Porque alguns intelectuais ocidentais estão tentando desbrutalizar o colonialismo

Por Vijay Prashad, originalmente publicado em Monthly Review

 

Em 1950, Aimé Césaire, uma das vozes mais lúcidas do século XX, voltou o olhar para a longa história de colonialismo que estava terminando. Ele desejava julgar o colonialismo das cinzas do nazismo, uma ideologia que surpreendeu os inocentes na Europa mas que havia sido cultivada lentamente na experiência colonial da Europa. Além do mais, os instrumentos do nazismo- supremacia racial, assim como violência  brutal, genocida- haviam sido cultivados nos mundos coloniais da África, Ásia e América Latina. Césaire, o efervescente poeta e comunista, não teve problemas  com o encontro entre as culturas. O  envolvimento da cultura da Europa com as da África e Ásia forjou o melhor da história humana  no cruzar do Mar Mediterrâneo. Mas  o colonialismo não era contato cultural. Era brutalidade.

 

Entre a colonização e a civilização existe uma distância infinita:que além  do que as expedições coloniais realizaram, além dos estatutos coloniais que foram baixados, além de todos os memorandos que foram despachados por todos os ministros, não  haveria um único valor humano.

Aimé Césaire, Discurso sobre o colonialismo

 

Césaire foi enfático: o colonialismo não produziu nada que mereça respeito  na balança da história. Isso foi em 1950, quando algumas nações  haviam emergido das cicatrizes do colonialismo e quando muitas sociedades enfrentaram batalhas terríveis para  se livrar do poder colonial.

 

A feiura do poderio  colonial na Índia emergiu em seu fim,  a política cruel do britânicos de arriscar a morte de milhões na Fome de 1943 em Bengala, e a morte de milhões  e milhões  de refugiados na partição de 1947-48.  Também foi  violento, quando consideramos que após séculos de domínio, os britânicos deixaram para trás uma região com taxa de alfabetização de apenas 12%. Historiadores indianos olharam para trás nos registros do domínio britânico da Índia para encontrar medidas  econômicas  e políticas criadas para empobrecer o país em favor  da Grã-Bretanha, com os massivos excessos da Índia sugados para a Grã-Bretanha  para garantir a revolução industrial e construir uma força militar britânica capaz de dominar o extenso Império Britânico. “A Índia é para sangrar” disse o Marquês de Salisbury nos anos 1870. E era.

 

O sub continente indiano não se submeteu a esse “dreno de riqueza” com subserviência. As revoltas  vieram duras e rápidas, desde os primeiros dias  de domínio colonial britânico no século XVIII( como a rebelião de Fakir-Sanyasi em 1770) até os últimos dias de seu domínio nos século XX(como a rebelião de Patri Sarkar  nos anos 1940). Como  resultado de uma dessas rebeliões, entre 1857-58, os britânicos reprimiram com uma brutalidade singular. Um jovem soldado, Edward Vibart, disse que os massacres que ele ajudou a conduzir  no Kucha Chelan de  Delhi, onde 1400 civis foram mortos: “as ordens foram atirar em toda alma. Foi literalmente assassinato.” . “salpicar esses  crioulos” era a frase frequentemente usada nos relatórios britânicos. Isso define a experiência colonial de Jallianwala Bagh(Índia) em 1919 até o massacre de Hola(Quênia) em 1959.

 

Em 1960, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a “Declaração de Garantia da Independência para Países e Povos Coloniais”, que desenhou uma linha vermelha firme na história do colonialismo. A existência continuada do domínio colonial, segundo as nações livres da ONU, “evita o desenvolvimento dos povos dependentes e  milita contra o ideal as Nações Unidas de paz universal”.  Em outras palavras, o colonialismo era uma abominação que precisava ter fim.já que “o processo de libertação é irresistível e irreversível.”

 

Reescrevendo a História
Na última década, vários intelectuais proeminentes  europeus e norte americanos, com habilidades analíticas ruins, produziram trabalhos que buscam derrubar o consenso contra o colonialismo. Parte desses trabalhos- como os produzidos pelo historiador contrafactual Niall Ferguson– estão abertamente enraizados no presente das guerras imperiais americanas e não em uma séria reconsideração o registro histórico. Em seu livro Empire: How Britain Made the Modern World,  Ferguson argumenta que o domínio colonial britânico-brutal aqui e ali, com certeza-deu a lugares como a Índia a democracia parlamentar e a língua inglesa. A Índia, escreve ele, “deve mais o que é  elegante reconhecer ao domínio britânico”.

 

O contexto é a Guerra Americana ao Iraque de 2003, com pessoas como Ferguson insistindo que os Estados Unidos  colonizassem o Iraque e deixassem de lado os valores anticoloniais das Nações Unidas e dos povos do mundo. Quando os livros chegaram a acadêmicos sérios que demonstraram a brutalidade da experiência colonial,  eles foram trucidados por ideólogos ocidentais  sustentados por Ferguson e pela guerra dos EUA no Iraque. Britain’s Gulag: The Brutal End of Empire in Kenya de Caroline Elkin e  Coloniser, exterminer. Sur la guerre et l’État colonial  de Cour Grandmaison enfrentaram  um rígido exame no mundo ocidental por serem  incisivos sobre o passado fascistoide do colonialismo. Agora estava sendo criado espaço para serem levantadas questões que parecia que  haviam sido sanadas  a meio século: que o colonialismo estava como benéfico na balança da história humana.

 

No número atual de Third World Quarterly, um ensaio medíocre surge com o grande título de “O Caso a Favor do Colonialismo”. esse ensaio, de Bruce Gilley, está de acordo com os parâmetros definidos por Ferguson. O ensaio, como muitos demonstraram, viola os protocolos básicos de estudo acadêmico: o autor diminui o trabalho de acadêmicos como Berny Sébe, Alexander De Juan e Jan Pierskalla,, citando seus ensaios para criar argumentos que eles não fazem. A “análise custo-benefício” do autor possui certos indicativos como “melhorias nas condições de vida” e “treinamento para o autogoverno” para mostrar- contra qualquer evidência- que sem o colonialismo a situação na África, Ásia e América Latina seria pior. Se o Índice de alfabetização da Índia era menor em 1947, o autor irá argumentar que seria  ainda menor  se os britânicos não fossem os senhores imperiais da Índia.

 

O ensaio surge na época de Donald Trump, quando a supremacia branca está de volta e a tentação do colonialismo está no horizonte. A ideia de que a centro esquerda, os pós-colonialistas e os marxistas denegriram a “história branca” é um refrão constante para os racistas. Esse ensaio não apenas sugere que a “história branca” do colonialismo foi caluniada, mas que os Europeus deveriam retornar para completar o trabalho. “Talvez os Belgas devam voltar” ao Congo, sugere o autor- uma declaração que desconta os pelo menos 10 milhões de pessoas massacradas em uma década pelo domínio ganancioso do Congo pelo rei belga Leopoldo. O  conceituado trabalho acadêmico que existe agora sobre o Congo inclui Du Sang Sur Les Lianes de Daniel Vangroenweghe  ;L’État Libre du Congo: Paradis Perdu, L’histoire du Congo, 1876-1900 de Jules Marchal; King Leopold’s Ghost: A Story of Greed, Terror and Heroism de  Jean Luc Vellu. Nenhum deles nem seus autores se encaixam no padrão Ferguson. Ele é meticulosamente  cego aos crimes e às graves consequências do colonialismo.

Causa Perdida?

Esse tipo de trabalho já era esperado. São tempos em  que a supremacia branca está de volta. Tempos em que o colonialismo está na agenda desde a guerra dos EUA ao Iraque. Liberais ocidentais como Michael Ignatieff, que fez a defesa do colonialismo na The New York Times Magazine em 5 de janeiro de 2003, abrindo a porta para esse tipo de argumento a favor do colonialismo. Ignatieff argumentou que os EUA carregam o “fardo” de impor ordem a um mundo fratricida. E ele não está sozinho.

 

O mais chocante sobre o ensaio publicado na Third World Quarterly  não é apenas q ele era medíocre; que ele violava os padrões acadêmicos básicos; e que ele foi rejeitado pelo sistema de checagem por pares. Foi que ele apareceu nesse jornal.

 

No fim dos anos 1970, o jornalista paquistanês Altaf Gauhar decidiu, enquanto estava no exílio em Londres, preparar uma série de artigos e relatos para estimular o debate em torno da pauta anti-imperialista do Terceiro Mundo, em seu primeiro número, em janeiro de 1979, o editor providenciou o contexto para esse relato,  defender a liberdade dos estados da África, Ásia e América Latina, ressuscitar a discussão sobre a Nova ordem Econômica internacional(1973) e garantir que a voz do Terceiro Mundo não fosse sufocada. “Nosso objetivo é o Terceiro Mundo: nós vamos falar para ele,  de fato, falar  sua própria voz,” escreveu Gauhar.

 

A razão do jornal, escreveu Gauhar, era encorajar “uma busca de mente aberta e simpática por estabelecer uma ordem internacional baseada em justiça”. Entre as primeiras vozes do jornal estavam Julius Nyerere da Tanzânia, Shridath Ramphal da Guiana, Gamini Corea do Sri Lanka. No quarto numero, Gauhar escreveu, “um grupo e acadêmicos e políticos britânicos  têm propagado a ficção de que os britânicos deixaram para trás todo um campo de instituições democráticas ocidentais, plantadas e  cultivadas sob a prolongada tutela britânica, em que nativos ineptos e rudimentares falharam  em colher.” isso, Escreveu Gauhar, era ficção. As instituições que os britânicos construíram nas colônias “serviam a interesses imperiais, comerciais, assim como estratégicos” e não ao bem estar do povo. Essa era a ética da Third World Quarterly.

 

Com o passar dos anos, as mudanças com certeza chegaram ao jornal. Ela suportou a tempestade quando o principal patrocinador e Gauhar- o Bank of Credit and Commerce International- quebrou após estar sob suspeita de lavagem de dinheiro e outros delitos financeiros. Em parte o jornal foi hábil em se manter superior quando a virada neoliberal de ideias passou pelas academias do mundo, exigindo que o desenvolvimento do serviço público fosse abandonada em prol do crescimento da iniciativa privada. Havia teimosia nesse jornal, um desejo de continuar a falar para os povos do Terceiro mundo ainda que suas elites houvessem tomado uma direção diferente. Shahid Qadir, que assumiu a revista de Altaf Gauhar, foi o capitão nesses tempos difíceis.

 

Eu entrei no corpo editorial do jornal com entusiasmo, com vontade de ajudá-lo a seguir uma nova agenda para os povos do mundo anteriormente colonizado. Foi com tristeza que eu, e outros membros do corpo editorial decidimos renunciar quando a companhia que é dona do Third World Quarterly,  Taylor And Francis, se recusou a se retratar por esse ensaio questionável- questionável já que vai contra os valores do jornal e porque falhou no processo de avaliação por pares. Nossa carta de renúncia pergunta se o jornal vai retomar sua pauta e desenvolver uma agenda para o nosso presente que não é  escolhida por supremacistas brancos e colonialistas. Há muito lugares para eles colocarem suas visões. O Third World Quarterly  tinha uma missão diferente . ele precisa ser fiel a sua história.

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....