da sua natureza emocional do que consciente ou voluntariamente, e assim, na simplicidade primitiva de suas mentes, e caem mais facilmente numa mentira grande do que numa pequena, já que eles mesmos mentem de forma pequena em pequenos assuntos, mas teriam vergonha de lançar mão de grandes falsidades. Nunca pensariam em fabricar uma mentira colossal, e portanto eles não acreditam que outros teriam a impudência de distorcer a verdade de uma forma assim tão infame.”

 

Então. A grande mentira. “Make America Great Again”.Todo autoritário tem uma, e a lógica é, como disse o Führer, simples: as pessoas querem acreditar na grande mentira e, ao mesmo tempo, é difícil para elas acreditar que alguém poderia contar uma mentira desse tamanho. Que, por exemplo, os autoritários não queiram engrandecer ninguém exceto a si e seus cupinchas. Que, por exemplo, um país nem deva ser “grande” para ser bom, nobre, próspero, e valioso. A Grande Mentira é a mais poderosa arma retórica da história moderna – e a era dos meios de comunicação em massa a tornou uma granada jogada na mente humana.

 

No Brasil, a narrativa usada por Bolsonaro é de que ele é o unico capaz de salvar o Brasil dos bandidos e da corrupção, só assim o país será próspero e seguro novamente para as pessoas de bem. Mas o próprio candidato e seus filhos tem diversas denúncias de corrupção e criminais, inclusive de exaltação, fomento e defesa da legalização de milícias paramilitares.

Como enfrentá-la? Não tente dizer que ela é mentira – lembre-se, fatos não convencem os seguidores de um autoritário, eles saem pela culatra, aumentando a lealdade deles, por razões que ficarão claras no fim deste ensaio. Mas seguindo…

Gaslighting, intimidação, e humilhação pública.

Essas são as três técnicas fundamentais de qualquer abusador, e é isso basicamente o que autoritários são, na escala da sociedade.

 

Gaslighting – virar a realidade de ponta cabeça. Vamos chamar essa de “Guerra é Paz.” Você vê eles fazendo isso todo dia, se olhar direito – hoje mesmo, Bannon disse que Martin Luther King seria seu admirador (heh). Intimidação e humilhação pública são técnicas relacionadas – já reparou como Trump gosta de dar broncas públicas naqueles que lhe são próximos (sem ninguém entender bem por quê)? Ele faz isso para deixar claro: esse cara podia ser você, preste atenção. Ninguém está a salvo. Eu sou poderoso assim, inescrupuloso assim. Mas esse tipo de poder absoluto, o poder que só um pai forte poderia ter, também atrai os fracos, que regrediram a um estado mental infantil, como vamos descrever abaixo.

 

Como lidar com essas três técnicas? Tratando a realidade como algo sagrado – o que a imprensa se recusa a fazer. Se você não consegue falar em “fascismo” ou “autoritarismo”, como você vai conseguir lutar contra alguém que começa virando tudo de ponta cabeça? E demonstrar às pessoas que o autoritário é só um bully e um abusador, uma pessoa pequena e fraca lá no fundo, de novo e de novo, até essa realidade começar a ser percebida, furando o mito da força mancha e inflada.

 

Como distorcer a nossa realidade? É só dizer que o PT e os partidos de esquerda – inclua aí partidos como o PSDB – querem transformar o Brasil numa ditadura comunista. Essa é a principal tática de gaslighting usada pela campanha de Jair Bolsonaro no Brasil. E também sobram exemplos de intimidação e humilhação pública, como as brigas entre ele e seu candidato a vice, o general Hamilton Mourao e seu assessor econômico Paulo Guedes.

Transgressão sequencial.

Sabe como, em algum momento, os malvados falam algo horrível, bisonho, terrível – e enquanto nós reclamamos, eles já começaram a falar algo ainda pior? É assim que tivemos coisas como crianças sequestradas, e dois dias depois, 5000 mortos em Porto Rico. Uma transgressão depois da outra, violando, sequencialmente, as normas e os códigos da decência e da civilização, cada vez mais, cada vez pior, tão rápido que a indignação não consegue acompanhar, nos deixando impotentes.

 

Como enfrentá-la? Simples: desabafe, reclame da indignação do dia, sem problema. Mas saiba ver que o de amanhã será pior. Lembre-se de que o pior dos casos, que pareceria bizarro em tempos normais, é o cenário padrão nos tempos de cabeça pra baixo dos colapsos autoritários. Mantenha-se focado no prêmio, que é arrancar do autoritário o seu poder para nos assustar e indignar até a impotência.

 

A intencao aqui é tirar o foco dos horrores que estamos sofrendo e nos indignarmos com coisas que beiram o absurdo, com intuito de nos paralisar diante da situacao. Quando Marielle Franco foi executada, logo comecaram a surgir boatos de que ela foi casada com o traficante Marcinho VP, nao só para manchar a imagem de Marielle como para desviar o foco da militancia em cobrar das autoridades que sua execucão fosse investigada.

 

Firehose.

Às vezes, é coisa demais pra acompanhar, não é? Loucura demais, burrice demais, desinformação demais, de muitos lados ao mesmo tempo. Mas é essa a idéia. O objetivo explícito do modelo russo de uma propaganda “mangueira de bombeiro” é afogar você. É assim que o autoritário, e seus cupinchas, e seus exércitos de bots, bombardeiam uma sociedade com desinformação, informação distorcida, nonsense absurdo. Se você tentar lutar contra cada uma dessas mentiras, o resultado será sua loucura – e o que eles querem é justamente que você fique louco lutando contra um robô que não pode ser convencido da realidade. A prova social, lembra? Então, o que fazer?

 

Aponte. Esse circo dos horrores todo. E aprenda a elencar prioridades. Priorizando direito, não nos afogamos tão facilmente. Mas um dos grandes defeitos do debate contemporâneo é a incapacidade de definir prioridades – o que significa que a mangueira de bombeiro está funcionando. Assim, Roseanne e Sam Bee foram mais urgentes do que os 5000 portoriquenhos mortos. O jeito certo de se enfrentar a mangueira não é tentar secar cada gota de água, é priorizar o que proteger da inundação primeiro, e o que proteger mais. Assim, as ilhas de decência e normalidade que sobreviverem podem servir de refúgio para todos nós.

 

As redes sociais têm um papel muito importante na propagação de notícias falsas, pois o firehosing funciona com as premissas de que, para que mentiras óbvias façam efeito na opinião pública, elas precisam ser repetidas a exaustão e em alto volume, com alta velocidade, continuamente e repetidamente. Nos EUA, o Facebook e o Twitter foram e continuam sendo usados para replicar a torrente de mentiras que saem da boca do presidente Trump. Aqui no Brasil, o Whatsapp é a ferramenta mais importante da campanha do candidato do PSL, o que torna tudo mais difícil por ser praticamente impossível rastrear as redes de disseminação de boatos e fake news.

 

Prova social.

Outra grande – e quando digo grande quero dizer grotesca – inovação russa no campo da persuasão autoritária. Funciona assim: fantoches travam “debates” fake entre si, e um deles parece que foi convencido. Como seres humanos são fáceis de enganar, são convencidos, eles também, ao olhar esse espetáculo farsesco. Parece incrível, mas é exatamente o que fizeram no Facebook – e funcionou, em escala maciça. Convenceu os americanos a acreditar em tudo quanto é besteira, de Obama É um Terrorista a Trump Ama Você, e só Você.

 

Como enfrentar? Fazendo com que as pessoas percebam as armadilhas da prova social: que “o que é popular é verdade” é uma ilusão da era das redes sociais. A maioria das pessoas, até a Renascença, acreditava que o sol girava em volta da Terra, e essa maioria não fez com que essa crença fosse verdadeira.

 

Um mundo preto no branco com ameaças existenciais.

ELES são nossos inimigos!! Traidores!! É o que o autoritário diz de… qualquer um de quem ele não goste. Ele declara guerra à mídia, ao império da lei, às crianças imigrantes. O mundo do autoritário é em preto e branco – e ele quer convencer aos outros de que essa é a realidade. Mas não apenas preto e branco, mas preto e branco de uma maneira que ameaça à nossa própria existência. Se você não é um dos nossos, a sua existência é uma ameaça. Você não é um adversário, mas um inimigo mortal que deve ser extinto, eliminado, erradicado.

 

Como enfrentar? Baixando a bola. A vida continua. Os gays não vão acabar com seu casamento, amigo, nem os imigrantes vão roubar seus filhos. Não somos caixinhas fixas, cada uma representando uma ameaça existencial para os outros. A verdadeira ameaça existencial é o autoritário, e quando ele fala de ameaças em inimigos imaginários, isso é projeção da cabeça dele.

 

Martírio e perseguição de soma zero. Nós nos demos mal! Nos passaram a perna, tiraram vantagem da gente! É horrível, horrível. Uma das táticas favoritas do autoritário é o martírio – mas não qualquer martírio. Misturado com paranóia – ELES querem nos ferrar! Nos odeiam! Não dá pra coexistir! Mas por que não? Ué, porque somos os escolhidos, e eles não. Nos faça grandes! Pera, por que não podemos ser todos grandes? Ninguém perguntou, né? É porque, na mente do autoritário, tudo é um jogo de soma zero, e se qualquer outra pessoa ganhar, ele perde. Então, se o autoritário tem uma obsessão tão absoluta com ganhadores e perdedores, é porque ele se vê como alguém perseguido, caçado – e, por isso, tem um medo paralisante de ser um perdedor. E é essa visão de mundo que ele ensina ao seu rebanho, que já se sentia ferido pra início de conversa.

 

Como enfrentar? Faça com que as pessoas se lembrem de que a vida não é um jogo de soma zero. Ninguém tem que perder para que os outros ganhem, a não ser que se esteja jogando Banco Imobiliário. Na vida real, você pode ser um grande médico, eu uma grande escritora (um dia, um dia), e todos ganhamos. O sucesso, a prosperidade, ou a fortuna alheia não são uma ameaça a mim.

 

Grandiosidade pueril.

Temos que ser grandes! Nós em primeiro lugar! Quem que fala assim? Quem fala coisas desse tipo? Um bebê. Não é coincidência. Bebês necessitam ter uma confiança grandiosa, precisam se sentir o centro do mundo. É assim que eles podem explorar, brincar, descobrir. Mas, à medida que crescemos, um dos desafios que encaramos é o de deixar pra trás essa grandiosidade. Só que quando pessoas se sentem ameaçadas, com suas vidas a perigo e se desmoronando, numa sociedade em colapso, elas regridem a estágios infantis. Elas precisam ser acalmadas e confortadas, que nem bebês – porque, psicologicamente, é o que são. Por isso que esses refrões infantis têm tanto apelo. Você é foda! É o melhor! Não vou deixar que eles cheguem perto de você! Só eu te protejo!

 

Como enfrentar? Fácil. Acalme e conforte as pesoas. É o que mais pode arrancar do autoritário seu poder. E neste momento, não é o que nossos líderes e políticos estão fazendo, né. Eles atacam os autoritários. Mas as pessoas já estão ligadas aos autoritários, como se fossem pais adotivos, porque eles se deram ao trabalho de confortá-las e acalmá-las, então, quando eles são atacados, as pessoas correm para defendê-los. É por isso que os fatos nunca adiantam de nada quando se lida com bolsonaristas. Nunca. A estratégia que funciona é acalmá-los melhor ainda do que o autoritário os acalma. Lembre a eles de que as coisas vão dar certo. De que são pessoas boas e decentes – ou, pelo menos, de que podem ser. E assim por diante. E assim a magia do autoritário começa a falhar.

 

E é isso. Há muito, muito mais. Mas talvez essa lista seja um início para o caminho de arrancar a sua mente, e a sociedade, do domínio daqueles que querem abusar a ambas. Seja sábio no uso de seu poder, jovem Padawan.

 

*Archie eh uma serie em quadrinhos dos EUA com o personagem Archie Andrews

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