Se renunciou a Revolução? (entrevista com Cipriano Mera)

Originalmente publicada na Revista Presença de París, Nº6 de Novembro-Dezembro de 1966.

Extraída da edição digital da Fundação Andreu Nin, Junho 2006

Cipriano Mera era pedreiro, começou a trabalhar aos 11 anos. Militou na CNT, da qual foi secretário do sindicato da construção Civil em 1931. em dezembro de 1933 se reuniu a Buenaventura Durruti para fundar o Comitê revolucionário de Zaragoza. Como consequência foi preso e levado para a prisão de Burgos. Foi um conhecido anarcosindicalista espanhol que participou de forma relevante na Guerra Civil Espanhola.

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Revista Presencia: Você acredita que em Julho de 1936 o Movimento Libertário estava preparado para a Revolução? Ou, pelo contrário, estima que o levantamento o pegou desprevenido?

Cipriano Mera: Estou firmemente convencido de que não estava em condições de afrontar um acontecimento dessa envergadura. Naqueles tempos, a CNT não dispunha dos quadros sólidos que requeria a situação. Durante meio século a CNT criou uma organização que respondia cada dia mais ao conceito sindicalista revolucionário e com vocação libertária da AIT, e nesse quesito se comportou maravilhosamente, arrancando do capitalismo espanhol vantagens morais e materiais que sem um método de ação direta não haveria obtido… Contudo, apesar das críticas de internos e externos que tenha podido suscitar a organização confederal, não cabe dúvida de que criou um estado de opinião que se identificou com as aspirações do povo e que este, por sua vez, soube interpretar o sentir da CNT.

– Como explica que um movimento sindicalista libertário, com tão longa experiência de luta, não dispunha de uma organização, de uns quadros, de uma doutrina coerente, capazes de triunfar a revolução?

– Porque a CNT se consagrou a esse trabalho reivindicativo, que era o combate de todos os homens e de todos os dias. E porque, governo trás govenro, de conluio com as oligarquias espanholas, se dedicavam a destruir e por fora da lei a todo o movimento anarco-sindicalista, mantendo seus melhores militantes em cadeias e presídios, obrigando que a CNT se desenvolvesse clandestinamente. Era isso que impedia todo o trabalho construtivo de longo alcance.

-Acredita que quando chegou o momento de edificar uma sociedade de viés libertário faltaram as energias?

-Não era tudo nem era só um problema de energia o que a luta nos colocou em suas primeiras horas: em algumas regiões a organização se encontrava em condições para levar a cabo a tarefa revolucionária de viés libertário.

-Que regiões eram essas, segundo você?

-Em primeiro lugar, Catalunha. Catalunha era, de longe, a mais numerosa em homens, a mais rica em militante. Em um grau menor, Astúrias, Aragão e Andaluzia.

Agora bem, de face a essa etapa revolucionária, dispunha Catalunha, ademais desses quadros e esses militantes, de uma doutrina e de uma estratégia revolucionária coerente?

-Ponho em dúvida: e ponho em dúvida por ser precisamente Catalunha a primeira região em que se da um ato de colaboração governamental. Ao decidir participar na responsabilidade do governo da Generalidad, Catalunha se desvia da verdadeira revolução social.

Acredita que essa atitude colaboracionista dos companheiros de Catalunha foi determinante, que influenciou na atitude das outras regiões?

-Acredito que aquele foi o fato consumado. Eu lembro perfeitamente; estavamos no frente quando se convocou uma reunião para nos comunicar a decisão de colaborar no governo; muitos de nós estávamos contra.

-Nos primeiros dias da guerra, como surgiu, por exemplo, o acordo de mandar uma delegação da CNT para discutir com o Presidente da Generalidad da Catalunha, Companys?

-Não sei, porque não se contou com as regionais. Reunidos na regional do Centro, para escutar o informe de dois militantes destacados, vários companheiros se manifestaram contra esse acordo por considerar que era uma fraqueza. Opinávamos que a CNT não tinha porque aceitar a colaboração, como não tinha porque aceitar a militarização.

-Qual foi nessa reunião o sentir majoritário?

-A atitude majoritária foi de assentimento mudo, resignado e como fatal ante uma realidade que já dominava um estado de coisas que não se havia previsto. Não houve polêmica ou desconformidade categórica.

-Sua participação no frente te permitia responder a seguinte pergunta: respondiam as milícias enquadradas na CNT a um planejamento revolucionário da luta?

-As milícias responderam a uma improvisação criada pela necessidade de apertar o passo ante o fascismo, sem que houvesse uma verdadeira organização de guerrilhas. Naquele momento, quando eu vivia essa experiência, estava convencido que as milícias confederais podiam levar a cabo a luta revolucionária. De fato, tinham uma força mais convincente, mais moral, que a de qualquer exército clássico: respondiam a uma autodisciplina que o individuo acordava com a coletividade, Somente com o correr dos dias, essas autodisciplina que confrontada com a vida do frente, a dura realidade da guerra, faziam que, com frequência, o instinto de conservação fosse mais forte. Esta foi uma das razões pelas quais se aceitou a organização militar das milícias.

Acredita, por tanto, que em uma guerra revolucionária a palavra disciplina não deve ser oposta com a palavra revolução?

-Se umas milícias obedecem a uma doutrina e a uns objetivos revolucionários, não nos deve assustar a palavra disciplina. Falarei de minha experiência própria. O dia 19 de julho dede o momento que sou retirado da prisão de Madrid, eu vou ao campo, não a cidade. Entendia, de fato, que o inimigo que tínhamos em frente se devia combater no campo. Organizaram-se grupos que, depois, se converteram em milícias… Tudo se deixava mercê da autodisciplina: criamos, realmente, que o converteu pessoal entre homens era superior a disciplina imposta. Mas nos primeiros combates de Madrid se comprovou, em varias ocasiões, que esse contrato moral não era suficiente. Por isso afirmo que, em pleno período revolucionário, as milícias devem aceitar uma disciplina livremente consentida, deve preservar o caudal mais rico do homem e seu povo: sua integridade individual e as formas revolucionárias.

Se pensou na oportunidade de impor a guerra de guerrilhas?

-Se pensou nas guerrilhas. A primeira tática de combate se emprega em Guadalajara, por exemplo, foi a tática guerrilheira: se rende o inimigo, se avança; se chega até Alcolea Del Pinar com animo de se introduzir no campo inimigo. Mas já em Paredes de Buitrago nos comandava um militar profissional, o tenente coronel del Rosal, o qual nos indicava os objetivos a tomar; os tomávamos, mas nós entendíamos que atrás daquele objetivo havia outro a alcançar. E o tenente coronel del Rosal acreditava que esse método era um exagero. E como ele, acreditavam outros companheiros do Centro. Faltava, pois, a assistência necessária para nos introduzir no campo inimigo, para estabelecer essa luta de guerrilhas.

-Acredita que, se houvesse contado com esse apoio, seria possível impor ao inimigo essa tática?

– Não acredito nisso. Surgiu o levantamento militar: por onde o fascismo passava arrasava tudo. Não houve uma preparação adequada para surpreender o inimigo; não houve possibilidade, apesar de a Espanha ser geograficamente apta a esse tipo de luta, de envolver o combate aonde se acreditava conveniente e não aonde o inimigo queria impor. O inimigo não se deixou surpreender… Ainda não creio que a guerrilha tivesse alterado o resultado final.

-Houve na CNT posturas distintas, quase antagônicas, frente ao dilema de levar a frente duas tarefas essenciais: a guerra e a revolução. Enquanto uns opinavam que era preciso ganhar a guerra e depois fazer a revolução outros davam prioridade absoluta a revolução. Uma terceira posição partia da base de que guerra e revolução deviam ser simultâneas. Qual era sua atitude frente a esses três caminhos distintos?

-Transcorridos trintas anos, é normal não pensar hoje como se pensava naqueles momentos. Não por isso deixo de me sentir identificado com todo o gesto inicial do povo revolucionário em armas. Naqueles momentos iniciais e durante muitas semanas, o conceito guerra e revolução não se colocaram aos homens da CNT porque não existia. Vencer o inimigo pressupunha que a revolução triunfou. Um 1936, estive entregado a combater o fascismo com as milícias até março de 1937 e fiquei a margem das correntes minimalistas o maximalistas que se manifestavam dentro da Organização. Meu convencimento era que se podia fazer frente as necessidades do frente e ir ao mesmo tempo a revolução. Mas ainda, eu cria que quanto mais se afirmava na retaguarda o conceito revolucionário, com mais moral seriamos assistidos os homens que tínhamos marchado aos frentes. A quebra moral não vem dos combatentes, e sim dos organismos políticos e sindicais. Entre eles nosso CN da CNT e nossos quatro ministros. Com certeza que a ótica dos políticos era distinta da dos combatentes, que deram perfeita conta do desastroso efeito psicológico que essa fuga operaria sobre o povo de Madrid e sobre o frente. A tal ponto que no dia 8 me encontrava na defesa de Madrid com um reforço de 1.000 homens retirados do frente de Albarracín.

– Ao analisar o período de colaboração da CNT, geralmente se atribui a responsabilidade dessa decisão a determinados grupos de militantes ou a determinadas regionais. Acredita que isso é lógico, que é justo? Ou acredita que a responsabilidade devia ser assumida por toda CNT?

– Creio que não devemos evitar o estudo do estudo do passado. Ao povo se deve dizer a verdade. Apesar do que disse anteriormente, não me nego a definir a responsabilidade que possa me caber, por omissão ou intencionalmente, dentro da trajetória da CNT todos temos nossa boa parte de responsabilidade… Mas acho que a hora de pedir responsabilidades passou, ou que isso não se poderá fazer até que a Organização possa sair de novo a luz pública e se reunir em Congresso… Quero fazer constar, independente disso, que a políticas dos atos consumados e as decisões executivas começaram depois da guerra.

-Como julga a atuação do Partido Comunista espanhol durante a contenda? O PC, de partido minoritário que era, se converteu em uma força. Para afirmasse não encontrou melhor forma que enfrentasse com a CNT e desbaratar o POUM. Manteve nessa ocasião, uma atitude eficaz ou pecou, pelo contrário, de debilidade?

– Não só a CNT, também o Partido Socialistas, os republicanos, etc. deixaram os comunistas fazer a espera do material russo pago com ouro espanhol. Se o partido comunista liquidou o POUM, se executou homens de todos os setores antifascistas, se fez trabalho contra-revolucionário, foi porque sua única política era CRESCER, se fazer forte com o apoio russo, e a medida que o conseguia, impunha sua ditadura, todos acreditávamos que, cedo ou tarde, a grande explicação com PC viria. Mas aqui também fomos débeis em honra a salvar o que estava em jogo nas trincheiras. Nínguem ignora o papel que teve que desempenhar frente às manobras turvas do PC espanhol e sobre esta pergunta me remeto as centenas de obras que se editaram, algumas muito boas e precisas, escritas pelos figurões comunistas da época de nossa contenda.

-Quais são para você os conselhos mais valiosos para a juventude, especial de cara a uma ação revolucionária?

-Não sei se meus conselhos serão validos. O se forem se serão escutados. Mas darei meu ponto de vista… Com acertos ou erros e até com ambos, a juventude tem na revolução espanhola, na CNT e seus homens, sujeito amplíssimo de meditação. Se tudo não é bom como exemplo porque a situação não é a mesma, porque o planejamento já é outro, porque o nível cultural e de conforto é maior, fica sempre o problema da liberdade e do socialismo humano e libertário que está por resolver. Nós, os homens da revolução de 19 de julho, talvez não tenhamos outra ocasião de poder recomeçar, mas ai estão vocês, os jovens que tiveram a fortuna, digo bem fortuna, de herdar uma experiência que não pede outra coisa que ser continuada. Especialmente devo por em destaque o papel importante do sindicalismo revolucionário que encarnou a CNT. Sem uma organização sindicalista revolucionária, forte e com vocação anarquista, não será possível a emancipação dos trabalhadores; caíram sempre no jogo dos demagogos e no reformismo político. No momento atual, a tarefa principal da juventude inquieta esta nas oficinas, banquetas, na universidade e na rua. Esta com o Povo, que não somente um “bom aliado” como se vem dizendo, e sim o principal protagonista da ação social. Porque na ação social não valem meios termos.

 

 

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