Raqqa está prestes a ser libertada das mãos do ISIS

As Forças Democráticas Sírias (SDF), frente militar composta por curdos, árabes, yazids, assírios, turcomenos e outras etnias liderada pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG) e Unidades de Proteção Feminina (YPJ), que são os exércitos curdos da Síria, estão prestes a expulsarem por completo os jihadistas de Raqqa, a então autoplocamada capital do califado do ISIS. Neste domingo, 15 de outubro, o YPG publicou uma declaração em seu site oficial anunciando a fase final da campanha de libertação de Raqqa.

Lançada em novembro de 2016 e com o apoio da Coalizão Internacional, liderada pelos EUA, a “Operação Fúria de Eufrates” está bem próxima de atingir o seu objetivo principal, uma vez que restam pouco mais de 10% do território da cidade sob o controle do ISIS. Os curdos estimam que nessa semana a cidade será completamente libertada.

Lançamento da Operação Fúria de Eufrates, com o objetivo de libertar a cidade de Raqqa

Com cerca de 40 mil combatentes, as SDF executaram essa operação militar dividindo-a em 5 fases, as quais previam um isolamento da cidade de territórios ao norte, isolamento da cidade dos territórios ao oeste, isolamento da cidade ao leste, a captura da importante cidade de Tabqa e, por fim, o assalto à própria cidade de Raqqa, que deu início em junho de 2017.

Detalhamento da operação Ira de Eufrates até a captura da cidade de Raqqa

Dentre as cidades e regiões mais importantes recapturadas nessa operação, destacam-se Jabar, a estrada que liga Raqqa de Deir EzZor e Tabqa. Jabar porque era o maior centro de fornecimento e armazenamento de armas e munições do ISIS na região noroeste do país; a estrada, porque rompeu a ligação da capital do ISIS com outra cidade importantíssima para os jihadistas, Deir EzZor; e Tabqa, porque é uma das maiores cidades do país e por abrigar a maior barragem da Síria, instalada no Rio Eufrates.

Mulheres curdas brincam com crianças na cidade de Tabqa

De Kobani, em 2014, a Raqqa, em 2017

O avanço dos curdos contra o ISIS deu-se de forma dramática e por uma questão de sobrevivência. Em 2014, o Estado Islâmico estava nas cercanias de Kobani, uma das cidades mais importantes de Rojava (norte da Síria), prestes a tomarem o controle das mãos dos curdos. Mas heroicamente os curdos resistiram e expulsaram os jihadistas da cidade, e, desde então, os curdos estipularam como objetivo a eliminação do ISIS de Rojava e de toda a Síria.

 

Mapa da Síria em outubro de 2014 e outubro de 2017: contra-ataque curdo foi fulminante contra o ISIS
Situação da cidade de Raqqa em 15 de outubro de 2017

O Confederalismo Democrático

No curso dessas operações militares contra o ISIS, as SDF também promovem uma revolução social nos territórios libertados aplicando o Confederalismo Democrático, que é o programa político concebido pelos curdos e que prevê o direito a autodeterminação dos povos, das cidades e dos vilarejos libertados, construindo conselhos populares de base para que, coletiva e democraticamente, o povo decida sobre suas questões políticas, sociais, econômicas, militares e de defesa. A política do Confederalismo Democrático prevê ainda paridade de gênero e de etnia nas delegações e representações elegidas nesses conselhos de base, sendo ancorada por princípios feministas, socialistas e ecológicos.

Atualmente, milhares de pessoas vivem e constróem o Confederalismo Democrático na Síria. Mulheres e homens resgatados das mãos do violentíssimo conservadorismo de extrema-direita islâmico somam-se às unidades militares e aos conselhos civis da revolução, forjando aquela que tem sido uma das experiências revolucionárias mais importantes do século XXI.

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P.A Gatti

Interessado no Oriente Médio e na questão curda em especial, posto eventualmente no Coyote sobre esses e outros assuntos políticos.