QUEM TEM MEDO DE COMUNISMO?

O segundo texto da série, “Pílulas de políticas para pessoas não tão politizadas assim”, é sobre comunismo. Em termos didáticos, o ideal seria começar explicando o que é capitalismo, mas não dá. Nós estamos em 2018 e tem gente que tem medo da ameaça comunista no Brasil. Tem tanta gente com medo da ameaça comunista no Brasil, que a maior escória da humanidade foi eleita presidente. Tem gente achando que o PT é comunista, e o Papa, e o Soros, e a Madonna, e a The Economist. Sim, a gente já riu muito disso na internet, e de alguma forma, me parecia que isso fazia parte de um mundo apartado do meu, o mundo dos comentaristas de internet, mas não. Não. As pessoas reais ao meu redor tem medo de comunismo. Uma pessoa que eu conheço bem votou no Bolsonaro porque acha que comunismo é sinônimo de fascismo.

Então eu percebi que a gente precisa falar sobre o que é comunismo. Eu não sei como eu descobri o que era comunismo, nem como eu me tornei uma comunista, de um certo modo é quase como se eu sempre tivesse sido comunista, porque eu não lembro dessa linha de não me enxergar como comunista depois que eu passei a enxergar em algum aspecto o que era sociedade. Quando eu comprei minha primeira camiseta do Che Guevara, aos 13 anos, eu sabia quem era o moço argentino que fez a revolução em Cuba. Eu sabia o que era a Revolução Cubana e que o país vivia sob um regime comunista. Claro, eu não sabia direito sobre a história do comunismo, não sabia como que grupos diferentes se organizam em táticas, estratégias e programas diferentes para atingir a sociedade comunista. Entre a camisa do Che e agora já são 17 anos, já deu muito tempo para descobrir que mesmo ambos sendo comunistas, o Sendero Luminoso e os zapatistas são muito diferentes. Mas, caiu minha ficha que eu não posso medir o mundo com a minha regra, e que talvez tem marmanjo de mais de 60 anos que tem pesadelo com essas quatro sílabas.

Por aqui, como a série sugere, não vamos nos debruçar nessas diferenças. Não vamos entrar em detalhes sobre todas as alianças, revoltas, rachas e teorias acerca do comunismo na história mundial. Não vamos classificar ou categorizar o comunismo, como anarco-comunismo, comunismo soviético e por aí vai. Vamos apenas tentar traçar um conceito amplo, só o suficiente para você entender que, infelizmente, nem em 64 nem agora tem uma ameaça comunista no Brasil.

A primeira coisa que você tem que saber sobre comunismo é que é o oposto de capitalismo. O que não ajuda muito e a gente ainda não falou o que é capitalismo. Talvez você pense que você é capitalista porque tem um celular bom ou um carro do ano. Para simplificar, então, vamos dizer apenas que capitalismo é um sistema produtivo em que há uma divisão entre capital e trabalho. Pessoas que possuem capital (que são as coisas que a gente precisa para fazer mais coisas, em linhas muito gerais) exploram outras pessoas que não tem coisas para produzir coisas, então para poderem sobreviver, que é por meio do consumo de coisas que elas não têm, elas vendem sua força de trabalho. Ou seja, o capitalista, por já ter uma fábrica ou uma fazenda, explora o trabalhador que precisa operar a máquina e plantar, para comprar a roupa e a comida produzida para sobreviver, e o capitalista, porque era dono da máquina e da fazenda, mesmo não tendo trabalhado, fica com a riqueza que a roupa e a comida gerou. Então, o capitalismo é um sistema em que há duas classes de pessoas: as que exploram e as que são exploradas, você, provavelmente, está na segunda categoria.

Por aí, então, podemos compreender o que seria comunismo, em termos gerais e ideais, no comunismo não há separação entre estas duas classes. Não há exploração da força de trabalho de ninguém porque ninguém é dono dos meios de produção, logo, toda a riqueza produzida para o sustento da sociedade deve ser produzida idealmente pelo trabalho de todos (não individualmente de cada um, porque o comunismo não exclui da sociedade os inaptos ao trabalho, como as crianças). Ou seja, a produção é comum, para ser comum é necessário que ninguém monopolize os meios, e que todos contribuam nas medidas de suas possibilidades.

Então, temos os primeiros questionamentos, quem gere o comum? O que é comum? Não há propriedade?

Há quem defenda que a forma pela qual ninguém irá deter os meios de produção é criando um Estado gerido pelo partido do povo, este Estado então seria o “dono” dos meios de produção, protegendo-os de que indivíduos deles se apropriem e distorçam o ideal de vida comum. Mais ou menos, é o que defende o comunismo soviético, mais ou menos é como Cuba gere seus recursos.
Há também quem defenda que não há que haver um Estado, como os anarco-comunistas, uma vez que se o Estado for o detentor dos meios de produção ainda haverá trabalho alienado, pois classe trabalhadora e classe gestora (administrativa, burocrática, institucional) estarão separadas, e mais, parte da riqueza produzida não será devolvida em benefícios ao trabalhador pois será retida para a manutenção do próprio Estado e classe política dominante.

Existe um certo consenso dentro do comunismo que é a abolição da propriedade, e acho que, para além dos mitos em torno da moralidade, é o que mais assusta o cidadão comum. Quando os comunistas estão falando de abolição da propriedade é o fim da propriedade privada, não individual. Eu sei, é uma péssima diferenciação, os conceitos não são nem um pouco excludentes. Mas, o que eu estou tentando dizer é que os comunistas defendem é que ninguém seja dono de 20 apartamentos, para viver da renda de 19 e só morar em um. Ou que seja dono de uma fazendo com 10.000 cabeças de gado. Ou dono de uma montadora de automóveis. E sim, dentre os meios pensados para que isso seja possível, há a defesa do confisco (que é pensada por diferentes grupos de modos diferentes), dentre outros, como também, por exemplo, o fim da herança, ou maior taxação ou limitação do valor da herança.

Basicamente, a ideia é que todo mundo tenha acesso a todos os meios necessários para produção de riqueza e manutenção da própria vida. Isso não quer dizer que os comunistas pensam que você vai estar andando na rua conversando no seu celular, e vai vir um comuna qualquer e tomar ele de você. Ou que você não vai poder pedir para não mexerem na sua gaveta porque é lá que você guarda suas roupas e seu vibrador. Sério, sua camiseta surrada do Nirvana e seu consolo são só seus, pode ficar de boa.
E mais uma vez, há diferenças, há comunistas que pensam ser possível coexistir sistema de propriedades imóveis, por exemplo desde que haja limitação e regulação, então, por exemplo, você poderia ser dono da sua casa, ou porque você a adquiriu, já que seu trabalho é justamente remunerado porque não tem mais ninguém roubando de você, ou porque assim foi distribuído pelo Estado ou comunidade. Há outros comunistas, no entanto, que não vêem sentido na existência de propriedade, uma vez que o fim da vida em comum é a reprodução da vida e maximização de bem-estar, você não precisa ser dono de uma casa para que moradia adequada lhe seja garantida.

Em resumo, comunismo é um modelo de pensamento sobre a produção material da nossa sociedade, em que, por não haver separação entre os detentores dos meios de produção e a disponibilidade da força de trabalho, a riqueza produzida, que é necessária para a existência individual e em sociedade é partilhada de forma justa por todos. Outro nome pelo qual se chama o comunismo é socialismo, ainda que haja dentro da discussão nuances que os diferenciam (há quem diga que um é derivação ou categoria do outro), que são sistemas que se opõem ao capitalismo, visando promover maior bem estar comum ao povo. Ou seja, retirar das mãos dos poucos capitalistas exploradores para socializar os meios de produção e riqueza produzida, visando bem-viver e felicidade à toda sociedade.

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C. Melo

Eu queria ser M.S.