Em Resposta aos Ataques do Ex-coordenador do MBL à UFPR Litoral.

Inicio meu texto com um questionamento que já havia feito em meu primeiro artigo nas entranhas deste El Coyote:

Não lhe parece estranho, que pessoas que se autodenominam “defensores da liberdade” não estejam de acordo com uma escola livre, universal, gratuita, com autonomia de professores e alunos e que, em contrapartida, defendam uma regulamentação do estado (por força de lei) sobre a liberdade de professores em sala de aula?

Pois bem, esta semana o ex-coordenador do MBL no Paraná e filiado ao PSC  Eder Borges, esteve onde eu estudo, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Matinhos, dentro de uma exposição de trabalhos realizados por alunos do curso de artes que, no momento em que escrevo este texto na biblioteca, ainda está instalada no Hall do auditório.

Levado por um aluno da UFPR chamado Mauricio Dvorak, Eder passeou pelo campus, sem ser incomodado, mostrando alguns escritos que estão nas paredes, com diversas frases de efeito e poemas contra o racismo, contra o atual presidente Michel Temer entre outras frases, que são, em sua maioria, contra o sistema vigente e em favor do que eu creio ser uma sociedade plural e mais justa, mas que parecem incomodar bastante Borges, a ponto de faze-lo clamar pelo indefensável “Escola Sem Partido”, sobre o qual prometo tratar detalhadamente em um próximo texto. Mas que reitero aqui se tratar de uma regulamentação que busca impedir o professor de criticar a ideologia dominante.  Essa questão e a alta visibilidade do vídeo na pagina do militante do Partido Social Cristão me fez pensar que não poderia deixa-lo sem uma resposta adequada, então vamos lá.

 

Extra! Extra! Grupo encabeçado por Eder Borges, defensor do Escola SEM PARTIDO , articula no Paraná a pré-candidatura de Bolsonaro! Veja aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na verdade Eder  Borges não faz nenhuma critica bem elaborada e o vídeo não passa de uma série de clichês e repetições de termos como “feminazi”, “esquerdista”, entre outros. Mas, além disso, ele diz que o local  “deveria ser uma instituição de ensino”. Sendo assim, em primeiro lugar, posso afirmar com entusiasmo, que ali funciona sim uma instituição de ensino e que este campus chamado pelo senhor Eder Borges pejorativamente de “Favelão” e o setor o qual pertence,  é uma esperança de construção de uma nova educação em meio a uma maioria esmagadora de universidades tradicionais e de escolas capengas que clamam por mudanças drásticas em nosso país. Este entusiasmo pelo projeto político-pedagógico que é realizado no setor litoral não vem apenas de alunos e professores da própria UFPR, mas também de fora da Universidade. O educador português José Pacheco, idealizador da inovadora escola da Ponte e colaborador do projeto Ancora afirmou durante a última Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação (Conane) que a UFPR Litoral é um dos poucos sopros de inovação na educação em atividade no Brasil hoje. Tive a oportunidade de ouvir o mesmo por parte do argentino Simon Martines da REEVO (La Red de Educación Alternativa) movimento responsável pelo elogiadíssimo documentário  “A Educação Proibida“, de 2012, que está disponível gratuitamente via You Tube  e que é obrigatório aos que questionam o atual modelo de educação perpretado dentro da escola convencional e aos que buscam por alternativas realmente libertadoras.

 

Em especial o setor litoral da UFPR destaca-se por sua formação, que ocorre em três diferentes espaços que dialogam entre si. Diferente de outras universidades em que a interação é limitada ao professor escrevendo de costas para os alunos um conteúdo que, ao final de um semestre,  será cobrado em uma prova, a UFPR litoral trabalha não apenas com a explanação de conteúdos, mas com a emancipação dos alunos, com a realização de projetos e com uma interação que vai para além do curso escolhido.  Podemos começar a definir estes espaços pelos fundamentos teórico práticos (FTP’s) compostos por módulos (que eu chamo de matérias mesmo, por costume) em que “os estudantes são preparados para a pesquisa científica de caráter interdisciplinar e multidisciplinar, além de terem acesso à formação filosófica, política e humana, para se tornarem capazes de atuar em situações concretas na sociedade globalizada”[1]. Estes FTP’s são complementados pelas ICH’s (sigla para Interações Culturais e Humanísticas) que, em resumo,  são encontros de estudantes de cursos diferentes, e em fases diferentes de seus cursos, que interagem entre si, no mesmo espaço, sobre a curadoria de um mediador,  buscando aprender ou discutir um assunto que seja do interesse de todos os participantes e que não necessariamente seja algo relacionado ao curso. Durante a existência da UFPR litoral já foram realizados ICH’s com temas como dança, xadrez, educação popular, melicultura, commedia dell’art, gastronomia, astronomia, entre outros.

Eder Borges pode me perguntar neste momento: “mas o que interessa para a formação universitária de um professor ou estudante de serviço social, ou administrador público aprender gastronomia ou a um cientista aprender teatro?” Peço licença agora  para explicar ao senhor Eder, que provavelmente é um idólatra do capitalismo e fã de donos de empresa, através do exemplo de um empresário famoso,  a importância deste tipo de atividade. O empresário é Steve Jobs, que  em meados dos anos 1970  desistiu da licenciatura na Universidade de Reed e se matriculou em um curso de caligrafia. A importância disso? Palavras do próprio Jobs em seu discurso mais conhecido, aos formandos de Stanford:

“Se nunca tivesse entrado naquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido aquelas fontes tipográficas ou as letras proporcionalmente espaçadas (…)

e os computadores pessoais poderiam não ter a tipografia bela que têm”.

Acho deu para entender…

Já os PA’s, o último dos eixos do projeto pedagógico da UFPR litoral, é  um projeto que os alunos apresentam ao final do curso, como um trabalho de conclusão curso (TCC), a diferença é que cada estudante constrói seu Projeto de Aprendizagem (PA), desde o primeiro ano de ingresso na Universidade, desenvolvendo auto-organização e maior produtividade, alguns destes projetos são aplicáveis na comunidade e interessam a população local. Você pode conferir aqui a lista com o nome de alguns dos projetos que estão  em curso. Portanto, por mais que a ideia  de projeto pedagógico inovador seja recente, a UFPR litoral é uma tentativa de fazer algo diferente, de  mudar algo na educação, formando também professores que veem a escola de uma forma diferente, e por isso merece nosso total apoio.

Um dos escritos na parede que pode ter incomodado Eder  Borges.

 

Ah, preciso explanar um pouco sobre a exposição “mostrada” (as aspas são porque não foi apresentada em sua totalidade) no vídeo do ex-coordenador do MBL.  Assim foi definida por seus autores :

“uma produção coletiva da turma de Artes 2013. Traz como título 99%, devido ao fato de esta, ter sido planejada e produzida pela turma de formandos que já se encontram em reta final de sua graduação; levando a refletirmos sobre conhecimento, uma vez que se conclui uma graduação não o faz chegar a plenitude do conhecimento […]. Conta com obras pensadas e produzidas pelos alunos, tendo suportes variados, apresentando suas práticas e poéticas que, em uma exposição, abrem as portas para que o visitante possa conhecer também um pouco da essência de cada um“.

De fato, eu estive nesta exposição e vi esculturas, pinturas, fotografias, e várias expressões de arte que revelam a essência de cada autor. Nem todas as obras abordavam o feminismo,  mas talvez não tenham sido mostradas porque não causariam o mesmo efeito que a exibida por Eder e seus partidários no vídeo, em resumo se tratava de um papel pardo em que estava escrito com tinta preta e vermelha “o sangue que escorre da minha buceta” cercado de um monte de paginas arrancadas de uma agenda com frases tipicamente machistas relacionadas ao assédio e aos papeis tipicamente atribuídos a mulher na sociedade “não vai ser completa se não casar e ter filhos”, por exemplo.  É interessante como uma coisa aparentemente simples levantou algumas questões interessantes como “o que é arte afinal?”  Arte, segundo o dicionário Houaiss é a “produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a conscientização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana”. O autor da obra Mau Silva, se apresentou no facebook do próprio Eder, assumindo que a obra é sim feminista e uma critica ao machismo, resultado de uma performance do autor também como ator. Não pude ver esta performance, mas acho a temática valida e que, talvez, ao chocar alguém que vai contra as intenções dele como artista (uma pessoa favorável ao machismo ou que acha que o machismo não existe), ele tenha alcançado um objetivo que deve ser o objetivo de um artista, o susto.

Termino este pequeno texto, com um trecho  da nota que a própria UFPR Litoral emitiu a respeito deste acontecimento:

A universidade é uma instituição milenar que sempre ocupou papel central no desenvolvimento das nações. Nos períodos de obscurantismo e autoritarismo, ela foi o refúgio do pensamento livre, da vanguarda da criação artística e intelectual, da tolerância, da diversidade e do conhecimento científico. É um patrimônio de toda humanidade, essencial para seu progresso.

 

 

[1] As aspas são porque tirei a frase do site da própria UFPR.

 

 

 

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