Ser negro e judeu: etíopes suportam a parte pesada do racismo do estado israelense

Por Efrat Yerday,  originalmente publicado em Middle East eye, em  19 de Agosto de 2016

Aqui em Israel , o conflito judeu- palestino se tornou um tipo de  bandeira vermelha para todos.

A ideia de um inimigo externo injetou medo na consciência pública e constrangeu os cidadãos judeus do protesto real, porque tudo mais- economia, saúde ou outros assuntos cívicos que toda sociedade normal confronta- encolhem à insignificância em comparação à suposta ameaça à segurança

Apesar disso, o racismo contra judeus Mizrahim – ou judeus que vieram  do oriente médio e do norte da África como opostos aos judeus Azkhenazim da Europa- receberam mais atenção nos anos recentes.Alguns militantes  e intelectuais em Israel preferem ser reconhecidos como judeus árabes para desafiar a noção de que os árabes são o inimigo número um de Israel e para recuar uma identidade imposta pela narrativa nacional Ashkenazi que o judeu árabe está contra si mesmo, sua cultura e sua herança – até contra seu próprio Deus.

A discriminação enfrentada pelos judeus da Etiópia, o único grupo negro a chegar em Israel pelo fato de ser judeu, entretanto, continua  largamente ignorada. De alguma forma a realidade clara do racismo diário e institucionalizado contra os judeus Etíopes não é suficientemente discutida, ainda que alguns botões tenha começado a brotar como resultado dos protestos do ano passado e outros atos de protesto que receberam a cobertura da mídia internacional.

Ainda que nossa experiência obrigue o público establishment em Israel a segurar agarrar mais seriamente o assunto  do racismo na sociedade israelense em seu conjunto.

Uma sociedade imigrante
A sociedade judaica israelense é uma sociedade de imigrantes de praticamente todos os lugares do mundo. O encontro desses grupos em Israel deu surgimento a vários conflitos, , um grande subconjunto deles é movido pela discriminação de um grupo e controle por outro.

 

Como em vários outros lugares os europeus tiveram vantagem, e em sua segunda ou terceira geração ainda tem essas vantagens. Israel foi governada no princípio por um grupo relativamente pequeno de imigrantes do leste europeu, que fundaram um estado em concordância com sua própria visão de mundo(não tendo lido, digamos, Edward Said) e que vieram da Europa em um período em que racismo, antissemitismo  e colonialismo eram aceitos como senso comum por lá.

 

A língua do novo estado, a cultura e a ideia do que é considerado “israelense de verdade” foram todos modelados nessa imagem da Europa oriental. A cada mês em Israel tem um novo item de mídia sobre um pronunciamento racista feito pelos líderes e fundadores do estado.

 

Durante os anos 1950 , houve uma onda massiva de imigrantes para Israel dos países árabes. Eles chegaram em um país em que os judeus europeus orientais já tinham tomado as posições de poder e cultivado suas conexões, enquanto os últimos a  chegar, aqueles vindos do norte da África, do oriente médio e Iêmen, foram empurrados para as margens da sociedade de todas as formas, rapidamente se tornando os lenhadores e os carregadores de água da jovem nação.
O regime no poder assentou imigrantes em comunidades remotas e periféricas dificultando as oportunidades das pessoas em relação a emprego, moradia e educação e começando décadas de negligência.

Esses processos ainda estão evidentes agora: um estudo de 2014 feito pelo http://adva.org/en/Adva Center sugere que a diferença de salário entre judeus ashkenazi e  Mizrahi em Israel precisa de mais 100 anos para ser eliminada.

Legitimidade e reconhecimento

 

Apenas em 1973- quando o Rabino Chefe sefardita Ovadia Yosef fez um decreto que reconhecia os judeus etíopes como judeus, tornando a comunidade qualificada para emigrar para Israel- que os demais judeus prestaram atenção ao nosso grupo. Até este decreto, judeus etíopes eram ameaçados de deportação na chegada a Israel.

 

Mas as relações entre judeus etíopes e judeus europeus foram estabelecidas bem antes. Em 1882, o Rabino Azriel Hildsheimer, chefe da comunidade ortodoxa na Alemanha, fez um chamado para salvar os judeus etíopes da miséria e da perseguição. Em 1912, o Rabino Kook, rabino chefe de Jaffa na palestina otomana se correspondia com outros rabinos para promover a causa dos judeus etíopes. Mas nada disso fez com que o estado de Israel aceitasse os judeus etíopes na sociedade judaica.

 

Demorou 36 depois do estabelecimento do estado e 11 depois do decreto do Rabino Yosef para que cerca de 8000 judeus etíopes que estavam no Sudão durante a fome de 1984 fossem levados de avião- mas não antes da morte de milhares nos campos de refugiados. Por causa da emergência, alguns decidiram agir e fazer Aliyah(“subir” para Israel) sem esperar que o estado de  Israel os ajudasse.

 

Desde a nossa chegada, o racismo israelense se expressou não apenas pelo perfilamento racial da polícia e pela colocação dos judeus etíopes em guetos definidos pelo governo, mas também em relação ao judaísmo dos imigrantes etíopes.

“Não é judeu o bastante”

 

Nos anos 1980, a primeira onda de filhos de judeus etíopes foram matriculados para reeducação em instituições judaicas ortodoxas israelenses já que o clero etíope não era reconhecido pelas autoridades rabínicas que diziam que eles não eram “judeus o bastante”.

 

O racismo não terminou por aí. Muitas dessas crianças enviadas para colégios internos ortodoxos , foram separadas dos pais, revelando duas presunções chave:um, a de que os pais eram primitivos demais para saber  o que uma educação “israelense” tem de compromisso, dois, nos colégios internos as crianças ficaram sob controle educacional do establishment ortodoxo .

 

A maioria do público israelense não é ortodoxa e muitos se definem como “tradicionais” em vez de “religiosos”, mas o establishment ortodoxo, na ausência de qualquer separação legal entre religião e estado, tem um poder tremendo.

 

A decisão das autoridades religiosas de enviar crianças judias etíopes para essas escolas significou que as famílias não puderam escolher entre educação secular ou religiosa e tiveram sua prática particular de judaísmo negada. Esse tipo de política destrói a estrutura da comunidade etíope e sua liderança espiritual.

 

A recusa do Estado em reconhecer o judaísmo dos israelenses etíopes como completamente legítima não pode ser imediatamente desligada do fato de sua cor de pele. O establishment religioso em Israel foi inábil para assimilar a ideia de judeus negros e esse pode ser o centro real da crise entre israelenses judeus etíopes  e o estado de Israel

 

Ações racistas quanto aos judeus etíopes tornam a negação do racismo do estado impossível: se até agora Israel pode dizer – ou ao menos se comportar- como se os árabes fossem o inimigo e as atitudes quanto aos judeus árabes não são realmente racistas  e os solicitantes africanos de asilo são rejeitados apenas por serem  intrusos, o que pode ser dito sobre judeus que também tem a pele negra? Que eles não são exatamente judeus, que isso não é racismo, que somos todos irmãos e que são apenas abismos culturais? Em outras palavras, um monte de explicações não convincentes.
Sejamos lúcidos e entendamos como o establishment desvia a atenção dos israelenses de assuntos com consequências reais na vida diária da população. Com a abordagem de que os palestinos são o único inimigo real o governo israelense mantém seus cidadãos em um estado corrosivo, de ansiedade existencial que os previne de sonhar com a vida melhor que poderiam estar vivendo- em paz com todos os judeus de Israel e entre os judeus e seus vizinhos, juntos ou separados.

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....