POR QUE OS EUA DERAM AS COSTAS AOS CURDOS?

Originalmente publicado no site El Espectador, em outubro de 2019.

Tradução de Matheus Saldanha.

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fica sem insultos em meio a uma grave situação interna, ele olha para a Síria. Em 6 de abril de 2017, o presidente estava passando por momentos sombrios devido a investigações da influência russa nas eleições de 2016 e ordenou o lançamento de 59 mísseis Tomahawk contra instalações do governo sírio. Quase um ano depois, com seu governo nas cordas, em 14 de abril de 2018, ele repetiu o script: por trinta minutos bombardeou um suposto armazém de armas químicas do regime de Bashar Al Asad.

Agora, quando ele está à beira de um julgamento político por pressionar o governo ucraniano a investigar um rival político, Trump volta o olhar para a Síria; desta vez, abrindo caminho ao presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, para atacar aqueles que até agora eram os principais aliados dos EUA em solo sírio: os curdos, que a Turquia considera “terroristas”.

Segundo Trump, “é hora de se retirar dessas guerras ridículas intermináveis, muitas delas tribais, e devolver nossos soldados para casa”. As Forças Democráticas da Síria (SDF), lideradas pela milícia curda YPG, acusaram Trump de traição, pois foram suas forças que interromperam o avanço do Estado Islâmico, um papel que é reconhecido pelo Pentágono. Mas que Trump parece esquecer.

David Meseguer, jornalista espanhol especialista em Curdistão, explicou ao El Espectador que “os curdos pagaram com mais de 11.000 combatentes pela guerra contra o califado. Quando Ísis colocava bombas em Paris, Barcelona, Nice ou Bruxelas, aqueles que colocavam os mortos em frentes de batalha eram as Forças Democráticas da Síria, principalmente os curdos. Os Estados Unidos terão de dar muitas explicações sobre o motivo dessa traição se Erdogan finalmente atacar, porque sua imagem diplomática no exterior será severamente afetada. ”

Os republicanos sabem: “Este é um desastre que garante o ressurgimento do Estado Islâmico”, alertaram. E eles acrescentaram que isso “mancha a honra dos Estados Unidos por abandonar os curdos”.

Um funcionário do Departamento de Estado tentou corrigir a posição de Trump anunciando que “apenas um número muito pequeno de tropas se retirou, 25 pessoas no máximo (…)”, mas os curdos confirmaram a saída de milhares.

Quem são os curdos?

A história do povo curdo, segundo os historiadores, remonta a 612 a.C. É um povo descendente dos medos, o império dominante na região antes dela ser anexada pelo Império Persa no ano 6 a.C. Sua história sempre esteve ligada à traição. Embora não tenha alcançado sua independência em nenhum momento de sua história, elas são a maior minoria étnica no Oriente Médio, entre trinta e quarenta milhões de pessoas divididas entre os territórios de quatro estados: Turquia, Síria, Irã e Iraque.

Os curdos viveram com alguma calma até o século XVI, quando a tensão entre o Império Otomano e o Persa transformou o Curdistão em uma zona beligerante devido à sua situação estratégica; no entanto, foi somente no século XX que esse povo começou a reivindicar sua independência e seus territórios. Isso trouxe enormes repressões, especialmente por parte da Turquia e das forças de Saddam Hussein no Iraque. Atualmente, os curdos enfrentam uma grande rejeição por parte do governo Erdogan. Nos últimos tempos, Ancara interveio militarmente em face de seu progresso sustentado. No ano passado, Erdogan lançou a Operação Ramo de Oliveira com o objetivo de expulsar as SDF da Síria. Em 18 de março de 2018, as forças turcas, juntamente com outros grupos rebeldes, invadiram Afrin, no noroeste da Síria, massacrando 1.500 curdos, o que evidencia a impotência deste povo contra o governo turco.

Os curdos e o Estado Islâmico

A guerra contra o Estado Islâmico na Síria uniu várias frentes, cada uma com motivações e interesses próprios. Um dos grupos mais relevantes nesse conflito foram as Unidades de Proteção Popular (YPG), um grupo insurgente curdo que lutou contra o califado no norte do país árabe.

O conflito entre os dois começou em meados de 2013, quando o grupo jihadista identificou três enclaves curdos que faziam fronteira com o território sob seu controle no norte da Síria como novos alvos militares.

A guerra entre curdos e o EI se intensificou em setembro de 2014, quando os jihadistas lançaram um ataque à cidade curda de Kobane e povoados vizinhos, forçando dezenas de milhares de pessoas a fugir pela fronteira turca. Estima-se que cerca de 400.000 curdos foram despejados por essa ofensiva jihadista. Mais de um ano depois, em janeiro de 2015, após uma batalha que deixou 1.600 mortos e mais de 3.200 prédios destruídos ou danificados, o YPG recuperou o controle da cidade de Kobane. Com o apoio militar e logístico de Washington, desde então seus combatentes se tornaram a espinha dorsal da luta contra o ISIS.

Agora, com o Estado Islâmico reduzido a poucas células, os curdos temem que a retirada dos EUA das áreas de fronteira com a Turquia comprometa sua segurança. Os soldados americanos foram a única coisa que deteve Erdogan, que disse que o ataque seria “a qualquer hora da noite”.

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