O racismo velado do estado neoliberal.

O racismo velado do estado neoliberal.

 

Com a ascensão do neoliberalismo, o estado- e especialmente, a polícia- desenvolveu novas e sutis articulações de racismo enquanto reforçaram as desigualdades raciais existentes.

 

Por Adam Elliot-Cooper, originalmente publicado na Roar Magazine

 

Baratas, enxame e predadores sexuais- apenas algumas das palavras que têm sido usadas para descrever migrantes na imprensa Britânica. Um aumento de 60 por cento nos crimes  desde o Brexit, principalmente  contra mulheres muçulmanas,  deixou o sentimento que o antirracismo falhou para nós. Combinado  com uma vitória de Trump nos Estados Unidos, a Grã Bretanha  pós-Brexit ecoa os anos 1970, quando grupos fascistas como o National Front  e a violência que eles defendiam era parte da realidade diária para as comunidades negras e sul-asiáticas britânicas.

 

Empurrar a extrema-direita para a periferia do debate político pode causar algum descaso  com a intolerância explícita e  a violência que associamos a eles. Mas instituições estatais, particularmente a política, tem desenvolvido novas formas de articular o racismo. Como o antirracismo ganhou força nos anos 1970, a intolerância explícita se tornou  cada vez mais marginalizada. Mas ao importar ideias dos EUA , um racismo “neo liberalizado” emergiu na Grã Bretanha, onde o estado aplica cada vez mais o velado subliminar enquanto intensifica as desigualdades raciais existentes.

 

Novas formas de articular o racismo

 

Uma forma de reproduzir o racismo neoliberal é pela forma como o crime é descrito. Os Estados Unidos, “muggings”(assaltos) se tornou um termo usado pelo governo e pela polícia para descrever crimes de ruas que eles associaram com jovens negros.  Essa metáfora racial logo se espalhou pela Grã Bretanha. O pânico moral em torno do assaltante negro foi celebremente por Stuart Hall e seus colegas em Policing the Crisis  de 1979. Sua análise mostrou como a imprensa, o governo e a polícia desenvolveram um pânico moral racista em torno de jovens negros em áreas urbanas. Esse pânico moral levou às leis  que permitiam que oficiais parassem qualquer indivíduo que eles suspeitassem que estivesse cometendo um crime.

 

Os poderes conseguidos pela polícia, que não precisava mais de uma suspeita razoável, foram usados desproporcionalmente contra as pessoas negras, e levou às revoltas urbanas na Inglaterra em 1981. Hall e seus colegas demonstraram como a linguagem racista pode ser desviada da intolerância familiar  e direcionada a tipos racializados que  enquadram grupos alvo como desviantes. Isso foi parte do prelúdio à neo liberalização, que  introduzida em um ambiente em que racismo explícito foi enquadrado  como prejudicial À meritocracia do mercado. As distorções nessa Grã Bretanha meritocrática(uma minoria negra) devem ser reprimidas de forma a proteger a liberdade dos outros(a maioria branca)é por essa lógica que o neoliberalismo  foi capaz de se manter simultaneamente comprometido tanto com  o empreendedorismo do chamado Livre-mercado e com o controle racial da era pré-neoliberal.

 

A última transformação desse demônio  popular negro é o gangster,  ele moldou a retórica anticrime do governo e o crescente poder da polícia na Grã Bretanha na última década. Como o tipo racista do assaltante,  ela se intensificou pelo pânico moral comparável àquele  que cerca as gangues nos EUA, onde o termo também foi usado para criminalizar pessoas negras e articular um racismo velado. Este  foi posto em ação logo após os assassinatos de afro-americanos pela polícia, como no caso de Antoine Sterling, que foi identificado como um gangster com ficha criminal pela polícia e pela imprensa.

 

O primeiro-ministro David Cameron declarou uma “guerra total às gangues e a cultura de gangues” no verão de 2011. Os meios de comunicação mostraram imagens de edifícios queimando e jovens mascarados sem parar. No meio do pânico estavam as imagens de Mark Duggan, um homem de ascendência afro-caribenha de Tottenham, no norte de Londres. De acordo com a polícia eles era procurado, estava armado e  era um dos 48 gangsters mais perigosos da Europa. O mês de agosto daquele ano teve a maior incidência de revoltas civis vista em 30 anos na Inglaterra. O resultado foram mais de 2000 prisões foram feitos e um sem número de batidas, Blitz, buscas e outras formas e violência policial e assédio.

 

Em seguida aos distúrbios, tanto o estado quanto os meios da mídia corporativa alertaram o público para uma crise moral. Como resposta aos distúrbios, David Cameron identificou uma “cultura de gangues” contra  a qual estava determinado a declarar guerra. Ainda que esses comentários beligerantes aparentem ser quase quase suaves se comparados à intolerância e ódio racial  que  se tornaram públicos após o Brexit. Enquanto a linguagem de “pragas” e “baratas” era denunciada rotineiramente pela esquerda, os comentários feitos pela polícia e por David Cameron  sobre as “gangues” no verão de 2011 receberam bem menos críticas. Em vez de identificar os negros abertamente, a polícia e o governo usaram uma linguagem mascaradamente racista, um racismo velado, para comunicar uma mensagem racista. Enquanto o Brexit intensificou o racismo na Grã Bretanha atualmente, compreender que os racismos não declarados nas linhas  ocultas das políticas  e retórica neoliberal podem nos oferecer um caminho para prosseguir  no combate tanto ao novo quanto ao velho racismo.

 

As maiores gangues de Londres.

O neoliberalismo se apresentou  simultaneamente como um projeto econômico e um enfraquecimento das desigualdades racializadas por meio da  natureza meritocrática do mercado. A   criação de políticas centristas e conservadoras identificam o crime,particularmente o crime violento, a falta de lares com provedores masculinos, a falta e disciplina e valores morais , e a falta de ética e trabalho como a raiz dos problemas sociais. A tradição conservadora negra tem um base de apoio significativa nos Estados Unidos, de Booker T. Washington a Bill Cosby e Ben Carson.. Da mesma forma, a interseção entre identidade negra e valores conservadores tem tido influência crescente na última década na Grã Bretanha. Enquanto David Cameron foi primeiro-ministro, seu conselheiro sobre juventude e crime, Shaun Bailey, escreveu:

“Uma cultura de dependência domina a classe operária. A primeira onda de migrantes das Índias Ocidentais nunca tiveram isso,  eles cuidavam de si mesmos. Minha mãe sabia que ela não podia lidar comigo e o meu irmão quando nós éramos adolescentes. Mas ao contrário de outras pessoas ela nunca agiu como se a culpa fosse da sociedade”

 

Essa lógica e trabalho duro e meritocracia está associada com uma necessidade de um estado mais controlador. Bailey chega a afirmar:”  no momento a prisão é um benefício porque é legal e tediosa. Ela encoraja as pessoas a serem preguiçosas”.  É nesse clima de retórica neoliberal

Que a segurança estatal se tornou  cada vez mais punitiva. Na metade dos anos 1970, a população carcerária da Inglaterra e de Gales era de cerca de 40.000 pessoas, mas em 2016 esse número mais que dobrou, chegando a 85.000. Conservadores negros como Bailey ajudaram a legitimar não apenas o policiamento e o aprisionamento das comunidades de classe operária, mas também diminuem a proporção do impacto dessa securitização neoliberal sobre as comunidades negras.

 

É plenamente aceito que pessoas Africanas e Afro-Caribenhas são desproporcionalmente paradas e revistadas pela polícia na Grã Bretanha.  Os dados existentes mostram que em 2009-2010 pessoas negras na Grã Bretanha foram paradas 6,3 mais vezes que as pessoas brancas, pessoas brancas identificadas como asiáticas foram paradas e revistadas 2,5 mais vezes que os brancos. Mas não termina aí: quando encontradas em posse de drogas de uso criminalizado, pessoas negras são seis vezes mais propensas a ser presas que suas contrapartes bancas, e se encontradas com Cannabis, pessoas negras são cinco vezes mais propensas a ser processadas que as pessoas brancas.

 

Pessoas negras também estão quatro vezes mais sujeitas a serem levadas a julgamento que as pessoas brancas se encontradas em posse de drogas; mais  sujeitas a ser condenadas que as pessoas brancas; e cinco vezes mais sujeitos que os brancos a ser levados em custódia imediata. Essa desproporção se estende a outros delitos também, sendo que as pessoas negras estão 38 por cento mais sujeitas que  as pessoas brancas a ser sentenciadas a prisão por perturbação da ordem ou posse de arma, com essa acusação aumentando em 44 por cento nas ofensas de trânsito.

 

Esses padrões de policiamento e de sentenças são evidências do racismo institucional,  assim como o funcionamento normal dessas instituições produz resultados racistas(que possivelmente não são intencionais). Não surpreendentemente, esse padrão de  injustiça racial  se reflete nas taxas de encarceramento. Os números da  Comissão de Igualdade e Direitos Humanos apontam que a população afro-caribenha é 2,8 % da população do Reino Unido, mas é 10 por cento da sua população carcerária. A polícia na Inglaterra e em Gales também tem uma base de dados  de DNA de todos que ela mantém sob custódia, incluindo aqueles que forem eventualmente  absolvidos e até daqueles  presos por engano. Aproximadamente 10% dos homens brancos na Grã Bretanha estão nessa base de dados, mas esses números sobem para 30% dos negros britânicos.

 

Em 2014, só 1% dos cerca de 8000 queixas de racismo contra a polícia na Inglaterra e em Gales  foram mantidas. Um ano depois, a Polícia Metropolitana de Londres falhou em manter uma única  queixa de racismo, dizendo que essas críticas são geralmente “um simples  mal entendido ou comunicação ruim”.  Relatórios do Instituto de Relações Raciais e Inquéritos descobriu que  69 pessoas de minorias raciais foram assassinadas no Reino Unido pelo Estado Britânico entre 2002 e 2012, 18% do total de assassinados, apesar de constituírem apenas 7 a 13 % da população britânica no período.

 

A Polícia Metropolitana introduziu uma quantidade e unidades de “gangue” como o “Trident Gang Crime Command”, que focou “primeiro no porte de armas e homicídio na comunidade negra” e que foi responsável por organizar o assassinato de Mark Duggan em 2011. Reuniões na prefeitura de Londres discutiram a necessidade de novas abordagens, armas e forças para reprimir aqueles identificados como membros de gangues. Um exemplo de defesa essa política foi a criação de um fundo de $ 1 milhão para prover, entre outros poderes de polícia e  judiciais aumentados, “promotores dedicados à processar gangues” de maneira a garantir que esses acusados fossem  mais propensos a receber uma condenação.

 

Um estudo recente descobriu que, enquanto  81% das pessoas identificadas como membros de gangue em Londres são negras, só 6 % dos casos graves de delinquência juvenil(crimes geralmente associados com gangues) na  capital são praticados por pessoas negras. Em Manchester, no norte da Inglaterra, o padrão é similar: 72% dos identificados como membros de gangues  são negros, ainda que eles constituam só 27% dos envolvidos em delinquência juvenil grave. Esses dados da polícia mostram que, em vez dos membros e gangues serem identificados pelos crimes que cometeram, a correlação mais frequente é a de raça.

 

A imprensa na capital da Grã Bretanha foi um aliado chave ao reproduzir o pânico moral em torno das “gangues”. Como parte de sua campanha  contra “as gangues de Londres”, o jornal London Evening Standard  lançou uma série de manchetes dizendo:” guerra por território entre as 250 gangues de Londres respondem por  metade de todos os feridos a bala e um quinto dos esfaqueados e alimentou essa epidemia de violência”. Essas histórias sensacionalistas foram publicadas tanto pela polícia quando pela imprensa na mesma semana do inquérito sobre o assassinato do suposto gangster Mark Duggan.

 

No fim, parece que  não haviam crimes ligando Mark Duggan a alguma gangue. Ele não tinha ficha criminal, e estava desarmado quando foi atingido na cabeça assim que saiu de um minicab. Uma arma foi encontrada a 4 metros do seu corpo, e  nem as digitais de Duggan nem seu DNA nela, e nenhuma testemunha (incluindo a policia) pode explicar como ela chegou ali. Apesar disso, o assassinato de Duggan foi considerado legítimo por um júri em 2014- uma conclusão, sem dúvida, mais moldada pelo pânico moral do gângster do que pelas evidências apresentadas na corte.

 

Surrado com um objeto sem corte

 

A Operação Blunt 2 foi uma operação policial que aconteceu em Londres entre Maio de 2008 e Abril de 2011. Ela foi planejada para combater a violência das “gangues” associada com crimes com armas de fogo e armas brancas na capital. A principal força usada pela polícia nessa operação se chama Parágrafo  60 da Lei de Justiça criminal e Ordem Pública de 1994-uma força  para manter a ordem pública. A força  foi originalmente introduzido para policiar partidas de futebol, onde a polícia acreditava que havia uma grande possibilidade de violência. Ela permitiu  que a polícia designasse uma área geográfica, como um estádio de futebol e seus arredores, como uma área em que eles poderiam parar e revistar qualquer indivíduo, sem exigir uma suspeita razoável. Os poderes podem então ser  estendidos a outros contextos que a polícia identificar como propensos a desordem e violência.

 

Em 2008, a Polícia Metropolitana dividiu Londres em três categorias: nível 2, nível 2 e nível 3. O nível 1 representava os bairros em que a inteligência policial indicava a maior possibilidade de crime com armas de fogo e armas brancas(e não os bairros com os maiores níveis reais desse tipo e crime). As blitz da seção 60 foram dramaticamente aumentadas nessas áreas por pelos três anos em que a Operação Blunt 2  aconteceu. No  nível 2  , os bairros  que foram considerados de menor risco, onde as blitzes da seção 60 foram levemente aumentadas. E no nível 3 os bairros que foram  identificados como  sem ameaças reais, e as blitz da Seção 60 e as revistas não serão intensificadas nessas áreas. A imagem 1 dá uma ideia de quanto o uso da seção 60 aumentou no decorrer da operação.

 

Em um ano , a Polícia Metropolitana estava celebrando o sucesso da campanha, identificando uma diminuição de 11% nos crimes com armas de fogo e armas brancas na capital. O comandante responsável pela operação comentou:

 

“Nós miramos lugares perigosos onde crimes com armas brancas eram predominantes e jovem eram os mais envolvidos. As blitz ajudaram a criar o ambiente onde carregar facas é menos comum que quando começamos. As apreensões são substancialmente baixas apesar da manutenção do alto nível de atividade. Os oficiais executaram 287898 blitz desde maio do ano passado.”

 

Entretanto, o sistema e níveis empregado pela Polícia Metropolitana nos permite olhar mais de perto para a “efetividade” a Operação Blunt 2, comparando áreas diferentes. Enquanto é verdade que os crimes com armas de fogo e armas brancas em Londres diminuíram 11%, os crimes violentos em todos os níveis, incluindo s as áreas com menor ou nenhum aumento das blitz da seção 60. Uma análise da operação por inteiro, levada adiante pela HMRC descobriu isso:

 

“Uma diferença condicional na análise regressiva descobriu que não houve nenhuma           redução dos crimes em 11 tipos de delitos a partir do aumento nas buscas por armas, quando comparamos os bairros com os maiores aumentos nas blitz  com aqueles que tiveram aumentos menores(veja a figura 2)”

 

De fato parece haver um pequeno aumento nos roubos envolvendo facas no período de três anos em que a Operação Blunt 2 esteve ativa, como mostrado na figura 3. É claro que isso quer dizer que as blitz da Seção 60 levaram a um aumento nos crimes violentos, mas o que nós certamente podemos dizer é que esses poderes policiais não tem efeito positivo sobre os roubos envolvendo armas brancas. Ainda existe outro ponto vital que deve ser colocado sobre a Operação Blunt 2. Ela aconteceu durante 3 anos levando tumultos de Agosto de 2011, diminuindo três meses após os tumultos. Enquanto o assassinato e Mark Duggan acendeu uma revolta inicial,  entrevistas com aqueles envolvidos nos tumultos citaram o abuso policial como o motivo chave para participar das revoltas que se espalharam por toda a Inglaterra por quatro dias. Então, a Operação Blunt 2 deve ser entendida como como precursora a violência e 2011, assim como as leis  “sus” de 1981 levaram aos levantes daquele ano.


A urgência de uma resistência transnacional

Enquanto a bomba atômica do Brexit e da eleição de Trump foram vistas como o ressurgimento do racismo  obsceno que muito tinham deixado pra trás depois dos anos 1970, com crimes de ódio nas ruas, insultos na imprensa e a imigração dominando o debate político, é vital que não percamos de vista os novos, mais sutis. Racismos neoliberais, que estão conosco desde os anos 1980-dos dois lados do Atlântico. Por sorte, não são apenas as novas articulações do racismo que tem conexões transatlânticas: expressões da resistência antirracista nos Estados Unidos também tem ganhado aceitação na Grã Bretanha. O slogan ”Black Lifes  Matter”(Vidas negras importam) ecoa pelas marchas contra a violência policial, campanhas das pessoas negras por justiça e muitas seções do BLM tem surgido pela Grã Bretanha.

 

Uma rede de coletivos militantes buscam aumentar as ações já existentes, de projetos de monitoramento comunitário da policia, ações judiciais e marchas, até vídeos virais, subversão e ação direta. Em 2014, 76 pessoas foram presas em uma ação direta que fechou o maior shopping de Londres algumas semanas antes do natal.  nas ações seguintes de solidariedade com os imigrantes nas três cidades em 2016, ao parar o transito, um grupo de militantes enfrentou a prisão, processos e um possível encarceramento. Essas ações diretas não desafiaram apenas a violência racial produzida pelo neoliberalismo, mas também interrompeu esses fluxos de capital, grupos como o Black Lives Matter enfrentam várias formas do poder exercido pelo neoliberalismo e pela nova onda de racismo anti-imigrante, anti-muçulmano e nacionalista que  tem marcado o fim de  2016.

 

Ainda que hajam muitas diferenças entre as formas de racismo nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, também existem paralelos consistentes entre o antigo centro do império e sua mais bem sucedida colônia de povoamento.  Assim como um momento político definido pelo  Brexit e por Trump   misturadas violência racial neoliberal já são base nessas duas nações, tornam  a resistência coordenada mais urgente.

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....