Por favor, não batam nos seus filhos!

Conversando com um amigo sobre coisas da infância, nos lembramos de um jeito bem humorado dos “corretivos” que levávamos dos nossos pais e parentes quando saíamos da disciplina. Dentre vários outros relatos, esse amigo me contou de um dia em que foi empurrado pelo pai e acabou batendo a cabeça no batente de uma porta. Ele não se lembra do porquê estava sendo “corrigido”, mas se lembra que a pancada causou um coágulo que precisou ser drenado. O pai em questão foi um ótimo pai. Ele não é, nem de longe, aquele tipo de pai que chamaríamos de abusivo ou de violento: estava apenas corrigindo o filho amado da mesma forma como foi corrigido pelo pai quando ele próprio era uma criança.

Não é incomum escutar pessoas jovens relatando que em algum (ou alguns) momento na infância apanharam de cinto, corrente, vara de marmelo ou que foram obrigados a ficarem horas ajoelhados no milho. Em maior ou menor medida, TODOS nós temos histórias assim para contar e contamos como episódios engraçados das “surras exemplares” que levamos, como se esse tipo de manifestação extrema de violência fosse uma coisa normal e até necessária para a educação das crianças. No Brasil, 70,5% das pessoas relatam terem recebido algum tipo de castigo corporal quando criança e toda a controvérsia gerada em torno da chamada “lei da palmada” nos faz deduzir que a violência física contra crianças dentro do lar não só é naturalizada, como é estimulada como método educativo. Mas o que diz a ciência sobre isso? E por que a maioria de nós concorda que bater em outros adultos ou animais é errado, ao mesmo que acredita que agredir crianças é a forma certa de discipliná-las?

Um estudo divulgado em 2016 no Journal of Family Psychology acompanhou em torno de 161 mil crianças durante 5 décadas e identificou 17 principais efeitos negativos da palmada na criação dos pequenos. 13 desses 17 efeitos mostram uma ligação direta entre as palmadas e o aumento do risco para o desenvolvimento de comportamentos agressivos, dificuldades cognitivas e escolares, psicopatologias e comportamentos antissociais. Outro resultado da pesquisa mostra que as crianças não diferem substancialmente as “surras” dos abusos físicos mais graves e que as que apanham têm mais propensão a se tornarem adultos que defendem os castigos físicos como a forma mais natural de educação, perpetuando assim o ciclo de violência intrafamiliar.  Outro dado interessante desse estudo é o que mostra que bater nos filhos como forma de coibir a indisciplina NÃO FUNCIONA e que, na verdade, a palmada faz com que a criança apresente níveis de agressividade superiores aos níveis iniciais. Outras pesquisas como essa e essas corroboram com as conclusões da primeira pesquisa e acrescentam: castigar fisicamente seus filhos, principalmente filhas, aumenta as chances de que no futuro eles se encontrem em relacionamentos abusivos. Isso porque quando você cria seu filho ensinando que há uma relação entre a agressão e afeto, o famoso “tapa de amor” ou “tapa para educar”, é possível que ele entenda o bater (ainda que inconscientemente) como algo construtivo dentro de uma relação.

Mas aí vem o argumento: “Meus pais me bateram e eu cresci muito bem! Não tenho nenhuma psicopatologia e nem estou em um casamento violento” Hmmmm… com todo respeito, talvez isso não seja bem verdade. Talvez você não perceba o impacto das palmadas na sua vida, mas tente fazer uma auto-reflexão: Você lida bem com as suas emoções? Não tem acessos de raiva, não se imagina cometendo atos de violência extrema contra outras pessoas, não é verbalmente abusivo em discussões com pessoas que você ama e, principalmente, você consegue resistir àquela vontade incontrolável de bater nos seus filhos quando eles te tiram do sério? Alguma vez você já “perdeu a linha” em um desses corretivos, como se estivesse cego de raiva, e se arrependeu depois? Se a resposta é afirmativa pra qualquer uma dessas perguntas, talvez você não tenha crescido tão bem. A violência é naturalizada entre pais e filhos e costuma ser silenciada, a família é entendida como uma “propriedade privada”, onde o sigilo dos acontecimentos internos só é quebrado quando existe a necessidade latente da intervenção de terceiros. A naturalização dessas violências que começa tão cedo e num ambiente que, em tese, seria o mais seguro para uma criança obviamente teria algum efeito sobre o imaginário social, que hoje associa autoridade como poder de força. Não ter a cabeça rachada, um membro quebrado ou um laudo médico dizendo que você desenvolveu stress pós traumático por causa de um abuso extremo não significa que você cresceu bem – significa que você cresceu sem maiores sequelas e que foi ensinado a acreditar que respeito e autoridade só se conquista através da força… e isso só até onde você sabe.

Mas por que nós adultos, indo contra todas as evidências, ainda acreditamos que uma criança pequena só irá respeitar a nossa autoridade através do uso da violência? E mais, por que nós achamos necessário impor essa tal autoridade ao invés de, através de um comportamento afetuoso e justo, fazer com que essa criança confie que a nossa orientação é necessária para o seu próprio bem estar? Na teoria tudo é muito fácil, eu sei, e a criação das crianças pode ser um inferno às vezes. Não tenho intenção de julgar os pais que usam castigos físicos como método educativo, até porque eu mesma fui “fisicamente corrigida” pelos meus responsáveis e sei que eles me deram a melhor educação dentro das suas possibilidades. O que eu quero dizer é que precisamos falar mais sobre as formas alternativas e saudáveis que existem de educar as nossas crianças, desconstruir a idéia cientificamente desbancada de que a violência é fonte de aprendizado e criar adultos preparados para construir um mundo menos desequilibrado e violento do que o que nós conhecemos.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.