Práticas de Auto-Organização na África do Sul: A experiência dos anos 1980 e suas implicações pro Protesto Contemporâneo.

Por Daria Zelenova, Originalmente publicado em Zabalaza.net

A fala que vou apresentar hoje é baseada num projeto de pesquisa que eu levei em frente com meu colega Vladislav Kruchinsky na África do Sul em 2011-2013. O objetivo de nossa pesquisa foi analisar e explorar os métodos e práticas de auto-organização desde baixo que existiram no período crucial da luta antiapartheid nos anos 1980.

A vasta maioria de materiais escritos sobre o periodo de luta é dotada ao papel das grandes, institucionalizadas forças antiapartheid, como o Frente Democrático Unido [UDF], um corpo guarda-chuva para as organizações comunitárias antiapartheid incluindo igrejas e grupos de esporte, que foi formado em 1983. Grande parte também se foca no Congresso Nacional Africano, que é apresentado na narrativa dominante como o CNA como o líder da luta antiapartheid.

Meu objetivo, com Vlad era olhar além das grande organizações e focar nas lutas comunitárias, vista pelas histórias de pessoas comuns. Quando começamos nossa pesquisa, nós entendemos que queríamos informação de primeira mão, dos participantes das lutas. Isso é história social, significa que olha a partir da visão de baixo, com as pessoas entrevistadas elas mesmas sendo participantes ativas nas histórias que contam. Nós conduzimos entrevistas extensas com membros ativos das comunidades, residentes de township[1] daqueles dias. Nós esperamos terminar esse projeto com um livro, que será uma compilação das entrevistas.

História desde baixo

As entrevistas que nós coletamos jogam luz a histórias locais muito importantes da politização e resistência da classe trabalhadora e do povo pobre, contra a desigualdade econômica e a opressão do regime racista do apartheid. Nós aprendemos como residentes comuns da township, não necessariamente ativistas, mas tias comuns, alunos de escola, mães, avós e sindicalistas reivindicando poder do nível de seus quintais, seus blocos, sua rua, suas zonas e eventualmente de toda township. Nós aprendemos como novos espaços baseados numas distribuição relativamente horizontal de poder emergiu e que desafios essa “horizontalidade” enfrentou.

Junto as entrevistas, nós trabalhamos com dois grandes arquivos da África do Sul, que coletaram materiais das lutas dos anos 80. São eles o Wits Historial Papers na Universidade de Witwatersrand e o South African History Archive perto a Corte Constitucional em Johannesburgo. Nós analisamos folhetos, brochuras, atas de reuniões, pôsteres e jornais originais dos anos 80.

Eu vou apresentar alguns desses materiais hoje. A principal questão em nossa pesquisa era: Por que a auto-organização social pela classe trabalhadora e os pobres na África do Sul, baseado nos princípios de distribuição igualitária de poder e frequentemente com uma estrutura bem horizontal ou achatada, se tornou uma ideia que pôde inspirar massas ao redor do país e funcionou como uma prática que ajudou a desmantelar o apartheid?

Eu gostaria de começar com o porque nós focamos nos anos 80. Nós fizemos por duas razões.

Primeiro de tudo os anos 80 foram um período crucial na luta antiapartheid, com resistência de massas combinada com níveis sem precedentes de auto-organização política e social. Esse era o tempo quando “noções de ‘democracia popular’, ‘poder popular’, ‘auto-empoderamento’, ‘democracia de baixo’ foram todos introduzidos como novas idéias e práticas na política sul africana” (nas palavras do veterano da UDF Raymond Suttner, numa entrevista).

Uma analise cuidadosa dos 80 na África do Sul mostra que o desmantelamento do regime do apartheid se tornou possível por causa do processo de resistência se espalhou por todo país, por inumeráveis atos de desobediência local, de boicotes de consumo/transporte/escolas, de greves e piquetes – ou greves gerais comunitárias. Essa resistência dispersa construiu e deu origem a práticas alternativas de autogoverno por pessoas comuns.

Em segundo, uma característica muito importante desse período foi a democratização dos movimentos e o nascimento de uma cultura democrática radical. Isso incluiu mudanças num nível pessoal. Foi nos anos 80 que, pela primeira ver, temas como desigualdade de gênero, liberdade de escolha de um parceiro e violência doméstica foram levantadas abertamente em uma escala ampla e quando se tornou possível se opor abertamente aos “líderes tradicionais” como chefes e reis, algo notado por analistas como Michael Neocosmos.

Um evento importante nessa década foi a criação da UDF como uma estrutura de guarda-chuva capaz de unir um grande número de organizações já existentes por todo país e estimulando mais organização. A UDF foi contestada, mas ao longo do tempo, ela se identificou fortemente com uma visão radical de mudança.

Uma “Democracia Popular”

Uma figura de liderança da UDF Morphe Morobe comentou em uma fala chamada “Em torno de uma democracia Popular” que uma “África do Sul democrática é um dos objetivos ou metas de nossa luta.” Mas ele também deixou claro que democracia também é o meio que nós conduzimos a luta:

A criação de meios democráticos é para nós tão importante como ter metas democráticas como nosso objetivo. Para oferecer modelos de uma futura África do Sul democrática são apresentados que não têm relação com organizações, práticas e tradições existentes de luta política neste país. O que é possível no futuro depende do que possamos criar e sustentar agora. Uma África do Sul democrática não se formará somente após a transferência de poder político para a maioria se realize”.

A UDF esboçou uma visão de democracia muito mais radical do que aquela com a que a África do Sul terminou. Morobe continua “Nosso objetivo democrático… é controlar sob todo aspecto de nossas vidas e não apenas o direito (importante como é) de votar por um governo central todo quatro ou cinco anos”. Ele salienta que “A criação de uma África do Sul democrática” não era algo a se deixar para o futuro, ou entregue de cima; só “pode se tornar realidade com a participação de milhões de sul africanos no processo – um processo que já se iniciou nas townships, fábricas e escolas de nossa terra”, pelos comitês de jardins e ruas, sindicatos, grupos cívicos e estudantis e outras formações que surgiram.

No avançar dos anos 80, essa visão se tornou pratica, tanto nas lutas cotidianas e quando, como nós vamos ver, algumas organizações envolvidas começaram a substituir o Estado no que foi chamado de “órgãos de poder popular”. Em alguns casos, por exemplo, comitês de rua ajudaram a administrar serviços públicos, organizações de juventude criaram parques e o povo criou patrulhas de autodefesa e anticrime.

Sindicatos e Townships

É necessário identificar os dois pré-requisitos mais importantes para o surgimento da UDF. Primeiro, do meio dos anos 70, depois das famosas greves de Durban em 1973, o movimento sindicalista independente estava ganhando uma séria força: greves massivas e lutas nas fábricas tomaram lugar no país, trabalhadores estabeleceram controle democrático de seus sindicatos e criaram comitês de greve. A propagação da cultura democrática e a abordagem organizativa desses sindicatos, especialmente a Federation of South African Trade Unions formado em 1979, tiveram um papel central na mobilização de pessoas comuns e na capacitação do desenvolvimento nos assim chamados “organismos de pode popular” fora do local de trabalho.

Em segundo, nas townships aonde, desde de o fim dos anos 70, haviam condições de declínio socioeconômico no contexto da crise capitalista, houve o surgimento de novas organizações nas formar de comitês de rua e comitês de ação e associações “cívicas”.

Enquanto sindicatos levantavam questões sobre salários, transporte, tratamento racista e assim por diante no trabalho, as novas tarefa das estruturas comunitárias era lutar pelas necessidades dos residentes: moradia decente, alugueis mais baratos, eletricidade, contra despejos, etc. Como nos sindicatos, essas estruturas possibilitaram as pessoas a tomar mais e mais controle sobre suas vidas cotidianas e começar a construir uma estrutura de contrapoder contra o governo – resistindo ao Estado, e algumas vezes depois substituindo algumas de suas funções.

A situação socioeconômica dos residentes das townships era muito difícil. Em condições de desemprego crescente, aumento de preços, educação serviços municipais de baixa qualidade e o subdesenvolvimento das townships, temas como emprego, moradia e serviços eram bastante fortes. Deve ser lembrado que em muitas townships, havia pouco acesso a eletricidade ou água nas casas, os sistemas de esgotos geralmente envolviam banheiros públicos ou o sistema de balde e houve enormes acumulações de casas.

Nessa situação, mulheres e crianças frequentemente tiveram um papel chave nas lutas. Mesmo donas de casa não-politizadas eram facilmente mobilizadas para a luta por mudança local. Um exemplo vem da Associação Civica do Parque Valhalla no Cabo Ocidental para tratar dos despejos. A tia Jane Roberts, que participou desde 1984, nos disse que “começamos a ver o que estava acontecendo com as pessoas nas comunidades, e decidimos como uma comunidade ‘Ok, agora vamos começar a se construir’”. A associação reconectou a água e a eletricidade que foram cortadas pelas autoridades e colocaram as pessoas de volta às casas de que foram despejadas.

Outra ativista, Tia Gertie, ajudou a construir a Associação de Residentes Preocupados de Valhalla, depois que ela foi despejada com a suas três crianças pequenas. Depois que ela teve algum sucesso em combater despejos, ela começou a ajudar outros em sua área. Ela nos contou sua história de envolvimento na luta:

Eu cresci na pobreza e eu morava aqui e ali e ao redor. Enquanto meu pais estava trabalhando, ele não era capaz de cuidar de mim como criança; eu tinha que ir a escola e vivia com uma tia e depois com outra tia e assim por diante; eu viajei por ai quando criança. E na idade de 10-11 eu acho meu pai se casou com outra mulher e… fui viver com a minha madrasta e ela não era carinhosa comigo. Eu cresci sem ninguém que eu poderia ir e dizer, ‘meu [olho] está ferido’, então eu cresci bastante independente…. Então eu me tornei muito independente, fazendo tudo por mim mesmo. E nos anos 80 eu me tornei uma mãe solteira: E dei a luz ao meu filho e não casei; e então uma filha e então outra filha, então eu tinha três crianças. Me tornei uma mãe solteira. E sim, e eu não tinha ninguém para ir: eu tive que encontrar meu próprio jeito, com pouco dinheiro que eu ganhava, eu tive que achar meu jeito. Através disso eu entrei na luta… eu fui despejada pela Cidade do Cabo. Não duas mas três [vezes].Foi assim que me envolvi na organização cívica.”

Ela continuou:

Havia três de nós… Nós chamamos pessoas para o encontro público e nós conversamos com as pessoas dizendo que formaríamos essa organização chamada Residentes Preocupados, nós vamos… ajudar vocês – e quem de vocês está preparado para se juntar a nós?”

Outro entrevistado, Trevor Ngwane, que foi ativo na filial de Jabayu da Associação Cívica de Soweto nos 80, lembra como essa associação funcionava:

.., nos encontrávamos nas casas das pessoas, nós tínhamos um encontro por semana… Nós rotacionávamos, essa vez nessa casa, e dessa vez nessa… Por exemplo nós iríamos fazer um encontro na casa de um padre, por que ele é respeitado, ou na de um professor, ou na casa de um sindicalista. E não havia filiação e os assuntos discutidos eram problemas nas townships, as luzes, falávamos sobre o fim do apartheid, falávamos sobre educação das crianças, ou [sobre levantar fundos pela] morte de alguém e eles não tinham ninguém para enterrar [o corpo].”

O chamado para esses encontros eram frequentemente feitos de porta em porta, encontrando os vizinhos pessoalmente ou escrevendo pequenas notas e deixando elas embaixo da porta da frente da casa.

Comitês e Associações cívicas

As associações cívicas, resumindo, eram associações que lidavam com as preocupações das pessoas. Elas tomaram diferentes formas, mas associação típica tinha um comitê executivo com um presidente, vice-presidente, um secretário e um tesoureiro. Os líderes seriam eleitos frequentemente a cada três anos mas eles podiam ser reeleitos ou revogados de acordo com a demanda da maioria. O dever dos líderes era se reportar as comunidades em que moravam. Um ponto muito importante era que os líderes fossem parte dessa comunidades, enfrentando os mesmo problemas que outros residentes. Como tia Jane coloca “Nós estávamos na comunidade lutando pela comunidade”, então “Nós não podemos [ser] como líderes que dizem a comunidade que queremos isso ou demandamos aquilo… eles estão nos usando e eles nos dizem o que fazer”. Uma cultura de prestação de contas foi revelada em procedimentos durante as reuniões, em relatórios regulares e em comunicação contínua com os residentes.

As funções da presidência eram basicamente aquelas de coordenação, chamar encontros, organização e preparação de campanhas. A ideia de liderança como “servir a comunidade” ia de mãos dadas com a atitude sensível e cuidadosa no entorno do processo de tomada de decisão.

Associações cívicas interagiram de maneiras diferentes com formas de auto-organização mais localizadas como comitês de quarteirão, jardins e ruas. Como as associações, eles eram formados para lidar com problemas específicos, como alugueis altos, eletricidade precária, moradia precária, o sistema de balde e o crime. Em contraste com as associações que tendiam a ser lideradas por pessoas com mais educação formal, fluentes em Inglês ou Africâner, como alguma trajetória polítca, esses comitês locais era centrado em residentes comuns da township, frequentemente sem experiência política ou organizadora e habilidades de facilitação. Omo as associações, esses comitês surgiram no fim dos 70 e se proliferaram nos anos 80.

Em alguns casos, eles eram separados das associações e eram grupos locais mais espontâneos. As associações mais fortes e democráticas, contudo, eram construídas numa fundação sólida de comitês de quintal, quarteirões e ruas. Nesses casos, as associações na verdade consistiam de comitês operando nas comunidades das townships. Um exemplo interessante vem de Belville na periferia da Cidade do Cabo no inicio do anos 80 reportado no jornal Grassroots[Base]:

O povo de Belville percebeu que eles precisam de uma organização forte para lutar por seus direitos. Isso significa que a organização tinha que representar todo mundo em Belville. Então encontros em casas eram realizados em todas as ruas! E as pessoas de cada rua elegeram um representante de rua. Há alguns deveres de um representante de rua: 1. O representante de rua deve saber todos os problemas das pessoas da rua. 2. Eles devem representar as necessidades da rua nos encontros co comitê de representantes. 3.Eles precisam reportar todas reuniões dos comitês representativos para sua rua. 4. O comitê representativo está construindo unidade na área por que ele representa todas as ruas. 5. Os representantes de rua não devem trabalhar sozinhos, mas com a ajuda de todas as pessoas da rua. Então o representante de rua é o link entre o comitê representativo. Desse modo o povo está trabalhando junto para construir uma forte organização”

Então os representantes de rua em Belville entraram para o amplo Comitê de Ação Habitacional das Áreas do Cabo[CAHAC], que cobria um número de bairros e townships e lutava contra más condições de habitação. Se unindo a CAHAC, pessoas podiam partilhar suas experiências e encontrar soluções aos problemas comuns e trabalhar juntos em ações comuns. E através dos comitês de rua, organizados por residentes comuns com delegados mandatados, pessoas comuns podiam controlar a organização cívica.

Outro exemplo notável vem da township Alexandra em Johanesburgo, que era um farol de luta, onde sindicalistas radicais da tradição da FOSATU tiveram um papel importante. Moses Mayekiso, um metalúrgico da FOSATU e líder do Comitê de Ação de Alexandra, explicou como a township foi organizada na metade dos anos 80:

Era uma estrutura piramidal. As pessoas no quintal (porque Alexandra está tão sobrecarregada, há cerca de 4 casas em um quintal, em uma casa, você encontra de 4 a 6 cômodos e em cada um há uma família … são 4 quartos com 8 pessoas cada – compartilhando uma torneira, uma torneira de água no lado de fora, compartilhando um banheiro: você pode imaginar) … se juntaram em um quintal e criaram um comitê de quintal para regular as condições de vida, para que não haja conflito no quintal. Além disso, esse comitê de quintal se junta para criar um comitê de bloco: você coloca muitos quintais … daquela rua e daquela rua e esse é o comitê de bloqueio. Então, do comitê de bloco, haverá um comitê de rua, então comitê de área – até o cívico. As pessoas se uniriam para eleger seu líder, cada rua, levantar a mão democraticamente e as pessoas decidiriam sobre sua liderança.”

Mídia e Educação

As décadas de 70 e 80 também foram uma época de uma imprensa e mídia alternativa vibrante, que forneceu uma alternativa aos jornais de grandes negócios e ao sistema de transmissão administrado pelo governo. Isso ajudou a compartilhar notícias, idéias e políticas. Por exemplo, jornais baseados na comunidade, como Speak e Grassroots, incluíam inúmeras discussões sobre como incluir mais pessoas no processo de tomada de decisão. Grupos de estudo especiais foram lançados por ativistas e líderes comunitários para compartilhar conhecimentos sobre participação popular e organização democrática

Os entrevistados também apontaram outras estruturas que surgiram para organizar pessoas e aumentar suas queixas, às vezes em reuniões nas casas das pessoas, e às vezes em reuniões públicas de massa. Uma dessas experiências foi compartilhada por Bricks Mokolo, ativista da comunidade Orange Farm, que começou a se envolver na luta no final da década de 70.

Em 1985, Bricks foi eleito presidente do Comitê de Crise Educacional dos Pais de Vaal. Os comitês de crise da educação surgiram como uma resposta à crise da educação e atraíram crianças e jovens, bem como os pais – e, sempre que possível, os professores. Deve-se lembrar que este foi um momento de revoltas maciças nas escolas africanas, mestiças e indianas, bem como nas universidades, e que os jovens – incluindo os que abandonaram a escola, os desempregados e aqueles que não estavam estudando – desempenharam um papel maciço papel em comitês e civismo, bem como lutas de educação e nos sindicatos. Os boicotes de classe eram comuns, e os jovens estavam na vanguarda dos confrontos com as autoridades.

Bricks explicou:

Em 1985, Bricks foi eleito presidente do Comitê de Crise Educacional dos Pais de Vaal. Os comitês de crise da educação surgiram como uma resposta à crise da educação e atraíram crianças e jovens, bem como os pais – e, sempre que possível, os professores. Deve-se lembrar que este foi um momento de revoltas maciças nas escolas africanas, mestiças e indianas, bem como nas universidades, e que os jovens – incluindo os que abandonaram a escola, os desempregados e aqueles que não estavam estudando – desempenharam um papel maciço em comitês cívicos, bem como lutas de educação e nos sindicatos. As greves estudantis eram comuns, e os jovens estavam na vanguarda dos confrontos com as autoridades.

Bricks explicou:

… há desafios que a sua comunidade precisa para que você e seu filho – todos – trabalhem juntos. Nós enfrentamos muitos problemas: casas, educação, trabalho. Agora, analisamos os problemas de educação e dissemos que precisamos que os pais se envolvam para apoiar nossos filhos na escola e lutar ou exigir o direito à educação para os nossos filhos, e houve demandas que foram apresentadas. Uma das exigências era educação gratuita e um departamento para educação gratuita para todos, inclusive negros.”

“O Poder Popular” toma conta

As lutas maciças do município de 1984 a 1986 viram um enorme crescimento no poder dos vários órgãos do Poder Popular nas townships – comitês de bloco, quintal e rua; cívicos; grupos de estudantes e jovens; associações de mulheres; estruturas sindicais baseadas em bairros; comitês de crise educacional – e desestabilização maciça do governo local do apartheid. Como Mayekiso observou, um foco em problemas imediatos levou facilmente a um ataque ao sistema como um todo:

As condições que causaram a formação dessas organizações foram questões de pão e manteiga, mas abordar essas questões de pão e manteiga automaticamente leva à política. “Por que as ruas estão sujas? Por que não estamos recebendo casas? ”Então, através dessas questões, as pessoas se politizaram e conscientizaram.”

Organizações efetivas nas township, Mayekiso acrescentou, permitiu ações de protesto extremamente eficazes com alto grau de apoio popular. A formação de fortes órgãos auto-organizados possibilitou a realização de campanhas massivas:

“… No começo, quando as pessoas se encontravam na garagem ou em um espaço aberto no quintal de alguém, e abertamente nas ruas… tinham problemas com a polícia. Mas as pessoas desafiavam e se reuniam. Não apenas a estrutura em si, os comitês, mas as reuniões reais eram os órgãos do Poder Popular, incluindo as próprias estruturas …

As reuniões gerais, em primeiro lugar, é onde a democracia de base pertence, é o poder popular real; Esse é o principal órgão básico do poder popular, portanto, as principais decisões vêm de lá, como os boicotes: a decisão de boicotes surgiria dessas reuniões, das bases. “Não estamos felizes com as passagens de ônibus”… A decisão de protestar e marchar é feita lá. Se os comitês não puderem decidir sozinhos, eles devem enviar a ideia à assembléia geral, se ela for anônima, é anônima ou, às vezes, é votada. Se existe alguém que se opõe, será levado a votação…”

Com o aumento dos protestos, incluindo ataques a representantes do Estado, muitas áreas tornaram-se áreas proibidas para a polícia e, quando o exército foi enviado, enfrentou resistência. As Autoridades Locais Negras[BLAs] impostas pelo governo do apartheid muitas vezes entraram em colapso, enquanto os conselhos nas áreas mestiças e de indianos não tinham credibilidade. Em muitos lugares, órgãos do poder popular deslocaram as BLAs. Em cidades como Port Elizabeth, no Cabo Oriental, observou Suttner em um artigo de 2004, a auto-organização atingiu um pico quando “elementos da comunidade amplamente representativos assumiram o controle de aspectos importantes da vida do município e a fuga de funcionários do governo deixou um vácuo. estruturas preenchidas. ”

Este foi o período em que [comitês de] rua e cívicos começaram a administrar os serviços públicos, quando as organizações de jovens criavam parques e quando os patrulhamento de autodefesa e combate ao crime criados pelo povo substituíram a polícia em muitas áreas. Essa compreensão da luta como autoempoderamento tornou-se central para a propaganda anti-apartheid, e foi articulada em slogans e conceitos como “Poder Popular” ou “Amandla-Ngawethu”. Isso refletia a situação que já estava acontecendo em grande escala. Em 1986, quando órgãos do poder popular já haviam surgido em muitas townships da África do Sul e quando os BLAs estavam em declínio, a liderança exilada do CNA fez seu famoso apelo à “ingovernabilidade” e ao “poder popular”, reconheceu o potencial e as possibilidades da auto-organização e esperava usá-lo para os propósitos do partido.

O fim da Revolta

O Estado do apartheid respondeu às rebeliões com repressão, usando forças extrajudiciais, como vigilantes, esquadrões da morte, mobilização do exército e a expansão da polícia e as forças auxiliares dos regimes da pátria. O segundo estado de sítio em 1986 levou à prisão de mais de 20.000 pessoas e envolveu a maior operação repressiva da história da África do Sul. A violência policial e militar, inclusive na detenção, era comum e, no final de 1986, o Estado suprimiu (ou pelo menos enfraqueceu bastante) muitas organizações comunitárias. A UDF foi severamente restrita em suas operações, e uma série de figuras de de destaque da UDF, bem como ativistas como Mayekiso, foram processados por traição.

Quanto mais intensa for a repressão do Estado, pior será o efeito sobre a capacidade do Poder Popular de ser bem-sucedido. A prisão de muitos dos líderes mais experientes também levou as estruturas de responsabilização a serem minadas e a escalada dos confrontos com as forças de segurança pelos jovens, levando a uma militarização da luta e a um declínio de um envolvimento mais amplo da comunidade.

Mas o estado do apartheid sabia agora que grandes reformas eram necessárias. Esforços foram feitos no final dos anos 80 para levar a cabo reformas destinadas a enfraquecer o movimento de protesto, e chegar ao CNA. Quando o período de transição começou em 1990, a liderança do CNA trabalhou duro para estabelecer sua hegemonia sobre as estruturas comunitárias, juvenis e os sindicatos, com a UDF fechada em 1991, muitos de seus afiliados absorvidos pelas alas do CNA ou em grupos alinhados ao CNA. Quando o CNA chegou ao poder em 1994, os dias do “poder popular” desapareceram, os movimentos dos anos 80 foram cooptados, fechados ou marginalizados. Houve um processo de despolitização e um movimento para se concentrar no poder do Estado, com o estado liderado pelo CNA destinado a “distribuir” aos cidadãos.

Algumas Lições

É importante notar que nem tudo foi perfeito nos anos 80. Houve abusos de poder e importantes desafios às práticas democráticas. Alguns dos [comitês] cívicos não mudaram os líderes: isso é explicado pela dominação de personalidades carismáticas e, às vezes, pelo abuso de posições de liderança. O fato de que a participação em qualquer tipo de organização de resistência corria o risco de ser preso e acusado significava que muitas pessoas não estavam dispostas a correr o risco de participar abertamente.

Os [comitês] cívicos enfrentavam os desafios das desigualdades de gênero e idade: havia um hiato de geração entre os idosos e os líderes das associações cívicas consistia basicamente de jovens, que às vezes impunham sua vontade aos outros. Isso pode incluir o uso da violência. Havia tensões entre civismo e sindicatos, em parte porque os sindicatos queriam garantir sua autonomia e eram cautelosos com práticas antidemocráticas em órgãos afiliados à UDF. O CNA também exerceu uma influência crescente nos bastidores, e os militantes do CNA foram muitas vezes intolerantes com as vozes não-CNA.


No entanto, o período de auto-organização em massa na década de 1980 mostrou as possibilidades de auto-organização e autogestão das pessoas a partir de baixo. Ilustrou o potencial de cooperação entre sindicatos, organizações comunitárias e de outros tipos – juvenis, culturais, esportivos – e níveis de solidariedade sem precedentes. Mostrou projetos de ajuda mútua, que criaram espaços de solidariedade e apoio comunitário: cozinhas de sopa, grupos de costura, creches comunitárias, patrulhamentos contra o crime, unidades de defesa e tribunais populares.

A interpretação radical da democracia merece atenção especial. Nos anos 80, as práticas democráticas, como as reuniões de massa, a responsabilidade dos líderes e dos comitês, eram importantes, e as pessoas também viam o valor da democracia para as lutas.

Hoje, muitos dos princípios da auto-organização dos anos 80, e a própria cultura da democracia radical, participativa e direta, com sua obrigatória e absoluta responsabilidade dos líderes comunitários, com seu amor especial por reuniões longas e abertas, são continuados por alguns movimentos sociais contemporâneos na África do Sul. Acho que esse é o legado dos anos 1980, quando muitas pessoas acreditam que a democracia não é uma idéia abstrata, mas sim uma ferramenta e uma prática que devem ser usadas por toda a comunidade.

[1] Na África do Sul, o termo township geralmente refere-se a áreas urbanas habitadas, muitas vezes subdesenvolvidas que, sob o Apartheid, estavam reservadas aos negros, mulatos, e indianos, a tradução literal é “município” mas mantemos o termo original porque a tradução poderia atrapalhar a situação. [N.T]

Facebook Comments