Seu sangue é ouro

Os índios Kogis foram os únicos pré-colombianos que sobreviveram à invasão espanhola, mantendo intactas suas tradições que dizem respeito ao dever sagrado que acreditam possuir de sustentar ecologicamente e espiritualmente o equilíbrio da Terra. Eles se intitulam os “irmãos mais velhos”, guardiões do planeta, e evitam contato com os “irmãos mais moços” – invasores do outro lado do oceano – que destroem a natureza e não entendem o valor de seus ensinamentos milenares. Eu, que não sou muito versada nos saberes ancestrais e que nunca aprendi admirar meu próprio corpo, me vi completamente encantada pelo mito de criação deste povo. Os Kogis acreditam que o mundo foi criado por uma entidade feminina chamada a “Grande mãe” enquanto ela menstruava. Para eles, nosso “sangue é de ouro; ele permanece na terra; é fertilidade”1. Outras culturas ancestrais também acreditam no poder do sangue menstrual e levam esta crença a outro nível: há um ritual indígena norte-americano em que a mulher cava um buraco no chão e de cócoras deixa sua menstruação retornar à terra, completando o ciclo da vida e de cura do planeta. Estes mitos e ritos envolvendo o sangue menstrual me levaram a outras pesquisas sobre práticas femininas ancestrais de cuidado e observação do próprio corpo e do corpo uma das outras. Descobri um mundo de tradições escondidas, de sociedades que homenageavam a Terra como a “Grande Mãe” que nos alimenta e a partir da qual todos nós surgimos e que veneravam a capacidade feminina de criar seres humanos com seus úteros e alimentá-los com seus seios.

Sem querer mistificar o passado: essas sociedades ancestrais eram reais e justamente por isso tinham suas próprias contradições, assim como as nossas. Não vou propor que abandonemos os nossos coletores menstruais e comecemos a viver como os pré-colombianos Kogis. O que eu quero quando resgato essas histórias e práticas é que reflitamos sobre o momento em que começamos a demonizar o nosso ciclo ao invés de trata-lo como um processo vital dos nossos corpos. Quando deixamos de ser as curandeiras, parteiras, doulas e herboristas que detinham o “poder da cura” para ficar a mercê dos hormônios artificiais e da medicina institucionalizada que até século passado tratava o orgasmo feminino como mito. Quando passamos a acreditar, consciente ou inconscientemente, que nossos corpos são uma versão incompleta dos corpos masculinos, uma costela.

Germaine Greer disse que “As mulheres não fazem idéia do quanto os homens nos odeiam”2. Esta é uma trágica verdade. Outra coisa da qual nós não fazemos idéia é que para além da misoginia masculina, existe um ódio profundo que direcionamos umas às outras e à nossa própria biologia. Nós odiamos tudo que seja feminino – e eu não estou falando daquilo imposto como feminino, pois isso nos é, inclusive, exigido gostar – estou falando de tudo o que faz parte do corpo de uma fêmea adulta e que é motivo de vergonha. Me deram lixeirinhas especiais para que eu descartasse meus absorventes, para que os outros moradores da casa não precisassem entrar em contato com a desagradável ocasião de uma mulher menstruando. Me deram absorventes íntimos diários que abafavam a minha genitália e que aumentavam a proliferação de fungos e bactérias ruins para a minha flora, porque a umidade e os fluidos normais da minha vagina são sinônimo de sujeira. Me ensinaram na infância que meus pelos são ofensivos e depois me ensinaram a depilar lugares do meu corpo que até a idade adulta eu não tinha coragem sequer de olhar sozinha, num quarto trancado. Me disseram que o meu prazer era feio mas me ensinaram a transar – de quatro, apanhando, em posições desconfortáveis – e quando eu disse que não gostava, me mostraram uma atriz num filme pornô: “É assim que se faz”. Mais tarde me castraram com hormônios artificiais que diminuem a minha libido e aumentam a minha chance de desenvolver tromboses e AVCs, ninguém nunca me alertou dos riscos. Me falaram que se eu engravidasse, minha vida estaria acabada, que nenhum homem se relaciona com “mãe solteira” e do corpo “caído” ainda por cima; Mas que se eu fosse casada e decidisse ter o bebê, teria que fazer uma cesariana para “não estragar o playground do marido”. Me disseram que mulher lactando é nojento, que leite de peito é grotesco e “que pena do homem que tem que lidar com os peitos pingando da esposa que amamenta!”, por isso o jeito é gastar setenta reais numa lata de NAN. Me disseram que meu marido me trairia e eu perdoaria as traições como a minha mãe perdoou, como minha avó perdoou, como é costume de todas as outras antes de mim. Me disseram que meu marido me bateria e que desde que fosse “coisa pouca” eu relevaria também. Ele provavelmente estava bêbado e sabe como é: “a dor passa, mas o matrimônio é para sempre”.

“Ninguém nasce mulher”3, nós levamos incontáveis porradas até cabermos nesse lugar de “produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. Essas porradas significam desistir de atividades instigantes para o corpo e mente para aprender as ocupações idiotizantes da “feminilidade”: se adornar, se maquiar, fazer trabalho doméstico, entender de moda, etc.  Significam escutar todas essas coisas que fazem com que você acredite numa hierarquia onde nós estamos naturalmente embaixo. Significa encontrarem “justificativas” para que você seja estuprada, espancada ou mutilada e entenda, finalmente, que seu corpo é frágil, nojento e inferior, então que é melhor ficar “quietinha”.  Nessa passagem da infância para a idade adulta, nós aprendemos pelas violências físicas e psicológicas que sofremos que nossos corpos e mentes não são nossos, e sim propriedades alheias que nós devemos cultivar, exibir e barganhar a fim de evitar maiores traumas.

O ódio imposto às mulheres sobre seus próprios corpos tem sido historicamente uma forma de nos limitar. Tratar a nossa biologia como algo nojento e perverso é uma estratégia para que nós continuemos como cadelas, voluntariamente presas às correntes da casinha. Se as próprias mulheres acreditam que a sua natureza é suja, por qual motivo nós nos libertaríamos? Talvez realmente merecêssemos estar presas, livrando o mundo da sujeira que são os nossos ciclos, nossos partos… Talvez nós sejamos mesmo seres humanos imundos por natureza. Nenhum homem precisa passar pelo mesmo questionamento. Os pelos, o suor, o sêmen, nenhum homem nunca precisou fingir não ter pelos, não suar, esconder seus fluidos como se eles não acontecessem naturalmente. O corpo e os processos biológicos do homem são considerados humanos, normais. O corpo e os processos biológicos das mulheres são considerados uma desgraça e nós tentamos escondê-los a todo custo. A sociedade nos quer bonecas sexuais que não menstruam, não tem pelos, não tem vontades e que estão sempre prontas para satisfazer os desejos sádicos de homens que não enxergam em nós mais do que uma casca vazia, um corpo sem nada dentro. Ela quer e consegue que nós tentemos tanto nos enquadrar nessas expectativas irreais, ao ponto de que, a cada derrota, a cada frustração por não conseguir apagar a nossa própria natureza, nós nos odiemos profundamente e progressivamente mais.
Nós não podemos escapar da nossa biologia e ainda que pudéssemos, não deveríamos querer. Não existe “nós” sem nossos corpos. O “eu” está mais do que na sua mente, ele está nos seus membros, na sua menstruação, seus ciclos e em todos os seus sentidos. Amar e colocar suas vontades e processos biológicos de fêmea acima de todas as coisas é amar e colocar a si mesma acima de todas as coisas. Imaginar o meu corpo feminino e todos os seus detalhes como algo divino e precioso mudou dramaticamente meu relacionamento de mulher com o mundo. Através da auto-admiração e do auto-cuidado, vou me curando das imagens negativas que me foram inculcadas pela minha socialização sobre o que é ser mulher. Eu gostaria que alguém tivesse me dito estas palavras quando eu era uma adolescente que via o próprio corpo como meu maior adversário. Mas eu gostaria mais ainda que eu e outras meninas nunca tivéssemos sido massacradas física e psicologicamente ao ponto de sentirmos nojo de estar dentro da própria pele. Eu gostaria de não precisar dizer o óbvio, mas eu preciso: Você é seu corpo, e seu corpo – magro ou gordo, peludo, menstruado – é a coisa mais bonita e humana que existe.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.